Um universo pedagógico a explorar através das novas tecnologias

FEVEREIRO 2011

Entrevista  para a publicação Educação em Revista, do Sindicato do Ensino Privado (SINEPE/RS), edição 84, de fevereiro/março de 2011.

Pergunte a um jovem o que ele gosta de fazer nas horas vagas. Entre as preferências de 99,9% dos entrevistados está a internet. Hoje, é inquestionável a presença da web na vida dos estudantes, e a pergunta que fica para muitos educadores é como transformar os recursos da web em ferramenta pedagógica eficaz para a aprendizagem. Na opinião do consultor e coordenador de projetos de tecnologia educacional e redes sociais, Carlos Seabra, o primeiro passo é o professor se apropriar das tecnologias, para ent”ao pensar como fazer uso delas em sala de aula. Mas ele adianta que n”ao existe receita pronta para isto, é preciso experimentar.

Diante desta nova realidade, o especialista ressalta que o papel do professor não é mais o de ser quem domina todas as informações e as repassa aos alunos, mas sim alguém que os acompanha na pesquisa dessas informações, estimulando o pensamento crítico e autônomo dos alunos, preparando-os para aprenderem a aprender.

Confira a seguir os principais trechos da entrevista realizada com o consultor em sua passagem por Porto Alegre, quando fez palestra no Fronteiras da Educação – Diálogos com Professores.

Muitos professores se veem em uma difícil tarefa na sala de aula, não conseguem falar a mesma língua de seus alunos, que já nasceram na geração digital. Qual o conselho que o senhor dá a estes professores ‘analógicos’?

Que coloquem a “mão na massa”, que experimentem, que se apropriem. Sem isso, abrir-se-á um grande fosso entre eles e seus alunos, e mais ainda, entre eles e um mundo cada vez mais digital.

É fundamental que as tecnologias, disseminadas em larga escala e que estão sendo usadas até pelas classes mais carentes, sejam pensadas também do ponto de vista dos educadores, que as usem em seu quotidiano, em sala de aula, para se atualizarem, para fazerem um uso pedagógico das mesmas.

O uso das tecnologias pode substituir a figura do professor?

Um professor que possa ser substituído por uma tecnologia, deve sê-lo! Isso só ocorrerá se ele não for um professor de verdade, pois este tem seu papel cada vez mais importante na chamada sociedade da informação e do conhecimento.

Assim como uma mãe não pode ser substituída por quaisquer tecnologias, por mais que estas a auxiliem a cuidar de seu bebê – ninguém pergunta se uma geladeira pode substituir uma mãe – também nenhum artefato tecnológico pode substituir um professor, até porque tecnologia é antes de tudo uma questão de “cabeça” e portanto isso pressupõe um professor estimulador e facilitador, que necessariamente deve se apropriar e dominar essas tecnologias.

Como fica o papel dele, tendo em vista esses novos recursos?

O papel do professor é cada vez mais o mesmo: que ele deveria ser sempre, um estimulador da aprendizagem, que saiba perceber o que se passa na cabeça de seus alunos, que identifique suas dificuldades de aprendizagem, que procure criar estratégias facilitadoras da construção do conhecimento.

O papel do professor não é mais o de ser quem domina todas as informações e as repassa aos alunos, mas sim alguém que os acompanha na pesquisa dessas informações, estimulando o pensamento crítico e autônomo dos alunos, preparando-os para aprenderem a aprender.

O senhor acha que as redes sociais podem servir como ferramenta pedagógica? De que forma?

A forma em que as redes sociais podem servir como ferramenta pedagógica, e certamente elas têm esse grande potencial, é justamente um desafio para os próprios professores procurarem essa resposta!

O contexto está dado: as redes sociais são usadas pelos alunos de forma intensiva e um professor que apenas acompanhe o que seus alunos ali escrevem, que veja os interesses, os assuntos sendo discutidos, que perceba como eles se comunicam, como articulam suas discussões, esse professor terá no mínimo um conhecimento ímpar de como seus alunos pensam e como interagem.

Como o professor pode estimular seus alunos a usar a web não apenas para copiar dados?

A web veio para matar de vez a pseudo-estratégia de pedir aos alunos para pesquisar um assunto e considerar que a mera cópia escrita à mão com caneta num papel, tirada de uma enciclopédia ou outra fonte, resolvia a tarefa. A informática, permitindo o copiar e colar com o gesto de um mouse, e o acesso à vastidão de informações disponíveis na web, colocaram em cheque essa visão.

Os alunos somente copiarão os dados se a tarefa solicitada for essa. Mas se a tarefa dada pelo professor exigir construção, elaboração, será impossível limitar-se a copiar. Por exemplo, se um professor pedir aos alunos que pesquisem sobre répteis, primatas, felinos, e escrevam como se um jacaré, um macaco ou uma onça soubessem escrever e se expressar em nossa linguagem, os alunos terão que transformar as informações coletadas sobre hábitos de alimentação, tempo de vida e habitat, em algo que é impossível de copiar pois a natureza da tarefa dada impossibilita isso.

E quanto a outros aparelhos multimídia, como celulares, MP4, ipad, o senhor acha que podem ser ferramentas úteis na sala de aula? Como devem ser usados?

Esse é um grande desafio! Sem dúvida que necessitam ser usados, mas o caminho passa por inúmeras questões que não são novas mas ficam bastante agravadas com essas tecnologias. Há que se evitar, por um lado, o simples banimento da sala de aula ou da escola, e, por outro lado, evitar também que sejam distrações que prejudiquem a aprendizagem, tirando o foco do que realmente interessa – que é o processo de construção do conhecimento.

