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Fronteiras Educação – Diálogos com Professores

24/04/2011

DEZEMBRO 2010

Vídeo com resumo editado da palestra feita em Porto Alegre (lançamento da publicação Tecnologias na escola) no “Fronteiras Educação – Diálogos com Professores”, do projeto Fronteiras do Pensamento, em dezembro de 2010.

 

Carlos Seabra, coordenador de projetos de tecnologia educacional, foi o convidado do último encontro do módulo Diálogos com Professores 2010, no dia 9 de dezembro. No evento, foi lançada a cartilha Tecnologias na Escola com distribuição gratuita para os professores da rede pública de Porto Alegre/RS. O vídeo com os principais momentos da conferência de Carlos Seabra já está disponível em nosso canal do YouTube. Acesse clicando na imagem acima.

Além da discussão teórica, a publicação traz exemplos práticos e dicas de aplicativos para uso em sala de aula. Na conferência, Seabra discutiu a facilitação proporcionada pela tecnologia e a necessidade da apropriação das novas ferramentas pelos professores. “Hoje, as pessoas nascem com o mouse na mão”, afirmou. Para ele, o professor só conseguirá atrair seus alunos se conseguir entendê-los. Mas, para tanto, precisa compreender as novas tecnologias.

O objetivo da cartilha Tecnologias na Escola é ajudar os educadores a repensarem o formato tradicional da educação e a incluírem as ferramentas digitais no processo de ensino. “Para um professor ensinar a ler, ele precisa saber ler. Para ensinar a escrever também. Com a tecnologia não é diferente”, sustentou Seabra.

A cartilha foi dividida em dez temas: navegação, comunicação, vídeo, som, imagens, blogs, textos e planilhas, mapas, redes sociais e jogos e simulações. De forma clara e direta, o educador tem acesso aos principais programas e aplicativos disponíveis na rede que podem facilitar o uso da tecnologia no processo de educação.

A publicação também traz exemplos práticos e sugestões de atividades para complementar os estudos e incentivar os alunos a participarem ativamente da aprendizagem. A cartilha sugere, por exemplo, que os educadores aproveitem o Twitter para propor que os alunos elaborem microcontos de apenas 140 caracteres ou façam resumos com poucas palavras, treinando a capacidade de síntese dos estudantes. Esses exercícios também podem estar relacionados à produção de textos mais longos, postados em blogs, desencadeando um envolvimento maior dos alunos.

Desdobramento do Fronteiras do Pensamento, o “Fronteiras da Educação – Diálogos com os Professores” é um evento gratuito que reúne docentes de escolas municipais e estaduais de Porto Alegre e da região metropolitana para debater questões como ética, religião e conectividade, entre tantos outros temas.

 


Uma extensão da mente: debate com Carlos Seabra

Roselly Carvalho de Araújo é professora de matemática há 22 anos. Um belo dia, deixou de lado o giz e o quadro negro e levou seus alunos para o laboratório de informática. Ela listou nomes de artistas e pediu que os pequenos identificassem formas geométricas nas obras de arte, tudo via pesquisa na internet. “Fiquei impressionada quando um deles falou ter visto um quadro da Tarsila do Amaral no Faustão”, conta.

De certa forma, a pequena história de Roselly resume o tema da palestra de Carlos Seabra no Fronteiras Educação – Diálogos com Professores, realizada no dia 09 de dezembro, no Salão de Atos da UFRGS, em Porto Alegre. O debate sobre o uso de tecnologias no ensino e como explorar o potencial delas na aprendizagem foi um sucesso de público, crítica e repercussão na mídia. Também marcou o último encontro do Fronteiras do Pensamento 2010 e o encerramento do ano letivo da Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre (SMED).

Dois mil educadores assistiram aos dois encontros, com mais de duas horas de duração cada. Com a mediação dos professores Ítalo Dutra, do Colégio Aplicação, e Daniela Bortolon da Silva, da Smed, Seabra argumentou que o computador não pode estar restrito a laboratórios de informática. Brincou que seria o mesmo que entregar lápis para os homens da Pré-História, mas limitar o uso a apenas uma caverna. O aluno deve ser estimulado a usar as ferramentas do celular, interagir de casa via sites como o Twitter, tudo para desenvolver o empreendedorismo cognitivo. “Os alunos precisam ter prazer em buscar conhecimento. Na Grécia Antiga, quando Sócrates disseminava seus ensinamentos à sombra de uma árvore, quem o ouvia adorava estar lá, aprendendo”, filosofou.

