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Comunidades virtuais – ambientes colaborativos e trabalho em rede

01/02/2004

FEVEREIRO 2004

Artigo escrito para a publicação online “Espacio BVS”, da Biblioteca Virtual de Saúde, projeto da Bireme e da Organização Panamericana de Saúde. O mesmo artigo foi publicado em partes pelo Intranet Portal e pela Redemoinhos, publicação da Cidade do Conhecimento da USP.

A chamada sociedade da informação e do conhecimento traz consigo impactos capazes de levar a uma transformação maior que a produzida pela máquina a vapor. Junto com novas soluções e perspectivas vêm também novas exigências de habilidades novas, como saber “navegar” na Internet, algo entre o metódico e o caótico, mas também novas exigências sobre antigas habilidades, como o ser organizado, o saber escrever em seu idioma, ler outras línguas…

Um ambiente virtual colaborativo e interativo pressupõe regras de convivência que por se tratar de uma coisa nova as pessoas parecem se esquecer. Assim, é fundamental cada um cuidar de sua aparência, ou seja, ter seu perfil online bem preenchido, de preferência com uma foto para que os demais tenham uma referência visual. É importantíssimo que as mensagens trocadas possuam um mínimo de cordialidade, comecem com os tradicionais bons dias e terminem com um abraço ou algo mais formal, tudo desde que não transmita para a outra pessoa a impressão que você é um software ou, pior, que você acha que ela é algo parecido com um caixa automático de banco.

Para que exista vida numa comunidade virtual, é importante pensar-se sempre no que as pessoas estão fazendo ali. Pessoas só se juntam em comunidade por interesse, por prazer ou por obrigação. Uma comunidade escolar começa por ser obrigatório freqüentar a escola. Uma comunidade profissional inicia-se pelo interesse das pessoas em ganhar seu sustento. Um grupo de amigos fazendo um churrasco num final de semana tem como motor o prazer do convívio.

Num ambiente de trabalho ou convívio em rede as coisas não são diferentes. Num primeiro momento, a curiosidade pode levar as pessoas a se cadastrar numa comunidade virtual, mas em poucos dias o interesse inicial pode virar abandono se não houverem interesses claros em jogo, se não houver uma necessidade real de estar conectado, seja por lazer, por motivos políticos ou profissionais.

Assim como na vida real pequenos lugarejos crescem economicamente ao fazerem trocas com outros, construindo estradas e pontes a ligá-los, trocando bananas por café através de camiões ou trens, promovendo novas amizades, casamentos, construindo relações econômicas e culturais, num caminho que acabou levando à construção das nações – também na vida virtual a coisa se processa de modo semelhante, pois o fator principal é o mesmo: a humanidade.

Também como numa comunidade real, criar e manter uma comunidade virtual dá muito trabalho, de construção, de manutenção, de administração. No início é até mais difícil, pois trata-se de um novo paradigma, é necessário levar as pessoas pela mão, explicar o que é cada ambiente, como funciona cada ferramenta. Quase como se tivéssemos que ensinar um marciano a pegar um táxi ou usar um telefone público, coisas desconhecidas para nosso improvável alienígena.

É preciso cuidar de construir os “edifícios” dessa comunidade (bancos, escolas, bibliotecas, hospitais) e depois recheá-los de conteúdos e ter profissionais engajados na sua manutenção, pois além de produtos (dinheiro no banco, livros nas bibliotecas, remédios nas farmácias) temos aqui serviços (professores na escola, médicos nos hospitais, juízes nos tribunais). Tudo isso exige lei e ordem, regras claras de comportamento, bem como um mínimo de democracia para que o autoritarismo não mate os saborosos frutos que só a liberdade produz. Tudo isso exige administração, uma prefeitura e alguns funcionários públicos, senão os serviços essenciais podem impedir a fluidez de circulação dos bits (pois que numa comunidade virtual circulam os bits e não os átomos, circulam os bytes e não as moléculas).

Na sociedade da informação as pessoas não mais precisam deslocar o corpo para acessarem uma informação (tenho que pegar um ônibus e ir à biblioteca antes que feche), mas agora fazemos a informação vir até nós. Isso muda um bocado o jeito de fazermos coisas que já fazíamos antes, e é esta mudança paradigmática que precisa ser trabalhada, com estímulo, com organização, com objetivos, com esforço individual e coletivo.

Para melhor ilustrar esta nossa digressão pelo mundo virtual, vamos conversar um pouco a respeito de alguns ambientes e suas possibilidades de uso. Alguns exigem sincronicidade de seus participantes (como uma partida de futebol, onde todos têm que estar no campo ao mesmo tempo), tal como as salas de chat, os comunicadores instantâneos, como o ICQ e outros. Outros permitem que cada um acesse assincronamente (como numa partida de xadrez por correspondência), como os fóruns, o e-mail, os blogs, as áreas de armazenamento de documentos e imagens etc.

Cada ambiente, cada ferramenta, adequa-se mais ou menos a diferentes materiais e objetivos, bem como se adequa diferentemente a cada tipo de usuário. Geralmente personalidades mais introvertidas preferem interagir assincronamente, ao passo que os mais “sociais” preferem as ferramentas síncronas. Mas assim como ao volante de um carro, uma pacata e educada senhora pode virar uma gritadora de palavrões cabeludos, ou um tímido e doce rapaz se transforma num violento e perigoso assassino do asfalto, também no mundo virtual ocorrem estranhas mudanças de comportamento.

Para que uma sala de chat seja útil para uma comunidade virtual na área de saúde, pois que nossa finalidade aqui é entrar neste assunto, após a tergiversação inicial acima, é importante que haja uma programação fixa com temas e convidados. Por exemplo, todas as quintas-feiras das 16 às 18 horas haverá um convidado falando sobre doenças infecto-contagiosas. Às terças-feiras das 10 ao meio-dia a temática serão as doenças tropicais, sempre com um convidado especial. Num caso destes, há que se ter moderação na sala, para expulsar os inconvenientes, para dirimir dúvidas que atrapalhem o convidado se a ele formuladas, para lidar com os atrasados entrando na sala de chat (uma das maiores pragas dos chats, pois que é mais fácil se atrasar aqui que no mundo real, embora também seja mais fácil chegar na hora certa!).

Um problema dos chats (assim como os auditórios reais) é o da lotação. Geralmente acima de 30 ou 40 pessoas fica impossível haver conversação útil, pois o rolar da tela com inúmeros diálogos impede que qualquer ser humano normal possa acompanhar o que se discute – menos ainda o convidado, que nessas circunstâncias surta e nunca mais deseja repetir tal experiência! Para isso, costuma-se fazer com que as pessoas que “sobram pra fora da sala” possam acompanhar o que se discute, mas sem escrever mensagens. Além disso, uma vez ocorrida a conversa, a mesma pode ser gravada e publicada, permitindo que qualquer um possa acompanhar o que ali se discutiu. É de bom-tom que um caridoso editor corrija falhas de digitação dos participantes, tal como na transcrição de uma gravação de palestra não se colocam as tosses nem os gaguejares, pois que o que é tolerável ao vivo fica péssimo publicado sem edição.

Fóruns são ambientes sobejamente conhecidos mas poucas vezes bem utilizados. O excesso de repetições, a falta de temáticas bem orientadas, a pouca habilidade das pessoas, em geral, de saberem escrever de modo comunicativo, levam muitas vezes a que um importante tema seja muito maltratado e as pessoas mais preparadas e com maior contribuição a dar se sintam alijadas ou alheadas. É fundamental haver moderação, estímulo e edição nos tópicos e nas mensagens. Muita gente teme que tal moderação e edição possa chegar à censura, e esse é sempre um perigo a ser trabalhado com muita competência! Um fórum sobre câncer não pode ter mensagens acerca de diabetes, a não ser que numa relação entre ambos os assuntos, sob pena de perder seriedade e foco; neste caso o moderador deve mover a mensagem para o tópico adequado e comunicaria o usuário. Uma mensagem acerca de acidentes de trânsito não pode ter uma propaganda de companhia de seguros no rodapé do texto, para não configurar merchandising; neste caso, o moderador suprimiria o trecho propagandístico e advertiria o usuário. Uma mensagem com erros de digitação, ou toda escrita em maiúsculas, pode comprometer o produto editorialmente falando, afastando leitores e usuários do fórum, transmitindo uma “falta de asseio” no fórum; neste caso cabe uma correção do texto em seus aspectos mais gritantes, tal como a seção de cartas do leitor de um jornal, corrigir sem censurar, ao contrário, evidenciando o texto original.

Blogs são a atual “febre” da juventude interneteira, permitindo fazer diários de bordo, assinalar os passos nas navegações online e no mundo real, os pensamentos e as emoções, compartilhando na rede de uma forma jamais vista antes. Para uso profissional ou acadêmico, os blogs são ferramentas de fácil e intuitivo manuseio, permitindo que cada um seja autor, não só consumidor de informação. Mais importante que surfar na rede é aprender a fazer onda, podemos afirmar em linguagem de juvenil apelo, e é inegável que esse é o grande diferencial da rede mundial em relação às demais mídias, tão poderosas no broadcast de conteúdos globalizados e tão fechadas para as pequenas comunidades, para a autoração e publicação individual. Mas os blogs não servem somente para a expressão individual, pois podem ser “diários de bordo” de grupos também. Seus usos ainda estão em pleno desenvolvimento, mas vale mencionar seu uso profissional como registro de atividades, atas de reunião, acompanhamento de processos, relatórios de viagem, documentação de projetos etc.

Acervos de arquivos, sejam imagens, textos, planilhas eletrônicas, animações em flash, palestras em mp3, documentos em pdf, apresentações de slides, pequenos utilitários, plug-ins etc. são outra importante ferramenta colaborativa. Este tipo de ambiente tanto pode ser para uso coletivo e público, como pode servir de “armário” pessoal para um profissional guardar online seus principais arquivos, a serem usados em outra cidade, ou mesmo como back-up para os seus principais textos, planilhas, apresentações e dados. Uma área pessoal do usuário deve permitir que o mesmo possua anotações, como números de documentos, remédios que toma etc., listas de tarefas, calendário a agenda pessoal, além da área de arquivos pessoais.

