Archive for the ‘Entrevistas’ Category

Acessar o virtual: um direito real

17/06/2007

JUNHO 2007

Trecho de entrevista concedida à Revista do Itaú Cultural de junho de 2007

Seriam mais 20 rotineiros minutos para Shirlei da Silva. Ela verificaria os e-mails, se corresponderia com as amigas de Nova Iguaçu – sua cidade natal -, faria suas pesquisas nos buscadores virtuais, visitaria os sites de sempre; tudo nos 20 minutos estipulados para navegar pela rede virtual em um dos postos públicos de acesso à internet, localizado no Poupatempo Santo Amaro, na capital paulista. O que Shirlei não poderia imaginar era que, naquele dia de maio de 2006, o trivial acesso à internet mudaria sua vida. Ao entrar em um site de relacionamentos, a carioca, de 27 anos, deparou com um nome muito familiar: o nome da irmã de quem não recebia notícias havia 21 anos, desde que os pais se separaram no Rio de Janeiro.

A história de Shirlei é um exemplo de como a internet é capaz de expandir redes sociais, além de proporcionar reencontros inusitados. “Por causa da internet eu pude reencontrar várias amigas que não via fazia tempo, e graças a ela eu também pude achar minha irmã”, explica. Porém, ainda são poucos os brasileiros que têm a oportunidade de acessar a grande rede virtual. Segundo pesquisa divulgada em abril pelo Ibope, 25 milhões de pessoas moram em domicílios com ao menos um computador conectado à web, e 32,9 milhões conseguem acessá-la em outros locais, como escolas ou universidades, por exemplo. É um número relativamente baixo, levando em conta a população nacional, mas que poderia ser menor não fossem as iniciativas que visam à inclusão digital. Em São Paulo, o programa de maior abrangência é o Acessa SP, uma parceria da Escola do Futuro, da Universidade de São Paulo, com o Governo do Estado.

O primeiro clique

Com mais de 1,1 milhão de cadastrados, o Acessa SP atende a quase 400 municípios paulistas por meio dos Postos Públicos com Acesso à Internet, os chamados Popais. Foi por um desses postos que Shirlei pôde reencontrar sua irmã. “Eu sempre ouvia falar em site, e-mail, chats, Orkut, então resolvi me cadastrar no posto do Acessa”, explica. “Só precisei mostrar o RG e um comprovante de residência e no mesmo dia já podia usar o computador.” Assim como Shirlei, milhares de pessoas nunca haviam acessado a internet antes de conhecer o programa de inclusão digital. Para Hernani Dimantas, coordenador do Laboratório de Inclusão Digital e Educação Comunitária (Lidec), da Escola do Futuro, a responsabilidade de manter trabalhos de inclusão nessa área é grande. “Para 60% dos cadastrados no Acessa SP, esse é o primeiro contato que se tem com a web”, afirma. “Nossa intenção é que a pessoa entenda a internet e se aproprie dela; nós fornecemos os links para isso.”

Dentre as instituições que fazem parte do programa Acessa SP, está a Associação de Deficientes Visuais e Amigos (Adeva), voltada exclusivamente para deficientes visuais. Para Markiano Charan Filho, diretor-presidente da instituição, a internet e a tecnologia em geral facilitaram a vida do deficiente visual. “A internet abriu muitos caminhos para nós, tem coisas que só dá para fazer pela internet, como verificar extratos bancários.” Os computadores da associação são equipados com softwares que fazem a leitura de alguns sites. Como em todos os outros postos do Acessa SP, a Adeva também possui seus monitores. Francisco Alves Batista, que aos 17 anos perdeu a visão, ensina há oito anos outros deficientes a usar o computador. “Há a diferença entre os alunos quanto à questão visual, alguns ainda têm o resíduo visual”, explica. “Já determinados alunos nunca viram a seta do mouse.”

Inclusão digital, inclusão social

Fora do estado de São Paulo, existem outros programas bem-sucedidos de inclusão digital. São os casos do Identidade Digital, na Bahia, que já conta com mais de 300 mil cadastrados, e dos programas realizados pelo Centro de Tecnologia da Informação e Comunicação do Estado do Rio de Janeiro (Proderj). Ainda não há um número exato de quantas pessoas são atendidas no Brasil por esse tipo de programa. De acordo com Carlos Seabra, diretor de tecnologia e projetos do Instituto de Pesquisas e Projetos Sociais e Tecnológicos (IPSO), primeiro é preciso definir o que é inclusão digital. “Não basta colocar uma pessoa de baixa renda na frente do computador para fazer inclusão digital”, afirma. “É preciso ensiná-la, mostrar os caminhos a seguir; a inclusão digital deve ser também inclusão social.” Outro ponto levantado por Seabra é a conexão à rede virtual. “Não se deve confundir inclusão digital com aula de informática. A internet hoje é obrigação. Ter um computador que não está conectado é como ter um carro sem estrada”, explica. Segundo o diretor de tecnologia do Ipso, o acesso promovido pelas iniciativas de inclusão digital deve ser público ou deve ser cobrada uma quantia simbólica destinada à manutenção do serviço. “Se cobrar e o dinheiro for usado para outro fim, chame isso de lan house ou cibercafé, e não de centro de inclusão digital.” Seabra é também consultor de projetos relacionados à educação a distância, modelo de ensino mediado por aparatos tecnológicos, como a internet, e estruturado em recursos multimídia. “Com a educação a distância, uma aula que era dada para 50 alunos pode ser dada para 5 mil”, afirma (veja box).

Apesar de todos os avanços proporcionados pelos programas de inclusão digital, o Brasil ainda precisa percorrer um longo caminho. Em pesquisa realizada pelo Comitê Gestor de Internet (CGI), ficou constatado que 67% dos brasileiros nunca acessaram a rede. Drica Guzzi, coordenadora do Lidec, acredita que, além de enriquecer o capital social dos usuários, a internet deve ser uma opção para todos. “Não digo que a internet seja algo essencial à vida, pois muitos vivem bem sem ela”, diz. “Mas todos devem ter o poder de escolher se querem acessar ou não; inclusão digital é, antes de tudo, um direito.” Um direito que Shirlei conseguiu aproveitar. Hoje, as duas irmãs se falam tanto pessoal quanto – como não poderia deixar de ser – virtualmente.

A educação segundo a internet

De acordo com o diretor de tecnologia e projetos do IPSO, Carlos Seabra, os aparatos tecnológicos podem ser a solução para a educação, mas também podem se tornar um grande problema. “Com a tecnologia na mão de um bom professor, mais gente pode aprender. Na mão de um mau professor, mais gente pode se prejudicar.” O raciocínio de Seabra está ligado à questão da formação do educador e sua nova relação com o educando. “O computador evidencia o despreparo de quem ensina e coloca em xeque o modelo hierárquico da escola; o aluno se torna cada vez mais o protagonista.” Para Seabra, o professor, além de ser mal remunerado, não recebe a formação adequada. “Coloca-se o computador na escola, para os alunos, mas antes não se coloca um computador na casa do professor.”

Apesar dos desafios, a educação a distância é um dos projetos que podem gerar mudanças positivas no sistema de ensino. Trata-se de um sistema no qual há separação no tempo e no espaço entre alunos e professores, e a comunicação é mediada por alguma forma de tecnologia. Segundo Seabra, o correto seria chamá-la de aprendizagem em rede. “A educação a distância é feita sob uma concepção hidráulica, em que se colocam uns canos e se transmite a água. Conhecimento não é água, não dá para transmitir hidraulicamente. Devem-se transmitir dados e fazer com que a informação seja absorvida, trocada e produzida.”

Para haver essa transmissão de dados, no entanto, é necessário criar um sistema de ensino virtual de boa qualidade. Para tanto, necessita-se de uma infra-estrutura que compreende redatores, revisores, fotógrafos, designers e recursos multimídias. “Além disso tudo, exige-se mais atenção do professor para que ele compreenda melhor a problemática e os mecanismos cognitivos do aluno.” Seabra acredita que jogos, simulações e comunidades virtuais são os ambientes ideais para aprendizagem em rede. “A educação tem de ser cada vez mais lúdica”, afirma.

Tecnologia pode transformar a educação

27/02/2007

FEVEREIRO 2007

Entrevista dada a Julia Dietrich para o website Aprendiz, em 27 de fevereiro de 2007.

Do mundo industrial ao ambiente privado, certamente não há como negar a onipresença da tecnologia na sociedade contemporânea. Na comunicação é impossível pensar na ausência da internet, enquanto na arquitetura softwares de programação gráfica tornaram-se indispensáveis. Mas, na educação – em especial na rede pública – as novas mídias e adventos tecnológicos continuam sem espaço e metodologia capazes de ampará-los.

Para o editor multimídia e consultor de tecnologia educacional e redes sociais, Carlos Seabra, é fundamental pontuar esses novos instrumentos técnicos como possível alavanca para repensar e transformar o próprio sistema educacional que pouco mudou nos últimos séculos.

“Não adianta substituir o quadro negro pelo powerpoint e também não faz sentido um curso de excel que termine em si mesmo. A tecnologia não deve reforçar as atuais práticas de ensino e sim questionar o papel do educador, a forma de educar e até o conteúdo ensinado”, diz.

Segundo o consultor, a técnica voltada para si mesma torna-se dispensável, insistindo que o produto final transforme-se, ele sim, em algo independente. “Aulas de word só devem existir se o objeto a ser problematizado for, por exemplo, a redação. Ninguém fez curso de lápis para poder escrever”, brinca Seabra que cita o personagem Robinson Crusoé como exemplo. “Sem artefatos na ilha, ele foi capaz de pensar e criar soluções para resolver seus problemas. Tecnologia não está no instrumento e sim na cabeça da pessoa”.

Analice Moura Inácio, mãe dos estudantes do colégio particular Nossa Senhora das Graças da cidade de São Paulo, conta que se surpreendeu ao ver indicada a compra de um pen-drive na lista do material escolar de Frederico, de 11 anos, aluno da 6ª série do ensino fundamental.

“Decidimos esperar para ver qual a real necessidade do aparelho. E, se for realmente necessário, então o compraremos”, diz a mãe que vê, mesmo assim, a inserção tecnológica no ambiente escolar como ação bastante positiva. “É impensável que eles não trabalhem com algo que estará completamente inserido em suas vidas”, observa.

Seabra ressalta que os artefatos podem vir a ser poderosos instrumentos para transformar o próprio espaço físico da sala de aula. “Com uma tarefa a ser transportada num pendrive ou consultada na Intranet da instituição, os estudantes acabam envolvendo suas famílias e até, comunidades, expandindo o espaço das salas de aula e colonizando outros lugares, normalmente, considerados externos ao ambiente escolar”, observa.

“Acho engraçado muitos educadores condenarem a presença de computadores nas bibliotecas, acusando o tecnológico de substituir as outras atividades escolares. Porém, é impressionante ver que, ao esperar pela vaga para utilizar o computador, muitos jovens passaram a ler mais, pela própria convivência no espaço da biblioteca. O problema não está nos artefatos e sim no sistema”, diz ele que insiste na importância da internet como ponte de diálogo com o mundo, na busca e na problematização de informações.

Segundo o consultor, “a má capacitação dos professores, associada ao próprio desconhecimento de um plano tecnológico fazem com que programas muitas vezes desnecessários ou obsoletos substituam artefatos simples como a própria internet”, aponta.

Seabra insiste também que a capacitação dos profissionais deve estar diretamente associada ao questionamento do modelo educacional brasileiro. “O computador é brilhante pois dá um feedback imediato ao professor, que pode repensar suas aulas a partir da relação com os estudantes. Não existe capacitação prévia. Ela deve vir de acordo com as demandas do processo, ao longo da proposição e da finalidade de determinados projetos”, acredita.

Para ele, é necessário entender que a tecnologia pressupõe um tripé interligado, conectando o equipamento, o software e as pessoas que o utilizam. “Muitas vezes, em vez dos softwares de geografia – que na maioria das vezes são muito pobres -, os jogos podem ser utilizados. Eles possibilitam um novo mundo de oportunidades de ensino, promovendo o lúdico e a integração”, observa.

Seabra pontua ainda que novas mídias são instrumentos fundamentais para discutir a forma de ensinar e o trabalho do próprio conteúdo acadêmico. “Porque não, por exemplo, fazer com que os alunos criem e alimentem um blog como atividade interdisciplinar? Eles teriam que congregar suas pesquisas em diferentes assuntos, questionar o espaço coletivo e público do meio virtual e exercitar o raciocínio técnico necessário para construir os textos e confeccionar o produto final”, sugere.

Preocupada com a discussão do espaço público dos meios virtuais, Analice Inácio muitas vezes participa de atividades na internet e jogos para observar e, ao mesmo tempo, interagir com seus filhos. “Não os policio de forma rígida. Busco observar aquilo que meus filhos acessam, participando das suas atividades”, afirma.

Com objetivo similar, a empresa Microsoft desenvolveu o site Navegue Protegido que oferece, de forma sucinta, dicas para pais, professores, jovens e adultos como utilizar a internet de forma segura na escola, no trabalho e em casa. Nele são indicados ainda links de páginas com conteúdos próprios para diferentes faixas etárias e que podem promover a integração familiar no uso de ferramentas tecnológicas.

“Acredito que é preciso sim estimular as atividades tecnológicas na escola, mas busco determinar um tempo de uso diário do computador, televisão e videogame para que eles não deixem de brincar, praticar esportes, ler e realizar atividades externas ao espaço virtual”, diz a mãe de Fred que se vê bastante recompensada por ter suas regras cumpridas mesmo na sua ausência.

Entusiasta do ensino público, Seabra vê que o investimento financeiro das escolas particulares na área tecnológica, embora diretamente associados à disputa mercadológica e ao marketing, serve muitas vezes para pontuar como é grande a defasagem entre os dois sistemas. “Se bem pensada e elaborada de acordo com seus espaços e necessidades, a tecnologia pode servir muito positivamente à sociedade ou então, só veremos aumentar o estágio em que nos encontramos de apartheid tecnológico entre as classes sociais do país”.

Seria o mesmo que cada lápis comprado tivesse que ser cadastrado

01/11/2006

Entrevista feita por Iberê Thenório para o site Repórter Brasil em 14 de novembro de 2006 e republicado pela Agência Carta Maior e reproduzido em outros sites.

Para especialista em inclusão digital, dispositivos do projeto de lei para a segurança na internet invertem os valores republicanos e aumentam o controle do estado sobre o cidadão, quando haveria a necessidade de promover o contrário.

Na última terça-feira foi retirado da pauta de votação do Senado o projeto de lei que regulamenta os crimes da internet. Depois de muita polêmica, ficou destacada a necessidade de maior discussão da sociedade a respeito do assunto, inclusive através de uma audiência pública.

