Cultura e inclusão digital

JUNHO 2002

Fala proferida na mesa de abertura do I Fórum Regional de Políticas Culturais, realizado no Centro Cultural Roberto Palmari, em Rio Claro – SP, em 2002. Na mesma mesa participaram João Baptista Pimentel, Danilo dos Santos Miranda e Hamílton Faria, entre outros. Transcrição da fala de Carlos Seabra, em gravação feita pela equipe do CREC, com a copidescagem de Alda Ribeiro.

Atualmente, estou envolvido profundamente na questão educacional e da tecnologia na educação. Eu percebo que a cultura é o que mais falta hoje em dia no processo educacional. Alguém já definiu que cultura é aquilo que sobra depois que você esquece tudo o que aprendeu, o que mostra como o lastro final é realmente a coisa da cultura.

As maiores dificuldades da escola são de natureza cultural, e hoje que se inaugura o infocentro do Acessa São Paulo aqui, essas questões devem ser analisadas. Para você navegar na internet, ter e-mail, publicar e ser autor envolve muito mais habilidades e competências culturais do que propriamente uma habilidade tecnológica. Essa é uma coisa secundária que se adquire tendo a primeira.

Vou ser muito breve e terminar dizendo que nesta questão da inclusão digital, de incorporação da tecnologia, muito mais importante do que surfar na internet é aprender a fazer onda que é uma coisa eminentemente de construção cultural.

Eu vou dar uma abordagem diferente sobre a questão dos corredores. Por toda minha vida militei na área cultural com cineclubismo há uns 15 anos mais ou menos, em um projeto no qual a gente levava cinema para 80 cidades.

Atualmente estou trabalhando na área educacional e na inclusão digital e não poderia deixar de dar uma visão da minha experiência da área de cultura. Eu vejo educação e inclusão digital com enfoque cultural e agora vou procurar mesclar as duas áreas.

Nós estamos vivendo uma época na qual está se criando uma nova geografia, trata-se da geografia virtual. Todo mundo já deve ter visto filme de ficção científica em que há uma dimensão paralela e as pessoas passam de uma para outra dimensão.

Essa dimensão virtual está sobre nós e em cima de todo o planeta. Ela tem uma nova economia, baseada em bytes, não mais em átomos. Isso traz uma série de desafios para nós, em termos de organização do estado, democracia, cultura, educação, enfim, toda uma série de desafios que o mundo novo nos traz.

Da mesma forma que um novo mundo foi a “descoberta” das Américas, como um continente que estava em crise exportou toda uma série de gente, mão-de-obra para esse Novo Mundo. Hoje em dia, não há mais lugar na Terra para se expandir a não ser em direção ao virtual. Seguindo na mesma comparação, assim como antigamente as caravelas eram o instrumento de descoberta do Novo Mundo, atualmente a tecnologia cumpre um papel similar ao desses barcos. O que ocorria com a caravela? Quando ela não afundava ao ir para o novo mundo e as pessoas não morriam de escorbuto a bordo, chegavam a uma terra onde eram picadas por mosquitos, contagiados por doenças desconhecidas ou morriam atacadas por índios. Se sobreviviam a tudo isso, criavam cidades sem leis, sem esgoto, que eram uma porcaria. Porém, daí nasceu o Novo Mundo.

Hoje, tecnologia é essa coisa, o computador que quebra, dá problema. Eu até fiz um haicai em “homenagem” ao Bill Gates, falando que cada vez que dá pau no micro, ele fica mais rico. Nós estamos atualmente nessa fase em que a gente naufraga. A tecnologia é uma coisa que não é transparente, principalmente para uma população excluída.

Isso faz com que nós, que trabalhamos com cultura e produção cultural, tenhamos o dobro do desafio que é criar o contorno desse continente para que ele não seja desenhado por outros que tenham o interesse meramente comercial como os tais bill gates e outros do tipo.

Um exemplo muito claro desse desafio é o da televisão que na área educacional é um pavor, é um desastre. Na época em que surgiu a televisão, os educadores tiveram uma postura omissa quando não reacionária. Eles pensavam o que hoje muita gente acha, que computador é uma coisa de elite e, no entanto, na favela cada vez tem mais computadores.

Com o atual estágio de avanços e interesses do capitalismo no nosso modo de produção, daqui a pouco vai ter um microcomputador em cada casebre, seja em uma favela ou num bairro rico. Nós temos que estar preparados para criar novos tipos de corredores virtuais, além dos corredores geográficos. Temos que saber atender a essa nova geografia, que também existe, para além do município, do estado, da federação, do planeta. Hoje nós temos o ciberespaço que precisa ser ocupado porque se não fizermos isso alguém ocupará esse espaço, já que não existe vácuo na natureza.