Numa comunidade virtual é fundamental haver também um calendário, onde se assinalam os principais eventos, seja um feriado nacional, seja um seminário ou um congresso da área. Do mesmo modo, a lista de usuários deve funcionar também como uma agenda de contatos, permitindo que os telefones pessoais ou comerciais, correio eletrônico e outros dados que o usuário julgue importantes sejam compartilhados. Dentre essas ferramentas gerais podemos mencionar também uma forma da pessoa acompanhar o histórico de atualizações desde que se conectou pela última vez, ver uma lista dos arquivos e seções mais consultadas, poder acompanhar as estatísticas de acesso à comunidade, busca por palavra-chave no conteúdo dos diversos ambientes, e tantas outras que seria enfadonho aqui as enumerar.

Num ambiente na Internet seria impensável não existir um diretório de links, organizado por categorias e de preferência com comentários descrevendo o que espera o internauta no final de seu clique. Não se deve pensar em nada exaustivo, competindo com os googles e yahoos da vida, que já cumprem sua função para o megauniverso da Internet como um todo. Trata-se, ao contrário, de dar consistência e foco a um universo menor e mais especializado, assumindo assim um papel de orientação que os referidos mecanismos de busca universal não possuem. Num ambiente destes é fundamental a contribuição de todos e, mais uma vez, um editor/moderador para organizar links repetidos, conferir digitações erradas, aprimorar descrições.

Um ambiente indispensável para uma comunidade que lida com conteúdos científicos é o de publicação de artigos, sejam os produzidos especificamente para publicação nessa ferramenta, sejam os publicados em outros locais e aqui compartilhados (tomando-se em conta a questão dos direitos autorais, cheia de curvas e contra-curvas). Cada artigo novo colocado na seção respectiva pode apresentar uma chamada na página de entrada da comunidade virtual, funcionando como a primeira página de um jornal, que leva seus leitores para os diversos cadernos internos.

Todos esses conteúdos enriquecem ao mesmo tempo que trazem ainda mais entropia ao ambiente, pois é do excesso de informação que é feito o caos do mundo virtual. Se o jeito mais fácil de se esconder um grão de areia é na praia, o que diremos de uma informação a mais num já indigerível conjunto como o que descrevemos até agora? O navegador do mar das informações, assim como nossos antepassados com suas caravelas no mar, deve orientar-se por mapas, pelas estrelas, deve ter um destino, embora aberto a novas descobertas no percurso. Assim como a inteligência em nosso cérebro resulta das sinapses entre os neurônios e não nestes, também num ambiente rico em informações é fundamental criar as ligações entres estas, tecendo assim uma teia (web) de sinapses virtuais. Os links são, desde o nascedouro da Internet, essas ligações. Colocá-los, porém, exige de modo geral um conhecimento mínimo de edição em html. Para resolver este problema, foi inventado um interessante um sistema de criação e edição de páginas na internet chamado Wiki.

Segundo Ward Cunningham, seu criador, “as idéias do wiki podem parecer estranhas à primeira vista, mas mergulhe e explore seus links. Wiki é um sistema de composição; é um meio de discussão; um depósito; é um sistema de correspondência; é uma ferramenta de colaboração. Na verdade, temos dificuldade em defini-lo, mas é uma forma divertida para se comunicar de forma assíncrona pela rede”. Um bom exemplo desta tecnologia é a Wikipedia, uma enciclopédia colaborativa online aberta onde qualquer um pode escrever, rever ou comentar novos artigos.

A coisa funciona mais ou menos assim, você escreve no seu blog uma entrada comentando um artigo que leu e faz um link para esse artigo, de modo que todos possam clicar nele e abri-lo imediatamente. Seu comentário no blog acerca desse artigo pode ser referenciado no meio de uma discussão no fórum, através de um link para ele. Do mesmo modo, outros blogs podem fazer diferentes comentários acerca do mesmo assunto e seus autores criarem seus links para o artigo original e para os blogs uns dos outros. O sistema wiki permite que uma pessoa sem nenhuma experiência em edição de páginas na web possa rapidamente publicar conteúdos e fazer links com outros conteúdos já publicados, permitindo inclusive que as pessoas interfiram nas páginas uns dos outros (algo que muitas vezes mais atrapalha do que ajuda, mas que faz parte da filosofia wiki).

Você já deve ter se deparado com estes dois fenômenos opostos: ao ter que ir procurar informação, muitas vezes nem se lembra mais de sites que gostou muito ao visitá-los pela primeira vez (mesmo guardando-os nos bookmarks, acaba sendo tanta coisa que o esquecimento é provável); ao contrário, ao ter a informação vindo a seu encontro (através de correio eletrônico), a lixo, as propagandas de gosto duvidoso, a enorme quantidade do chamado spam (marca de presunto que um filme do Monty Phyton imortalizou como sinônimo de inutilidade), tornam quase impossível ler nosso próprio correio, muitas vezes nos levando a apagar inadvertidamente mensagens importantes. Para a vida numa comunidade virtual essa é uma questão vital, pois quanto mais cresce, mais difícil fica navegar em seu conteúdo, mais coisas nos passam desapercebidas. Lev Landau, físico soviético que foi Nobel de física em 1961, disse que “o conhecimento é como uma esfera, que ao aumentar de volume aumenta também o número de pontos em contato com o desconhecido”.

O RSS (Rich Site Sumary) é um formato de arquivo padronizado mundialmente para troca de notícias. Ao usar RSS você pode ler as manchetes de seus sites preferidos sem precisar visitá-los a todo o momento. Cada seção da comunidade pode ter seu “canal RSS” e assim que uma seção que você se interessa é atualizada você é imediatamente avisado, podendo ler o título e um resumo inicial antes de clicar e ir ou não para a página em questão. O mesmo formato pode ser usado para inserir notícias de outros sites automaticamente, sem necessidade de edição ou inserção de conteúdo. Isso ajuda a criar movimentos de “puxar e empurrar” informação e criar novas estratégias de acesso aos conteúdos, superando a entropia da rede e a enorme quantidade de lixo produzida. Um formato como este, inclusive por ser baseado em padrões abertos (baseado em XML), permite a criação de vínculos e trocas entre diferentes comunidades, além de pavimentar as estradas hoje tão esburacadas de nosso “asfalto virtual”.

Uma vez que estamos a falar em navegação, estradas e outras metáforas que tão bem designam o mundo virtual, é indispensável falarmos em mapas para orientar nossas caminhadas. Tanto os mapas georreferenciados, que permitem fazer com que cada pessoa na comunidade seja referenciada por um pontinho no local onde vive, nos dando uma importante referência de sua distribuição geográfica, como os mapas conceituais, onde podemos visualizar as relações entre grupos de usuários na comunidade, através do mapeamento de suas trocas de mensagens, de sua publicação de conteúdos, de sua freqüência maior ou menor nos diversos ambientes da comunidade. Estas ferramentas de mapeamento são imprescindíveis para os gestores da comunidade (bem como para estudiosos do comportamento virtual) e para seus membros, pois permitem identificar “áreas mortas” no ambiente, grupos de usuários mais ativos ou quase desligados, e assim estabelecer e acompanhar políticas de incentivo e resolução de problemas.

Rankings são interessantes mecanismos de acompanhamento e estímulo à utilização da comunidade virtual. Um sistema de pontuação que acrescente pontos para o usuário cada vez que ele entra no sistema, a cada hora que ele permanece ligado, para cada artigo que ele lê, mais pontos para um artigo que ele coloque, que pontue cada vez que ele participa de um chat ou entra num fórum, que dê pontos a cada vez que seu perfil é consultado por outros membros da comunidade, é um motivador muito forte para muitas pessoas e um indicador fundamental para os administradores da comunidade virtual, permitindo acompanhar o acerto ou erro das políticas estabelecidas.

Finalmente, pois o assunto ainda daria para continuar, mas temos que acabar o artigo antes que sua paciência acabe primeiro, é muito importante a existência de boletins periódicos (semanais ou mensais) que tragam as principais novidades da comunidade no período, bem como uma edição da página de entrada com os destaques do dia ou da semana. A promoção de encontros presenciais sempre que possível deve ser organizada ou estimulada, pois o virtual não serve para eliminar o presencial, ao contrário, potencializa e fortalece esses momentos. Quando nasce o primeiro bebê de verdade gerado de um casamento de pessoas que se conheceram no mundo virtual, percebemos todos que não existe diferença entre virtual ou real quando ambos estão a serviço da mesma causa: o ser humano.

Inclusão digital: algumas promessas e muitos desafios

01/12/2002

DEZEMBRO 2002

Artigo publicado na revista Eixos, da Câmara Brasil Alemanha e Instituto de Fomento Sócio-Cultural Brasil-Alemanha, em dezembro de 2002, edição especial sobre Responsabilidade Social e Cidadania.

A chamada sociedade da informação e do conhecimento traz consigo impactos sociais capazes de levar a uma transformação maior que a produzida pela máquina a vapor. Um mundo baseado cada vez mais na troca de valores simbólicos, do dinheiro à informação, vai mudar o eixo da economia, acabar com o conceito atual de trabalho, valorizar mais que tudo o conhecimento e a aprendizagem. Neste contexto, os excluídos sê-lo-ão ainda mais, se não houverem políticas e ações visando combater o aprofundamento da clivagem social trazida pelas novas tecnologias.

A tecnologia em si não é boa ou ruim, mas amplifica e potencializa a ação humana, tal como um megafone pode fazer o bom cantor alegrar multidões e o desafinado incomodar muito mais gente! Inclusão digital pressupõe uma série de outros objetivos conexos que não os meramente tecnológicos, podendo ser uma ação comparada ao “cavalo de Tróia”, que, após permitir a penetração das muralhas antes indevassáveis da cidade, em seu bojo carregava guerreiros sabedores de qual estratégia implementar.