No projeto de lei, cuja última redação foi dada pelo senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), estão previstas medidas como a necessidade de o usuário se cadastrar junto ao provedor de internet através do fornecimento de dados pessoais – passíveis de verificação – como data de nascimento, nome completo e endereço. A identificação do usuário teria que ser realizada a cada acesso.

A responsabilidade por esses dados ficaria a cargo dos provedores, sendo que a lei prevê pena de prisão – de dois a quatro anos – àqueles que permitirem “acesso indevido”. Para o consultor jurídico do Ministério da Comunicação, Marcelo Bechara, o projeto “atesta contra a inclusão digital”. Entre as questões polêmicas levantadas está a sugestão de Azeredo de responsabliizar os professores pelo o que seus alunos fizerem na Internet dentro da escola.

Em reunião para discutir o assunto, realizada nesta terça-feira (14) na Câmara dos Deputados, Azeredo admitiu a possibilidade de retirar de seu projeto o item que trata da obrigatoriedade de identificação dos usuários da rede.

Para discutir as possíveis conseqüências da identificação obrigatória, contida no projeto de lei na inclusão digital, a Repórter Brasil entrevistou o pesquisador Carlos Seabra, que é diretor do Instituto de Pesquisas e Projetos Sociais e Tecnológicos (IPSO) e coordenador do Ponto de Cultura Vila Buarque e membro da coordenação do Movimento Humanismo e Democracia (MHD).

Repórter Brasil – Esse projeto pode atrapalhar a inclusão digital?

Carlos Seabra – Acho que isso é pouco, pois a ameaça é muito, muito maior! Atrás desse cerceamento da liberdade, através de medidas aparentemente destinadas a preservar a lei e garantir a segurança, há uma perigosa invasão da privacidade. Hoje só é possível imaginar a democracia com todos podendo vigiar os impérios de comunicação, grandes conglomerados financeiros, aparelhos do Estado… Se há leis a serem promulgadas são as que nos ajudem a controlar a excessiva falta de controle que a cidadania possui sobre tais poderes. Esse projeto de lei é uma grave inversão de valores republicanos, agravada imensamente pelo fator de amplificação que as novas tecnologias permitem.

Que tipo de conseqüências o projeto de lei pode trazer para os infocentros e outras iniciativas semelhantes, ao exigir a identificação toda vez que alguém entrar na internet?

Seria o mesmo que cada lápis comprado nesta país tivesse que ser cadastrado e a identidade de seu comprador registrada, juntamente com o consumo de borrachas e papel. Afinal, não é segredo para ninguém que quase 100% dos crimes financeiros, planejamento de assaltos a bancos e centralização do tráfico de drogas usam estas ferramentas de escrita e comunicação! Num país onde não se descobre o que acontece com milhões de reais de dossiês, de privatizações – sem falar nos celulares nas cadeias – é cômico e revoltante pensar em penalizar os professores pelo que seus alunos façam! Imaginem se fossemos controlar os lápis, não seria mais fácil os professores os abolirem das escolas para não terem problemas? Telecentros, escolas, empresas, residências, todos seriam afetados. É importantíssimo perseguir e prevenir o crime, mormente o organizado, e até os pequenos crimes. Mas quando medidas totalitárias (e ineficazes) colocam a prevenção ao crime acima das liberdades, toda a sociedade paga um preço muito maior.

Basta olhar o que ocorre com a inepta política de segurança nos EUA que, ao acabar com históricas conquistas da democracia daquele país, aumentou o que dizia querer combater, numa escalada que nos trouxe até a justificativa de campos de concentração, de julgamentos secretos e da tortura.

Em pesquisa recém-divulgada, o Comitê Gestor da Internet no Brasil informa que 67% dos brasileiros nunca utilizaram a internet. O motivo deles não acessarem a rede seria, para 50,64%, não saber usar computador, enquanto 22,40% não têm habilidade com a internet. O projeto de lei poderia piorar essa situação? A iniciativa da criação dessa lei no Brasil segue alguma tendência mundial para o controle da Internet?

Sem dúvida poderia piorar. Se não fosse inacreditável achar que tal lei poderia ser aprovada, ainda assim nos resta a certeza que seria mais uma das leis a “não pegar”. Não pegaria porque é praticamente impossível tal controle e porque os setores organizados da sociedade, e até mesmo o que não o são, promoveriam uma desobediência civil raras vezes vista. Os grandes exemplos de controle da internet vêm atualmente do Irã, da China, da Coréia do Norte, de forma mais tosca e diretamente visível. Mas vêm mais ainda dos EUA, do Reino Unido, de forma tecnologicamente mais sofisticada, menos perceptivel, com a “arapongagem” dos bytes feita por inteligência artificial, controle estatístico e lógico de ocorrência de palavras-chave etc.

Qual é a melhor forma para lidar com os crimes da internet? Você acredita ser necessário novas leis a respeito?

Um projeto de lei como este tem, obviamente, seus pontos meritórios. Tem seus aspectos positivos e exige-se medidas que atendam a algumas das demandas que os legisladores procuraram atender. Mais do que novas leis, no entanto, é necessário aplicarem-se as leis que já existem. Afinal, o que temos de novo além de crimes de difamação, de pedofilia, de estelionato?. O que se critica é o modo ineficaz, tosco, autoritário e perigoso de levar isso a cabo.

Concluo citando um poema de Eduardo Alves da Costa, atribuído errôneamente por muitos a Brecht, que mostra o perigo de irmos tolerando as pequenas perdas de nossa liberdade:

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

·


·

Um telefone na mão e uma idéia na cabeça

01/10/2006

OUTUBRO 2006

Reportagem de João Luiz Marcondes na Revista A Rede nº 18, de setembro de 2006.

Ponto de cultura da Vila Buarque promove oficinas de filmes de bolso, com imagens capturadas por celulares ou baixadas da internet.

O Ponto de Cultura da Vila Buarque, na região central de São Paulo, criou uma oficina de filmes de bolso. De olho no interesse dos jovens por seus telefones móveis, e outras máquinas registradoras onipresentes, quer fomentar a produção de pequenos vídeos, que podem transitar por e-mails e celulares, e disseminar idéias. O curso dura cerca de quatro semanas, mas não há periodicidade certa para acontecer. O foco é o modo de capturar as imagens. Não apenas filmando, mas também utilizando aquelas que já existem. Pode-se usar, por exemplo, obras com licenças de uso mais flexíveis que o copyright, como as Creative Commons (CC). Ou seja, fazer arte a partir de arte, sampleando, como os rappers.

Os cursos da Vila Buarque utilizam programas de código aberto, como o Cinelerra (saiba mais). “Mas não somos religiosos em relação ao software livre, se a pessoa tiver em casa uma cópia de R$ 5,00 do Adobe Première, não somos contra”, diz Carlos Seabra, gestor do projeto pelo Instituto de Projetos e Pesquisas Sociais e Tecnológicas (Ipso).

Nas aulas, são cumpridas todas as etapas necessárias para o vídeo tornar-se expressão. Ou seja, além de obter imagens e editá-las, é estimulada a publicação dessas histórias. Algo como colocar no YouTube (site de vídeos gratuitos para downloads) e outros endereços na rede mundial.

O que faz a diferença ali é o ambiente de idéias a que o aluno estará exposto ao visitar o Ponto de Cultura. Periodicamente, são realizados ciclos de debates sobre temas como sexualidade, integração da América Latina e urbanização. Além disso, os estudantes são cuidadosamente escolhidos. “Buscamos multiplicadores, formadores de opinião, lideranças de ONGs, ou seja, queremos criar uma massa crítica”, comenta Carlos Seabra. Normalmente, os cursos são gratuitos, mas se alguma instituição com boas condições financeiras (um Sesc, um Itaú Cultural, por exemplo) quiser inscrever um profissional de seus quadros, poderá pagar até R$ 350,00 por um curso. “O que queremos, realmente, é incentivar um protagonismo político”, assume Seabra. Outra intenção é integrar e atrair a própria área da Vila Buarque que, segundo o pesquisador do Ipso, tem mais de 40 entidades atuantes da sociedade civil.

O curso não é rígido no que tange os conteúdos criados. Pelo contrário, quer estimular a produção vinculada às áreas de interesse dos alunos. Que tal filmar a família – e espalhar as imagens para parentes distantes? Ou gravar o que o acha de algum candidato e espalhar pela web? O importante é ter noção de que a comunicação visual, hoje em dia, não está restrita aos grandes meios – e que isso é um grande passo para o ser humano. ”É preciso que as pessoas, de preferência as politizadas, se apropriem dessas ferramentas”, defende Seabra.

Vale ressaltar que há diversos outros tipos de oficinas no Ponto da Vila Buarque. Todas com o mesmo conceito. Há, por exemplo, a de “projetos em vídeo”, que ensina sobre os vários formatos existentes de imagem, sobre digitalização de acervo e até como pedir incentivos por meio de leis. Quem preferir pode se expressar por podcasts, webradios, ou aprender a fazer metarreciclagem em outras oficinas.

http://www.pcvb.utopia.com.br
pcvb@utopia.com.br

·


·

Tecnologia digital serve para repensar a educação

28/09/2006

Entrevista concedida a Karina Costa para o Portal Aprendiz, em 28 de setembro de 2006, e republicada no site EstudanteNet, Portal da UNE e da UBES.

Chat, blog, programa de troca de mensagem instantânea, cursos de educação a distância. Esses recursos digitais disponibilizados na internet são um bom pretexto para repensar a educação e, por isso, não devem ser descartados no processo de aprendizagem. É o que pensa o diretor de Tecnologia do Instituto de Pesquisas e Projetos Sociais e Tecnológicos da Universidade de São Paulo (USP), Carlos Seabra.

Para ele, o chat é uma ferramenta com grande potencial de educação. “Tudo bem que o chat é um mundo de mentira em que você é o que quer ser. Porém, o faz de conta é importante para a aprendizagem. Quando desenvolvemos esses novos personagens, entramos em contato com o nosso interior, nosso jeito de pensar e assim nos conhecemos melhor. É preciso aproveitar isso como estratégia de ensino,” acredita.

Seabra defende recursos como programa editor de texto, planilha, internet e banco de dados quando utilizados além do aprendizado técnico. Ele exemplifica: pode ser proposto aos alunos que saiam pelo bairro e façam uma pesquisa sobre poluição. Eles coletam dados e depois disponibilizam na web. Nesse momento, usam o editor de texto, aprendem a fazer gráficos e ainda podem fazer um comparativo e trocar informações sobre o tema com pessoas do mundo todo.

“Quando paramos para perceber esse trabalho, o aluno já estudou ao mesmo tempo ciências, meio ambiente, história, matemática e português. Ele também pode estudar gramática quando desenvolve jornais para a escola, escreve poesias para publicar no espaço virtual da sala. As vivências se tornam mais ricas no processo de aprendizado,” diz.

Para ele, com a chegada da internet, a escrita readquiriu um papel importante na escola. “Os professores só vêem a gramática de seus alunos na hora da prova. Na internet, você é o que escreve. O aluno não vai querer que um mundo de gente pense que ele não sabe escrever. Por isso, ao redigir um e-mail, divulgar seus trabalhos num site ou postar num blog vai prestar mais atenção quanto à gramática,” acha.

“Concordo com os professores que é deprimente ver certas linguagens utilizadas na web. Porém, não significa que os alunos não sejam inteligentes quando escrevem ‘vc’ ao invés de ‘você’ ou ‘naum’ ao invés de ‘não’. Esse é um processo de comunicação tribal que facilita a comunicação entre os indivíduos,” argumenta.

O especialista acredita que a tecnologia não traz solução e sim complicação. “Torna mais difícil o papel do professor que tem que se interar e saber tornar mais atraente a aula em que utiliza o computador ou a desinteressante lousa com giz branco. Mas claro que, como em todo desafio, trás vantagens de crescimento. É positivo observar como os recursos da internet, se bem utilizados no ambiente escolar, geram interação e aproximação no relacionamento professor-aluno. A tecnologia nos possibilita descobrir sujeitos talentosos como poetas e ainda disponibilizar uma poesia de alguém famoso a qual poucas pessoas teriam acesso anteriormente,” diz.

O especialista aponta que a era da informática traz para o professor grandes desafios. “Um deles é aguçar o aluno para o uso do intelecto perante as facilidades trazidas pela internet. Outro é utilizar novos métodos de ensino como a transdisciplinaridade. O professor quando opta por isso, vai contra o padrão do currículo escolar, contra os pais que acham que os filhos não estão sendo preparados para o vestibular. Os professores têm que estar preparados para mudar a escola e as tecnologias digitais e multimídia colaboram para que isso seja feito” acredita.

Roda de memória do haicai

28/12/2005

DEZEMBRO 2005

Trechos da entrevista feita por José Santos (transcrita por Lúcia Nascimento), do Museu da Pessoa, numa “roda de memória do haicai” com depoimentos meus, de Alice Ruiz, e Rodolfo Witzig Guttilla – durante um jantar num restaurante japonês na Liberdade, São Paulo, acompanhado de muito saquê, em 28 de dezembro de 2005.

José Santos – Quando você se depara com o haicai pela primeira vez?

Carlos Seabra – Perfeito. Bom, primeira vez que eu tomei consciência que eu estava vendo haicai foi quando um amigo meu me emprestou um livro do Millôr Fernandes chamado “Hai Kai”. E eu me diverti muito com aquilo e achei uma coisa super legal. Por coincidência, alguns meses depois, vários meses depois, um outro amigo, um rapaz que eu conheci na época do vídeotexto, não existia Internet, e descobri que ele era amigo também da minha filha. E a gente se conheceu e trocava os e-mails que havia na época, começou a surgir a bitnet. Ele era um tarado por tecnologia e eu também, e aí ele me disse que participou de um curso de como fazer haicai. Houve um curso e depois um concurso e ele ganhou até o primeiro ou segundo prêmio, uma coisa assim. Eu achei aquilo interessante, ele me mandou o material didático, algumas apostilas, me mandou material que foi produzido, outros que foram premiados e ok, aquilo ficou na minha gaveta. Achei aquilo interessante e tal.

José Santos – Nessa época você tinha quantos anos?

Carlos Seabra – Já tinha trinta e tal, quase…

José Santos – Maduro já.

