Relações virtuais

SETEMBRO 1995

Prefácio escrito para o livro “Relações Virtuais – o lado humano da comunicação eletrônica” de Léa Waidergorn Storch e João Ricardo Cozac, sobre as relações virtuais online, Editora Vozes, 1995.

Num momento em que a Internet vira pauta quase que diária da mídia e palavras como telemática e BBS, antes restritas a pequenos círculos de “iniciados”, ganham espaço na realidade quotidiana, este livro de Léa Storch traz um testemunho vivo do que são essas novas formas de comunicação. Tão novas que as próprias palavras também são novas – com telemática sendo o cruzamento das palavras telecomunicações e informática (esta também um neologismo), enquanto que BBS (de Bulletin Board System) tem defensores de seu gênero no masculino e outros, entre os quais me incluo, no feminino.

Numa linguagem direta, como se a autora estivesse diante do seu micro enviando uma mensagem diretamente para o leitor, Léa monta com caóticas peças (como caótica é a net) um mosaico que nos transporta para as situações transcritas e comentadas. Uma amostragem que evidencia, ao contrário do temor de muitos, que a telemática não veio para “robotizar” a mente das pessoas, fazendo com que passem a não mais sair de casa e só conversem sobre bits e bytes. Ao contrário, a paisagem pela qual ela nos leva é o seu oposto: a tecnologia servindo para aproximar pessoas que nem se conheciam, seja para o amor, seja para as eternas rixas.

O que caracteriza este livro é sua mistura de reflexão e relato, reportagem e transcrição, onde Léa é, ao mesmo tempo, autora e personagem. Certamente, depois de lê-lo o leitor terá não apenas uma idéia bastante clara das novas possibilidades de comunicação, mas terá conhecido e refletido um pouco mais sobre o ser humano.

Quando conheci a Léa, ela ainda não fora apresentada a este mundo tão virtual e tão real. Ajudei na instalação do primeiro software de comunicação e na configuração do modem (ainda hoje, a parte menos amigável desta tecnologia, cheio de Com2 e IRQ3 – credo!), e acompanhei suas primeiras mensagens, discussões e risadas eletrônicas. Como poucas pessoas, ela “pegou” em pouco tempo o espírito da coisa e, em breve, estava naquele estado doentio em que os mais paranóicos imaginam os usuários destas máquinas diabólicas. Sim, pois há pessoas que fazem disto uma doença e são mais sociáveis ao teclado que na vida real. Na verdade, tratava-se daquele estado febril semelhante ao de um pintor, que passa horas e horas olhando a paisagem que vai pintar, pois Léa usou criativamente seu mergulho tão profundo para nos trazer à tona este livro.

Além da escolha geralmente bastante significativa de trechos de mensagens e conversas online, Léa comenta estas passagens com pitadas de sabor e tempero de saber, fazendo-nos sentir os personagens envolvidos como se estivessem diante de nós. Ou colocar-nos dentro deles, pois esta é uma das principais características desta nova mídia.

Como nenhum outro meio de comunicação anterior (os tambores nos deixam distantes, as cartas demoram para chegar, ao telefone muitas vezes o som da voz nos seduz ou nos irrita mais que as palavras proferidas, a televisão é dos donos dos canais, a rádio concessão para igrejas e deputados fisiológicos), a telemática – primeiro com as BBS e agora com a explosão da Internet – nos coloca interativamente em contato, superando barreiras de idade, sexo, cultura, preconceitos e, principalmente, distância geográfica. Aqui, cada um pode não apenas ler o que quiser quando tiver vontade, mas pode escrever, participar, ter os tais 15 minutos de fama que foram prometidos e ninguém dava…

As pessoas, como o leitor vai perceber, perdem um pouco certos referenciais, que muitas vezes impedem que as pessoas se conheçam. Aqui, os preconceitos afloram mais que na vida real, escancarados em textos escritos na hora, sem censura, mas aqui também os preconceitos viram tigres de papel, bytes que se esvaem, pois colocam as pessoas, irremediavelmente, em íntimo contato umas com as outras. O contato delas aqui se dá através de seus cérebros, de suas almas, desprovividas de barreiras físicas. O racista pode perceber que está falando com o objeto de seu preconceito tarde demais: quando já houver feito amizade com ele. O jovem e o velho conversarão bastante até descobrirem a idade mútua. E duas pessoas carentes de calor humano e de amor, entes sensíveis que saibam traduzir em palavras suas emoções, poderão se apaixonar antes de se conhecer…

Tudo depende de saber escrever. Na vida “real”, as pessoas bonitas, bem vestidas e que saibam falar levam toda a vantagem nos primeiros contatos, ao passo que os tímidos, feios ou mal-vestidos precisam de muito valor para superar tais barreiras. Neste mundo “virtual”, a palavra é o pó de pirlimpimpim que transforma a gata borralheira em princesa – e sua meia-noite é quando o tempo da assinatura na BBS expira ou a linha telefônica cai, e então aquele computador na sua frente vira uma abóbora. Aquele que não sabe pontuar, não tem poder de síntese das idéias, não conhece um vocabulário rico, ah… esse “dança” na mão desta comunidade – que pode ser tão cruel com ele como o outro mundo para com os quasímodos de aspecto repelente.