Segundo Fredric Litto, coordenador científico da Escola do Futuro da USP, “organizações locais devem ser envolvidas e comprometidas com o sucesso do projeto desde o seu início, incluindo responsabilidade para o design, operação e produção de conteúdo; a estratégia apropriada para essa transferência de tecnologia tem de ser voltada para o desenvolvimento local de capacidade e autonomia”.

O Centro de Inclusão Digital e Educação Comunitária, CIDEC, da Escola do Futuro da USP tem entre seus objetivos o acompanhamento, estudo e debate de todas as experiências de inclusão digital no país e no mundo, mas também leva a cabo uma importante tarefa prática, que é a capacitação e gerenciamento de competências dos monitores de cinqüenta infocentros do Programa Acessa São Paulo. As considerações a seguir, na forma de três itens que, longe de esgotar o assunto, levantam algumas preocupações básicas, são embasadas nesta experiência prática e norteadas pelas formulações metodológicas construídas em mais de uma década de experiência da Escola do Futuro com aplicações da tecnologia em ambientes de aprendizagem.

A “maldição” dos cursos

A primeira expectativa de lideranças e usuários em relação aos projetos de inclusão digital é a da realização de cursos. Um lugar que reúne uma dezena de computadores serve para que outra coisa além de realizar cursos? Cursos de quê? Windows, Word, Excel, claro! E para que serviriam tais cursos? Para se obter um certificado, um diploma. Obviamente este destina-se a obter emprego, ou melhoria da condição profissional dentro de um já existente. Este é o grande desafio: combater a “maldição” do formato taylorista e fordista de transmissão de informações, que não assegura a construção do conhecimento e, ao contrário, promete demagogicamente uma capacitação que o formato de tempo disponível e a qualificação dos envolvidos não atende. Claro que um telecentro é um espaço de aprendizagem, mas a mesma dá-se de forma diferenciada do ambiente escolar, da sala de aula. Ocorre na resolução de problemas significativos, com apoio de monitores e com a participação dos demais usuários, numa verdadeira rede local humana de aprendizagem cooperativa, focada nos contextos significativos do uso das aplicações, sejam elas navegar na internet para fazer um boletim eletrônico ou tirar uma segunda via de conta telefônica ou usar um processador de textos para redigir o currículo e enviá-lo por e-mail. Cada uma destas tarefas exige um acompanhamento pedagógico individualizado que não pode ser feito na forma de curso, embora este último atenda as expectativas imediatas de usuários e a distribuição de certificados mostre mais rapidamente um resultado, porém muito mais próximo da demagogia do que da real apropriação do conteúdo.

O ambiente de um centro de inclusão digital

Geralmente um telecentro ou infocentro possui dez computadores e um servidor, conectados em rede e ligados em banda larga à Internet. Aliás, hoje em dia não faz o menor sentido ter computadores sem conexão na rede mundial e experiências até bem intencionadas de reaproveitamento de lixo tecnológico que não levem isso em consideração acabam não promovendo inclusão mas sim funcionando como uma esmola tecnológica, uma sopa dos pobres da era da informática. Mas não basta esse ambiente, que deve ser enriquecido com impressora, webcam, possuir acesso individual a multimídia etc. É fundamental que faça parte desse espaço uma outra sala sem computadores, com cadeiras e mesas, com estantes e publicações, com murais de cortiça, com área para os usuários esperarem e fazerem algo útil conexo às atividades ali desenvolvidas, onde ocorra troca e socialização. Como geralmente o tempo de uso do computador, dada a enorme procura, é cerca de meia-hora para cada usuário, convém que um desempregado que vá fazer seu currículo no micro antes o rascunhe em papel, e nesse espaço fora do laboratório ele pode obter auxílios de quem tem mais experiência. Ou uma senhora que ache receitas de culinária interessantes na Internet e as imprima pode depois compartilhá-las com suas amigas. Links e dicas de sites podem ser afixados nos murais e, acima de tudo, a troca de calor humano, piadas, histórias do dia-a-dia fazem com que a tecnologia seja mais uma ferramenta de troca humana e que seja apropriada como tal. Num ambiente destes ocorre a multiplicação e democratização do acesso à informação mesmo para os que ainda não mexem no computador, ampliando enormemente o alcance da inclusão digital. Se junto com isto houver uma sala de aula em anexo, então nela podem ocorrer alguns dos cursos que criticamos acima, mas que em adequado ambiente podem ser altamente desejáveis.

Inclusão também dos não-excluídos

Sempre que se fala em inclusão digital pensamos nas classes C, D e E. Obviamente este é o foco principal, mas para atingir tal objetivo é importante não esquecer que qualquer ação completa deve ser integradora e potencializar outros segmentos da sociedade, pois a cidadania é alcançada digitalmente quando a rede é tecida incluindo excluídos e não-excluídos. Assim, no centro físico de inclusão, seja um telecentro, infocentro ou outra designação, é desejável que jovens que possuem micro em casa o freqüentem, pois estes poderão ser de inestimável ajuda nas tarefas impossíveis de serem levadas somente pelos monitores, que adultos dominando diversos campos do conhecimento colaborem como voluntários, principalmente se também forem usuários, esporádicos ou não. Outro aspecto da “inclusão dos não-excluídos” é o da geração e captação de conteúdos em língua portuguesa. Segundo dados do Ministério da Ciência e Tecnologia, aproximadamente apenas 2% dos conteúdos da Internet mundial são em língua portuguesa, contra cerca de 5% em língua espanhola. Mais importante que a criação de novos conteúdos deve ser a captação dos já existentes, considerando três eixos: diversidade de conteúdos, convergência de mídias e formação de redes e comunidades. As ações de inclusão digital devem incluir empresas, entidades sociais, intelectuais, estudantes, empresários, políticos, militares, sindicalistas, jovens, pessoas da terceira idade, portadores de deficiências, homens e mulheres, tanto usuários como, principalmente, produtores de conteúdo. Afinal, não basta apenas surfar na Internet: também é preciso aprender a fazer onda!

Em recente pesquisa feita pela Escola do Futuro da USP, em parceria com o instituto de pesquisa Insight, para o programa Acessa São Paulo, sob o tema “necessidades informacionais da população de periferia de São Paulo”, identificamos que 90% (sic) da população pesquisada, das classes C, D e E, já ouviram falar e sabem o que é a Internet, ao passo que 79% nunca usaram um computador (destes, 93% declararam desejar aprender a fazê-lo). Quanto aos conteúdos e serviços considerados mais importantes para possível uso da internet, 81% afirmaram desejar marcar consultas médicas, descobrir endereços de hospitais ou postos de saúde, tirar dúvidas sobre doenças, tratamentos e outras questões de saúde; 79% para procurar emprego, saber de vagas de trabalho, preparar currículo; e 75% para reclamar ou se informar sobre serviços públicos, impostos, luz, asfalto etc.

Num mundo em transformação, onde cada vez mais o computador é o veículo de transporte da mente e um instrumento essencial de trabalho, não podemos preparar as novas gerações para um mundo de subalternidade, tanto do ponto de vista individual quanto na perspectiva da nação. Assim, é necessário frisar que inclusão digital não é apenas ensinar a utilização da tecnologia ou disponibilizar o acesso à rede: é preciso haver um trabalho de identificar as demandas informacionais, como as listadas na pesquisa acima citada. A produção de conteúdos deve ser vista como uma estratégia importante no processo de Inclusão, somando-se aos demais esforços, como formação e capacitação de multiplicadores, criação de redes locais e comunidades virtuais, bem como integração com políticas públicas e ações de responsabilidade social.

Inclusão digital: desafios maiores que as simples boas intenções

01/10/2001

OUTUBRO 2001

Artigo publicado na Revista Soluções nº 17, de outubro de 2001, da Telefônica Empresas.

Os impactos sociais da informática, conquista da ciência e da tecnologia, são capazes de levar a uma transformação maior que a da máquina a vapor. Uma sociedade baseada cada vez mais na troca de valores simbólicos, do dinheiro à informação, vai mudar o eixo da economia, acabar com o conceito atual de trabalho, valorizar mais que tudo o conhecimento e a aprendizagem. Neste cenário, os excluídos serão cada vez mais excluídos – com o poder se concentrando nas esferas virtuais (com profundo controle nas esferas reais) – a não ser que se implementem eficazes e massivas ações para promover sua “inclusão digital”.

Na educação, a internet traz um potencial inovador ímpar, pois permite superar as paredes da sala de aula, com a troca de idéias com alunos de outras cidades e países, intercâmbio entre os educadores, nacional e internacionalmente, pesquisa online em bancos de dados, assinatura de revistas eletrônicas e o compartilhamento de experiências em comum. Este novo ambiente de aprendizagem, que não reside mais apenas na escola, mas também nos lares e nas empresas, traz novos desafios para os educadores, mais que nunca chamados a serem facilitadores e motivadores.

Como introduzir as novas tecnologias na escola, particularmente no ensino público, onde tantas outras prioridades se colocam? Estaremos aprofundando cada vez mais a clivagem social se não houver uma efetiva política que garanta o pleno acesso de todos às novas tecnologias. Num mundo em transformação, onde cada vez mais o computador é o veículo de transporte da mente e um instrumento essencial de trabalho, não podemos preparar as novas gerações para um mundo de subalternidade, tanto do ponto de vista individual quanto na perspectiva da nação.

No mundo do trabalho as coisas vão mudar bastante, também. Para quê ir até o escritório bater à máquina, se isso pode ser feito à distância, via modem? Poupando, assim, horas de deslocamento (deslocar a informação, não mais o corpo), a presença familiar mudará substancialmente. Nota-se, nas famílias que usam a internet no teletrabalho em casa, um resgate do ensino do ofício aos filhos. Mudanças, portanto, também no seio da família e do que entendemos por lar.

E o desemprego? Hoje, ao fazermos uma transação bancária no micro de nossa casa, estamos repassando para o usuário o trabalho que antes era feito por um funcionário. Em breve, estaremos comprando carros através de um conexão gráfica com a fábrica que, just in time, fabricará o carro que acabamos de desenhar no terminal. Novos desafios, portanto, para a sociedade. Novas formas de se repensar a distribuição de renda e assegurar o direito de todos os seres humanos à busca da felicidade do contrário, teremos um apartheid tecnológico como nunca visto.