Carlos Seabra – É. Isso foi em 96, sei lá, uma coisa assim. Eu sempre li muita poesia, mas nunca haicai. Sempre fui um cara tarado por poesia, mas nunca escrevi, né? Aí rolou de eu precisar estudar uma linguagem de programação chamada PERL, e eu estava estudando uma rotina de sorteio. Fazia parte das coisas que eu queria mexer. E eu só gosto de fazer coisas que tenham utilidade, para fazer aquilo. Eu disse: preciso sortear alguma coisa. Não vou sortear fotografias, porque é um saco. Não tenho fotografias para isso. Texto? Texto grande é um porre, né? Ainda cheguei a pensar na Bíblia, vou pegar os versículos e tal, porque é um conteúdo pequenininho. Aí me deu um estalo “haicai”. Aí fui na estante e estava lá o Millôr e eu falei: “vou sortear”. E ficou bacana. Clica, sorteia um. Mas eu pensei: “quero agora variar de autor”. Acabou dando o site Caixa de Hai-Kai. Pensei: preciso ter mais autores. Aí comecei a procurar na própria Internet. Tinha o Rodrigo, Rodrigo de Almeida Siqueira, que tinha me mandado aquele e-mail. Eu não apago nunca os e-mails. Eu tenho e-mails de 1997, acreditem vocês. (risos) Fui procurar na ocasião, não era tão longe e aí na Internet eu fui descobrindo o resto e queria ter uma diversidade de autores ali. Isso me levou a buscar, achar Basho etc., achei o fio da meada. E isso me levou a colocar o site no ar, já que eu fiz e ficou bacaninha, vou deixar no ar para as pessoas verem. E eu pensei: deixa eu apagar vários aqui do Millôr, porque de repente o Millôr vai ficar chateado comigo porque eu estou canibalizando o livro. Eu pensei: eu posso roubar um pouquinho de cada um, porque no meio do sorteio ninguém vai ser incomodado. Aí comecei em livrarias a procurar livros e etc., aí é que descobri a Alice Ruiz. E aí, “Nossa, isto aqui é fantástico!”. E fui lá no livro dela, roubei uma meia dúzia e coloquei lá na Caixa de Hai-Kai e fui fazendo isso. Fui lendo e me identificando com algumas coisas que eu gostava mais. Comecei a gostar muito de algumas pessoas que eu descobri, a Alice Ruiz, o Leminski, o Millôr. Descobri que eu achava muito divertido esse outro gênero. Quer dizer tinha um mundo mais tradicional, haicai tradicional, Bashô, lá-rá-lá-rá, coisas legais, enfim. E no meio dessas, já que eu estava com uma quantidade tão grande de haicais sorteados, pensei: posso até escrever alguns e pôr no meio. Já que tem um montão de desconhecidos, ninguém vai notar se tiver alguma coisa… E aí eu escrevi meu primeiro haicai. Depois o segundo, o terceiro, quarto e aí comecei.

José Santos – Lembra do primeiro?

Carlos Seabra – Ah, era uma coisa horrorosa do tipo “o vento sopra no bambu e geme de prazer assim como tu”. (risos) E aí eu tinha a preocupação de: primeiro, fazer uma rima do primeiro com o terceiro verso. Eu já sabia que no haicai isso não se usa, mas eu achava divertido fazer. Respeitar a métrica ao máximo. Por quê? Porque eu sempre fui um cara muito lúdico, invento jogos e tal. E eu achei divertido essa coisa do haicai pelo lado lúdico também. É um desafio: cinco, sete, cinco. Tudo bem que eu vi um montão de gente dizendo que em português não precisa respeitar isso. Isso vale pelos caracteres do kandi, hiragana etc. e tal. Mas eu achei divertido fazer desse jeito. E quando eu percebi estava com cento e tal haicais escritos e uns que eu achava até bons. Mostrei para algumas pessoas. E uma amiga minha que editava uns livros de poesia, a Cristiane Neder, me apresentou ao Massao. “Tá. Vamos ver o que o Massao acha”. Levei e o Massao falou: “olha, você tem aqui uma mistureba de coisas. Tem haicais aqui que são de crítica política tipo: dia de eleição, primeiro o seu voto depois a traição. Você tem outros aqui que são eróticos: ao te adorar não sei mais se tens corpo ou altar. Você tem outros que falam de natureza mas não têm kigo e tal. Você tem outros aqui que você respeitou a coisa assim ao máximo, têm kigo e não sei o que, tá-rá-rá. Então que tal separar isso – ele cortou alguns – “esse aqui não vale tanto”. E separou em quatro categorias. Ele mesmo fez essa seleção. Então nisso ele deu formato a um livro. Aí eu procurei o Fábio Lucas, que era presidente da União Brasileira de Escritores na época, ele fez um prefácio para o livro e enfim, eu fiquei quatro anos aí até editar o livro que agora saiu. Então, foi a primeira coisa que eu escrevi, seja poesia, seja prosa, seja o que for. Eu sempre escrevi artigos educacionais, didáticos, de opinião, mas nunca tinha entrado na produção literária na poesia. Então, teve esse viés tecnológico. Depois eu resolvi fazer um site só de haicais de gatos. Porque aí eu contaminei várias pessoas: a minha mulher às vezes, ela também tem um site de poesias de mulheres que é “Mulheres que amam” e ela também se aventurou escrever um ou outro haicai. O que ela achou que era publicável, ela pôs no site dela. A minha mãe estava fazendo o site dela e eu tinha pedido para minha mãe que também nunca tinha escrito poesia, para escrever alguns poemas eróticos para eu colocar no meu site e ela fez uns belíssimos. Aí ela se entusiasmou por isso de escrever poesias, ela é pintora e tal, aí ela resolveu também, achou legal isso de haicais. Aliás, foi ela que fez as ilustrações do meu livro de haicais. Ela tem 72 ou 73 anos. E aí ela também começou a escrever haicais. Ela tem no site dela, que é Pedaços de Mim, vários haicais que ela escreveu. Estou até tentando convence-la a publicar, fazer um livrinho. Então foi assim que eu entrei. Ah, e ao fazer o Patas de Gatos, que é um site só de haicais de gatos, eu tinha dificuldade de encontrar o número suficiente. Fiz uma vasculhação total: deixa eu pegar o que eu tenho da Alice Ruiz aqui em casa ver se tem alguma coisa de gatos, deixa pegar aqui “Ah, o Millôr tem um que fala de gatos” e tal. Por acaso não achei nenhum do Millôr que fale de gatos, porque eu procurei. Oi? Achei e está lá no site. Aí eu comecei a procurar no Grêmio Ipê, na lista de haicais, tudo o que tinha de gatos pra pôr lá. Então tem nesse site um montão de nomes desconhecidos, outros mais conhecidos. Aí que eu entrei nessa coisa da tradução. Achei muito interessante quando a Alice falou, porque eu acabei tendo que estudar muito mais em profundidade estilos de haicais ao ver tradução. Entrei em sites como Le Maître du Haïku, todo em francês etc., e fui procurar haicais em idiomas que eu domino um mínimo: francês, espanhol, inglês etc. Eu achei um site tchecoslovaco, mas juro que não consegui fazer nada com aquilo, né? (risos) Outros assim… Aí me meti a fazer tradução e a tradução é muito legal. Tem aquilo que o Paulo Rónai falava: tradutor é traidor e tal né? Você tem que subverter um pouco a coisa, reconstruir o negócio, entender o que o outro quis dizer. Me diverti muito com isso também. Mas, enfim, grosso modo foi assim que eu fui apresentado ao haicai. Foi assim que rolou comigo.

José Santos – Está ótimo. Então passo ao Rodolfo. O clima de nossa roda está igual ao haicai do Seabra que é: haicai sem kigo / é de quem toma saquê / e pisa na “fulô”.

[…]

José Santos – Da pergunta, você se recorda?

Carlos Seabra – Sim, ainda recordo meu nome, Carlos. (risos) Então, os autores eu acabei falando assim, os que mais eu consigo citar, tem um montão de autores que são reconhecidos, são legais. E metade do que eu leio, eu acho chato, não me fala ao pau como se diz. E de repente… (risos) Agora assim o que no seu conjunto, por exemplo, o Millôr eu gosto muito, até porque ele foi que me fez despertar para o tesão do haicai. E não só aquela coisa jocosa ou surrealista que é divertido etc., mas que poderia não ser haicai, mas às vezes uma grande poesia que está ali mesmo. Então, as coisas podem ser uma pequena brincadeira, mas quanto mais você olha, você lê, sei lá, um que me lembro agora: “esnobar é exigir café fervendo e deixar esfriar”. Então isso tem todo um colorido, tem toda aquela imagem que te vem à cabeça, para você ficar pensando no significado daquilo. Tem toda uma brincadeira com os teus neurônios, gera endorfinas, gera uma coisa assim…

Alice Ruiz – Mas é sem kigo, quebra as regras do haicai.

Carlos Seabra – Sim, mas tanta coisa as quebra, né? Pois é. Um do Leminski assim “nuvens brancas passam em brancas nuvens”. Então isso também tem uma coisa extremamente visual, um conceito em cima do conceito, uma metáfora imóvel, elas estão passando e elas não constroem nada, nada deixam. Então, daí, isso justifica. O que poderia parecer assim é bem achado etc., quanto mais você olha, você vê como aquilo está bem elaborado, é um móbile que se move ali. Então essas coisas que eu aprecio muito e isso que me leva também a colocar aqui como mais um que eu citaria que é a Alice Ruiz. Ela está aqui, fica chato citar e tal, mas tem essa coisa assim de ser aquela coisa que você lê e você relê e faz uma nova leitura. Isso também é interessante. Isso também é fundamental. Porque tem um montão de haicais que você lê e que está tudo certinho, está dentro de todos os cânones. Você vai ver, está lá: escolhe um pássaro bonitinho, do bem; ou é a cotovia, ou o roxinol, ou é não sei o quê. Não é aquela coisa falada puras, que eu também acho isso super legal no Issa. Você colocou de um jeito que é fantástico. É legal você fazer de repente um haicai pra ameba. Por que não? Ninguém faz. Pois é, é feio, é inferior e tal. Então, vamos trabalhar só naquilo que está pré-estabelecido. Então tem um montão de haicais que são legais etc., mas que ficam meio tediosos, enchem o saco, porque é aquela fórmula que você precisaria ir até um livro universal de haicai pra ver se não é igual e só trocou uma palavrinha, tal. Então eu não conseguiria citar muitos mais nomes, porque tem vários desconhecidos, tem gente assim… Até sites na Internet, porque eu olho muito sites na Internet, né? E de repente você pega alguém assim que diz que faz haicai e é tudo horroroso, medíocre etc., mas tem uma sacada ali no meio. Eu já vi casos assim que você olha e fala: “Nossa! Que tristeza” E você continua lendo por desincumbência de cargo e de repente tem uma coisa ali que a pessoa teve uma sacação, teve um momento. Eu acho que o haicai tem isso também. Ele permite uma súbita chegada da inspiração, mas normalmente precisaria ser mais trabalhado. As pessoas não trabalham, né? Eu gosto muito do estilo, também. Porque às vezes me incomoda muito na maior parte dos haicais, dentro dos cânones, com kigo, tudo certinho e que você olha aquilo e diz: “não está fluindo o texto”. Falta um texto de boa qualidade, falta uma genialidade no escrever. E eu acho que na hora em que você está lidando com poesia precisa disso. Uma pessoa que eu acho também interessante, também conheci na Internet, é a Leila Míccolis. Tem umas coisas assim bem fortes e tal, mas que podem fugir às vezes do haicai porque muitas falam do pessoal, aludindo ao suicídio etc., enfim. Não tenho muito mais a acrescentar. Passo. Eu sou só um curioso.

Rodolfo Guttilla – Estou seguro, caro Carlos, que você irá revelar-se em nosso renga. Essa sua intervenção me fez recordar que, antes de Basho e do haiku, o tanka, era um jogo de salão praticado por cortesãos. Foi Basho que introduziu a fala da cidade, da então nascente burguesia. Antes dele, acho que Soin aproximou o haicai da vida mundana, da natureza, da bosta da vaca, da mosca no cavalo… Isso por volta de 1660, quando fundou a Escola do Templo, a Escola Danrin.

José Santos – Bom, então Seabra você já falou um pouquinho disso, que você já entra temporão na história do haicai, então você podia detalhar um pouquinho mais isso, desde a sua descoberta até o site, o livro, sua trajetória no mundo do haicai.

Carlos Seabra – Pois é, então. E eu queria pegar uma ponta ali no que a Alice falou, porque tem tudo a ver. Essa coisa da modernidade do haicai, vou começar por ali. Por que é adequado aos tempos atuais? Tem uma dimensão extra que ela colocou e que eu, aqui só uma curiosidade, mas que tem tudo a ver, eu tenho escrito agora microcontos. Que é prosa minúscula. Como é que isso surgiu? Tem um cara aí que andou fazendo um negócio que era literatura por celular, e, aliás, acho que você, Alice, era uma das contratadas: Celuler, Luís Mendonça. Eu só conheci ele naquele encontro em Campinas no ano passado, promovido pela CPFL, né? E aí, pá-pá-pá, eu falei pra ele que achei interessante a idéia e que também tinha uns haicais, não sei o quê. Só que ele falou: “não, eu quero que as pessoas assinem, me manda logo não sei quantos”. “Olha, eu não vou conseguir tantos haicais”

Alice Ruiz – É, eu também disse isso pra ele.

Carlos Seabra – “Agora, eu posso escrever uma coisa nova, que eu nunca fiz, mas que acho que dou conta. Que é escrever contos com até 150 caracteres, para que caibam numa mensagem SMS, torpedo de celular. Isso eu me comprometo a fazer. Acho que sou bastante louco para ter uma produção”. E aí fechei um contrato com o cara.

José Santos – Contrato?

Carlos Seabra – É, exatamente. Contrato e tal. E aí o formato era um “celulivro”. Por exemplo: você faz aniversário e eu comprava um celulivro, que eram 45 microtextos, haicais, ou micro poemas, como que é? Poemínimos, ou microcontos, que era esse formato. Ele ia procurar outras pessoas e tal. Eu me entusiasmei, foi uma época em que, foi no ano passado, essa época entre natal e ano novo, eu falei “pô, tenho que produzir pra burro!”. Só nessa época, em duas semanas eu escrevi uns 200 microcontos. (risos) E depois eu também comecei a escrever indo pra reuniões em Brasília, no avião, aquele tempo que a gente espera no aeroporto e depois no avião. Foi uma bela produção de microcontos. Eu passei a andar sempre com uma caderneta para escrever os microcontos e tal (risos). Aliás, haicais eu sempre só escrevi também em papel. Embora o meu objetivo e a coisa estivesse detonada pelo eletrônico, eu só consegui escrever em papel e caneta ou lápis. Não no computador. O computador me corta a criatividade mais poética, digamos. Mas enfim, eu comecei a escrever microcontos e terminei agora uns últimos e resolvi fazer um livro. Meu próximo livro vai ser “365 Microcontos”. Por que esse número? Porque eu já tinha 365 prontos e falei “chega de escrever microcontos, uma hora que eu tiver paciência volto a escrever mais”. E 365 é um número legal, porque é o número de dias do ano, a pessoa vai achar que… E escrevi um prefácio, uma introdução para o livro onde eu abordo essa linha assim do porquê o microconto é interessante. Essa coisa de você receber uma coisa escrita no celular. É uma microliteratura feita para os dias de hoje, uma coisa mais rápida. Você pode ter isso desde uma coisa démodé, que é uma tampa de caixa de fósforo, que hoje em dia ninguém usa – mas tanto haicais quanto microcontos cairiam muito bem caixas de fósforos – é uma coisa para celular, é uma coisa que é para painel de ônibus, é uma coisa que é para o nosso mundo. Que é moderno, rápido, esse excesso de informação. Mas ele, o haicai, aí saindo do microconto, porque eu escrevi isso a propósito do microconto… Camiseta, eu menciono isso, rodapé de e-mail, enfim é muito atual. Isso o microconto. Haicai eu acho que não combina tanto com rodapé de e-mail, merece um lugar mais nobre e tal. Microconto é mais uma diversão, haicai eu levo mais a sério.

