Acessar o virtual: um direito real

JUNHO 2007

Trecho de entrevista concedida à Revista do Itaú Cultural de junho de 2007

Seriam mais 20 rotineiros minutos para Shirlei da Silva. Ela verificaria os e-mails, se corresponderia com as amigas de Nova Iguaçu – sua cidade natal -, faria suas pesquisas nos buscadores virtuais, visitaria os sites de sempre; tudo nos 20 minutos estipulados para navegar pela rede virtual em um dos postos públicos de acesso à internet, localizado no Poupatempo Santo Amaro, na capital paulista. O que Shirlei não poderia imaginar era que, naquele dia de maio de 2006, o trivial acesso à internet mudaria sua vida. Ao entrar em um site de relacionamentos, a carioca, de 27 anos, deparou com um nome muito familiar: o nome da irmã de quem não recebia notícias havia 21 anos, desde que os pais se separaram no Rio de Janeiro.

A história de Shirlei é um exemplo de como a internet é capaz de expandir redes sociais, além de proporcionar reencontros inusitados. “Por causa da internet eu pude reencontrar várias amigas que não via fazia tempo, e graças a ela eu também pude achar minha irmã”, explica. Porém, ainda são poucos os brasileiros que têm a oportunidade de acessar a grande rede virtual. Segundo pesquisa divulgada em abril pelo Ibope, 25 milhões de pessoas moram em domicílios com ao menos um computador conectado à web, e 32,9 milhões conseguem acessá-la em outros locais, como escolas ou universidades, por exemplo. É um número relativamente baixo, levando em conta a população nacional, mas que poderia ser menor não fossem as iniciativas que visam à inclusão digital. Em São Paulo, o programa de maior abrangência é o Acessa SP, uma parceria da Escola do Futuro, da Universidade de São Paulo, com o Governo do Estado.

O primeiro clique

Com mais de 1,1 milhão de cadastrados, o Acessa SP atende a quase 400 municípios paulistas por meio dos Postos Públicos com Acesso à Internet, os chamados Popais. Foi por um desses postos que Shirlei pôde reencontrar sua irmã. “Eu sempre ouvia falar em site, e-mail, chats, Orkut, então resolvi me cadastrar no posto do Acessa”, explica. “Só precisei mostrar o RG e um comprovante de residência e no mesmo dia já podia usar o computador.” Assim como Shirlei, milhares de pessoas nunca haviam acessado a internet antes de conhecer o programa de inclusão digital. Para Hernani Dimantas, coordenador do Laboratório de Inclusão Digital e Educação Comunitária (Lidec), da Escola do Futuro, a responsabilidade de manter trabalhos de inclusão nessa área é grande. “Para 60% dos cadastrados no Acessa SP, esse é o primeiro contato que se tem com a web”, afirma. “Nossa intenção é que a pessoa entenda a internet e se aproprie dela; nós fornecemos os links para isso.”

Dentre as instituições que fazem parte do programa Acessa SP, está a Associação de Deficientes Visuais e Amigos (Adeva), voltada exclusivamente para deficientes visuais. Para Markiano Charan Filho, diretor-presidente da instituição, a internet e a tecnologia em geral facilitaram a vida do deficiente visual. “A internet abriu muitos caminhos para nós, tem coisas que só dá para fazer pela internet, como verificar extratos bancários.” Os computadores da associação são equipados com softwares que fazem a leitura de alguns sites. Como em todos os outros postos do Acessa SP, a Adeva também possui seus monitores. Francisco Alves Batista, que aos 17 anos perdeu a visão, ensina há oito anos outros deficientes a usar o computador. “Há a diferença entre os alunos quanto à questão visual, alguns ainda têm o resíduo visual”, explica. “Já determinados alunos nunca viram a seta do mouse.”