Você é daqueles que nem se lembra em quem votou para deputado nas últimas eleições? Que tal votar agora em um para quem você possa escrever via e-mail e que o coloque a par dos projetos, que seja, enfim, seu representante no parlamento? E o que será do Poder Executivo se cada cidadão puder ter acesso, garantido em Constituição, aos bancos de dados e fizer cruzamentos das informações obtidas? Imagine a nova participação da cidadania se cada pessoa com insônia às duas da manhã for ver como estão sendo aplicados os recursos em sua cidade… O voto será eletrônico, sem boca-de-urna, cada um em sua casa? Novas formas de manipulação da informação irão surgir, é claro, mas o pesadelo que Orwell imaginou em seu “1984” será ao contrário, pois o Big Brother poderá estar sendo vigiado por milhões de olhos…

Dos tambores à web

01/11/2000

NOVEMBRO 2000

Artigo escrito para “C@rta.com” nº3, suplemento de cultura digital da revista Carta Capital, de novembro de 2000.

Nesta edição, Carlos Seabra, autor de diversos softwares educacionais e jogos de entretenimento, canta em tom poético o ressurgimento da palavra escrita na internet.

Como nenhum outro meio de comunicação anterior (os tambores têm pouco alcance, as cartas demoram para chegar, ao telefone muitas vezes o som da voz nos seduz ou irrita mais que as palavras proferidas, a televisão é dos donos dos canais, a rádio concessão para igrejas e deputados fisiológicos), a Internet nos coloca interativamente em contato, superando barreiras de idade, sexo, cultura, preconceitos e, principalmente, distância geográfica. Aqui, cada um pode não apenas ler o que quiser quando tiver vontade, mas pode escrever, participar, ter os tais 15 minutos de fama que foram prometidos e ninguém dava…

As pessoas perdem um pouco certos referenciais, que muitas vezes até impedem que indivíduos se conheçam. Aqui, os preconceitos afloram mais que na vida real, escancarados em textos escritos na hora, sem censura, mas aqui também os preconceitos viram tigres de papel, bytes que se esvaem, pois colocam as pessoas, irremediavelmente, em íntimo contato umas com as outras. O contato delas aqui se dá através de seus cérebros, de suas almas, desprovidas de barreiras físicas. O racista pode perceber que está falando com o objeto de seu preconceito tarde demais: quando já houver feito amizade com ele. O jovem e o velho conversarão bastante até descobrirem a idade mútua. E duas pessoas carentes de calor humano e de amor, entes sensíveis que saibam traduzir em palavras suas emoções, poderão se apaixonar antes de se conhecer…

Tudo depende de saber escrever. Na vida “real”, as pessoas bonitas, bem vestidas e que saibam falar levam toda a vantagem nos primeiros contatos, ao passo que os tímidos, feios ou mal-vestidos precisam de muito valor para superar tais barreiras. Neste mundo virtual, a palavra é o “pó de pirlimpimpim” que transforma a gata borralheira em princesa – e sua meia-noite é quando a conexão fica irritantemente lenta ou cai, e então aquele computador na sua frente vira uma abóbora. Aquele que não sabe pontuar, não tem poder de síntese das idéias, não conhece um vocabulário rico, esse “dança” na mão destas tribos virtuais – que podem ser tão cruéis com ele como as do outro mundo para com os quasímodos de aspecto repelente.

Esta nova valorização da palavra escrita é um fenômeno interessantíssimo. O que a humanidade criou – e nos deu de Shakespeare a Fernando Pessoa – parecia a muitos que a informática iria matar, a palavra escrita seria substituída por cliques no mouse, a literatura trocada por ícones. O que se vê não é isso, mas sim uma nova importância do escrever, essa atividade que na escola foi reduzida ao ritual sadomasoquista das provas, na sociedade aos formulários da burocracia. Agora, com a internet, quem não sabe escrever está isolado – como alguém que olha a estrada diante de si e não sabe usar os pés para andar. Claro que ainda falta muito para que os escritos na rede não sejam apenas um reflexo da enorme ignorância do escrever, que é o que mais se vê hoje, mas, como disse o poeta, “o caminho se faz ao caminhar”…

Internet e educação

01/10/1996

OUTUBRO 1996

Comunicação escrita para a publicação “Novos Rumos do Ensino Superior” nº 4, setembro de 1997, da PUC-SP, do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre ensino e questões metodológicas em Serviço Social, número 4. Organização de Maria Lúcia Rodrigues e Maria Laura Barbosa Franco.

Num mundo em permanente transformação, o impacto das modernas tecnologias de comunicação, juntamente com a revolução científico-tecnológica, produziu o que se chama hoje de Sociedade da Informação – gerando novos impactos nos modos de produção, mexendo na cultura e nos costumes, alterando aspectos es­senciais no exercício do próprio poder.

Um dos fenômenos emergentes é a chamada telemática – neologismo resultante do cruzamento da informática com as telecomunicações. Hoje qualquer ponto do planeta está literalmente ligado à rede mundial de informações, através da Inter­net, numa operação que requer pouca prática anterior, em poucos segundos e com baixís­simo custo.

O impacto dessa nova estrada, por onde não mais circulam átomos mas sim bits, ainda não começamos a senti-lo, mas vai afetar todas as áreas da civilização: da guerra e do crime até a cultura e o comércio. A educação não pode ser, como o foi nos demais avanços tecnológicos havidos até hoje, a “última a saber”. Parece que isso, desta feita, não ocorrerá – mesmo porque a Internet nasceu neste berço e seu uso na educação já possui inúmeras experiências bem (e mal) sucedidas.

Com as rápidas transformações nos meios e nos modos de produção, re­sultado da revolução tecnológica e científica, estamos entrando em uma nova era da humanidade. A natureza do trabalho e a relação econômica entre as pes­soas e as nações sofrerá enormes transforma­ções, mudando a natureza do que hoje podemos entender por profis­são. Neste quadro a educação não apenas tem que se adptar às novas necessidades como, principalmente, tem que assuir um papel de ponta nesse processo.

Com o advento da micro-eletrônica e da informática, a estocagem de infor­mações (não as chamarei de conhecimento, pois este é construído no interior de cada pessoa – não sendo “passado” mecanica­mente) em memórias quase infinitas, o processamento de dados em frações de minuto e a impossibili­dade, no decurso de uma vida, de acesso à cultu­ra universal são reveladores da impropriedade dos mé­todos educacionais vigentes. O papel dos educadores deve ser repensado e novas estratégias na formação desses profissionais de­vem ser pre­vistas, criando na escola o ambiente para a formação de sujeitos críti­cos, dota­dos de autonomia de aprendizagem.

Algumas possibilidades de uso

As potencialidades de um instrumento interativo e com o alcance que a telemática, principalmente com a Internet, são inúmeros, abrangendo do aspecto político ao educacional, do institucional ao da prestação de serviços, utilidade individual, coletiva e comunitária. Tanto é um veí­culo administrativo para ser usado para integrar os vários setores de uma em­presa ou instituição, como pode ser uma inovadora ferramenta pedagógica que faz supe­rar as paredes da sala de aula. Além de ser uma ponte de participação da cidada­nia no acesso às informações.

Um dos usos mais ricos e inovadores da informática na educação é sua utilização como instrumento de comunicação, colocando em contacto alunos e professores de diferentes cidades e países, de diferentes culturas e línguas, trocando mensa­gens, desenvolvendo projetos comuns ou acessando bancos de dados.

A telemática traz um inovador potencial para os educadores. Afinal, a principal tecnologia educacional de qualquer sistema educacional reside na formação de seus professores. A troca de idéias com outros educadores, a nível nacional e in­ternacional, a pesquisa em bancos de dados, a assinatura de revistas eletrônicas e o compartilhamento de experiências em co­mum dão um novo significado à ativi­dade docente. Existem diversos grupos de interesse que discutem a educação e projetos concretos e que reúnem, através de todo o planeta, educadores de diver­sas áreas e países.

A troca de experiências tem se revelado um poderoso alavancador do interesse participativo, gerando um ambiente fomentador da contínua auto-formação dos professores – que se tornam agentes multiplicadores junto aos demais. Também se torna possível, por exemplo, a participação em experiências pedagógicas que visem resultar na elaboração de teses acadêmicas para mestrados etc.

Como instrumento de comunicação, seja para difusão de comunicados de cunho administrativo, avisos de realização de eventos, cursos e outras programações, a Internet também facilita e potencializa a edição e distribuição do que hoje se está chamando de informação digi­tal. Boletins, jornais e revistas eletrônicos possuem uma série de características que, embora sem jamais esgotar com as mídias tradicionais, tornam obrigatório seu uso nos dias de hoje:

• Rápida atualização, um texto corrigido ou atualizado alguns segundos depois está substituindo a versão anterior.
• Ausência de “encalhes”, cada usuário que lê aumenta a circulação, que não precisa ser previamente estimada, correndo o risco de encalhes obsoletos.
• Baixo custo de reprodução, pois após a confecção dos “originais” não existem cus­tos gráficos da tiragem.
• Integração com meios de difusão tradicionais: jornais e boletins eletrônicos podem ser acessados por uma pessoa com micro numa localidade (universidade, empresa, clube, sindicato) e depois impressos local­mente, para afixação em murais ou reprodução para distribuição individual.
• Facilidade de clipping, permitindo exportar as matérias escritas, sem a necessidade de redigitar textos – facilitando assim seu aproveitamento em sinopses e outras pu­blicações.
• Facilidade de importação de textos de outras fontes eletrônicas, sem a necessidade de redigitá-los e permitindo receber contribuições diretamente via modem.

Em todos esses aspectos, a comunicação é assíncrona – ou seja, não é neces­sário que os participantes estejam conectados simultâneamente, podendo cada um acessar no horário que mais lhe convier e ler as mensagens deixadas pelo outro, no meio da madrugada para os noctívagos ou atravessando fusos horários, para os antípodas…

Um meio elitista ou uma ferramenta a ser democratizada?

