Cultura digital e inclusão

MAIO 2006

Artigo publicado na revista A Rede nº 14, de maio de 2006, sob o título de “O que quer, o que pode essa língua”.

Quando se fala em inclusão digital é muito comum pensar-se apenas nas pessoas socialmente excluídas, em situação de pobreza. Mas há mais fatores fundamentais a levar em conta, sendo o objetivo deste artigo a questão dos conteúdos e a inserção de novos atores nesse processo.

Ações de inclusão digital meramente direcionadas para o ensino de informática já se mostraram pobres, tanto nas dinâmicas geradas quanto nos resultados alcançados – transformando muitas vezes em medíocres escolinhas de computação o que poderiam ser ricos espaços de interação social, com apropriação tecnológica focada no protagonismo autoral e na cultura digital.

Como apontou Paulo Freire, os conteúdos educadores e libertadores devem ser buscados na cultura e na consciência de cada pessoa. Assim é de fundamental importância a existência, na internet, de mais conteúdos em língua portuguesa (hoje estimados em cerca de 2% da rede mundial). Textos, imagens, sons e vídeos com conteúdo popular e nacional (além, é claro, de conteúdos de outros países de língua portuguesa e latino-americanos em geral).

Se hoje pesquisarmos no Google a ocorrência de “halloween”, encontraremos mais de cem milhões de páginas. Já a ocorrência de “saci-pererê” fica em 127 mil páginas. A mesma proporção ocorre se compararmos receitas de abóbora escritas em inglês com bolos de fubá em português.

Estimular e direcionar projetos de inclusão digital para a captação e criação de conteúdos na rede não só atende a esse objetivo, de aumentar a quantidade de material em nosso idioma na web, como também é a melhor forma de as pessoas se apropriarem das ferramentas tecnológicas sem perderem tempo em cursinhos de informática (de natureza taylorista-fordista em sua maioria).

Para isso, devemos direcionar esforços para escanear e digitalizar conteúdos já existentes, bem como criar novos conteúdos, em áreas as mais diversas, como depoimentos pessoais e histórias de vida, receitas culinárias típicas, contos e causos do nosso folclore, repentes e desafios musicais, modas de viola, corais, cantares regionais, música de novos conjuntos, desenhos e pinturas de artistas locais, fotografias de diversos lugares de interesse geográfico, turístico ou histórico, de pessoas, de animais e de plantas, documentação de projetos sociais, culturais, de desenvolvimento local, captura de imagens ou pequenos filmes com celulares e câmeras digitais, literatura de autores desconhecidos ou esquecidos, esgotados ou mal distribuídos, tudo com direitos autorais liberados para circulação e publicação sem fins lucrativos, quando possível e desejável.

O potencial de transformação do mundo é enormemente auxiliado e fortalecido pela apropriação das novas tecnologias de comunicação e informação, permitindo que cada um seja autor de blogs, boletins, podcasts, webrádios, serviços noticiosos e sites de todo o tipo. Fazer com que cada telecentro, ou iniciativas semelhantes de diferentes nomes, seja um centro de produção, com apoio colaborativo, é a estratégia mais adequada para garantir o efetivo domínio do digital por cada indivíduo e sua inserção e articulação em projetos coletivos, de alcance social e cultural, que gerem o fortalecimento da ação política e da cidadania.

Para tudo isso, é de fundamental importância que se engajem intelectuais, escritores, pintores, músicos, fotógrafos, educadores, militantes políticos e demais articuladores sociais e produtores culturais nas ações de inclusão digital. Parodiando o que Clemanceau disse em relação à guerra, inclusão digital é uma coisa séria demais para ficar apenas na mão dos informatas!

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