Como usar um livro ou um filme em sala de aula? Certamente boa parte dos professores terá algumas respostas para isso, embora saibamos o quão ainda são mal utilizados em sala de aula esses recursos. Assim como não basta pegar um filme e exibi-lo em sala de aula (é necessário pensar atividades antes ou durante sua exibição, além de talvez exibir apenas um trecho significativo) também não se trata de “liberar” o uso do telefone celular em sala de aula.

É necessário pensar nas ações, nas tarefas, nos processos cognitivos envolvidos, ter uma estratégia pedagógica, seja para o uso de celulares seja para tablets ou mesmo computadores. E pensar isso pensando não só na sala de aula mas também na integração com outros momentos da vida dos alunos, em suas casas, em atividades extra-escola etc.

Quais os benefícios destas novas tecnologias para o desenvolvimento cognitivo dos alunos?

As novas tecnologias de informação e comunicação são extensões do cérebro, permitem concretizar conceitos, juntar dados a informações significativas, desenvolver projetos que exijam a aplicação prática de conceitos teóricos…

Mas é necessário levar em conta que o mero uso dessas tecnologias não garante maior domínio da linguagem ou do raciocínio, não assegura a formação cultural nem o desenvolvimento de cidadãos, pois isso somente é assegurado quando há uma afetiva apropriação pelo projeto pedagógico, e esse é o desafio que torna os professores o elemento central dessa questão.

Quando estas novas tecnologias podem interferir no aprendizado, de forma negativa?

Quando são meros distratores, quando não são utilizadas de forma integrada em estratégias de ensino e aprendizagem. Assim como papel e lápis por si não resolvem nada e até podem ser usados para produzir material preconceituoso, racista ou sexista, assim como o audiovisual pode apenas tirar a atenção e o foco de uma aula, tudo o que não seja pensado e não tenha uma proposta de uso consistente pode impactar negativamente.

Não existem receitas prontas nem ditames a seguir. O grande desafio é justamente esse: os educadores devem se apropriar das tecnologias para pensar que usos podem fazer delas. E não ter receio de experimentar, de errar, nem tampouco cair na armadilha de acreditar em soluções prontas e mágicas!

Como desenvolver o senso crítico nos jovens de hoje, para o uso consciente da internet e das redes sociais?

O desenvolvimento do senso crítico é um dos esteios da educação, sem dúvida. O uso da internet e das redes sociais apenas permite maior integração e transparência das relações entre os alunos e deles com assuntos e temas de seu interesse. Cabe aos educadores aproveitarem a possibilidade aberta por essas tecnologias para acompanhar mais de perto os jovens e construir, em conjunto com eles, novos processos integradores da formação crítica de cidadãos, de artistas, cientistas, profissionais, de seres humanos na mais plena acepção!

Como explicar que, em meio a tantos recursos tecnológicos, a qualidade do ensino continua deixando a desejar, já que os resultados das avaliações continuam comprometendo a imagem do país? Neste sentido, a tecnologia poderá ajudar a superar esta situação?

Não basta colocar um monte de computadores, DVDs e outros artefatos nas escolas. É preciso focar os esforços nos processos de ensino e aprendizagem, de modo criativo e crítico, buscando aliar a inovação tecnológica, o lúdico e o motivacional, com a seriedade pedagógica que tantas vezes sucumbe ante as rotinas desmobilizadoras e desinteressantes que são os verdadeiros geradores dos resultados dessas avaliações, que colocam nosso país num patamar muitas vezes inferior a seu real potencial.

 

Confira dicas práticas sobre como usar os recursos tecnológicos para tornar a aula mais atrativa:

Incentive a produção audiovisual: A maioria dos celulares possibilita a gravação de pequenos vídeos. Máquinas fotográficas digitais também permitem filmagens. O projeto pode ser um trabalho individual ou em grupo, uma ficção desenvolvida a partir de um roteiro feito pelos alunos ou um documentário comk tema e objetivos bem definidos. O produto final pode ser postado em um site, como o You Tube, o maior acervo de vídeos na internet.

Trabalhe com o som: O som é outra interessante possibilidade de uso na escola, na forma de músicas, entrevistas em programas de rádio, trabalhos em grupo apresentados em áudio. Você pode pedir aos alunos que façam trabalhos extraclasse, como a gravação de entrevistas, a simulação de um programa de rádio com temas específicos, ou mesmo uma gravação musical. Os trabalhos podem ser publicados na internet, por meio de podcasts, blogs ou audioblogs e sites específicos de compartilhamento de arquivos sonoros.

Explore as imagens: Para trabalhar com imagens e fotografias, um exemplo seria explicar aos alunos que Cristóvão Colombo, durante suas viagens, registrava todas as suas impressões em um diário de viagem. Para ilustrar seus relatos, as páginas eram acompanhadas de várias figuras das regiões por onde ele passou. Era pela pintura e pela ilustração que se registravam os acontecimentos passados. Após essa explicação aos alunos, você pode solicitar que eles pesquisem imagens na internet para ilustrar um determinado tema, ou que registrem por meio de fotografias acontecimentos que considerem importantes ou até mesmo curiosos. O resultado final pode ser apresentado para a turma, por meio de exposição nas paredes da sala ou em algum álbum online (como o Flickr ou Picasa), blog ou fotolog.

Fonte: Cartilha “Tecnologias na escola”. Acesse o material em:  www.scribd.com/doc/41921420/Tecnologias-na-Escola

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