Quando se fala em computadores na educação sempre surgem as inevitáveis menções às inúmeras deficiências da escola, da universidade, aos baixos salários dos professores. Sem entrar nessa discussão com a profundidade que exige, pelo menos neste texto, não podemos deixar de afirmar que apenas com o domínio da tecnologia poderemos evitar uma clivagem social ainda maior entre as elites e a cidadania excluída, marginalizada (ou em processo de) – ou entre o Brasil e as nações mais desenvolvidas. Se sindicatos, associações, clubes, organismos públicos e ONGs não “entrarem nessa”, estarão prescindindo de seu papel, numa sociedade onde a informação e o poder vão transitar, cada vez mais, nessas super “infovias”. No ensino superior então, é inimaginável pensá-lo à margem desta etapa do avanço tecnológico – onde não são mais as máquinas a vapor aumentando a produção fabril a caracterizar a mudança, mas sim máquinas de transporte das idéias, de acesso à informação, extensões de nosso cérebro…

Para que o acesso a esta nova tecnologia seja significativo do ponto de vista da educação ou formação cultural, não basta que os alunos simplesmente acessem as informações: eles precisam ter a habilidade e o desejo de utilizá-las, precisam saber relacioná-las, sintetizá-las, analisá-las e avaliá-las. Juntos, estes elementos constituem o que se pode chamar de pensamento crítico. Este aparece em cada sala de aula quando os alunos se esforçam para ir além de respostas simples, quando desafiam idéias e conclusões, quando procuram unir eventos não relacionados dentro de um entendimento coerente do mundo. Sua aplicacão mais importante está fora da sala de aula – e é para aí que o ensino deve voltar seu esforço. A habilidade de pensar criticamente pouco valor tem se não for exercitada no dia-a-dia das situações da vida real.

Claro que tudo isto não ocorre espontaneamente, e aí entra o papel do professor, encorajando os alunos a fazerem conexões com eventos externos ao mundo da sala de aula, descobrindo a ligacão entre situações vividas e os conteúdos curriculares. Existem muitas táticas simples que o professor pode utilizar e que podem ser enormemente motivadoras, estimulando processos de transferência – e essa experiência o professor já tem, basta não se considerar um “ignorante em informática” e buscar aplicar na nova mídia sua base de conhecimentos, estando aberto à pesquisa e auto-aprendizado contínuos.

Esse uso do computador exige, mais que nunca, um professor preparado, dinâmico e investigativo, pois as perguntas e situações que surgem na classe fogem do controle pré-estabelecido do currículo. Essa é a parte mais difícil desta tecnologia. E esse é o papel insubstituível do professor: elaborar as estratégias que dêem significado a essa enorme e fantástica porta que se abre para o universo do conhecimento da humanidade. Sem isso, a Internet e o software educacional podem apenas ser modismos adestradores de um mercado consumidor, perdendo-se a oportunidade de promover uma efetiva mudança na área do ensino.

Relações virtuais

01/09/1995

SETEMBRO 1995

Prefácio escrito para o livro “Relações Virtuais – o lado humano da comunicação eletrônica” de Léa Waidergorn Storch e João Ricardo Cozac, sobre as relações virtuais online, Editora Vozes, 1995.

Num momento em que a Internet vira pauta quase que diária da mídia e palavras como telemática e BBS, antes restritas a pequenos círculos de “iniciados”, ganham espaço na realidade quotidiana, este livro de Léa Storch traz um testemunho vivo do que são essas novas formas de comunicação. Tão novas que as próprias palavras também são novas – com telemática sendo o cruzamento das palavras telecomunicações e informática (esta também um neologismo), enquanto que BBS (de Bulletin Board System) tem defensores de seu gênero no masculino e outros, entre os quais me incluo, no feminino.

Numa linguagem direta, como se a autora estivesse diante do seu micro enviando uma mensagem diretamente para o leitor, Léa monta com caóticas peças (como caótica é a net) um mosaico que nos transporta para as situações transcritas e comentadas. Uma amostragem que evidencia, ao contrário do temor de muitos, que a telemática não veio para “robotizar” a mente das pessoas, fazendo com que passem a não mais sair de casa e só conversem sobre bits e bytes. Ao contrário, a paisagem pela qual ela nos leva é o seu oposto: a tecnologia servindo para aproximar pessoas que nem se conheciam, seja para o amor, seja para as eternas rixas.

O que caracteriza este livro é sua mistura de reflexão e relato, reportagem e transcrição, onde Léa é, ao mesmo tempo, autora e personagem. Certamente, depois de lê-lo o leitor terá não apenas uma idéia bastante clara das novas possibilidades de comunicação, mas terá conhecido e refletido um pouco mais sobre o ser humano.

Quando conheci a Léa, ela ainda não fora apresentada a este mundo tão virtual e tão real. Ajudei na instalação do primeiro software de comunicação e na configuração do modem (ainda hoje, a parte menos amigável desta tecnologia, cheio de Com2 e IRQ3 – credo!), e acompanhei suas primeiras mensagens, discussões e risadas eletrônicas. Como poucas pessoas, ela “pegou” em pouco tempo o espírito da coisa e, em breve, estava naquele estado doentio em que os mais paranóicos imaginam os usuários destas máquinas diabólicas. Sim, pois há pessoas que fazem disto uma doença e são mais sociáveis ao teclado que na vida real. Na verdade, tratava-se daquele estado febril semelhante ao de um pintor, que passa horas e horas olhando a paisagem que vai pintar, pois Léa usou criativamente seu mergulho tão profundo para nos trazer à tona este livro.

Além da escolha geralmente bastante significativa de trechos de mensagens e conversas online, Léa comenta estas passagens com pitadas de sabor e tempero de saber, fazendo-nos sentir os personagens envolvidos como se estivessem diante de nós. Ou colocar-nos dentro deles, pois esta é uma das principais características desta nova mídia.

Como nenhum outro meio de comunicação anterior (os tambores nos deixam distantes, as cartas demoram para chegar, ao telefone muitas vezes o som da voz nos seduz ou nos irrita mais que as palavras proferidas, a televisão é dos donos dos canais, a rádio concessão para igrejas e deputados fisiológicos), a telemática – primeiro com as BBS e agora com a explosão da Internet – nos coloca interativamente em contato, superando barreiras de idade, sexo, cultura, preconceitos e, principalmente, distância geográfica. Aqui, cada um pode não apenas ler o que quiser quando tiver vontade, mas pode escrever, participar, ter os tais 15 minutos de fama que foram prometidos e ninguém dava…

As pessoas, como o leitor vai perceber, perdem um pouco certos referenciais, que muitas vezes impedem que as pessoas se conheçam. Aqui, os preconceitos afloram mais que na vida real, escancarados em textos escritos na hora, sem censura, mas aqui também os preconceitos viram tigres de papel, bytes que se esvaem, pois colocam as pessoas, irremediavelmente, em íntimo contato umas com as outras. O contato delas aqui se dá através de seus cérebros, de suas almas, desprovividas de barreiras físicas. O racista pode perceber que está falando com o objeto de seu preconceito tarde demais: quando já houver feito amizade com ele. O jovem e o velho conversarão bastante até descobrirem a idade mútua. E duas pessoas carentes de calor humano e de amor, entes sensíveis que saibam traduzir em palavras suas emoções, poderão se apaixonar antes de se conhecer…

Tudo depende de saber escrever. Na vida “real”, as pessoas bonitas, bem vestidas e que saibam falar levam toda a vantagem nos primeiros contatos, ao passo que os tímidos, feios ou mal-vestidos precisam de muito valor para superar tais barreiras. Neste mundo “virtual”, a palavra é o pó de pirlimpimpim que transforma a gata borralheira em princesa – e sua meia-noite é quando o tempo da assinatura na BBS expira ou a linha telefônica cai, e então aquele computador na sua frente vira uma abóbora. Aquele que não sabe pontuar, não tem poder de síntese das idéias, não conhece um vocabulário rico, ah… esse “dança” na mão desta comunidade – que pode ser tão cruel com ele como o outro mundo para com os quasímodos de aspecto repelente.

Esta nova valorização da palavra escrita é um fenômeno interessantíssimo. O que a humanidade criou – e nos deu de Shakespeare a Fernando Pessoa – parecia que a informática iria acabar, a palavra escrita seria substituída por cliques no mouse, a literatura trocada por ícones. O que se vê não é isso, mas sim uma nova importância do escrever, essa atividade que na escola foi reduzida ao ritual sadomasoquista das provas, na sociedade aos formulários da burocracia. Agora, e com a Internet isso obriga a fazê-lo em mais de um idioma, quem não sabe escrever está isolado – como alguém que olha a estrada diante de si e não sabe usar os pés para caminhar.

Embora não sejam aspectos nos quais Léa Storch se aprofunde, nem é esse seu objetivo nesta obra, os impactos sociais desta conquista da ciência e da tecnologia são capazes de levar a uma transformação maior que a da máquina a vapor. Uma sociedade baseada cada vez mais na troca de valores simbólicos, do dinheiro à informação, vai mudar o eixo da economia, acabar com o conceito atual de trabalho, valorizar mais que tudo o conhecimento e a aprendizagem.

Na educação, a telemática traz um potencial inovador ímpar, pois permite superar as paredes da sala de aula, com a troca de idéi­as com alunos de outras cidades e países, intercâmbio entre os educa­dores, a nível nacional e internacional, pesquisa online em ban­cos de da­dos, assinatura de revistas eletrônicas e o compartilhamento de ex­periências em comum. Este novo ambiente de aprendizagem, que não reside mais apenas na escola, mas também nos lares e nas empresas, traz novos desafios para os educadores, mais que nunca chamados a serem facilitadores e motivadores.

Como introduzir as novas tecnologias na escola, particularmente no ensino público, onde tantas outras prioridades se colocam? Estaremos aprofundando cada vez mais a clivagem social se não houver uma efetiva política que garanta o pleno acesso de to­dos às novas tecnologias. Num mundo em transformação, onde cada vez mais o computador é o veículo de transporte da mente e um instrumento essencial de traba­lho, não podemos prepa­rar as novas gerações para um mundo de su­balternidade, tanto do ponto de vista individual quanto na perspecti­va da nação.