Mas eu acho que o haicai tem uma outra dimensão, além dessa de ser do nosso tempo e etc. e isso é que faz com que ele seja muito poderoso. Ele é uma ligação muito forte através de um furinho de agulha nesse universo que a gente vive de mega modernidade, de pós não sei o quê, um furinho que leva pra pulga do Issa, que leva pro sapo do Basho, que leva pra essa coisa do jardim zen, que leva pra essa coisa de você não olhar pra você e exercer mais a sua individualidade, tem todo esse lado. Como se fossem dois cones que se tocam nas pontas. Coisas opostas. O haicai tem essa coisa que é adequada à modernidade da comunicação eletrônica, eu posso mandar um haicai por uma mensagem de texto de celular, ele cabe. Graças ao seu mágico formato de cinco, sete, cinco sílabas, mesmo que estique um pouquinho vai caber. Mas ele tem uma ligação com essa coisa toda, o zen, seja lá o que for, faz com que seja uma coisa poderosa. Acho isso muito interessante. Outra coisa que tem a ver como que a Alice estava falando é oficina, quer dizer, no caso dela é oficinas, porque ela tem uma experiência larguíssima. A minha experiência é oficina, porque eu só fiz uma até hoje. O Sesc me convidou. Teve o Fórum Social Mundial e tinha as programações. Havia uma preocupação de inclusão digital, hoje em dia está na moda falar em inclusão digital, e eu mesmo já coordenei vários programas e mexo com isso etc., porque trabalho com tecnologia e popularização de tecnologia e tal. Mas é muito assim uma coisa demagógica, também. Você pega um pobre e põe na frente do computador, pronto. Você fez inclusão digital, né? (risos) Resumindo. Tem um amigo meu que diz que inclusão digital ele lembra de proctologista, né? (risos) Me convidaram para fazer lá a oficina e disseram: “pô, você mexe com tecnologia, trabalha com projetos de inclusão digital e escreve haicais, vamos fazer uma oficina de haicais e coisas eletrônicas”. Então, qual era a expectativa deles, que eu fizesse uma oficina e as pessoas ali já publicariam na Internet. O Sesc colocou um espaço e os computadores e as pessoas já iam escrever nos computadores. Eu falei “na-na-ni-na não. Assim não consigo.” Vai todo mundo trabalhar assim em roda, cadeira e com flip chart e eu vou dar papel para as pessoas e umas canetas bem grossas. Quero que as pessoas escrevam em canetas bem grossa no papel, para as pessoas mostrarem para as outras, para poder rabiscar e tal. E depois a gente vai para a outra sala onde estão os computadores e a internet e lá é o momento de publicação. Então, há o momento de criação, há o laboratório, há o pensar, o discutir. E aí foi legal. Eu usei primeiro um power point, tinha um data show e aí eu projetei uns 50 haicais, alguns teus, vários outros. Eu procurei pegar uma amostragem o mais diferente possível, para que as pessoas pegassem ali aquilo que elas mais se identificassem e servisse de exemplo. E fui comentando algumas rodadas de discussão com as pessoas e fiquei surpreso, porque todo mundo produziu. Alguns se entusiasmaram, tem um que abri uma comunidade de haicai no orkut. E saiu daquela oficina fazendo haicai. Teve uma senhora, a tal da terceira idade, que estava lá e pintou por acaso porque freqüenta o Sesc naquele horário e se fosse um curso de como fazer bolo de fubá sem usar açúcar ela talvez estivesse lá, e pegou a coisa assim de modo surpreendente. Então eu vejo esse potencial, quando você fala, eu percebi naquele momento. Foi a única experiência que eu tive, mas foi muito instigante. Porque eu fiquei em vários momentos com dúvida do que ia acontecer, procurei usar o máximo possível da minha competência para fazer a coisa rolar ali. Mas eu fiquei surpreso e todo mundo, cada uma das pessoas ficou surpresa. Nós fizemos uma rodada de comentários e todo mundo não chegou a essa felicidade de sacação, dos eventos que você (Alice) deu, mas houve isso. Mexeu com as endorfinas das pessoas, mexeu com elas próprias. Foi muito interessante. E eu me lembrei de uma experiência quando eu comecei a escrever haicai. Uma amiga da minha mulher, de Ribeirão Preto, ela é professora e falou: “ah, vou colocar os alunos escrevendo haicais”. Ela é professora de história. E o resultado foi fantástico. Ela nunca tinha mexido com isso, nunca tinha visto haicais antes e depois me mandou os haicais que os alunos escreveram. Era sobre escravidão, tinha feito um trabalho e eles tinham que escrever haicais. E tinha coisas assim comoventes, dois ou três eu até coloquei no meu site. Lá quando sorteia são alunos assim de 12, 13 anos, sei lá. Então, este parênteses enorme é para comentar aquilo que você falou. Então, voltando ao meu breguete do livro, eu fiquei quatro anos fazendo o livro. O Massao ficou meio mal, né, com os excessos de uma garrafinha de uisque por dia etc. e tal, mas isso aí todo mundo sabe. Ele estava meio mal, eu cheguei até a achar que de repente ele ia bater com as botas e tal, porque ele estava… E eu fiquei meio duro, não tinha mais grana, uma fase difícil, não procurei nenhuma editora, também não sou nem conhecido, nada. Então ia ser uma edição de autor, eu ia ter que gastar grana do meu bolso e depois para distribuir ia ser outro mico, como é. Aí eu também deixei meio de lado. De repente voltei a me interessar de novo por isso, procurei o Massao, ele já estava se recuperando, parou de beber, está engordando, fortão, voltou a trabalhar e tal. Só que ele tinha perdido os originais do livro. Então coloquei minha assistente ajudando ele. Durante três dias, ela foi todo dia pra lá, ficou lá vasculhando caixotes e caixotes, toda história editorial do Massao estava ali. Tinha coisas em fotolito, em originais e tal e acabou achando. E aí saiu o livro, eu pedi pra minha mãe fazer as ilustrações e agora estou nessa lide. Acabei, um montão de gente, enfim me procurou, quer falar que eu vá falar de haicai, etc. e etc. De repente tem um efeito que eu não tinha pensado nisso. É uma coisa assim que me puxa. Eu não pensei nunca em nenhum momento em que eu iria escrever haicai, que eu iria falar sobre haicai, qualquer coisa. Nem me considero muito assim, porque eu tenho um discurso mais à margem. Mas produziu esse efeito bastante interessante, que tem me levado por outros caminhos da literatura. Nesse momento, inclusive, tem um pessoal da UBE, União Brasileira dos Escritores, meu amigo Levi, querendo que eu colabore mais, querendo que eu entre inclusive lá para a Diretoria, não sei o quê. Enfim, então de algum modo, e o Fábio Lucas fala isso no prefácio que ele escreve aí, que na verdade é um pósfácio, que a gente conversou muito sobre como o haicai tem servido pra mim como uma porta de entrada, uma abertura de eu me soltar. Eu sempre fui um leitor compulsivo, eu fugia às aulas, repetia de ano para poder ficar lendo literatura etc., sempre fui um leitor compulsivo. Mas nunca me meti a escrever nada. E o haicai tem isso, ele é uma porta de abertura muito poderosa. Aquela coisa que eu falei do buraquinho da agulha, ele produz esse efeito nas pessoas. A senhora que a Alice falou que dá risadas, que redescobre o humor, eu acho que é o executivo estressado do dia a dia que encontra o lado zen, faz um pequeno jardinzinho zen dentro dele. É um buraquinho pequeno que acho que tem uma parábola qualquer, não sei se é Jesus, que fala que é mais fácil um camelo passar no buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino do céu. Não acredito nisso, porque acho que os ricos passam muito mais fácil. Mas tem esse aspecto muito poderoso do haicai, como esse buraquinho que mexe com uma coisa muito poderosa. E ouvindo o que vocês estão colocando, acho que isso vai ficando bastante evidente. Quer dizer, tem um carga muito grande à volta. O segredo é ele ser tão pequenininho. Porque alguém já brincou comigo: “ah, o haicai é muito legal mas é uma brincadeira. É que nem o cara ser um pintor e fazer um quadro na cabeça de uma agulha. É um desafio.” Essa é uma visão, na hora me incomodei um pouco, está bem, é divertido. Qualquer caricatura e falar mal de alguma coisa, a priori sempre acho muito divertido. Porque o bobo da corte tem que estar sempre presente, porque quando você não tem o bobo da corte, o despotismo vem aí. Certo? O Mussolini e o Hitler não permitiam o bobo da corte, a gente sabe que o Stalin também não, o Garrastazu também não, enfim, eu acho que é legal questionar isso. Em que medida o haicai não é só um brinquedinho de alguém que não tem estofo para escrever um pouco mais? Acho uma provocação legal. Me incomodou um pouco na hora e tudo mais. Mas refletindo sobre ela, dá para desconstruir e ver como não tem nada a ver. Como o haicai é essa passagem para uma outra dimensão, falando em termos de ficção científica, uma outra dimensão. E você só pode passar pra ela por um buraco bem pequenininho, porque se ele for um pouco maior, você quebra a magia e perde essa outra dimensão. Então acho que o haicai tem um pouco disso. É uma coisa de ficção científica, sai aí um pouco do lado zen. Mas também tem lado zen na ficção cientifica, né? Enfim, cessar.

[…]

José Santos – Carlos tem alguma consideração final?

Carlos Seabra – Sim, uma coisa que assim, as grandes perdas…Uma coisa que eu acho, só voltando àquela questão do sintético ter a ver com o mundo de hoje e etc. e aí eu falo também na perspectiva do educador, né, porque metade do meu trabalho profissional é trabalhar com formação de educadores, com pedagogia, estratégia de ensino, projetos e tal. E uma das coisas que eu mais prezo e dou valor é a questão da palavra escrita. Porque é terrível o que a gente vive, porque a escola, que em grego significa local de prazer, na verdade as crianças aprendem a ter medo e odiar o conhecimento. Então uma criancinha que pergunta: “manhê o que está escrito ali naquele cartaz?”, ela vai pra escola e sai odiando Machado de Assis. É isso que a escola faz com ela. A escrita como uma forma de expressão, ela na escola só é usada, a escrita, no momento sadomasoquista da prova. A criança só pode escrever quando ela fica com dor de barriga e vai ser avaliada por isso. E aquilo que se pede a uma criança na escola, não se pede a nenhum Machado de Assis, a nenhum Camões e etc., que é o seguinte: eles têm que escrever uma coisa sem rasuras, sem erros de português, criativo, com começo meio e fim. Quer dizer, um absurdo. O texto é feito para rabiscar, rascunhar, enfim, não vou entrar nisso aí porque… E o papel histórico da palavra escrita ele se perdeu. No tempo das caravelas, quando o sujeito estava aqui e queria falar com a mulher amada ele mandava uma missiva que ia pela caravela Del Rei. E seis meses depois, se a caravela não afundasse e se a amada ainda o amasse, ela lê-lo-ia e respondê-lo-ia com as mesmas premissas na volta, se não afundasse, se ele ainda recordasse dela…(risos) Mas isso legou à humanidade uma “puta” quantidade de material escrito, cartas de Van Gogh ao seu irmão Theo e por aí vai. Hoje em dia a gente está numa coisa muito mais rápida e a escrita com todas essas perversões, ela ficou, criou-se uma linguagem à parte dominada pelo cartorial, uma escrita dos advogados. Você escreveu, a pessoa já “opa, que você está querendo?” Então as pessoas escrevem, por exemplo, é quase poético você dizer “dá-me água, pois tenho sede”. É uma coisa curta e tem poesia nisso. Ter sede, ter uma necessidade satisfeita é bonito. Na linguagem escrita as pessoas aprendem que “venho por meio desta solicitar-lhe um receptáculo cheio de água, a fim de que satisfaça…”. Então o haicai vai na direção oposta. É o seguinte: ele ensina a falar menos e dizer mais. Essa concisão é uma coisa que é um primeiro passo na direção da tal utopia considerando como utopia a pessoa dominar a escrita como um todo. Não é só no haicai, mas acho que só o haicai já é de bom tamanho. Certo? E você acabou de relatar isso. De repente está com uma produção de haicai que acabou suplantando o verso. O verso fica lá quieto. Mas o haicai tem essa tal de abertura, aquele buraquinho que eu falava a pouco, aquela primeira pedra que você pisa nela e aprende a andar sobre as águas etc. Tem um caminho que vem aí e acho que esse caminho é aprender a escrever. Tem isso também, tem esse caráter educacional, esse caráter pedagógico. E eu acho que isso é de uma importância muito grande. A pessoa aprende a valorizar, aprende… Tem o São Gregório de Nazianzo, tem uma frase muito inteligente, ele é um monge aí de uns séculos atrás e ele diz que dizer muito não é escrever com várias palavras. A frase agora eu não me lembro. Até uso na introdução desse meu livro de microcontos, porque acho que é uma habilidade que se perdeu, né? O dizer menos ficou sinônimo, e principalmente hoje em dia quando a gente pega a educação o pessoal fala: “e aí?”, “só”, “falô”. Aí é o não dizer nada, uma coisa monossilábica. O haicai, ele consegue reduzir ao mínimo dizendo o máximo. Ele provoca imagens na cabeça das pessoas. Acho que esse caráter cinematográfico do haicai, porque ele o é, eu não conheço nenhum haicai que não desperte os teus neurônios, ele se concatenam lá como umas sinapses e é extremamente visual. Você faz um montão de constructos, você quase que ouve sons psicodélicos. Se eu fosse o Timothy Leary, eu dizia que isso aí é que nem tomar um LSD e tal. Aliás, o Timothy Leary antes de morrer ele estava trabalhando com software, e no último livro dele, ele diz uma coisa interessantíssima, vale a pena ler, ele diz algo como: “se houvesse software na época em que eu fazia experiências com LSD, eu teria preferido fazer com software porque dá muito mais barato”. E de certa forma, alarga mais as portas da percepção. Exatamente. E eu acho que o haicai tem isso. Ele alarga as portas da percepção.