Segundo Seabra, os professores devem apropriar-se da tecnologia disponível. Defende que a utilização de computadores, smartphones, tablets e suas ferramentas estimulam os alunos a levantar hipóteses, reconhecer padrões, desenvolver projetos, saber pesquisar, ser metódico, entre outros. “A principal tecnologia é utilizar o cérebro. E o computador é uma prótese, uma extensão da mente. Os professores que ainda não têm acesso a ele na escola, já devem imaginar o que farão quando o tiverem”, afirma.

Carime Kanbour, vice-presidente do Instituto Claro, incentivador do Fronteiras Educação, lembrou que o evento foi uma forma de se aproximar dos professores e conhecer um pouco melhor a realidade deles. Para o Instituto, a utilização das novas tecnologias no ensino é uma bandeira. “É importante para ver se estas ideias podem ser aplicadas na prática. Acreditamos que as novas tecnologias são aliadas na difusão do conteúdo e ajudam na construção de uma nova realidade de aprendizagem”, projeta.

Para a Secretária da Educação, Cleci Jurach, o professor municipal ganhou um presente de Natal. Ela espera que a palestra de Seabra abra novas possibilidades para os educadores planejarem no ano letivo de 2011 com outra perspectiva, um pouco mais tecnológica. “É o que sempre dizemos: ‘a educação não está pronta’. A fazemos o tempo todo, construindo conhecimento”, defende.

E para fazer com que esta tarefa seja facilitada, todos os presentes receberam uma publicação de 28 páginas sobre o tema, organizada por Seabra, com conteúdos sobre o uso da internet e de suas ferramentas no ensino. A cartilha será distribuída para todos os professores da Rede Municipal de Ensino. Mas seu conteúdo também está disponível para download no site do Instituto Claro. Instituições de Ensino interessadas em ter o fascículo devem contatar a Central de Relacionamento do Fronteiras pelo e-mail relacionamento@fronteirasdopensamento.com.br. A expectativa é que todos sigam o exemplo da professora Roselly, buscando alternativas para ampliar o conhecimento dos alunos e fazer da escola um prazer, não uma mera obrigação.

O Fronteiras Educação – Diálogos com Professores é uma iniciativa do Instituto Claro com o apoio cultural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e da Prefeitura Municipal de Porto Alegre. A edição 2010 do Fronteiras do Pensamento – Para compreender o século XXI é apresentada pela Braskem, tem o patrocínio de Unimed POA, Gerdau, Grupo RBS, Instituto Claro e Refap, e o apoio cultural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Anhanguera Educacional e Prefeitura Municipal de Porto Alegre.

• Saiba como funciona a cartilha no vídeo Tecnologias na Escola: http://youtu.be/Rt8gtu5urGY

• Faça o download completo da cartilha: http://www.institutoclaro.org.br/banco_arquivos/Cartilha.pdf

 

O prazer do jogo

01/08/2003

AGOSTO 2003

Palestra apresentada durante o Seminário Internacional “Memória, Rede e Mudança Social“, do Museu da Pessoa em conjunto com o Sesc SP, de 12 a 14 de agosto de 2003, na mesa “Histórias Digitais”, da qual fizeram parte Thom Gillespie e Carlos Seabra.

Sou criador de vários jogos e trabalho com educação. A abordagem em que sempre penso, ao elaborar projetos educacionais, culturais e outros, e muitas vezes não digo isso para não assustar as pessoas, é a lúdica. Digo isso porque, na verdade, acho que vivemos num jogo, que é a vida; um jogo não no sentido de manipulação do outro, embora muita gente jogue assim.

Podemos pensar no planeta como um tabuleiro, ele é todo cheio de casinhas, latitudes, longitudes e nós somos peças. Em parte, herdamos da nossa cultura as regras do jogo. Em parte, as inventamos, reinventamos, tentamos descobrir que regras são essas. Nesse sentido, recomendo um livro muito interessante, o Homo Ludens, de Huizinga. Neste livro (escrito em 1938, publicado no Brasil pela Editora Perspectiva), o autor aborda o jogo na história da humanidade, nas relações entre as pessoas; ele mostra como em tudo existe algo de jogo; e não só entre os seres humanos, mas também entre os animais. Quando um cachorrinho está brigando com outro, não é de verdade. Estão brincando de brigar e se preparando para futuras disputas pela fêmea. O jogo existe em tudo, até na relação amorosa: esta é um jogo em que o tabuleiro são os corpos de um e de outro, e onde as regras também precisam ser descobertas, criadas.