Além disso, trazendo aqui para um terreno mais imediato, existe a conexão do virtual com o real que é básica, ou seja, quando o sujeito domina a informação, os bits e bytes desse espaço, na verdade, ele está dominando as coisas nessa terra que a gente apalpa. Quero dizer que os preços das ações, do arroz e do feijão são determinados virtualmente, mas o seu reflexo tem impacto na realidade.

Poderia dar um exemplo bastante imbecilzinho que serve para o que eu quero dizer. É o seguinte: você pega o seu Zé cavando a terra e ele é um excluído social, um analfabeto, um sujeito que tem verminose. Ele não tem muita expectativa e qualidade de vida. Seu Zé está lá, cavoucando a terra e passa o seu patrão a cavalo; ele conversa com o patrão, dá tchau e o patrão vai embora. A tecnologia se desenvolve e o patrão agora passa numa estrada em uma BMW em alta velocidade, dá uma abaixadinha no vidro fumê, que fica normalmente fechado por causa do ar condicionado, dá um tchau para o seu Zé que continua cavoucando. Esse seu Zé é o mesmo ou é o filho, o neto ou o bisneto daquele, que continua analfabeto, com verminose e excluído socialmente.

A tecnologia se desenvolve mais ainda e o patrão passa agora de jatinho e o seu Zé aqui embaixo dá tchau para o jatinho e o patrão olha, lá de cima, vê um pontinho preto e não sabe se é uma vaca, um boi ou um seu Zé qualquer, porque há vários seus Zés, assim vacas e bois. O seu Zé aqui embaixo não sabe se naquele jatinho vai o seu patrão ou não. Ainda dá um tchau na esperança de alguma comunicação remota com aquele objeto tecnológico. Só que agora a tecnologia deu mais um passo e o patrão dele passa pela internet na forma de um e-mail,na forma de uma conversa em chat e é aí que seu Zé está totalmente frito, ele é um excluído total. Ou seja, com o impacto das novas tecnologias, ou a gente trabalha em um projeto de inclusão digital, que traga junto a inclusão social ou estaremos totalmente equivocados porque só a inclusão digital sem a inclusão social significa informar os usuários de banco 24 horas como usar os serviços ou fazer compras no supermercado, não é isso o que nos interessa, a sociedade capitalista se encarrega de desenvolver isso.

Nós temos que aproveitar essa inclusão para fazer com que a tecnologia seja um cavalo de Tróia, que penetre as muralhas antes indevassadas dessa cidadela do acúmulo do poder e da riqueza que deixa um montão de gente aqui fora. Para isso não basta entrar com o cavalo de Tróia, é necessário que no seu bojo haja guerreiros que tenham um projeto e saibam o que fazer para tomar o poder dentro dessa cidadela, porque na verdade é disso que se trata.

A questão da tecnologia acaba excluindo muita gente, não só os miseráveis, mas também as classe C, D e E. Também há excluídos entre os produtores culturais que ainda, em alguns casos, não se aperceberam que têm pequenas resistências à tecnologia. Com isso, há muita produção cultural que não vai para a internet. Eu assino duas TVs a cabo em casa, antes achava que uma era ruim e agora percebi que duas é o dobro de ruim. Você fica zapeando os canais e só tem porcaria. Aí eu vou para a TV aberta e encontro mais porcaria. A conclusão é que falta conteúdo e eu acredito que também falte produção de qualidade porque houve uma posição omissa ou reacionária de achar que a televisão não era um espaço a ser ocupado e o que aconteceu é que esse espaço foi ocupado pelo Sílvio Santos, Roberto Marinho etc. Temos aí honrosas exceções de boa produção cultural, mas são exceção.

Corremos o mesmo risco disso acontecer com a internet, que é um espaço libertário. Só que a homepage feita por um desconhecido vai ser visitada por 15 pessoas e outra que tenha o patrocínio de uma grande multinacional, seja uma grande operação comercial, é visitada por todo mundo. A maior parte dos usuários, inclusive, carrega automaticamente, homepages de portais não só para os quais pagam como ainda viram propagadores a aumentar uma enorme quantidade de hits.

É necessário, então, que a gente faça a inclusão digital de produtores culturais para que a gente comece a colocar a nossa literatura, a nossa arte, o nosso cinema, a nossa poesia, o nosso folclore e a nossa produção cultural como um todo na internet também. Precisamos ter um projeto nacional e popular de ocupação da internet também enquanto nação, se a gente não ocupar um pedaço neste espaço virtual, alguém irá ocupá-lo. Assim como é importante o Brasil ter um pedacinho lá na Antártida. Nós precisamos ter um espaço no cenário mundial e na internet principalmente, para que qualquer brasileiro, esteja ele no Piauí, em Xiririca da Serra ou morando fora do país tenha um conteúdo no nosso idioma.

