Internet e educação

OUTUBRO 1996

Comunicação escrita para a publicação “Novos Rumos do Ensino Superior” nº 4, setembro de 1997, da PUC-SP, do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre ensino e questões metodológicas em Serviço Social, número 4. Organização de Maria Lúcia Rodrigues e Maria Laura Barbosa Franco.

Num mundo em permanente transformação, o impacto das modernas tecnologias de comunicação, juntamente com a revolução científico-tecnológica, produziu o que se chama hoje de Sociedade da Informação – gerando novos impactos nos modos de produção, mexendo na cultura e nos costumes, alterando aspectos es­senciais no exercício do próprio poder.

Um dos fenômenos emergentes é a chamada telemática – neologismo resultante do cruzamento da informática com as telecomunicações. Hoje qualquer ponto do planeta está literalmente ligado à rede mundial de informações, através da Inter­net, numa operação que requer pouca prática anterior, em poucos segundos e com baixís­simo custo.

O impacto dessa nova estrada, por onde não mais circulam átomos mas sim bits, ainda não começamos a senti-lo, mas vai afetar todas as áreas da civilização: da guerra e do crime até a cultura e o comércio. A educação não pode ser, como o foi nos demais avanços tecnológicos havidos até hoje, a “última a saber”. Parece que isso, desta feita, não ocorrerá – mesmo porque a Internet nasceu neste berço e seu uso na educação já possui inúmeras experiências bem (e mal) sucedidas.

Com as rápidas transformações nos meios e nos modos de produção, re­sultado da revolução tecnológica e científica, estamos entrando em uma nova era da humanidade. A natureza do trabalho e a relação econômica entre as pes­soas e as nações sofrerá enormes transforma­ções, mudando a natureza do que hoje podemos entender por profis­são. Neste quadro a educação não apenas tem que se adptar às novas necessidades como, principalmente, tem que assuir um papel de ponta nesse processo.

Com o advento da micro-eletrônica e da informática, a estocagem de infor­mações (não as chamarei de conhecimento, pois este é construído no interior de cada pessoa – não sendo “passado” mecanica­mente) em memórias quase infinitas, o processamento de dados em frações de minuto e a impossibili­dade, no decurso de uma vida, de acesso à cultu­ra universal são reveladores da impropriedade dos mé­todos educacionais vigentes. O papel dos educadores deve ser repensado e novas estratégias na formação desses profissionais de­vem ser pre­vistas, criando na escola o ambiente para a formação de sujeitos críti­cos, dota­dos de autonomia de aprendizagem.

Algumas possibilidades de uso

As potencialidades de um instrumento interativo e com o alcance que a telemática, principalmente com a Internet, são inúmeros, abrangendo do aspecto político ao educacional, do institucional ao da prestação de serviços, utilidade individual, coletiva e comunitária. Tanto é um veí­culo administrativo para ser usado para integrar os vários setores de uma em­presa ou instituição, como pode ser uma inovadora ferramenta pedagógica que faz supe­rar as paredes da sala de aula. Além de ser uma ponte de participação da cidada­nia no acesso às informações.

Um dos usos mais ricos e inovadores da informática na educação é sua utilização como instrumento de comunicação, colocando em contacto alunos e professores de diferentes cidades e países, de diferentes culturas e línguas, trocando mensa­gens, desenvolvendo projetos comuns ou acessando bancos de dados.

A telemática traz um inovador potencial para os educadores. Afinal, a principal tecnologia educacional de qualquer sistema educacional reside na formação de seus professores. A troca de idéias com outros educadores, a nível nacional e in­ternacional, a pesquisa em bancos de dados, a assinatura de revistas eletrônicas e o compartilhamento de experiências em co­mum dão um novo significado à ativi­dade docente. Existem diversos grupos de interesse que discutem a educação e projetos concretos e que reúnem, através de todo o planeta, educadores de diver­sas áreas e países.

A troca de experiências tem se revelado um poderoso alavancador do interesse participativo, gerando um ambiente fomentador da contínua auto-formação dos professores – que se tornam agentes multiplicadores junto aos demais. Também se torna possível, por exemplo, a participação em experiências pedagógicas que visem resultar na elaboração de teses acadêmicas para mestrados etc.