Alice Ruiz – É uma boa droga!

Carlos Seabra – Exatamente. E provoca tudo, ele é sensorial, extremamente sensorial. Você faz uma viagem. A pessoa faz uma viagem e depois desova, ela volta ao mundo real tendo produzido um haicai, aquilo tem uma história. Tem uma viagem que ela fez, viagem no sentido lisérgico. E quem ler vai fazer também aquela viagem. E a viagem é intelectual, é sensitiva, ela vai falar também com as células do teu corpo lá embaixo, vai te fazer ouvir sons, ver imagens…

Alice Ruiz – E é sem contra-indicação, né?

Carlos Seabra – Ah, eu acho que sim.

Alice Ruiz – Mas é subversivo.

Carlos Seabra – Subversivo, mas subversivo é uma coisa superindicada. É a única coisa que vale a pena, aliás.

Alice Ruiz – Eu sei que está terminando, mas só para corroborar. Teve um aluno meu, em Ouro Preto, ele é flautista da sinfônica de Belo Horizonte, que não escrevia. E ele fez na oficina 15 haicais. E os 15 haicais foram selecionados pelo grupo com aplausos. Então ele se descobriu um haicaista. E ele namora uma psicanalista que trabalha numa clínica para loucos chiques, loucos, quer dizer… Enfim, pessoas com problemas mentais, mas numa clínica paga, aquela coisa. E ela pediu ajuda a ele, ele comentou com ela o trabalho da oficina de haicais, que ficou todo feliz, porque se descobriu poeta e aí ele me mandou um e-mail perguntando se poderia usar minha apostila e dar uma oficina para os pacientes da clínica. Eu falei: “pode, mas o preço é você me mandar a produção dos pacientes”. Maravilhoso! Maravilhoso! O pessoal viu, claro alguns não conseguiam se desligar da sua neurose, mas a maioria foi surpreendente a sensibilidade deles, como funcionou. É isso que você estava falando agora desse abrir a porta da percepção. Eles tiveram absoluto sentido na haicai. Era só isso.

Carlos Seabra – Não, é exatamente isso que eu já tinha praticamente falado que é essa coisa da loucura. Aliás, eu fiquei interessadíssimo nessa experiência, porque tem uma amiga minha, a Elisa Band, que trabalha com teatro para loucos e é muito interessante. Bom, primeiro esse conceito de loucos e tal… Pois é e eu acho importante que não é só essa coisa que agora está na moda, não ficar preso em manicômio, mas há um aprendizado que se tem com os loucos e os índios têm isso. Quer dizer, o cara quando é louco, enlouquece na tribo, ele é quase colocado no mesmo papel que um sábio. Ele é ouvido, porque vê coisas que os outros não vêem. E nesse sentido a coisa mais parecida que se tem com o louco é o poeta, certo? Ele está ali no limiar. E muitos deles foram trancafiados por causa disso. Então eu acho que essa coisa da loucura é a premissa até para enxergar melhor essa coisa do dia a dia, né? Que nem essa senhora que você falou. Aliás, esses exemplos que você falou e tal, eles encerram em si, são quase que haicais em termos de exemplos. Era isso.

José Santos – Então, olha, antes da gente partir para a nossa esperada renga, eu só queria avaliar que eu acho que foi uma conversa maravilhosa, uma forma… Nós tivemos tantas entrevistas nesse ano, mas a forma de terminar o ano ouvindo essas histórias de haicai foi um fecho maravilhoso. E eu acho que a forma de uma roda de haicai, o melhor modelo são três pessoas mesmo, como os três versos do haicai. Eu acho que é uma interação perfeita. Tem rodas de oito pessoas, de sete, mas a coisa fluiu de uma maneira assim muito legal e eu acho que daqui pra frente, já temos um conselho consultivo e curador do que fazer aí dessa memória do haicai. Já mapeamos uma série de nomes e a gente tem falado sobre isso. Então já está falado. E a gente tem que mapear uma série de nomes, pra pensar de que maneira a gente pode envolver…

·


Renga a 8 mãos e 3 garrafas de saquê

Por Alice Ruiz, Carlos Seabra, José Santos e Rodolfo Guttilla

Copo de saquê (Alice)
Banho de cachoeira (José)
Louça lavada (Rodolfo)

Peixes dormindo
Ensolarado domingo (Seabra)

No vau dos canais (Rodolfo)
Leques de libélulas (José)
Mil sombras sobre as pedras (Seabra)

Refletidas nas águas
Cintilam efêmeras (Alice)

Barulho de asas (Seabra)
Cascas do tronco caem (José)
Noite chegando (Alice)

Cascos de boi
Estrume fervendo (Rodolfo)

Zumbido de moscas (Seabra)
Um perfume de frutas (Alice)
Os deuses estão felizes (Rodolfo)

O sereno pousa na poça
Há quem o ouça? (José)

Coloquei nesta postagem somente os trechos relativos a minhas falas, pois o conjunto completo deverá ser publicado brevemente em livro e não desejo “canibalizar” o produto.

·


Senac na era da informática educacional

01/06/1988

JUNHO 1988

Entrevista dada à “Acesso”, Revista de Educação e Informática da FDE – Fundação para o Desenvolvimento da Educação, organismo da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo, – Ano I – Julho/Dezembro 1988.

A entrevista foi feita por Maria José do A. Ferreira e Marta Marques Costa, com edição de Fábio Barbosa Jr. Participaram da mesma, Sonia Zaitune, Fernando Moraes Fonseca Jr. e Evanisa Arone, membros da equipe do Programa Informática e Educação do Senac SP.

Saúde, uma experiência que está dando certo

Acesso esteve no SENAC-Saúde da avenida Tiradentes, em São Paulo, para conhecer a experiência no campo da Informática Educacional que vem sendo desenvolvida nesta unidade. Trata-se de uma experiência de ensino assistido por computador iniciada em 1986 pelo Programa de Informática e Educação, vinculado à Gerência de Formação Profissional do Departamento Regional de São Paulo do SENAC. Na área de Saúde, o Programa Informática e Educação priorizou a Enfermagem, iniciando a informatização dos cursos de formação de técnico e assistente de Enfermagem.

Neste número, estamos publicando entrevista com Carlos Seabra, coordenador do Programa, onde ele relata e analisa a experiência desde a sua origem até o momento atual, falando sobre a filosofia educacional que a orienta e sobre as perspectivas de sua continuidade.

Programa Informática e Educação em 1988. Da esquerda para a direita, Carlos Seabra, Marta Marques Costa, Sonia Zaitune, Fernando Moraes Fonseca Jr., Evanisa Arone e Maria José Ferreira.

Da esquerda para a direita: Carlos Seabra, Marta Marques Costa, Sonia Zaitune, Fernando Moraes Fonseca Jr., Evanisa Arone e Maria José Ferreira.

AcessoO que é Programa Informática e Educação?
Seabra – O Programa Informática e Educação visa utilizar o computador e a Informática como recursos instrucionais e surgiu da necessidade, percebida pelo SENAC, de se utilizar esse recurso em algumas áreas onde os recursos tradicionais não são tão efetivos como o do uso do computador. O uso do computador, por obrigar a uma metodização, a uma planificação, a uma classificação de conhecimentos, produz uma série de resultados que interferem no processo ensino-aprendizagem, acessórios, periféricos ao próprio fenômeno da informatização, mas que talvez sejam, inclusive, os mais importantes. Nós tínhamos, inicialmente, um programa chamado “Educação para o Futuro”, onde trabalhávamos com alunos do 1° Grau e com professores da rede pública, mexendo com a questão da Informática. Queríamos fazer um mapeamento das potencialidades e possibilidades do uso da Informática na Educação. Depois de uns dois anos de trabalho com esse tipo de público, formou-se uma equipe dentro da instituição, criou-se um certo know-how e percebemos que era um desvio de esforços estar investindo nessa área de educação formal de 1° Grau, que não é uma área do SENAC, e, sim, da Secretaria da Educação. Nós não estávamos atendendo necessidades imediatas nossas, como a formação profissional. Foi constituído, então, esse novo Programa, chamado Informática e Educação. Basicamente, foi essa a origem do Programa, que conta, hoje, com dois anos e meio de existência.

AcessoComo foi constituído o grupo de trabalho encarregado do Programa?

Seabra – Inicialmente, a equipe era de apenas duas pessoas: eu e a Sônia. Ela é psicóloga e eu sou editor. Venho da área de Comunicação Editorial e a Sônia da área de Psicologia e Educação Infantil. Aí, nós nos encontramos na Informática. Atualmente, a equipe tem cinco pessoas fixas – a equipe central – mais um supervisor pedagógico. Essa equipe é constituída por dois psicólogos, um filósofo e matemático, um físico e eu, da área editorial: ou seja, ninguém tem uma formação específica de Informática, embora vários de nós já tivéssemos tido contato com a área. Temos também uma série de colaboradores externos, que são programadores: alguns que só mexem com linguagem de máquina, outros da área gráfica, produzindo desenhos e ilustrações para os softwares etc. Além disso, temos consultores específicos para as áreas de conteúdo e trabalhamos com equipes de docentes para informatização e estudo específico de cada disciplina. Por exemplo, colaboram conosco três enfermeiras da disciplina de Microbiologia. Basicamente, portanto, há uma equipe central e uma série de trabalhadores externos ou equipes acessórias internas, para cada trabalho.

AcessoPor que foi escolhida, para inicio dos trabalhos do Programa, a área de Saúde?

Seabra – Vários motivos nos levaram a isso, desde os menos relevantes, como ter um belíssimo prédio especializado só para a área de Saúde, com disponibilidade de espaço e, portanto, possibilidade concreta de investir em laboratórios amplos, colocar equipamentos etc., até os principais, referentes a características da própria área de Saúde, em que, muitas vezes, os alunos têm uma baixa formação escolar. Aí você tem, por exemplo, pessoas na faixa de trinta anos, nossos alunos, que são assistentes de enfermagem, que já têm prática, já trabalham em hospitais, mas que fizeram o primário há vinte, quinze anos atrás. Além de terem estudado já há bastante tempo, a formação que tiveram foi bastante deficiente. E Saúde envolve uma série de conteúdos cognitivos, uma massa de informações muito grande, uma necessidade de o aluno não apenas “ser treinado”, de executar uma série de operações, mas de entender o que está fazendo. Então, por exemplo, ao assistente de enfermagem, que, teoricamente, se limitaria, na sua prática, a ver se o lençol do paciente está limpo e a observar uma série de cuidados básicos de higiene, nós ensinamos os princípios mínimos de doenças transmissíveis: a Microbiologia, como é que são os processos de imunização natural do corpo etc. Queremos que ele entenda o que está fazendo, que perceba a importância de lavar as mãos, de esterilizar um instrumento, da dosagem correta de medicamentos etc. O curso de Assistente de Enfermagem tem, praticamente, mil e quinhentas horas de carga horária, com uma série de conteúdos cognitivos extremamente díspares, multo ricos e bastante avançados. Colocava-se, então, um desafio. Uma área que não apresenta problemas tão cruciais como esses conteúdos, não seria prioritária para informatizar, Há necessidade de se investir mais, em termos de qualidade de ensino, onde se apresentam problemas maiores. Outro fator que consideramos é que os professores e o corpo técnico, na área de Saúde, têm uma formação superior à do pessoal de várias outras áreas. Todos os nossos professores são enfermeiras, com nível de formação bastante bom, o que dá uma cena homogeneidade a essa equipe, e facilita a constituição de grupos para iniciar esse trabalho de informatização. Como estamos ainda adquirindo experiência, refletindo em cima disso, tentanto ver o que é exatamente a Informática na Educação, que problemas ela traz quando se leva um trabalho à prática, então precisávamos fazer isso numa área em que os recursos humanos estivessem melhor preparados. E a Saúde é ótima também por causa disso, porque, se com os alunos você têm o problema do nível extremamente heterogéneo e da baixa formação, com os professores sucede exatamente o contrário. Tínhamos, então, o ambiente ideal e adequado para o início dessa experiência. Por outro lado, dentro da área de Saúde, onde o SENAC oferece vários cursos – ótica, pedicure, atendente de farmácia, protético e outros –, escolhemos Enfermagem, porque teríamos de iniciar por algum ponto. Enfermagem.é o curso que tem a maior carga de conteúdos cognitivos, mais do que qualquer outro, e onde os alunos interagem, no dia-a-dia, com uma série de problemas muito candentes, até mesmo tratar de um paciente terminal.

AcessoComo se iniciou o trabalho do Programa Informática e Educação?

Seabra – Quando começamos a ver o que já existia de informatização nas outras escolas, constatamos que a primeira providência que as escolas tomam é comprar o equipamento, no qual investem alguma grana, e do qual se utilizam para fazer todo um merchandising em cima, com mais ou menos seriedade, evidentemente. Depois de algum tempo percebem que não têm software, aí partem para pirataria generalizada ou então decidem comprar alguma coisa no mercado. Isto também é muito difícil, porque mesmo que a instituição tenha boa intenção de não usar programas pirateados, vai ter muita dificuldade, uma vez que praticamente não existe nada no mercado e o que existe não se adapta ao currículo, á forma de educação desejada etc. As escolas, entretanto, acabam conseguindo alguns softwares e só depois, como última etapa, sentem a necessidade de formação de recursos humanos. Esta é, normalmente, a parte mais descurada, na qual não existem investimentos. Um diretor de escola aprova a compra de um equipamento, e já torce o nariz quando se fala em comprar software; não tem nenhuma visão de que é preciso liberar professores durante murtas e muitas horas para uma discussão aprofundada dos objetivos, de como se pretende implantar a coisa etc., e de que é necessário formar os próprios recursos humanos. Nós resolvemos partir, portanto, do processo inverso, por acharmos que é o que conduziria melhor a experiência. Daí a nossa opção por iniciar o nosso trabalho com um treinamento de Recursos Humanos para formar uma espécie de massa crítica dentro da instituição, constituída por docentes, técnicos e corpo gerencial. Não queríamos que uma meia dúzia de pessoas com mentes iluminadas determinassem o rumo da informatização no SENAC, mas sim, fazer com que todo o mundo envolvido no processo educacional participasse da discussão da definição de seus objetivos e metodologia. Nossa preocupação principal é com a formação de Recursos Humanos. Eles passam por um treinamento que envolve aprender o que é Informática, analisar uma série de softwares, e desenvolver o espírito crítico em relação a esses softwares. Em relação a esta postura crítica, aliás, achamos que, muitas vezes, é mais fácil trabalhar com o professor que tem críticas do que com aquele que começa deslumbrado quanto aos novos recursos educacionais, que tende a ser menos crítico. Procuramos, entretanto, lidar com esses dois extremos, nesse trabalho de treinamento, levar todo o mundo a uma visão realista e critica da questão do uso da Informática na Educação. Nosso objetivo inicial é, portanto, ter o conjunto do corpo docente, técnico e gerencial sabendo das possibilidades da Informática, das suas falhas, do seu custo, para que possamos decidir o que vale a pena informatizar ou não. Depois, há a constituição de grupos que vão trabalhar, aí sim, na informatização de disciplinas. Não partimos tampouco do princípio de que é necessário desenvolver software. Procuramos primeiro ver o que existe, no mercado, adequado a cada disciplina. No caso de Saúde, não encontramos nada. Havia algumas coisas, mas que não se adequavam ao nosso modo de ensino, aos nossos objetivos. O que é previamente traçado por nós são os objetivos; os softwares são conseqüência desses objetivos. Isso nos levou à necessidade de desenvolver software próprio, caminho que estamos trilhando.