Tenho um grande amigo, Fábio Lucas, ex-presidente da União Brasileira dos Escritores, que até agora não conseguimos convencer a ligar um computador que alguém lhe deu de presente. Ele usa o equipamento como um porta-papéis bem sofisticado. Esse meu amigo poderia estar ajudando a diminuir os 90% de mediocridade no conteúdo da internet e colaborando para aumentar os 10% restantes de qualidade.

Nessa formação de corredores virtuais a gente está criando uma rede e como toda rede tem que servir para colher alguma coisa. A rede do pescador tem que ser suficientemente vazada para não colher água e trazer peixe graúdo que não fuja por ela. A rede virtual também tem que ser feita para nós colhermos, para nos trazer o peixe do conhecimento.

Na nova geografia temos um fenômeno novo, o deslocamento da informação e não mais do corpo. Toda vez que a gente puder substituir o deslocamento do corpo pelo da informação, teremos um ganho de qualidade.

Não estou dizendo que a gente vá passar a ficar em casa cada vez mais sedentário com as nádegas e cérebro enormes, o que seria uma visão terrível de futuro. Na realidade, a gente percebe que quando a pessoa entra nessas salas de chat, em sua imensa maioria, vai logo para o contato humano, namorar, paquerar etc. O que rola daí? Casamentos reais de carne e osso porque o ser humano está procurando contato, nunca ninguém substituiu visitar a namorada por ficar telefonando para ela. A internet não vem também substituir nada que seja melhor fazer em carne e osso e isso inclui o prazer e uma série de outras coisas.

Ninguém deixa de visitar a Bahia porque viu um folheto de uma praia de lá, pelo contrário, isso lhe dá mais vontade de ir. Quando estou falando em não deslocar mais o corpo é naquele deslocamento inútil, por exemplo, eu me deslocar até a bilheteria de um teatro para saber se tem ingresso ou não. Para assistir à peça, entretanto, eu quero ver os atores a dez metros de mim. Está na moda agora a gente estar se preparando para o governo eletrônico, a gente paga imposto de renda pela internet e fica muito feliz com isso. Já que tem que pagar mesmo, que seja um processo mais rápido e fácil.

Nós temos que começar também a colocar a produção cultural na internet, não significa transformá-la só em virtual. Vamos continuar assistindo os tocadores de música do nosso folclore no Parque da Água Branca, mas para saber o que está ocorrendo a gente tem que colocar isso na internet, porque senão a gente vai estar perdendo o espaço que vai ser usado para propaganda da TV a cabo ou do banco tal.

Eu sempre procuro colocar isso na cabeça das pessoas pouco afeitas à tecnologia, meus amigos pintores, escritores, cineastas etc. que é importante que a gente passe a ser autor e protagonista para tomar conta da internet.

Se você faz literatura e resolver aprender a fazer html, uma homepage, para aprender com seu filho, você vai estar colocando a sua cara, aprendendo a produzir algo novo, inclusive descobrindo um modo novo de linguagem, porque a imensa maioria do que a gente vê na internet é muito ruim do ponto de vista da concepção visual e estética, assim como a qualidade de texto, dado o pouco engajamento dos produtores culturais na produção dessa mídia.

Sempre levanto que a questão não é tecnológica, aprender a mexer no computador é a coisa mais fácil do mundo, aliás, eu acho que as pessoas só poderiam começar a mexer com informática se já tiverem algum conteúdo, ciência, arte, educação, biologia, qualquer coisa que seja no cérebro. Ao ter contato com a informática isso estraga os neurônios, a gente vê esses jovenzinhos que sabem mexer com hardware, software mas não pegam num livro, que na verdade não sabem produzir nada porque tecnologia não é o artefato tecnológico. Se fosse, a Arábia Saudita seria o principal país do mundo em termos de tecnologia. Quando o reizinho ou vice-rei de lá precisa comprar um forno de microondas, ele adquire o último tipo, o mais moderno dvd, mas se quebrar alguma coisa nos seus brinquedinhos, ele não tem tecnologia para consertar nada. Ao contrário disso, Robson Crusoé, do romance de Daniel Deffoe, que a maioria aqui deve ter lido, é o sujeito que naufragou numa ilha deserta e só mais tarde foi ter aquele caso suspeito com o Sexta-Feira. O cara recriou tudo o que a civilização de sua época tinha com suas mãos e o cérebro, captava o movimento do rio para fazer uma moinho e moer a farinha. Bom, é isso aí, por enquanto, muito obrigado.

·


·

Tags: , , ,

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: