Tecnologia pode transformar a educação

FEVEREIRO 2007

Entrevista dada a Julia Dietrich para o website Aprendiz, em 27 de fevereiro de 2007.

Do mundo industrial ao ambiente privado, certamente não há como negar a onipresença da tecnologia na sociedade contemporânea. Na comunicação é impossível pensar na ausência da internet, enquanto na arquitetura softwares de programação gráfica tornaram-se indispensáveis. Mas, na educação – em especial na rede pública – as novas mídias e adventos tecnológicos continuam sem espaço e metodologia capazes de ampará-los.

Para o editor multimídia e consultor de tecnologia educacional e redes sociais, Carlos Seabra, é fundamental pontuar esses novos instrumentos técnicos como possível alavanca para repensar e transformar o próprio sistema educacional que pouco mudou nos últimos séculos.

“Não adianta substituir o quadro negro pelo powerpoint e também não faz sentido um curso de excel que termine em si mesmo. A tecnologia não deve reforçar as atuais práticas de ensino e sim questionar o papel do educador, a forma de educar e até o conteúdo ensinado”, diz.

Segundo o consultor, a técnica voltada para si mesma torna-se dispensável, insistindo que o produto final transforme-se, ele sim, em algo independente. “Aulas de word só devem existir se o objeto a ser problematizado for, por exemplo, a redação. Ninguém fez curso de lápis para poder escrever”, brinca Seabra que cita o personagem Robinson Crusoé como exemplo. “Sem artefatos na ilha, ele foi capaz de pensar e criar soluções para resolver seus problemas. Tecnologia não está no instrumento e sim na cabeça da pessoa”.

Analice Moura Inácio, mãe dos estudantes do colégio particular Nossa Senhora das Graças da cidade de São Paulo, conta que se surpreendeu ao ver indicada a compra de um pen-drive na lista do material escolar de Frederico, de 11 anos, aluno da 6ª série do ensino fundamental.

“Decidimos esperar para ver qual a real necessidade do aparelho. E, se for realmente necessário, então o compraremos”, diz a mãe que vê, mesmo assim, a inserção tecnológica no ambiente escolar como ação bastante positiva. “É impensável que eles não trabalhem com algo que estará completamente inserido em suas vidas”, observa.

Seabra ressalta que os artefatos podem vir a ser poderosos instrumentos para transformar o próprio espaço físico da sala de aula. “Com uma tarefa a ser transportada num pendrive ou consultada na Intranet da instituição, os estudantes acabam envolvendo suas famílias e até, comunidades, expandindo o espaço das salas de aula e colonizando outros lugares, normalmente, considerados externos ao ambiente escolar”, observa.

“Acho engraçado muitos educadores condenarem a presença de computadores nas bibliotecas, acusando o tecnológico de substituir as outras atividades escolares. Porém, é impressionante ver que, ao esperar pela vaga para utilizar o computador, muitos jovens passaram a ler mais, pela própria convivência no espaço da biblioteca. O problema não está nos artefatos e sim no sistema”, diz ele que insiste na importância da internet como ponte de diálogo com o mundo, na busca e na problematização de informações.

Segundo o consultor, “a má capacitação dos professores, associada ao próprio desconhecimento de um plano tecnológico fazem com que programas muitas vezes desnecessários ou obsoletos substituam artefatos simples como a própria internet”, aponta.

Seabra insiste também que a capacitação dos profissionais deve estar diretamente associada ao questionamento do modelo educacional brasileiro. “O computador é brilhante pois dá um feedback imediato ao professor, que pode repensar suas aulas a partir da relação com os estudantes. Não existe capacitação prévia. Ela deve vir de acordo com as demandas do processo, ao longo da proposição e da finalidade de determinados projetos”, acredita.

Para ele, é necessário entender que a tecnologia pressupõe um tripé interligado, conectando o equipamento, o software e as pessoas que o utilizam. “Muitas vezes, em vez dos softwares de geografia – que na maioria das vezes são muito pobres -, os jogos podem ser utilizados. Eles possibilitam um novo mundo de oportunidades de ensino, promovendo o lúdico e a integração”, observa.

Seabra pontua ainda que novas mídias são instrumentos fundamentais para discutir a forma de ensinar e o trabalho do próprio conteúdo acadêmico. “Porque não, por exemplo, fazer com que os alunos criem e alimentem um blog como atividade interdisciplinar? Eles teriam que congregar suas pesquisas em diferentes assuntos, questionar o espaço coletivo e público do meio virtual e exercitar o raciocínio técnico necessário para construir os textos e confeccionar o produto final”, sugere.

Preocupada com a discussão do espaço público dos meios virtuais, Analice Inácio muitas vezes participa de atividades na internet e jogos para observar e, ao mesmo tempo, interagir com seus filhos. “Não os policio de forma rígida. Busco observar aquilo que meus filhos acessam, participando das suas atividades”, afirma.

Com objetivo similar, a empresa Microsoft desenvolveu o site Navegue Protegido que oferece, de forma sucinta, dicas para pais, professores, jovens e adultos como utilizar a internet de forma segura na escola, no trabalho e em casa. Nele são indicados ainda links de páginas com conteúdos próprios para diferentes faixas etárias e que podem promover a integração familiar no uso de ferramentas tecnológicas.

“Acredito que é preciso sim estimular as atividades tecnológicas na escola, mas busco determinar um tempo de uso diário do computador, televisão e videogame para que eles não deixem de brincar, praticar esportes, ler e realizar atividades externas ao espaço virtual”, diz a mãe de Fred que se vê bastante recompensada por ter suas regras cumpridas mesmo na sua ausência.

Entusiasta do ensino público, Seabra vê que o investimento financeiro das escolas particulares na área tecnológica, embora diretamente associados à disputa mercadológica e ao marketing, serve muitas vezes para pontuar como é grande a defasagem entre os dois sistemas. “Se bem pensada e elaborada de acordo com seus espaços e necessidades, a tecnologia pode servir muito positivamente à sociedade ou então, só veremos aumentar o estágio em que nos encontramos de apartheid tecnológico entre as classes sociais do país”.

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