AcessoQual é a clientela atendida pelo Programa Informática e Educação?

Seabra – Nossa meta é trabalhar com todos os professores e todos os técnicos da área de Saúde e depois com os de outras áreas. Já participaram dos treinamentos todo o pessoal da área de Enfermagem – estão faltando apenas duas ou três enfermeiras, que por problemas particulares não participaram até o momento – e três técnicos da área de ótica. Nos próximos treinamentos, está prevista a participação de mais gente da área de ótica e de pessoal de Prótese Dentária e de Pedicuros e Calistas. Está em estudos a participação da área de Farmácia, que, até o momento, não pôde ocorrer. A meta é que todo o mundo participe. Paralelamente, também têm passado pelo treinamento os técnicos da Gerência de Formação Profissional que mexem com produção de recursos audiovisuais e produção de apostilas e outros materiais escritos, de modo que haja uma integração. A nossa idéia ao informatizar uma disciplina – e informatizar nesse sentido não é a palavra mais apropriada – é refazer todo o material, todas as apostilas, o conteúdo curricular… Desse modo, precisamos ter um material integrado, ou seja, o software não funciona sozinho, ele deve funcionar integradamente com a apostila, com o conteúdo dado em aula, com o vídeo apresentado, com o estágio pelo qual os alunos vão passar. Então, a meta de todos que trabalham no SENAC com produção de recursos instrucionais é participar do treinamento, inclusive com vistas à expansão posterior para outras áreas. Outras pessoas também têm participado do treinamento, pois sempre oferecemos uma ou duas vagas a elementos de fora: pessoal da Secretaria da Educação, do Colégio Carlos Campos, da USP, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e também do SENAC Nacional e de Unidades do SENAC de outros Estados. Esta participação visa a possibilitar futuros trabalhos conjuntos com outras instituições, desenvolvimento de software conjunto e experimentações. Vários dos softwares desenvolvidos por nós até o momento já estão sendo usados em outras instituições, e estamos analisando o retorno disso.

AcessoComo vem-se dando a informatização do ensino na área de Enfermagem?

Seabra – Não estamos informatizando o curso. Resolvemos informatizar disciplina por disciplina, inclusive porque praticamente as mesmas disciplinas ocorrem no curso de Assistente e no de Técnico, embora com profundidade diferente. A primeira que decidimos abordar foi Microbiologia, para dividir. Quando você tem um grande problema, você o divide em pequenas partes, assim como uma batata, ninguém gosta de engolir uma batata inteira; agora, se a batata é frita, cortada em pedacinhos, você come um quilo de batatas tranqüilamente. Então dividimos o problema por disciplinas, para facilitar esse processo de informatização e propiciar um aprofundamento maior no conteúdo, senão a gente se limitaria a ficar produzindo pequenos softwares aqui e ali, e não atacaria o problema definido. Selecionamos Microbiologia por ser uma das disciplinas que davam os maiores problemas aqui dentro. Os docentes, embora tenham boa formação, não são biólogos, então, fica muito difícil você ter clareza sobre quais são os conceitos que devem ser passados ao aluno, o que ele deve aprender sobre a bactéria, o que ele deve aprender sobre uma série de mecanismos de reação natural do corpo etc. Por parte dos alunos, também era a disciplina mais assustadora. Embora uma série de outras disciplinas tenham muita carga teórica, envolvem, por outro lado, uma manipulação prática do cotidiano hospitalar muito mais fácil. Microbiologia era, então, a disciplina que apresentava o maior número de problemas e resolvemos começar por ela para encarar o desafio de frente, porque, se trabalharmos logo a disciplina que apresenta o maior número de problemas, ganharemos uma cancha e uma experiência muito maiores, além de uma metodologia de trabalho para depois atacar outras disciplinas. Microbiologia tinha uma carga horária de trinta horas e também este foi um fator determinante, ser uma disciplina com uma carga horária pequena.

AcessoComo vem sendo desenvolvido o trabalho com os professores e como se dá o seu envolvimento no Programa?

Seabra – 0 trabalho com os professores vem sendo desenvolvido, basicamente, através de treinamentos. Os treinamentos são para dez pessoas de cada vez e até o momento já temos trinta treinadas. Vamos ter mais um treinamento de dez, e ficaremos com quarenta. Em relação ao envolvimento, chegamos para as pessoas e dizemos: “Olha, você teria disponibilidade de participar do treinamento? Você seria substituído em sala de aula… topas?” Quer dizer, há um mínimo de interação com o professor, e o objetivo final é que todos acabem participando. O primeiro grupo acabou também tendo uma influência sobre os demais professores e não percebemos aquele medo que o professor teria, de ser substituído pelo computador. Talvez isso seja um fenômeno existente mais ao nível de escola pública, pois aqui isso não ocorreu, ao contrário, até pintou um certo modismo, todo mundo dizia: “Ah, mas eu não participei do treinamento”, “Ah, eu não estou encaixado no segundo!”. Já estão contando com isso. O que há é uma postura crítica de reserva (principalmente levantada no início), se o computador não desumanizaria, não mecanizaria demasiadamente o processo ensino-aprendizagem, com aquela visão de que o aluno seria submetido a uma série de conteúdos que iriam passando ali na tela. Há alguns soffwares, inclusive, que fazem isso. Procuramos ter uma postura crítica em relação a este fato, porque se é para ter uma série de elementos passivamente dispostos na tela, é muito melhor utilizar o livro. Então, a visão a que se chegou é a do computador como um ambiente onde o aluno está em contato consigo próprio, onde pode testar hipóteses, interagir com esse ambiente e ver concretizadas algumas facetas do seu pensamento formal. No treinamento, os professores passam pela experiência de manusear e trabalhar com algumas dezenas de softwares educacionais. A equipe de coordenação fica levantando algumas discussões sobre a qualidade desses softwares e sobre a adequação deles ou não para determinados instantes; por exemplo, “O software tem tais características, será que é desejável que possua ou não? Vamos observar esse aspecto.” Há todo um trabalho nesse sentido, que ocupa pelo menos 1/3 da carga horária. Os treinamentos são intensivos. Os professores são liberados de todas as aulas e participam, durante um mês, única e exclusivamente do treinamento. Eles têm que apresentar um trabalho final, programado e planejado por eles, um programa rodando, e isso é uma coisa importante porque consubstancia todo o conjunto do treinamento. Uma outra coisa, que representa também quase 1/3 da carga horária, é o planejamento de ensino. Nesta fase, levantam-se questões como “Tal objetivo educacional seria classificado como? Como uma memorização de conceitos ou uma aplicação de conceitos”? Isto é importante porque muitas vezes, em sala de aula, a gente percebe que o professor faz com que os alunos apenas memorizem um determinado concerto e depois apresenta uma prova onde eles têm que aplicar esse conceito, embora, na verdade, o aluno não tenha aprendido uma aplicação. Fazemos então esse esmiuçamento, criamos uma série de exercícios, há toda essa preocupação. Vou dar ainda um exemplo: há um exercício que é feito, onde se reúnem dois ou três grupos para fazer o planejamento de um produto industrial, por exemplo, um novo helicóptero, um produto a laser, que corte não sei o quê, qualquer coisa assim. O grupo define qual é o produto e estuda as características do mercado, o que é desejável, que defeitos aquele produto pode ou não ter, o que é preciso controlar, como é que se controla a qualidade, como é que se faz a distribuição; enfim, é feito todo um planejamento. O resultado é sempre muito bom, mas quando fazemos planejamento educacional, as coisas não são tão concretizadas, tão formalizadas, tão definidas. O planejamento educacional murtas vezes limita-se a um ritual de submissão burocrática, que o professor tem que apresentar num ano e depois vira letra morta. Não é um planejamento efetivo, interligado com a realidade, com mecanismos de acompanhamento para ver se está ocorrendo ou não. A gente procura discutir isso, questionar todo o sistema de acomodamento a que leva o ensino tradicional, onde há quarenta alunos numa classe e o professor já dá aquele conteúdo há carradas de tempo, o que acaba levando a uma série de vícios. É neste sentido que eu falo da semente revolucionária do nosso trabalho. Costumamos dizer para os professores, para a Gerência, para todos, que não viemos trazer soluções, viemos criar problemas. Basicamente, é essa a nossa meta. Nosso papel aqui é o de ficar levantando problemas a toda hora, apontando incongruências, inconsistências, fazendo perguntas, questionando, enfim.

AcessoComo vem sendo feito o trabalho com os alunos?

Seabra – O trabalho com os alunos é feito pelos professores. Claro, quando se trata de experimentação em salas de aula, sempre há algum membro da equipe coordenadora presente para auxiliar o professor nas dúvidas que surgem – até de manuseio do software –, porque se exige um atendimento mais individualizado, nós só trabalhamos com um aluno por micro. Temos um laboratório com vinte computadores e, portanto, são vinte os alunos que são atendidos de cada vez. Uma turma de quarenta alunos, que é o nosso máximo, no caso de Enfermagem, é obrigada a se dividir em duas: vinte vão trabalhar com o computador e os outros vinte ficam fazendo uma atividade paralela. Isto derruba por terra aquele medo de o professor ser substituído pelo computador. Na verdade, ocorre o contrário. Fomos obrigados a arrumar um professor suplementar para ficar com o resto da turma durante esse tempo de laboratório. Depois eles se revezam. Um elemento da equipe coordenadora está sempre presente para, além de dar uma pequena assessoria ao professor no atendimento individual aos alunos, observar o comportamento destes em face do programa, e como é que o professor trata os problemas advindos daí. Obtemos, assim, subsídios para discutir qual é o papel do professor no laboratório, que tipos de conteúdos deveriam ser trabalhados antes da experiência em laboratório etc. Além dessa utilização orientada pelo professor, o laboratório fica aberto dois dias por semana, em determinados horários, perto do horário do almoço e no final da tarde, pegando o começo da noite, para poder atingir as diferentes turmas. O laboratório está aberto para uso individual do aluno e funciona como uma espécie de biblioteca de software. O aluno vai lá, solicita o software a uma pessoa responsável, isso é anotado numa ficha de inscrição para se acompanhar o uso, e ele fica utilizando o equipamento uma, duas, três horas – o tempo que ele tiver disponível – brincando, se aprofundando, fazendo as suas experiências individuais. Este é um tipo de uso que desejamos estimular, porque fomenta a pesquisa, fomenta o gosto pela aprendizagem. Mais importante do que um software transmitir determinado conteúdo específico, é ele propiciar um insight dentro da cabeça do aluno para que este descubra que é capaz de raciocinar e que tem capacidade de prospecção. Isto desperta nele o gosto pela pesquisa científica e pela aprendizagem. A partir daí, ele se vira sozinho e, se quiser saber mais conteúdos, pega o livro, pergunta etc. Consideramos que esse uso individual vai introduzir uma dinâmica muito interessante.

AcessoQue tipo de software vocês estão utilizando?

Seabra – Temos utilizado até o momento dois tipos de programas: o primeiro é constituído por programas experimentais, que foram produzidos independentemente de se ter uma análise profunda de uma disciplina, e que estamos experimentando com alunos, integrando-os ao currículo, embora sejam softwares isolados. Queremos ver que problemas podem ocorrer, começando pelos de ordem administrativa: deslocamento dos alunos até o andar onde está o laboratório, quantos equipamentos tendem a quebrar, qual a assistência técnica necessária para manter o parque de equipamentos em bom estado etc. Além desses, queremos identificar os problemas advindos das dúvidas de manuseio, como é que o professor se comporta etc. O outro tipo são programas integrados e desenvolvidos no conjunto da disciplina e que aí vão fazer parte de toda uma metodologia aplicada para o conjunto da mesma. São basicamente estas as duas vertentes de utilização de software com os alunos.

AcessoQue condições e vantagens são oferecidas aos professores para o envolvimento no Programa?

Seabra – A primeira condição é a informação, a formação. Todos os livros de que a equipe de professores envolvida na informatização de uma disciplina necessita são comprados, sem nenhuma restrição. Os professores vão a livrarias especializadas, escolhem o que é preciso e tudo é comprado. Se são necessários softwares para se olhar, a gente compra softwares, descobre etc. Se é necessário fazer treinamento, organizar uma palestra, contratar um consultor, faz-se isso, Outra condição é o tempo. Achamos necessário dar muito tempo a esses professores, por isso nosso esquema é “todo professor envolvido na informatização de uma disciplina é liberado meio período, durante quatro ou cinco meses, para esse trabalho”. Meio período e não período integral, porque consideramos que ficar em período integral alotado no Programa é muito cansativo e distancia o professor da sala de aula, dos problemas concretos do dia-a-dia. Queremos que, na parte da manhã, ele continue com uma turma de alunos, dando aulas, e, à tarde, entre nesse outro trabalho. Caso haja necessidade de horas extras, eles recebem como tal. Até o momento, esse grupo tem murtas horas alotadas e um trabalho planejado, não necessitando de horas extras. Depois que é encerrado o trabalho de análise da disciplina e se parte para a informatização, produção de apostilas, elaboração do programa, os professores continuam acompanhando o projeto, participando de reuniões com os programadores e com a equipe de coordenação. Nesse momento, eles já voltaram à sua atividade normal e muitas vezes, aí sim, há hora extra. O envolvimento no Programa não propicia, por outro lado, promoções. Não nos interessa fazer dos professores que mexem com Informática uma nova elite. Nosso objetivo é que todos mexam com isso, não queremos mistificar e valorizar excessivamente a Informática.

AcessoComo a experiência continuará, daqui para a frente?