No mundo do trabalho as coisas vão mudar bastante, também. Para quê ir até o escritório bater à máquina, se isso pode ser feito à distância, via modem? Poupando, assim, horas de deslocamento (deslocar a informação, não mais o corpo), a presença familiar mudará substancialmente. Nota-se, nas famílias que usam a telemática no tele-trabalho em casa, um resgate do ensino do ofício aos filhos. Mudanças, portanto, também no seio da família e do que entendemos por lar.

E o desemprego? Hoje, ao fazermos uma transação bancária no micro de nossa casa, estamos repassando para o usuário o trabalho que antes era feito por um funcionário. Em breve, estaremos comprando carros através de um conexão gráfica com a fábrica que, just in time, fabricará o carro que acabamos de desenhar no terminal. Novos desafios, portanto, para a sociedade. Novas formas de se repensar a distribuição de renda e assegurar o direito de todos os seres humanos à busca da felicidade – do contrário, teremos um apartheid tecnológico como nunca visto.

Você é daqueles que nem se lembra em quem votou para deputado nas últimas eleições? Que tal votar agora em um para quem você possa escrever via e-mail e que o coloque a par dos projetos, que seja, enfim, seu representante no parlamento? E o que será do Poder Executivo se cada cidadão puder ter acesso, garantido em Constituição, aos bancos de dados e fizer cruzamentos das informações obtidas? Imagine a nova participação da cidadania se cada pessoa com insônia às duas da manhã for ver como estão sendo aplicados os recursos em sua cidade… O voto será eletrônico, sem boca-de-urna, cada um em sua casa? Novas formas de manipulação da informação irão surgir, é claro, mas o pesadelo que Orwell imaginou em seu “1984” será ao contrário, pois o Big Brother estará sendo vigiado por milhões de olhos…

Um meio elitista ou uma ferramenta a ser democratizada?

01/04/1995

ABRIL 1995

Artigo veiculado na seção “Espaço aberto” da publicação Correio IMESC nº 9, de abril de 1995, como colaborador do projeto InfoDrogas do IMESC – Instituto de Medicina e de Criminologia de São Paulo.

Quando se fala em computadores na escola sempre surgem as inevitáveis menções à merenda escolar, às janelas quebradas e aos baixos salários dos professores, lembrando que “isso é para o ensino privado, que são ricos”. Sem pretender entrar nessa discussão, pelo menos neste texto, não podemos deixar de levantar que apenas com muita e da melhor tecnologia poderemos evitar uma clivagem social ainda maior entre a escola pública e a privada (ou entre o Brasil e as nações desenvolvidas). Como disse Seymour Pappert a um interlocutor: “não morda meu dedo, olhe para onde estou apontando”.

Se sindicatos, associações, clubes, organismos públicos e ONGs não “entrarem nessa”, estarão prescindindo de seu papel, numa sociedade onde a informação e o poder vão transitar, cada vez mais, nessas super “infovias”.

Ademais, devemos considerar o papel que um único computador pode ter numa comunidade ou numa escola: basta uma única pessoa acessar e depois imprimir o material, afixá-lo em murais ou reproduzi-lo, para que o efeito multiplicador seja muitas vezes superior aos meios tradicionais de circulação da informação, e mesmo mais barato.

Para que o acesso a esta nova tecnologia seja significativo do ponto de vista da educação ou formação cultural, não basta que os alunos simplesmente acessem as informações: eles precisam ter a habilidade e o desejo de utilizá-las, precisam saber relacioná-las, sintetizá-las, analisá-las e avaliá-las. Juntos, estes elementos constituem o que se pode chamar de pensamento crítico. Este aparece em cada sala de aula quando os alunos se esforçam para ir além de respostas simples, quando desafiam idéias e conclusões, quando procuram unir eventos não relacionados dentro de um entendimento coerente do mundo.

Sua aplicação mais importante está fora da sala de aula – e é para aí que a escola deve voltar seu esforço. A habilidade de pensar criticamente pouco valor tem se não for exercitada no dia-a-dia das situações da vida real. É nisso que um serviço como o Disque-Drogas Eletrônico pode fornecer interessantes subsídios para uma atividade na escola.

Claro que tudo isto não ocorre espontaneamente, e aí entra o papel do professor, encorajando os alunos a fazerem conexões com eventos externos ao mundo da sala de aula, descobrindo a ligação entre situações vividas e os conteúdos curriculares. Existem muitas táticas simples que o professor pode utilizar e que podem ser enormemente motivadoras, estimulando processos de transferência:

• Encorajar os alunos a dramatizarem papéis que tenham diferentes perspectivas, para ver a situação por outros pontos de vista.
• Elaborar vocabulários (incluindo palavras como objetivos, analogias, prioridades, conseqüências etc.) que os alunos possam usar em outras ocasiões.
• Solicitar historietas pessoais que possam servir como analogias úteis e ajudem os alunos a tomar decisões.

Esse uso do computador exige, mais que nunca, um professor preparado, dinâmico e investigativo, pois as perguntas e situações que surgem na classe fogem do controle pré-estabelecido do currículo. Essa é a parte mais difícil desta tecnologia. E esse é o papel insubstituível do professor: elaborar as estratégias que dêem significado a essa enorme e fantástica porta que se abre para o universo do conhecimento da humanidade. Sem isso, a telemática pode apenas dar asas provisórias, que se derretem ante o sol da vida do dia-a-dia, como as que levaram Ícaro de volta ao solo.

Uma cidade feita de impulsos eletrônicos

01/09/1994

SETEMBRO 1994

Artigo escrito para a revista “Superinteressante” nº 84, edição de setembro de 1994.

Um software transforma você em planejador, construtor e prefeito. Prepare-se para enfrentar as críticas da oposição.

É só apertar uma tecla e o micro recria tudo o que existe numa metrópole de verdade. E ela ganha movimento, cresce, foge ao controle do jogador. No SimCity 2000 – a nova versão de um jogo consagrado, o SimCity – é assim. Mas é muito mais divertido e mais realista, com desenhos em três dimensões, em lugar do desenho plano de seu antecessor.

O jogador tem de se esforçar para promover o crescimento econômico sem prejudicar a qualidade de vida. Realizar obras dentro do orçamento. Combater a especulação imobiliária e recolher impostos com justiça. Para quem acha pouco, existe um cardápio completo de desafios extras: incêndios, terremotos e furacões infernizam a vida do prefeito. Até invasões de extraterrestres o programa prevê para que, em nenhuma hipótese, o jogador se sinta entediado. Mas nem era preciso. Muito rapidamente fica claro que, mesmo sem as complicações adicionais, não há nada de aborrecido em administrar SimCity 2000. Confira nos quadros desta página e das seguintes. Eles dão uma idéia de como é difícil resolver os problemas que todo cidadão de carne e osso enxerga em suas cidades. Mas nunca teve de enfrentar.

Essa é uma oportunidade imperdível.

1 – Construção
O jogo começa com o terreno virgem, que é preciso limpar e terraplanar antes de começar as obras: hospitais, escolas, metrô e assim por diante. Só as residências, mais tarde, vão ser construídas pelos sims, os habitantes. O resto é responsabilidade do prefeito, de acordo com um plano previamente elaborado. Até uma estátua de si mesmo ele pode mandar erguer.

2 – Opinião pública
Más-notícias: o jornal da oposição carrega nas críticas. Fique atento para as pesquisas de opinião: se a sua popularidade cair, ataque os problemas de frente. No final, se a cidade for um lugar agradável de morar, a população e os negócios vão crescer.

3 – Subsolo
A cidade desaparece e na tela surge uma visão perfeita do sistema de água e esgoto, ou do metrô. Podem-se achar danos nos encanamentos e planejar novas obras. Sempre que for necessário, usa-se um efeito de zoom para ver detalhes ou, ao contrário, obter um panorama mais amplo do sistema todo.

4 – Números
Não perca de vista as estatísticas que aparecem em tabelas sobre a imagem da tela (ao lado, o número total de bibliotecas e de livros da cidade). Há informações de todo tipo, como índices de criminalidade e de poluição em cada bairro. O andamento do jogo depende disso: se a poluição é alta, o valor dos imóveis cai, a renda do município diminui. O prefeito fica sem verba para tocar obras ou para o serviço público.

5 – Finanças
Empresa que não paga impostos em dia, fica sem incentivos da prefeitura: com pulso firme, o prefeito pode controlar empresa por empresa por meio de tabelas detalhadas (na tela, o orçamento, com a receita de impostos). As tabelas incluem o comércio com outras cidades – indicadas num mapa à parte, com o tamanho de cada uma. A complicação aumenta com o desenvolvimento: os setores de serviço, por exemplo, logo se tornam mais importantes que os industriais e as fábricas tendem a ficar mais limpas e lucrativas.

Onde comprar

SimCity 2000 é um software da Maxis, distribuído no Brasil pela Brasoft, telefone (011) 725-3711. Custa R$ 56,00 e é compatível com micros 386 e superiores, com monitor VGA. Há também uma versão em CD-ROM com músicas e efeitos sonoros. As manchetes dos jornais, por exemplo, são lidas por atores. Nas lojas especializadas, custa entre R$ 60,00 e R$ 100,00.

Software educacional e telemática: novos recursos para a escola

01/09/1994

SETEMBRO 1994

Artigo publicado na Revista Lecionare, edição de setembro de 1994.

Com as rápidas transformações nos meios e nos modos de produção, re­sultado da revolução tecnológica e científica, estamos entrando em uma nova era da humanidade. A natureza do trabalho e a relação econômica entre as pes­soas e as nações sofrerá enormes transforma­ções, mudando a natureza do que hoje podemos entender por profis­são. Neste quadro a educação não apenas tem que se adptar às novas necessidades como, principalmente, tem que assuir um papel de ponta nesse processo.