Inclusão digital, inclusão social

Fora do estado de São Paulo, existem outros programas bem-sucedidos de inclusão digital. São os casos do Identidade Digital, na Bahia, que já conta com mais de 300 mil cadastrados, e dos programas realizados pelo Centro de Tecnologia da Informação e Comunicação do Estado do Rio de Janeiro (Proderj). Ainda não há um número exato de quantas pessoas são atendidas no Brasil por esse tipo de programa. De acordo com Carlos Seabra, diretor de tecnologia e projetos do Instituto de Pesquisas e Projetos Sociais e Tecnológicos (IPSO), primeiro é preciso definir o que é inclusão digital. “Não basta colocar uma pessoa de baixa renda na frente do computador para fazer inclusão digital”, afirma. “É preciso ensiná-la, mostrar os caminhos a seguir; a inclusão digital deve ser também inclusão social.” Outro ponto levantado por Seabra é a conexão à rede virtual. “Não se deve confundir inclusão digital com aula de informática. A internet hoje é obrigação. Ter um computador que não está conectado é como ter um carro sem estrada”, explica. Segundo o diretor de tecnologia do Ipso, o acesso promovido pelas iniciativas de inclusão digital deve ser público ou deve ser cobrada uma quantia simbólica destinada à manutenção do serviço. “Se cobrar e o dinheiro for usado para outro fim, chame isso de lan house ou cibercafé, e não de centro de inclusão digital.” Seabra é também consultor de projetos relacionados à educação a distância, modelo de ensino mediado por aparatos tecnológicos, como a internet, e estruturado em recursos multimídia. “Com a educação a distância, uma aula que era dada para 50 alunos pode ser dada para 5 mil”, afirma (veja box).

Apesar de todos os avanços proporcionados pelos programas de inclusão digital, o Brasil ainda precisa percorrer um longo caminho. Em pesquisa realizada pelo Comitê Gestor de Internet (CGI), ficou constatado que 67% dos brasileiros nunca acessaram a rede. Drica Guzzi, coordenadora do Lidec, acredita que, além de enriquecer o capital social dos usuários, a internet deve ser uma opção para todos. “Não digo que a internet seja algo essencial à vida, pois muitos vivem bem sem ela”, diz. “Mas todos devem ter o poder de escolher se querem acessar ou não; inclusão digital é, antes de tudo, um direito.” Um direito que Shirlei conseguiu aproveitar. Hoje, as duas irmãs se falam tanto pessoal quanto – como não poderia deixar de ser – virtualmente.

A educação segundo a internet

De acordo com o diretor de tecnologia e projetos do IPSO, Carlos Seabra, os aparatos tecnológicos podem ser a solução para a educação, mas também podem se tornar um grande problema. “Com a tecnologia na mão de um bom professor, mais gente pode aprender. Na mão de um mau professor, mais gente pode se prejudicar.” O raciocínio de Seabra está ligado à questão da formação do educador e sua nova relação com o educando. “O computador evidencia o despreparo de quem ensina e coloca em xeque o modelo hierárquico da escola; o aluno se torna cada vez mais o protagonista.” Para Seabra, o professor, além de ser mal remunerado, não recebe a formação adequada. “Coloca-se o computador na escola, para os alunos, mas antes não se coloca um computador na casa do professor.”

Apesar dos desafios, a educação a distância é um dos projetos que podem gerar mudanças positivas no sistema de ensino. Trata-se de um sistema no qual há separação no tempo e no espaço entre alunos e professores, e a comunicação é mediada por alguma forma de tecnologia. Segundo Seabra, o correto seria chamá-la de aprendizagem em rede. “A educação a distância é feita sob uma concepção hidráulica, em que se colocam uns canos e se transmite a água. Conhecimento não é água, não dá para transmitir hidraulicamente. Devem-se transmitir dados e fazer com que a informação seja absorvida, trocada e produzida.”

Para haver essa transmissão de dados, no entanto, é necessário criar um sistema de ensino virtual de boa qualidade. Para tanto, necessita-se de uma infra-estrutura que compreende redatores, revisores, fotógrafos, designers e recursos multimídias. “Além disso tudo, exige-se mais atenção do professor para que ele compreenda melhor a problemática e os mecanismos cognitivos do aluno.” Seabra acredita que jogos, simulações e comunidades virtuais são os ambientes ideais para aprendizagem em rede. “A educação tem de ser cada vez mais lúdica”, afirma.

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