Seabra – Vamos continuar no SENAC/Saúde, que é uma unidade especializada. A experiência com os alunos ainda é pequena. Nós só colocamos os alunos na jogada quando já existe algo bem-feito para apresentar a eles, segurança por parte dos professores e objetivos definidos. Não queremos complicar o andamento normal dos cursos, fazendo experiências mal-sucedidas, que, inclusive, politicamente, dentro da instituição, poderiam ter um resultado negativo para o andamento do projeto. E nós não estamos usando o computador como uma ferramenta de trabalho, ainda. Este é um outro projeto separado, que também vai ocorrer. No momento, buscamos aprofundar a qualidade de ensino daquilo com o que eles já mexem normalmente. Com relação à ampliação da experiência, nossa idéia é repassá-la paulatinamente para outras unidades do SENAC, tendo uma metodologia, produtos prontos etc. Nossa meta é, em 89, estar com esse projeto implantado em mais uma unidade da Capital e uma unidade do Interior. E, a partir dessa experiência, ver o que acontece em outras realidades, com outros problemas, em termos de alocações de professores, de alunos, de equipamento, de clientela etc. Mas este é um tipo de coisa que temos que experimentar, para, a partir de 1990, começarmos a informatizar a área de Saúde como um todo, aí todas as unidades. Com relação a outras áreas, há várias que estão interessadas. Estamos pensando, dependendo de uma definição da diretoria regional, em partir para a área de línguas, especificamente Inglês. Trata-se de uma unidade com pessoal muito bem-preparado, onde a filosofia de trabalho do SENAC está bem-elaborada, enfim, estão maduros para iniciar essa experiência, o que facilitará o trabalho da equipe coordenadora. Estamos preocupados com isso, porque o trabalho com Saúde vai continuar se desenvolvendo ainda durante muito tempo. Percebemos que são muitas disciplinas e muitas áreas. Então, paralelamente ao início de informatização de uma nova área, estaremos com um enorme acúmulo de trabalho em Saúde. Além disso, percebemos que a área de línguas é uma área relativamente fácil de se informatizar, primeiro porque só usa as letras originais do computador, não sendo necessário redefinir os caracteres acentuados. Faremos softwares de Inglês, tudo vai ser escrito em Inglês. Depois, 80% dos softwares a serem usados já existem no mercado. Há excelentes, desde jogos, até outros mais direcionados para ensino de adjetivos, verbos, conjugações etc. Nessa área, nos dedicaríamos mais à criação de uma metodologia, discussão de uma filosofia de trabalho e eventual desenvolvimento de um outro software.

Acesso Como as atividades do Programa têm sido vistas no SENACISP pela direção e demais setores da instituição?

Seabra – Com relação a este lado institucional, quero dizer o seguinte: a maior dificuldade que temos observado nas demais instituições de Educação, que estão mexendo com Informática é um divórcio entre todas as partes envolvidas. A administração se coloca separada do processo educacional, e ela é colocada de fora pelo processo educacional. Ocorre, então, um processo mútuo de exclusão. Isto não se verifica no SENAC. A própria Diretoria Regional tem demonstrado preocupação em conhecer detalhes do projeto, do ponto de vista educacional. A questão mais burocrática, administrativa, entra como uma preocupação que tem que ser equacionada, mas que não é determinante. O avanço que o projeto tem tido é um reflexo, então, do conjunto da entidade, e da filosofia de trabalho da instituição como um todo. Temos tido surpresas gratas. Quando, por exemplo, apresentamos, logo no início do projeto, para constituição do primeiro laboratório, a hipótese de se fazer um laboratório com apenas cinco equipamentos, mencionamos que talvez fosse ideal começarmos com dez. A Diretoria Regional logo disse: “Então vamos começar já com dez”. E, alguns meses depois, quando se falou que com dez equipamentos (amos ter que dividir a turma em três ou quatro grupos, logo veio a aprovação: “Então vamos ter um laboratório de vinte”. E se for preciso mais e se mais for julgado necessário, mais equipamentos teremos. Pudemos adquirir todo o equipamento necessário para a montagem dos laboratórios, e temos a possibilidade de participar de todos os congressos, encontros, seminários e palestras que julgarmos importantes e de comprar material, livros, revistas, softwares etc.

Acesso Que dificuldades vocês têm encontrado?

Seabra – A maior dificuldade que temos é com a nossa própria ignorância em relação a uma série de fatores. Estamos toda hora procurando colocar em relevo todas as nossas ignorâncias, todas as nossas dúvidas. Realmente, nessa experiência revolucionária, ainda faltam definições e clarezas sobre uma série de mecanismos. Ainda não equacionamos multo a coisa: tem ocorrido um fenômeno de multiplicação de questionamentos que está gerando um processo muito rico de formação para todo o mundo. Temos desde os professores de Saúde aprendendo Informática, até os programadores lendo sobre Saúde. A nossa maior dificuldade é equacionar isso tudo, mas esta é uma dificuldade inerente ao trabalho. Com relação às coisas mais comezinhas, quebra um equipamento ou outro mas temos um contrato com um técnico, que faz a manutenção, quer dizer, se dá algum problema, nós resolvemos. Probleminhas desse tipo ocorrem a toda hora, mas são facilmente sanáveis.

Acesso Como a equipe do Programa avalia a experiência?

Seabra – Esta é a parte mais verde. E ela é de ordem terciária. Não pela importância, claro, mas pela sucessão de fatos na construção desse Programa. Estamos ainda numa fase de experimentação, com poucas turmas; até o momento trabalhamos aproximadamente com 600 alunos e 100 professores, incluindo professores de outras instituições. Estamos agora tentando ter uma avaliação mais imediata dos problemas de relacionamento do aluno com a máquina, com o software, sobre o tipo de conhecimento que deve ser transmitido antes pelos professores, sobre qual o papel do professor em sala de aula, de forma a facilitar uma implantação mais efetiva do Programa, num segundo momento. Gostaria de dizer, também, que temos percebido que a questão da Informática funciona como um cavalo de Tróia, dentro do qual vai uma série de sementes revolucionárias. Nosso objetivo é revolucionar todo o esquema atual de ensino, muito formal, muito consolidado ao longo do tempo, em cima de anos e anos de experiência, cheio de qualidades, mas que acaba levando a uma acomodação, a uma não-discussão, a um não-aprofundamento. Por exemplo, numa apostila, quando você tem um parágrafo falando sobre um micróbio, as pessoas dizem isso está certo, ou está errado, ou está mais ou menos bom” e pronto, fica por aí. A Informática obriga-nos a fazer um trabalho, digamos assim, de engenharia do conhecimento, onde, quando reunimos os professores e os programadores para discutir o que é que eles querem que o programa aborde, chegamos a um alto nível de esmiuçamento do conhecimento e discutimos como é que este conhecimento se interfacia com os outros conhecimentos, como é que está montado numa estrutura etc. Podemos comparar esse processo, digamos, àquela história da sopa de pedra, do mendigo que chega na casa tal e fala: “mas eu queria só fazer uma sopinha de pedra, você me arruma uma agüinha quente?” E a mulher fica curiosa e diz: “Então tudo bem, o senhor entra e faz aqui na cozinha”. “Será que a senhora tem uma pitadinha de sal? Fica muito melhor a comida”. “E agora, que tal uma cenourinha cortada?”. “Agora, se tivesse uma fatiazinha de bacon ia ficar ótimo”. . . No fim, o mendigo tira a pedra, enxuga e guarda no bolso e tomar uma excelente sopa. O processo que nós vivemos é a mesma coisa: se tirarmos o computador, no final desse processo, o salto de qualidade da questão educacional terá sido enorme, certo? Claro que o computador não é a pedra, o exemplo cessa aí, o computador é muito mais do que a pedra, ele dá todo um sabor principal a essa sopa. Ele é uma pièce de résistance dessa sopa, mas, vamos dizer num raciocínio de redução ao absurdo, que se no final desse processo decidíssemos não mais usar o computador, ainda assim o processo teria sido enormemente válido, porque com a desculpa do computador, usando-o como esse cavalo de Tróia, teremos uma ótima sopa: “Olha, nós precisamos de vários professores alocados meio período por dia, durante vários meses”. Aí a dona de casa, digamos, nos dá esses vários professores. “Agora precisamos ter liberdade de redíscutir todo o material instrucional, agora precisamos participar de tais e tais treinamentos, agora precisamos trazer um consultor para uma discussão, agora precisamos de…” No fim, todos esses ingredientes é que fazem a riqueza dessa sopa.

(Acesso – Revista de Educação e Informática – FDE – ISSN 0103.0736 – Ano I – Jul/Dez 1988)

·


Informática e educação

01/02/1988

FEVEREIRO 1988

Intervenção publicada em “Idéias” nº 4, com a temática de Informática e Educação, edição FDE – Fundação para o Desenvolvimento da Educação, Secretaria de Estado de Educação de SP, em 1988.

Seabra – Nosso trabalho, no Senac, está sendo feito em duas vertentes. Uma é o ensino de Informática propriamente dito, feito no Estado de São Paulo, em 40 escolas do Senac, chamadas de “unidades”. Mas não vou me deter neste aspecto.

0 outro aspecto é a utilização da Informática na Educação, junto a outras matérias do currículo. Resolvemos informatizar primeiramente a área de Saúde, por uma série de características: o docente tem uma formação melhor do que o docente de outras áreas; há uma boa quantidade de matérias teóricas; há, também, o despreparo dos alunos. Para alguns cursos, o pré-requisito é o primeiro grau, para outros, é o segundo. Os alunos deparam-se com uma série de conceitos que eles desconhecem, por exemplo, na disciplina Microbiologia. Eles nunca viram um micróbio na vida, e então há um choque muito maior entre o nível de conhecimento do aluno e o que vai ser exigido dele.

Resolvemos entrar com a Informática também por ser a área mais difícil. Porque não valeria muito a pena entrar com a Informática para rever o que já está resolvido.

Nossa preocupação é criar uma massa crítica dentro da instituição, porque essa massa vai fazer com que todo o processo de informatização siga um determinado rumo. Então, priorizamos o chamado peopleware, formação de recursos humanos; em segundo lugar veio o desenvolvimento de software e, em terceiro lugar, a questão do hardware. A implantação do equipamento, a informatização propriamente, viria como etapa final, para que não se inicie ao contrário, como normalmente acontece. Primeiro você compra o equipamento, depois descola um software e no fim de tudo pensa-se no que se vai fazer com as pessoas que devem mexer com aquilo.

Rapidamente: o processo que seguimos foi constituir uma equipe de 10 pessoas, fundamentalmente docentes e alguns técnicos. Na estrutura do Senac há docentes e técnicos que supervisionam a questão da Educação, não em sala de aula, mas estão trabalhando com a coisa.

Já tivemos dois treinamentos e já temos uma equipe de 20 pessoas que passaram por ele. Este ano teremos mais um. É um processo lento, mas não dá para informatizar todos ao mesmo tempo.

Esse treinamento inicial – o processo não pára aí – é constituído de um mês em tempo integral. O pessoal trabalha 8 ou 10 horas por dia, durante um mês inteiro; à noite e nos fins de semana, os laboratórios ficam à disposição. Nós sobrecarregamos as pessoas com textos para ler e analisar, e tarefas para desenvolver. O pessoal se envolve de tal modo, que acaba ficando 12 ou 15 horas por dia, na etapa final do treinamento, por conta própria.

Em geral são pessoas do Senac, mas eventualmente temos um convidado externo. Tivemos uma pessoa da Escola “Carlos de Campos”, por um convênio que mantemos com a Secretaria da Educação. Há um curso de Enfermagem lá. Outra pessoa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul vai participar também. Mas o objetivo é trabalhar dentro do Senac, apenas. Como fazemos intercâmbio, às vezes temos pessoas de fora participando.

Neste treinamento, os alunos aprendem uma linguagem de programação e discutimos o que é um computador; abrimos um computador, rasgamos um disquete ao meio etc. No entanto, metade do tempo é destinada a discussões sobre educação, planejamento de ensino etc., pois esse é nosso objetivo final. Fazemos uma comparação meio louca; comparamos a Informática à estória da sopa de pedras. O mendigo chega numa casa e pede para fazer uma sopa de pedras: “Vocês me arrumam uma agüinha quente e eu boto as pedras”. A mulher é meio sovina mas concorda, está até curiosa. Aí o mendigo diz: “Teria um pouquinho de sal? Ou quem sabe uma cenourinha?” Aí chega no final, com tantas coisas que pediu, que ele guarda a pedra no bolso e toma uma bela sopa.

Então, o processo de informatização que adotamos é basicamente este. Pode-se dizer que, até o momento, os resultados alcançados já deram um grande salto, só por aquilo que os alunos foram obrigados a fazer em termos de planejamento, de reflexão etc. Um dos nossos exercícios é colocar todo o grupo para fazer o planejamento industrial de um novo tipo de helicóptero. Todos se saem muito bem; todos têm jeito para fazer planejamento industrial, mercadológico. Por que na Educação não conseguem fazer isto facilmente, embora todos sejam educadores? Porque vivemos num tipo de sociedade em que a questão industrial é muito fácil, e Educação é aquela coisa meio nebulosa etc. Partimos de uma série de exercícios de sensibilização para chegarmos à reflexão que queremos alcançar. Aí, discutimos o tipo de educação que queremos dar aos nossos alunos, porque entidades como o Senac sofrem pressão do mercado para fazer treinamento. Mandam os alunos da empresa e querem que saiam apertando o botão certo, no momento certo e não precisam saber mais nada além disso. Até porque, normalmente, se o aluno sabe algo, além disso, ele começa a reivindicar maior salário etc. Então, ficamos nessa contraposição e a filosofia que pretendemos implantar é de não entuchar o aluno de conhecimento, porque é impossível ter todo o conhecimento. Conhecimento é como uma esfera, que à medida que se amplia, aumenta o número de pontos em contato com o desconhecido. Então, quanto mais a pessoa sabe, mais ela descobre que não sabe. Procuramos inclusive reduzir a quantidade de conteúdo a ser transmitida; estamos depurando os currículos. 0 aluno deve ter uma idéia geral e aprender a buscar o conhecimento, em livros, em fontes de referência, na hora em que precisar dele. Neste ponto, o computador permite uma coisa muito rica: que o aluno, sentado à máquina, entre em contato com o seu próprio pensamento. Normalmente ele não raciocina, faz o programa mas não sabe direito por que o fez. No entanto, ele sabe. Assim como nós temos uma série de ações mecânicas, reflexos, complexos, essa coisa toda de psicologia, por exemplo. Mas quando se vai analisar, começa-se a descobrir o porquê de certas atuações, atos falhos etc. Acho que na programação é a mesma coisa. Você faz, o conhecimento está ali dentro; se você fez, é porque sabe. Só que você não sabe refletir sobre o próprio conhecimento. O computador permite isso.

Então, o tipo de software que estamos desenvolvendo no Senac é depurado de uma quantidade de informação que no início achávamos que o aluno deveria saber. Agora nos centramos em dar ao aluno a oportunidade de se exercitar, de errar. 0 erro é criativo, pois é uma hipótese formulada que não encontra comprovação na realidade. Então, no computador, o aluno está sozinho; via máquina, ele encontra seu raciocínio, ele testa muitas coisas e passa a gostar de aprender. Temos visto que o aluno depois deslancha sozinho, cria interesse e vê que aquela matéria não é chata, que aquilo não é uma coisa obrigatória. Acho que este é um aspecto importante a ser relevado.