Com o advento da micro-eletrônica e da informática, a estocagem de infor­mações (não as chamarei de conhecimento, pois este é construído no interior de cada pessoa – não se “passa” conhecimento mecânica­mente) em memórias quase infinitas, o processamento de dados em frações de minuto e a impossibili­dade, no decurso de uma vida, de acesso à cultu­ra universal são reveladores da impropriedade dos mé­todos escolares vigentes. O papel dos educadores deve ser repensado e novas estratégias na formação desses profissionais de­vem ser pre­vistas, criando na escola o ambiente para a formação de sujeitos críti­cos, dota­dos de autonomia de aprendizagem.

O computador na escola: que softwares usar?

Somando-se aos tradicionais recursos de ensino, a informática entra na escola permitindo novas concepções de ambientes de aprendizagem. Com a entrada em massa dos computa­dores nas escolas e nas casas, os programas voltados para a educação são os que mais crescem em vendas nos EUA. O chamado software educacional, no entanto, apre­senta uma variedade de tipos e de qualidade muito diversificada, indo daqueles que reproduzem maus livros didáticos até aos que criam ver­dadeiros laboratórios virtuais.

O uso da informática em educação pode ser dividido em duas aborda­gens: a informática no ensino, que visa usar os computadores para o trabalho com disciplinar como geografia, história, matemática ou por­tuguês, e o ensino da informática, que tem como objetivo capacitar as pessoas no uso de sistemas operacionais, linguagens ou no manuseio de programas específicos.

Os diversos tipos de software usados na educação podem ser classifi­cados em algumas ca­tegorias, de acordo com seus objetivos pedagógi­cos: exercitação, tutoriais, simulações, apli­cativos, jogos, linguagens e programas de autoração.

Exercitação é um tipo de programa que tem como objetivo treinar certas habilidades, como dominar o vocabulário de uma língua es­trangeira, decorar terminologia de medica­mentos, treinar a resolução de problemas matemáticos etc. Muitos desses programas aca­bam re­pro­duzindo o lado mais pobre do ensino programado, mas quando bem elaborados e usados adequadamente podem ser um excelente auxílio de treinamento.

Os programas tutoriais caracterizam-se por transmitir informações de modo pedagogica­men­te organizado, como se fossem um livro animado, um vídeo interativo ou um professor ele­trônico. É neste tipo de software que se encontram os piores programas do mercado, o que não exclui sua utilidade, quando corretamente concebidos. Bons exemplos de tutoriais são, geralmente, os que acompanham aplicati­vos comerciais, como o Excel, WinWord etc.

Chamam-se aplicativos os programas voltados para aplicações es­pecíficas, como Proces­sadores de Texto, Planilhas Eletrônicas e Gerenciadores de Bancos de Dados. Embora não tenham sido propri­amente desenvolvidos para uso educacional, permitem in­te­ressantes usos em matérias tão diferentes quanto português, geografia ou bio­logia.

Utilizadas para o desenvolvimento de programas, as linguagens de computador, como o Basic ou Pascal, também podem ser interessan­tes como estímulo à atividade de organiza­ção das idéias, possibili­tando um rico ambiente cognitivo. Com essa finalidade destaca-se, po­rém, a linguagem Logo – desenvolvida por Seymour Papert no MIT, utilizando conceitos de Piaget. O Logo tem sido muito utilizado nas escolas e surge agora com uma interface com a robótica, o Lego Logo, voltado para o comando programado de pequenos aparelhos e má­quinas construídas pelos alunos.

Extensão avançada das linguagens de programação, os softwares de autoração permitem que pessoas, professores ou alunos, criem seus próprios protótipos de programas, sem que tenham que possuir co­nhecimentos avançados de programação. A maioria destes sis­temas facilita o desenvolvimento de apresentações multimídia, envolvendo textos, gráfi­cos, sons e animações, tais como o Toolbook ou o Visual Basic (este um híbrido de lin­guagem de pro­gramação e siste­ma de autoria).

Os jogos, geralmente desenvolvidos com a única finalidade de lazer, podem permitir inte­res­san­tes usos educacionais, principalmente se integrados a outras atividades. Dois exemplos de jogos que permitem a criação de interessantes contextos de aprendizagem são a série Where is Carmen Sandiego (para geografia e história) e SimCity (urbanismo e meio-ambiente). Ambos pos­suem capacidade de utiliza­ção ao longo de várias aulas, rico material de apoio, possibilidade de integração com outras mídias (vídeos, desenhos, reda­ções) e permitem ativi­dades multidisciplina­res envolvendo professores de di­versas áreas.

Finalmente, as simulações são o ponto forte do uso de computador na escola, pois pos­sibili­tam a vivência de situações difíceis ou até perigosas de serem reproduzidas em aula – per­mitindo desde a rea­lização de experiências químicas ou de balística, dissecação de cadá­ve­res, até a criação de plane­tas e viagens na história.

Num mundo onde a informação e o conhecimento são, cada vez mais, a principal fonte de trans­formações da sociedade, torna-se obrigatório usar as novas tecnologias também na educação. Não basta, como no modelo vigente até hoje na educação, que os alunos sim­plesmente se lem­brem das informações: eles precisam ter a habilidade e o desejo de utilizá-las, precisam saber relacioná-las, sintetizá-las, analisá-las e avaliá-las. Juntos, estes ele­mentos constituem o que se pode chamar de pensamento crítico. Este aparece em cada sala de aula quando os alunos se esforçam para ir além de respostas simples, quando desafi­am idéias e conclusões, quando procu­ram unir eventos não relaciona­dos dentro de um entendi­mento coerente do mundo. Mas sua apli­cação mais importante está fora da sala de aula — e é para lá que a escola deve voltar seu esfor­ço. A habilidade de pensar criticamente pouco valor tem se não for exercitada no dia-a-dia das si­tuações da vida real. É aí que as simula­ções, feitas em computador ou não, têm seu papel, forne­cendo o cenário para interessantes aventuras do intelecto.

O uso dos computadores na escola tem sido feito geralmente através de laboratórios com di­ver­sas máquinas, mas torna-se cada dia maior a tendência de entrar com o micro na sala de aula – projetando-se sua imagem numa grande tela, com o auxílio de um projetor de cristal lí­quido que reproduz o monitor do micro.

Este modelo não é novo nem desconhecido. Tom Snyder é um profes­sor americano que se espe­cializou em desenvolver ambientes interati­vos com o uso de softwares de simulação vol­ta­dos para o uso de um único computador por classe, sempre procurando trabalhar com o des­envolvimento do pensamento crítico na sala de aula. Hoje a Tom Snyder Productions possui dezenas se “groupwares” em seu catálogo – quase todos para as áreas de estudos sociais – agrupados nas séri­es Decisons Decisions, Smart Choices e outras.

Telemática: superando os muros da sala de aula

Outro aspecto do uso da informática na educação é a chamada telemá­tica – neologismo re­sultante do cruza­mento da informática com as tele­comunicações. Hoje qualquer ponto do planeta está literal­mente ligado à rede mundial de informações, através da Internet, numa operação que não requer prática, em poucos segundos e com baixíssimo custo.

Uma das siglas mais utilizadas no novo jargão é BBS – do inglês Bulletin Board System – e que poderíamos traduzir como “Sistema de Quadro de Mensagens”. Ou seja, um sistema para troca de mensagens entre indivíduos, grupos e de acesso a publicações eletrônicas e ba­ses de dados remotas.

Para acessar uma BBS não são necessários computadores de última ge­ração, qualquer mi­cro pode ser conectado. Basta dispor de:

• Um computador, que pode ser inclusive um velho XT monocromático;
• Uma linha telefônica (não precisa ser dedicada, pode até ser um ra­mal);
• Um modem – aparelho que converte os sinais do micro para a linha telefônica e, na outra pon­ta, volta a reinterpretá-los (o nome vem de “modulador-demodulador”).
• Um software específico (existem vários no mercado, alguns inclusive de livre distribuição) para gerenciar a comunicação.

O próprio micro, através do modem, faz a li­gação através de discagem na linha telefônica e emite um sinal quando a ligação é completada, para alertar o usuário. Calcula-se que nos EUA existam mais de 40 mil BBS de todos os tipos, mas são apenas al­gumas centenas as que possuem cariz mais profissional. No Brasil já existem cerca de 200 BBS, quase todas amadorísticas e com uma única linha telefônica – o que impede o acesso simultâneo de mais do que um usuário de cada vez, limitando muito seu uso e fazendo com que muitos desistam de novos acessos ao encontrar a linha sempre ocupada.

Em São Paulo, diversas empresas optaram por montar BBS inteira­mente própria, como é o caso de O Estado de São Paulo e da Livraria Cultura. Qualquer pessoa pode se conectar a essas BBS gratuita­mente. O telefone da BBS Estadão é 266-4144 e da BBS Cultura é 285-6272 – mas esses telefones somente permitem conexão através de modem, não se deve li­gar para eles para tentar falar “via voz”.

Algumas BBS de interesse geral – que funcionam como um clube onde se reúnem amigos, neste caso à distância, para conversar e trocar programas – começam a surgir de forma pro­fissional, contando com diversas linhas telefônicas e milhares de usuários. Em São Paulo, o Canal Vip, a maior e mais antiga BBS em funcionamento no Brasil, montou um sistema múl­tiplo, que engloba outras BBS específicas de empresas e instituições (como a Fiesp, o Senac, o Unibanco ou a PUC). O Canal Vip possui diversos setores de acesso público dividi­dos por área de interesse, chamados de “conferências”. Abrangendo diversos temas, elas permitem que os usuários deixem mensagens públicas, para leitura e debate dos demais, e incluem diversas áreas, como Educação, Windows, Medicina, Direito, Internet, Música e mui­tas outras.

A telemática traz um inovador potencial para os educadores. Afinal, a principal tecnologia educa­cional de qualquer sistema educacional reside na formação de seus professores. A troca de idéi­as com outros educa­dores, a nível nacional e internacional, a pesquisa em ban­cos de da­dos, a assinatura de revistas eletrônicas e o compartilhamento de ex­periências em comum dão um novo significado à atividade docente. Existem diversos grupos de interesse que discutem a educação e pro­jetos concretos e que reúnem, através de todo o planeta, educadores de diversas áreas e paí­ses.