Como instrumento de comunicação, seja para difusão de comunicados de cunho administrativo, avisos de realização de eventos, cursos e outras programações, a Internet também facilita e potencializa a edição e distribuição do que hoje se está chamando de informação digi­tal. Boletins, jornais e revistas eletrônicos possuem uma série de características que, embora sem jamais esgotar com as mídias tradicionais, tornam obrigatório seu uso nos dias de hoje:

• Rápida atualização, um texto corrigido ou atualizado alguns segundos depois está substituindo a versão anterior.
• Ausência de “encalhes”, cada usuário que lê aumenta a circulação, que não precisa ser previamente estimada, correndo o risco de encalhes obsoletos.
• Baixo custo de reprodução, pois após a confecção dos “originais” não existem cus­tos gráficos da tiragem.
• Integração com meios de difusão tradicionais: jornais e boletins eletrônicos podem ser acessados por uma pessoa com micro numa localidade (universidade, empresa, clube, sindicato) e depois impressos local­mente, para afixação em murais ou reprodução para distribuição individual.
• Facilidade de clipping, permitindo exportar as matérias escritas, sem a necessidade de redigitar textos – facilitando assim seu aproveitamento em sinopses e outras pu­blicações.
• Facilidade de importação de textos de outras fontes eletrônicas, sem a necessidade de redigitá-los e permitindo receber contribuições diretamente via modem.

Em todos esses aspectos, a comunicação é assíncrona – ou seja, não é neces­sário que os participantes estejam conectados simultâneamente, podendo cada um acessar no horário que mais lhe convier e ler as mensagens deixadas pelo outro, no meio da madrugada para os noctívagos ou atravessando fusos horários, para os antípodas…

Um meio elitista ou uma ferramenta a ser democratizada?

Quando se fala em computadores na educação sempre surgem as inevitáveis menções às inúmeras deficiências da escola, da universidade, aos baixos salários dos professores. Sem entrar nessa discussão com a profundidade que exige, pelo menos neste texto, não podemos deixar de afirmar que apenas com o domínio da tecnologia poderemos evitar uma clivagem social ainda maior entre as elites e a cidadania excluída, marginalizada (ou em processo de) – ou entre o Brasil e as nações mais desenvolvidas. Se sindicatos, associações, clubes, organismos públicos e ONGs não “entrarem nessa”, estarão prescindindo de seu papel, numa sociedade onde a informação e o poder vão transitar, cada vez mais, nessas super “infovias”. No ensino superior então, é inimaginável pensá-lo à margem desta etapa do avanço tecnológico – onde não são mais as máquinas a vapor aumentando a produção fabril a caracterizar a mudança, mas sim máquinas de transporte das idéias, de acesso à informação, extensões de nosso cérebro…

Para que o acesso a esta nova tecnologia seja significativo do ponto de vista da educação ou formação cultural, não basta que os alunos simplesmente acessem as informações: eles precisam ter a habilidade e o desejo de utilizá-las, precisam saber relacioná-las, sintetizá-las, analisá-las e avaliá-las. Juntos, estes elementos constituem o que se pode chamar de pensamento crítico. Este aparece em cada sala de aula quando os alunos se esforçam para ir além de respostas simples, quando desafiam idéias e conclusões, quando procuram unir eventos não relacionados dentro de um entendimento coerente do mundo. Sua aplicacão mais importante está fora da sala de aula – e é para aí que o ensino deve voltar seu esforço. A habilidade de pensar criticamente pouco valor tem se não for exercitada no dia-a-dia das situações da vida real.

Claro que tudo isto não ocorre espontaneamente, e aí entra o papel do professor, encorajando os alunos a fazerem conexões com eventos externos ao mundo da sala de aula, descobrindo a ligacão entre situações vividas e os conteúdos curriculares. Existem muitas táticas simples que o professor pode utilizar e que podem ser enormemente motivadoras, estimulando processos de transferência – e essa experiência o professor já tem, basta não se considerar um “ignorante em informática” e buscar aplicar na nova mídia sua base de conhecimentos, estando aberto à pesquisa e auto-aprendizado contínuos.

Esse uso do computador exige, mais que nunca, um professor preparado, dinâmico e investigativo, pois as perguntas e situações que surgem na classe fogem do controle pré-estabelecido do currículo. Essa é a parte mais difícil desta tecnologia. E esse é o papel insubstituível do professor: elaborar as estratégias que dêem significado a essa enorme e fantástica porta que se abre para o universo do conhecimento da humanidade. Sem isso, a Internet e o software educacional podem apenas ser modismos adestradores de um mercado consumidor, perdendo-se a oportunidade de promover uma efetiva mudança na área do ensino.

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