Neste treinamento com docentes, procuramos transmitir-lhes todo o conhecimento necessário sobre Informática. O “necessário” também pode ser questionado.

Nosso principal objetivo é que o professor lide com a Informática do mesmo jeito que lida com o material didático tradicional: um livro, por exemplo. Hoje em dia, o professor não se impressiona se uma editora lança um livro com uma aparência muito sofisticada, papel especial etc. Ele vai olhar o conteúdo e não se comporta como um índio, recebendo aquelas pedrinhas coloridas, em troca das quais entrega toda a terra a Pedro Álvares Cabral. Porque isso é o que ocorre atualmente na Informática. A máquina tem sons, cores etc. Então, nós procuramos desenvolver essa consciência crítica do professor, porque ele vai ter duas atuações no nosso projeto: uma, a avaliação de software já existente, para ver se ele se adapta às suas necessidades ou não. A segunda é a orientação e o desenvolvimento de software próprio. Eles entram em contato com dezenas de software, dos melhores aos piores; discutem inclusive o aspecto estético dos programas. A estética normalmente não é relevada em Educação, mas é uma forma de linguagem importantíssima.

Bom, como se encontra atualmente nosso processo de informatização? Como disse, escolhemos a área da Saúde como prioridade. Dentro de Saúde, o curso de técnico e Auxiliar de Enfermagem. Ainda no segundo semestre deste ano vamos entrar em Optometria. São cursos com 900 ou 1.500 horas de duração e que contam com várias disciplinas. Em Enfermagem, resolvemos informatizar uma disciplina por inteiro, a Microbiologia, onde os alunos encontravam maior dificuldade. A Microbiologia era ensinada como uma caricatura do ensino de Biologia que temos na Universidade. Mas, não se pretende formar biólogos e a enfermeira não vai precisar deste conhecimento no hospital. Então estamos redirecionando a própria abordagem, em relação ao fim que temos em vista.
A expectativa inicial da diretoria do Senac, que aprovou entusiasticamente o nosso projeto, talvez tenha sido a seguinte: a carga horária do curso de Microbiologia vai diminuir de 30 para 20 horas. Esse negócio de computador abrevia tudo, não é? Mas não, depois de analisar a disciplina, ela passou a ter 50 horas. Não em função da informática, mas com a Informática, o grupo de estudo (uma equipe multidisciplinar, com três enfermeiras que são docentes, técnicos em Informática, psicólogas e especialistas em Comunicação) chegou à conclusão de que o ensino que tínhamos era totalmente errôneo. Então, cada disciplina que vai ser informatizada passa por esse processo. Entendo aqui Informática como ciência da informação no seu sentido mais amplo, onde o computador, a computação, é o cavalo de Tróia que leva no seu bojo essa semente revolucionária que muda tudo, e que faz com que o gerente da unidade, os administradores etc., arranquem os cabelos, porque nós realmente complicamos a vida toda. Então, estamos reformulando todas as apostilas; todo o material de Microbiologia foi para o lixo, porque ele era o lixo que foi se acumulando ao longo dos anos. E nosso trabalho é integrado, pois não queremos informatizar apenas parcelas do conteúdo da disciplina.
Tudo isto leva ao encarecimento da disciplina, para o desespero da parte administrativa. Mas então, o professor não foi substituído pelo computador? Não, um professor a mais teve de entrar na jogada. Porque fomos obrigados, para melhor atender os alunos, a dividir a turma em duas.

O resultado compensa. Mas existe a idéia enganosa que se procura vender, de que o computador vem facilitar tudo. Ele não vem trazer soluções fáceis, vem revelar todos os problemas, que ficam evidenciados. Essa é a experiência mais rica. Os resultados estão sendo ótimos, em termos de qualidade de ensino. Muitas vezes, na Educação, há um acomodamento; entra-se em sala de aula, transmite-se o conteúdo e vai-se embora. Nós estarmos sendo obrigados a mudar tudo isto.

Como disse, estamos informatizando essa disciplina, a Microbiologia. Já planejamos, vimos qual o software a ser desenvolvido, que apostilas vão ser feitas etc. Vamos fazer um vídeo, em desenho animado. Nesse semestre temos um grupo estudando Anatomia e Fisiologia, uma disciplina atualmente com 60 horas. Outro grupo está estudando doenças transmissíveis. No segundo semestre vamos partir para a Optometria e outra área, ainda não determinada, e que está em processo de discussão.

Os professores que já sabem planejar o desenvolvimento do software participam desse processo. Já temos alguns programas desenvolvidos, de pré-microbiologia: um na área de cálculo de dosagem de insulina; outro na área de instrumentação cirúrgica; e outro em terminologia médico-cirúrgica. Os alunos não entendem os termos novos, não conhecem os radicais latinos ou gregos; só sabem ir ao dicionário e às vezes nem os encontram. Estamos desenvolvendo um software para que eles aprendam a decompor a palavra; não queremos ensinar todas as palavras que existem, mas o próprio aluno precisa entender como elas se formam.

Fazer um software educativo é um processo demorado e caro. Mas os resultados estão aparecendo, a organização tem dado todo apoio, inclusive aumentando as verbas para o seu desenvolvimento. Preferíamos comprar software pronto, mas não encontramos nada de bom, ou nada que se adapte ao que queremos ensinar. Estamos obrigados a desenvolver software, não por opção mas porque eles não existem.

Com relação a testes com alunos, utilizamos uma turma-piloto, sem muita metodologia. Ainda não temos um grupo de controle porque nem sabemos que variáveis controlar. Na hora em que colocamos o aluno em contato com o computador, já estamos dando uma motivação a mais; como será que isto interfere ou não? Ainda não determinamos que tipo de controle de variáveis existem, para fazermos testes, digamos, científicos. Então, aplicamos os testes e analisamos no olhômetro ou batendo um papo com os alunos. Isto vai-nos permitir fazer depois uma experiência para avaliar melhor os resultados. Por enquanto, observamos a olho nu, o que não deixa de ser também uma forma de aferição válida.

É isto. Tenho um resumo do programa, com seus objetivos. Isto pode ser xerocado e distribuído.

Intervenção – Caso houvesse software disponível, você compraria ou acha que é mais importante que o professor participe da produção do software, para poder rever todo o seu planejamento curricular? Seria uma forma de desafio, inclusive para mudar a estruturada escola, remexer como vocês fizeram na escola.

Seabra – Acho que este processo existe de qualquer jeito, mesmo que pegássemos um software já existente. Vamos analisar a disciplina, ver seus objetivos, classificá-los. Se existisse um software que se adaptasse às nossas necessidades, nós o compraríamos. É mais fácil, e poderíamos dedicar o tempo que empregaríamos em fazê-lo, realizando outras atividades. Temos um problema de recursos humanos. Estamos tentando conseguir colaboradores para desenvolver software, mas é muito difícil porque a qualidade em geral, no mercado de trabalho, é muito ruim.

Intervenção – Se existisse, no mercado, software capaz de suprir todas as necessidades do currículo, vocês teriam ganho tempo. Mas você acha que a experiência seria tão rica quanto se fosse necessário construir um programa, mexer no currículo, mudar a postura do professor, atender à cobrança da administração? O que você consideraria mais importante?

O resultado compensa. Mas existe a idéia enganosa que se procura vender, de que o computador vem facilitar tudo. Ele não vem trazer soluções fáceis, vem revelar todos os problemas, que ficam evidenciados. Essa é a experiência mais rica. Os resultados estão sendo ótimos, em termos de qualidade de ensino. Muitas vezes, na Educação, há um acomodamento; entra-se em sala de aula, transmite-se o conteúdo e vai-se embora. Nós estarmos sendo obrigados a mudar tudo isto.

Como disse, estamos informatizando essa disciplina, a Microbiologia. Já planejamos, vimos qual o software a ser desenvolvido, que apostilas vão ser feitas etc. Vamos fazer um vídeo, em desenho animado. Nesse semestre temos um grupo estudando Anatomia e Fisiologia, uma disciplina atualmente com 60 horas. Outro grupo está estudando doenças transmissíveis. No segundo semestre vamos partir para a Optometria e outra área, ainda não determinada, e que está em processo de discussão.

Os professores que já sabem planejar o desenvolvimento do software participam desse processo. Já temos alguns programas desenvolvidos, de pré-microbiologia: um na área de cálculo de dosagem de insulina; outro na área de instrumentação cirúrgica; e outro em terminologia médico-cirúrgica. Os alunos não entendem os termos novos, não conhecem os radicais latinos ou gregos; só sabem ir ao dicionário e às vezes nem os encontram. Estamos desenvolvendo um software para que eles aprendam a decompor a palavra; não queremos ensinar todas as palavras que existem, mas o próprio aluno precisa entender como elas se formam.
Fazer um software educativo é um processo demorado e caro. Mas os resultados estão aparecendo, a organização tem dado todo apoio, inclusive aumentando as verbas para o seu desenvolvimento. Preferíamos comprar software pronto, mas não encontramos nada de bom, ou nada que se adapte ao que queremos ensinar. Estamos obrigados a desenvolver software, não por opção mas porque eles não existem. .
Com relação a testes com alunos, utilizamos uma turma-piloto, sem muita metodologia. Ainda não temos um grupo de controle porque nem sabemos que variáveis controlar. Na hora em que colocamos o aluno em contato com o computador, já estamos dando uma motivação a mais; como será que isto interfere ou não? Ainda não determinamos que tipo de controle de variáveis existem, para fazermos testes, digamos, científicos. Então, aplicamos os testes e analisamos no olhômetro ou batendo um papo com os alunos. Isto vai-nos permitir fazer depois uma experiência para avaliar melhor os resultados. Por enquanto, observamos a olho nu, o que não deixa de ser também uma forma de aferição válida.
É isto. Tenho um resumo do programa, com seus objetivos. Isto pode ser xerocado e distribuído.
Intervenção – Caso houvesse software disponível, você compraria ou acha que é mais importante que o professor participe da produção do software, para poder rever todo o seu planejamento curricular? Seria uma forma de desafio, inclusive para mudar a estruturada escola, remexer como vocês fizeram na escola.
Seabra – Acho que este processo existe de qualquer jeito, mesmo que pegássemos um software já existente. Vamos analisar a disciplina, ver seus objetivos, classificá-los. Se existisse um software que se adaptasse às nossas necessidades, nós o compraríamos. É mais fácil, e poderíamos dedicar o tempo que empregaríamos em fazê-lo, realizando outras atividades. Temos um problema de recursos humanos. Estamos tentando conseguir colaboradores para desenvolver software, mas é muito difícil porque a qualidade em geral, no mercado de trabalho, é muito ruim.

Intervenção – Se existisse, no mercado, software capaz de suprir todas as necessidades do currículo, vocês teriam ganho tempo. Mas você acha que a experiência seria tão rica quanto se fosse necessário construir um programa, mexer no currículo, mudar a postura do professor, atender à cobrança da administração? O que você consideraria mais importante?

Seabra – Bom, isto é uma hipótese: se existisse no mercado. De qualquer jeito, teríamos passado pelo mesmo processo; só que no fim, depois de tudo planejado, iríamos ver se existe algo apropriado no mercado. Mas teríamos seguido o mesmo processo. Se encontrássemos algo adequável, compraríamos, sem sombra de dúvida. Temos de informatizar centenas de cursos. O Senac tem dezenas de áreas, centenas de cursos diferentes. É um processo muito lento; talvez no ano 2000 estejamos informatizando a terceira área, pelo modo lento que está se processando. Tudo o que existe no mercado entraria em consideração, sem prejuízo do processo que você mencionou, que é o mais importante, que é o que há de revolucionário em tudo isto; é todo o mundo discutir, fazer uma análise crítica da coisa.

Intervenção – Seria mais uma tecnologia imposta, uma tecnologia onde o professor seria meramente um usuário, como ocorreu com o vídeo, por exemplo. Não se entenderia o porquê, como se programa, qual a importância disso. Pergunto: é importante o professor saber programar, ter o domínio dessa máquina, ou é importante ele ser meramente um usuário?

Seabra – É claro que é importante saber programar, só que, se compramos alguma coisa já pronta, isto só vai acrescentar, não vai suprimir nada. Continua havendo todo o resto.

Intervenção – É sobre a avaliação. Você disse que os quatro softwares serviriam para desenvolvimento daquilo que está sendo exposto. Então, fizeram testes; e qual foi o retorno disso?

Seabra – Por parte do aluno? Olha, a principal coisa para o aluno foi ter um feedback imediato. Experimentamos um programa de avaliação, onde se supõe que o aluno vai ser médico em algum lugar. Ele é confrontado com uma série de situações; vai respondendo e tem o retorno imediato. Assim, se aplicar a vacina Sabin numa criança com hipertermia, a resposta vem logo – a febre dessa criança vai subir. Não é preciso esperar pela correção da prova, que só vem uma semana depois. Isso é um tipo de software de exercício e prática. Um aluno adorou outro tipo de software, mais perto da simulação, porque viu concretizada as coisas que ele pensava; normalmente não se verbaliza todo o pensamento, essa mistura de imagens e sons, aquela coisa toda que é o pensamento. Ele podia ver aquilo, podia chamar o colega para olhar. Houve uma interação entre todos, e eles também gostaram da postura do professor, do tratamento individualizado, de fazer comentários etc. Isto foi o principal.

·


Trabalho resultante das intervenções dos participantes do workshop “Didática da Informática”, realizado de 21 a 27 de fevereiro de 1988 com Jean-Louis Léonhardt (IPEACS-CNRS, França), Antonio Picarelli (MEC/SEINF), Bernardete Gatti (Fundação Carlos Chagas), Carlos Seabra (Senac/SP), David Carraher (Universidade Federal de Pernambuco), Dimitri Domatewicz (CIED/FDE), Elian De castro Machado (Universdidade Federal do Ceará), Fernando José de Almeida (PUC-SP), Frederico Galenbeck (São Paulo Computer Institute), Helena Sloczinski (Universidade de Passo Fundo), Heloísa Vieira da Rocha Silva (Educom-Unicamp), João Fernando Marar (Universidade de Bauru), Jorge Fróes (Universidade Federal Fluminense), José Armando Valente (Educom-Unicamp), Léa da Cruz Fagundes (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), Maria Christina de Almeida (CIED/FDE), Maria Hercília Rolim (CIED-FDE), Maria Isabel de Mattos (CIED-FDE), Osvaldo Sangiorgi (ECA-USP), Paulo Gileno Cysneiros (Universidade Federal de Pernambuco), Ricardo Leite de Albuquerque (CIED-MS), Sulamita Ponzo de Menezes (CIED-FDE), Taunay Magalhães Daniel (Multimeios FDE), Zoé Guimarães da Costa (Telesp).


·