Um meio elitista ou uma ferramenta a ser democratizada?

ABRIL 1995

Artigo veiculado na seção “Espaço aberto” da publicação Correio IMESC nº 9, de abril de 1995, como colaborador do projeto InfoDrogas do IMESC – Instituto de Medicina e de Criminologia de São Paulo.

Quando se fala em computadores na escola sempre surgem as inevitáveis menções à merenda escolar, às janelas quebradas e aos baixos salários dos professores, lembrando que “isso é para o ensino privado, que são ricos”. Sem pretender entrar nessa discussão, pelo menos neste texto, não podemos deixar de levantar que apenas com muita e da melhor tecnologia poderemos evitar uma clivagem social ainda maior entre a escola pública e a privada (ou entre o Brasil e as nações desenvolvidas). Como disse Seymour Pappert a um interlocutor: “não morda meu dedo, olhe para onde estou apontando”.

Se sindicatos, associações, clubes, organismos públicos e ONGs não “entrarem nessa”, estarão prescindindo de seu papel, numa sociedade onde a informação e o poder vão transitar, cada vez mais, nessas super “infovias”.

Ademais, devemos considerar o papel que um único computador pode ter numa comunidade ou numa escola: basta uma única pessoa acessar e depois imprimir o material, afixá-lo em murais ou reproduzi-lo, para que o efeito multiplicador seja muitas vezes superior aos meios tradicionais de circulação da informação, e mesmo mais barato.

Para que o acesso a esta nova tecnologia seja significativo do ponto de vista da educação ou formação cultural, não basta que os alunos simplesmente acessem as informações: eles precisam ter a habilidade e o desejo de utilizá-las, precisam saber relacioná-las, sintetizá-las, analisá-las e avaliá-las. Juntos, estes elementos constituem o que se pode chamar de pensamento crítico. Este aparece em cada sala de aula quando os alunos se esforçam para ir além de respostas simples, quando desafiam idéias e conclusões, quando procuram unir eventos não relacionados dentro de um entendimento coerente do mundo.

Sua aplicação mais importante está fora da sala de aula – e é para aí que a escola deve voltar seu esforço. A habilidade de pensar criticamente pouco valor tem se não for exercitada no dia-a-dia das situações da vida real. É nisso que um serviço como o Disque-Drogas Eletrônico pode fornecer interessantes subsídios para uma atividade na escola.

Claro que tudo isto não ocorre espontaneamente, e aí entra o papel do professor, encorajando os alunos a fazerem conexões com eventos externos ao mundo da sala de aula, descobrindo a ligação entre situações vividas e os conteúdos curriculares. Existem muitas táticas simples que o professor pode utilizar e que podem ser enormemente motivadoras, estimulando processos de transferência:

• Encorajar os alunos a dramatizarem papéis que tenham diferentes perspectivas, para ver a situação por outros pontos de vista.
• Elaborar vocabulários (incluindo palavras como objetivos, analogias, prioridades, conseqüências etc.) que os alunos possam usar em outras ocasiões.
• Solicitar historietas pessoais que possam servir como analogias úteis e ajudem os alunos a tomar decisões.

Esse uso do computador exige, mais que nunca, um professor preparado, dinâmico e investigativo, pois as perguntas e situações que surgem na classe fogem do controle pré-estabelecido do currículo. Essa é a parte mais difícil desta tecnologia. E esse é o papel insubstituível do professor: elaborar as estratégias que dêem significado a essa enorme e fantástica porta que se abre para o universo do conhecimento da humanidade. Sem isso, a telemática pode apenas dar asas provisórias, que se derretem ante o sol da vida do dia-a-dia, como as que levaram Ícaro de volta ao solo.

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