Microcontos, literatura mínima

FEVEREIRO 2010

Artigo escrito para o site MobileFest e para a revista Língua Portuguesa, edição de abril de 2010.

O precursor e talvez o mais famoso microconto já produzido, do escritor guatelmateco Augusto Monterroso, “Cuando despertó, el dinosaurio todavía estaba allí” (Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá), consolidou uma nova vertente de microliteratura, com o desafio de contar alguma coisa em pouquíssimas palavras de contados toques.

Alguns autores conceituam e estipulam limites precisos, nascendo assim algumas classificações: nanocontos (até 50 letras, sem contar espaços e acentos), microcontos (até 150 toques, ou seja, contando letras, espaços e pontuação) e minicontos (alguns estipulando 300 palavras, outros limite de 600 caracteres). Nada disso é muito rigoroso e depende de critérios editoriais de quem os adotou.

O limite de 150 toques cabe no formato de envio de texto pelo celular, o chamado “torpedo” (ou SMS, short message service). Hoje está-se a usar bastante o limite de 140 toques, limite do Twitter – cada vez mais um grande difusor da microliteratura e que provavelmente acabará impondo este limite como “default”.

Antes de tudo uma divertida brincadeira, os microcontos (nas vertentes de crônicas, contos, aforismos e outras variações) estarão próximos ao minimalismo pós-moderno? Uma coisa é fato, a micronarrativa contém vários ingredientes do nosso tempo, a velocidade e a condensação, a possibilidade de publicação em celulares, painéis eletrônicos, rodapé de e-mails (ou até mesmo em algo mais démodé: tampas de caixas de fósforos). Ao mesmo tempo, há algo neles que remete aos haicais, a tradicional poesia de origem japonesa, com apenas três linhas e um total de 21 sílabas – de certa forma com o mesmo poder de concisão destes porém com a liberdade da prosa.

Alguns escritores de reconhecido talento já brincaram nestas searas, como Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, Millôr Fernandes, Dalton Trevisan e tantos outros, ainda que a maioria sem pensar no conceito de “microcontos”. Literatura de alta velocidade? Sônia Bertocchi nos lembra que Drummond já antecipava que “escrever é cortar palavras”, Hemingway sugeriu “corte todo o resto e fique no essencial” e João Cabral proclamou “enxugar até a morte”. A mesma Sônia, em seu blog “Lousa digital” (outra forma atual de publicar que tantos efeitos ainda vai provocar na produção literária), diz que “Seguindo à risca a lição dos mestres, chegamos aos microcontos: ‘miniaturas literárias’ que cabem em panfletos, filipetas, camisetas, adesivos, postes, muros, tatuagens, cartão postal, hologramas, desenhos animados, arquitetura, instalação, música… e que podem ser lidas no ônibus, no metrô e… nas telas do computador (cá entre nós, um prato cheio para propostas atrativas de ensino de literatura e integração de novas tecnologias)”.

Entre outros inúmeros conselhos acerca de como dizer muito e escrever pouco, podemos destacar também Blaise Pascal “Se escrevi esta carta tão longa, foi por não ter tido tempo para fazê-la mais curta”, Isabel Allende “Usar o substantivo certo para evitar dois ou três adjetivos”, São Gregório de Nazianzo “Ser breve não é, como julgas, escrever poucas sílabas, mas dizer muito com poucas” e Thomas Jefferson “O mais valioso de todos os talentos é aquele de nunca usar duas palavras quando uma basta”.

De certa forma, o microconto tem uma outra dimensão: ele é como uma ligação muito forte através de um furinho de agulha no universo, algo que permite projetar uma imagem de uma realidade situada em outra dimensão. Como se através desse furo, dois cones se tocassem nas pontas, um cone menor, que é o que está escrito no microconto, outro cone maior, que é a imaginação a partir da leitura de cada um – pois mais do que contar uma história, um microconto sugere diversas, abrindo possibilidades para cada um completar as imagens, o roteiro, as alternativas de desdobramento.

Seja seu destino a publicação em celulares, camisetas, postais, folhetos na praia, cartazes nos postes, azulejos, hologramas, blogs, e-mails, no twitter, o mero esquecimento ou o lixo simplesmente, uma coisa posso afirmar: microconto é um belo exercício de criatividade, síntese e algo muito divertido de escrever!

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Uma resposta to “Microcontos, literatura mínima”

  1. Cleofas Bezerra Says:

    Estou há quase um ano com uma ideia a que chamei Micrologs. Tão desinformado sou que nunca soube o quanto abrange o assunto. Hoje, antes de publicar, digitei alguma coisa que me levou ao seu blog e me descortinou a realidade. Fiquei complexado pela qualidade do que vi e animado por me sentir parte de algo tão grande. Obrigado por esse blog e parabéns por seu trabalho. Todo o sucesso.
    Cleofas Bezerra
    blogodorio.com
    blogodorio@gmail.com

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