Esta nova valorização da palavra escrita é um fenômeno interessantíssimo. O que a humanidade criou – e nos deu de Shakespeare a Fernando Pessoa – parecia que a informática iria acabar, a palavra escrita seria substituída por cliques no mouse, a literatura trocada por ícones. O que se vê não é isso, mas sim uma nova importância do escrever, essa atividade que na escola foi reduzida ao ritual sadomasoquista das provas, na sociedade aos formulários da burocracia. Agora, e com a Internet isso obriga a fazê-lo em mais de um idioma, quem não sabe escrever está isolado – como alguém que olha a estrada diante de si e não sabe usar os pés para caminhar.

Embora não sejam aspectos nos quais Léa Storch se aprofunde, nem é esse seu objetivo nesta obra, os impactos sociais desta conquista da ciência e da tecnologia são capazes de levar a uma transformação maior que a da máquina a vapor. Uma sociedade baseada cada vez mais na troca de valores simbólicos, do dinheiro à informação, vai mudar o eixo da economia, acabar com o conceito atual de trabalho, valorizar mais que tudo o conhecimento e a aprendizagem.

Na educação, a telemática traz um potencial inovador ímpar, pois permite superar as paredes da sala de aula, com a troca de idéi­as com alunos de outras cidades e países, intercâmbio entre os educa­dores, a nível nacional e internacional, pesquisa online em ban­cos de da­dos, assinatura de revistas eletrônicas e o compartilhamento de ex­periências em comum. Este novo ambiente de aprendizagem, que não reside mais apenas na escola, mas também nos lares e nas empresas, traz novos desafios para os educadores, mais que nunca chamados a serem facilitadores e motivadores.

Como introduzir as novas tecnologias na escola, particularmente no ensino público, onde tantas outras prioridades se colocam? Estaremos aprofundando cada vez mais a clivagem social se não houver uma efetiva política que garanta o pleno acesso de to­dos às novas tecnologias. Num mundo em transformação, onde cada vez mais o computador é o veículo de transporte da mente e um instrumento essencial de traba­lho, não podemos prepa­rar as novas gerações para um mundo de su­balternidade, tanto do ponto de vista individual quanto na perspecti­va da nação.

No mundo do trabalho as coisas vão mudar bastante, também. Para quê ir até o escritório bater à máquina, se isso pode ser feito à distância, via modem? Poupando, assim, horas de deslocamento (deslocar a informação, não mais o corpo), a presença familiar mudará substancialmente. Nota-se, nas famílias que usam a telemática no tele-trabalho em casa, um resgate do ensino do ofício aos filhos. Mudanças, portanto, também no seio da família e do que entendemos por lar.

E o desemprego? Hoje, ao fazermos uma transação bancária no micro de nossa casa, estamos repassando para o usuário o trabalho que antes era feito por um funcionário. Em breve, estaremos comprando carros através de um conexão gráfica com a fábrica que, just in time, fabricará o carro que acabamos de desenhar no terminal. Novos desafios, portanto, para a sociedade. Novas formas de se repensar a distribuição de renda e assegurar o direito de todos os seres humanos à busca da felicidade – do contrário, teremos um apartheid tecnológico como nunca visto.

Você é daqueles que nem se lembra em quem votou para deputado nas últimas eleições? Que tal votar agora em um para quem você possa escrever via e-mail e que o coloque a par dos projetos, que seja, enfim, seu representante no parlamento? E o que será do Poder Executivo se cada cidadão puder ter acesso, garantido em Constituição, aos bancos de dados e fizer cruzamentos das informações obtidas? Imagine a nova participação da cidadania se cada pessoa com insônia às duas da manhã for ver como estão sendo aplicados os recursos em sua cidade… O voto será eletrônico, sem boca-de-urna, cada um em sua casa? Novas formas de manipulação da informação irão surgir, é claro, mas o pesadelo que Orwell imaginou em seu “1984” será ao contrário, pois o Big Brother estará sendo vigiado por milhões de olhos…

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