Um dos usos mais ricos e inovadores da informática na educação é sua utilização como ins­tru­mento de comunicação, colocando em contacto alunos e professores de diferentes cida­des e paí­ses, de diferentes culturas e línguas, trocando mensagens, desenvolvendo projetos co­muns ou acessando bancos de dados.

As possibilidades de utilização da telemática na educação são inúmeras e permitem projetos em todas as disciplinas do currículo, ou, mais ainda, envolvendo conteúdos interdisciplina­res. Para ilustrar isso, vejamos alguns exemplos de possíveis utilizações:

• Diversos projetos podem ser feitos na área de geografia, baseados na troca de mensa­gens com diversos países. Os alunos passam a ter uma motivação bastante real em co­nhecer onde se situa o pais de seu interlocutor, quais suas características, e a pesquisa de mais in­forma­ções pode se dar através da troca de mensagens – com os alunos pergun­tando a seus interlo­cutores acerca de seu pais e in­formando-os acerca do Brasil (com isso terão necessi­dade de pes­quisar e sistematizar seus conhecimentos sobre seu pró­prio pais: a melhor forma de apren­der é ter que ensinar).

• O ensino de línguas estrangeiras tem, no que poderia ser um obs­táculo à comunicação, um excelente background para promover a aprendizagem. Comunicar-se em outra língua leva ao seu aprendiza­do de modo natural, sem as dificuldades que geralmente se obser­vam no seu ensino. Os erros e mal-entendidos das mensagens serão comentados pelos próprios missis­si­vistas, ca­bendo ao professor o papel de facilitador desse processo.
• Na própria língua portuguesa se observam notáveis avanços com o uso deste recurso, pois a atividade de escrever adquire um novo significado para as crianças (e mesmo adul­tos). No seu dia-a-dia os alunos não precisam da escrita para se comunicar com ninguém, basta-lhes usar o verbo e a gestuália. Na troca de mensagens com parceiros “invisíveis” o único instru­mento é a escrita. Você “vê” seu interlocutor pelo que ele escreve; você sabe que como es­crever é como ele também o verá. Isso leva a uma associação muito produ­tiva e estimulante entre a auto-esti­ma e a procura do bem-escre­ver. Obriga a uma siste­matização dos pensa­mentos e argumentos que tem reflexos muito mais profundos na for­mação do que a mera tro­ca de men­sagens pode­ria supor.

• Experiências cientificas desenvolvidas em conjunto, através da troca de informações e dados de pesquisa, tem revelado um potencial cognitivo e motivador muito promissor. A observação e reflexão de fenômenos científicos adquire um novo significado quando tais coi­sas devem ser transmitidas e e cruzadas com parceiros remotos. O que poderiam ser exigências “chatas” do professor, passam a ser elementos fundamentais da comunicação, vitais para a ação conjunta no projeto. Projetos que mesclam esta atividade com pesquisa em campo (poluição de rios, por exemplo) tem se revelado muito pro­missores.

Além do uso com e pelos alunos, a telemática também traz um inovador potencial para os educa­dores. Afinal, a principal tecnologia educacio­nal de qualquer sistema educacional resi­de na for­mação de seus pro­fessores. A troca de idéias com outros educadores, a nível naci­onal e interna­cional, a pesquisa em bancos de dados, a assinatura de revis­tas eletrônicas e o compartilhamen­to de experiências em comum dão um novo significado à atividade docente.

Existem diversos grupos de interesse que discutem a educação e pro­jetos concretos e que reú­nem, através de todo o planeta, educadores de diversas áreas e países. Um dos projetos mais in­teressantes nessa área foi criado por Odd de Presno em 1991, o KIDLINK, que con­siste em promover a troca de mensagens e o diálogo en­tre jovens de 10 a 15 anos de todo o planeta. Até agora o projeto já contou com a parti­cipação de cerca de 10.000 jovens de 50 países, em todos os continen­tes.

A entrada do jovem no projeto se dá através de mensagem em respos­ta a quatro perguntas bási­cas: 1) Quem sou eu? 2) O que eu quero ser quando crescer? 3) Como eu quero que o mundo seja melhor quando eu crescer? 4) O que eu posso fazer agora para que isso aconte­ça? Desde o final de 1993, entrou em funcionamento um “ponto de encontro” de jovens de língua portuguesa – o que veio facilitar a participação de estudantes do Brasil, Portugal e dos países africanos de expressão portuguesa.

Essa experiência expandiu-se e hoje existem várias ramificações es­pecíficas e subprojetos, alguns reunindo professores em torno da dis­cussão de novas metodologias, outros promo­vendo a troca de arquivos binários entre crianças, com desenhos ou sons produzidos por elas, através do Internet.

Como instrumento de comunicação, seja para difusão de comunicados de cunho administra­tivo, avisos de realização de eventos, cursos e outras programações, a BBS também permite a edição do que hoje se está chamando de jornalismo digital. Boletins, jornais e revistas ele­trônicos possu­em uma série de características que, embora sem jamais esgotar com as mí­dias tradicionais, tor­nam obrigatório seu uso nos di­as de hoje. O potencial para gerar ativida­des interdisciplinares base­adas na produção de materiais editoriais vem, finalmente, viabili­zar a produção de jornais e boletins na escola.

Como introduzir as novas tecnologias na escola, particularmente no ensino público, onde tantas outras prioridades se colocam? A nosso ver, todas as questões devem ser resolvidas integralmente (qualidade total na escola também!), não devendo os baixos salários, as janelas quebradas ou a falta de merenda justificar o atraso tecnológico. Do contrário, com a entrada em larga escala do computador e das teleco­municações na escola particular, estaremos aprofundando cada vez mais a clivagem social entre os alunos daquela e os da escola pública se não houver uma efetiva política que garanta o pleno acesso de to­dos às novas tecnologias.

Num mundo em transformação, onde cada vez mais o computador é o veículo de transporte da mente e um instrumento essencial de traba­lho, não podemos prepa­rar as novas gerações para um mundo de su­balternidade, tanto do ponto de vista individual quanto na perspecti­va da nação. Ademais, não poderá ser este instrumento de comunica­ção, sem limites de fronteira, uma efetiva ferramenta na mão do pro­fessor para a promoção de ambientes interativos de aprendizagem, formação de mentes pesquisadoras, indagadoras, críticas e criativas?

O novo mundo da realidade virtual

16/05/1994

MAIO 1994

Artigo escrito para a revista “Superinteressante” nº 80, edição de maio de 1994.

O avanço da informática criou novos universos, que permitem a qualquer pessoa a sensação de viajar ou praticar esportes dentro do computador.

Em seu livro “Terra Insólita”, Clifford Simak imaginava, há quarenta anos, comunicações por holografia interativa, computadores caseiros com interface vocal e uma série de outras idéias que, naquele tempo, pareciam mais fantasia do que previsão científica ou possibilidade tecnológica. O personagem central do livro comunica-se com sua casa solicitando ao computador que coloque na sala a paisagem que deseja ver na parede e a música que gosta de ouvir, ao mesmo tempo que a cozinha indaga suas preferências para o jantar.

Logo depois, joga xadrez com um amigo que está em outro planeta, mas os dois se vêem como se estivessem frente a frente. Ainda não dispomos de tecnologia para realizar o que a pena de Simak escreveu, mas sabemos que falta muito pouco tempo para que isso se torne verdade.

Já foi desenvolvido, nos Estados Unidos, um sistema de interação com a tela do micro que permite a rolagem das linhas do texto por meio do movimento dos olhos. Pode-se também trabalhar com programas gráficos onde o usuário controla um “lápis” na tela do micro deslocando-o com os olhos: levanta-o e o apóia no “papel” com uma piscada. Uma minúscula câmera de vídeo, embutida sob o monitor, capta os movimentos da pupila e passa a informação para o programa que gerência as coordenadas da tela.

A expressão “falar com os seus botões” pode adquirir um significado inusitado, com o aperfeiçoamento das interfaces de voz. Em um minuto, uma pessoa fala 200 palavras, mas não consegue digitar mais do que sessenta. O uso do computador na escuridão total torna-se possível. Com o comando de voz, as mãos ficam livres para outras tarefas, tornando possível, por exemplo, escrever enquanto se dirige um carro.

Mas é na simulação da vivência em ambientes tridimensionais, como se o usuário estivesse presente neles, que se concretiza o conceito de realidade virtual. Ainda no terreno de experiências, já existem e funcionam diversas interfaces em 3D na NASA, em laboratórios da Nintendo e na indústria de produtos para desenho industrial.

A Nintendo criou a sua PowerGlove, uma luva que controla os movimentos na tela, através de sensores que captam todos os gestos da mão. A SimGraphics Engineering produz o FlyingMouse, um mouse que detecta qualquer posição onde esteja, e não apenas sobre um tapetinho bidimensional. A NASA, com o projeto VIEW (Virtual Interface Environment Workstation – estação de trabalho em ambiente de interface virtual), desenvolveu um visor que, colocado sobre o rosto, permite visão estereoscópica, com suas imagens controladas pela voz do usuário e por luvas e sensores que registram os movimentos da cabeça, dos olhos, pernas e mãos.

Embora tais sistemas já existam, seu custo ainda não torna viável pensar em substituir teclado e mouse a curto prazo, mas já estão mudando significativamente a vida de pessoas tetraplégicas ou portadoras de paralisia cerebral.

Esse parece ser o grande salto de qualidade das novas tecnologias rumo à realidade virtual: enquanto para a maioria das pessoas podem não passar de maior comodidade ou diversão, para os deficientes físicos elas trarão uma nova interação com o mundo – não apenas permitindo o controle das luzes de seu próprio quarto, por exemplo, mas simulando atividades para eles impossíveis, como participar de uma corrida de velocidade, nadar ou jogar tênis. Aprender sobre o hardware de um computador vendo seus componentes e sua “vida” interna, como no filme Tron, estudar a arquitetura de um edifício passeando dentro dele, viajar a outros países ou épocas sem sair do lugar, planejar uma cirurgia antes de sua realização são algumas das possibilidades que podem ajudar a transformar a educação, a técnica e a ciência – além das atrações no campo do lazer e da diversão.