Vivemos com a Internet, que é um grande jogo do encontro das pessoas. No fundo, o jogo é também um pretexto para as pessoas se encontrarem e interagirem. O pessoal que fica jogando durante horas uma partida de buraco, está também batendo papo, comendo amendoins, tomando um chope: é uma forma de sociabilidade. O jogo tem essa função também. Um grande jogo freqüentado pela maioria dos internautas, que não se apercebem que é um jogo, é o chat. A sala de bate-papo é um grande passatempo. Sobre ele ouço as mais diferentes manifestações. Há pessoas que são viciadas: ficam lá horas por dia, mas não admitem isso. Dizem que usam Internet para navegar, para pesquisar, trocar e-mails, e que chat é muito chato, que só entraram uma vez. Existe aí uma dose de mentira muito grande, isso voltando à questão da verdade e da mentira, que também é um jogo.

Escola sem prazer

São atividades que dão prazer e são mais ou menos censuradas. Tem origem na nossa educação escolar, e é isso que temos que mudar. E aqui uma curiosidade: o significado grego da palavra escola é local de prazer. Isso é que a escola deveria ser. Um local para se ter prazer intelectual. Não precisa de outros, porque o mundo está cheio deles, mas o prazer intelectual a escola não estimula. A criança que está curiosa para saber o que são essas letrinhas aqui, entra na escola e sai dela odiando Machado de Assis. É um jogo que não está dando certo, pois nasceu da construção de competências de outra sociedade, a da mão de obra fabril. Hoje, a escola ainda é taylorista, fordista, as pessoas aprendem mais a ter disciplina e a respeitar o professor do que a ter a prazer na aprendizagem. A isso se juntam alguns traços da nossa cultura judaico-cristã, que associa o erro ao pecado. Se o fulano errou, quer dizer que ele pecou. Mas nunca que ele formulou uma hipótese que não obteve sucesso. E errar é parte intrínseca do jogo.

Master Mind é um jogo internacionalmente conhecido, lançado no Brasil como Senha. Você coloca uns pininhos coloridos, e o adversário tem que adivinhar a ordem deles. Conforme ele põe pinos coloridos, você responde colocando pininhos pretos ou brancos indicando se é a cor certa no lugar certo ou no lugar errado. Nesse sentido, a melhor resposta que você pode ter, quando você formula a sua hipótese é o outro dizer que você errou tudo, pois assim você já descarta de cara aquela cor. É a melhor coisa, a melhor informação que poderia haver, porque do erro advém informação. É na escola que se forma uma série de conceitos, e acabamos carregando isso, por exemplo, do errar como sendo um sinônimo de pecar. Isso também tem a ver com a cultura industrial, porque o operário que está na linha de montagem, como Charles Chaplin em Tempos Modernos, não pode errar porque um erro vai parar a esteira de montagem. Errar é um luxo impensável na sociedade industrial. Mas, na sociedade da informação e da comunicação, o erro deve ser estimulado.

O jogo na escola deve mudar também. A prova é o único lugar onde é usada a linguagem escrita. A escola deveria ensinar a ler e a escrever, mas ensina a odiar Machado de Assis e outros autores e pune quando os alunos escrevem espontaneamente. Na escola só é permitida a escrita no ritual sado-masoquista da prova. Quando o aluno escreve para armazenar informações, visando posterior recuperação no contexto adequado de utilizá-las, isso é chamado de cola e é punido. Deveria ser estimulado. É a atividade mais útil, armazenar dados para transformar em informação e construção de conhecimento.

A verdadeira prova deveria ser assim. O Joãozinho traz a prova para a professora, que diz: “Joãozinho, a primeira questão está certa, mas você foi muito lacônico, peço que você reconsidere e aprofunde um pouco mais a resposta. A segunda está totalmente errada, você deve pesquisar melhor. A terceira está muito boa, até peço licença para usá-la em minhas aulas futuras”. Você devolve a prova ao Joãozinho e quando ele a trouxer pela segunda vez, após os comentários da professora, aí sim a prova deveria ser merecedora de nota. Isso é mudar as regras do jogo. Nesse sentido, o raciocínio lúdico é muito importante para entender o mundo. É que às vezes o jogo é usado no sentido pejorativo, como sinônimo de manipulação. No entanto, a consciência lúdica é mais uma ferramenta para entender a realidade.

O jogo do chat

Mas, voltando ao chat, ele é um grande jogo em que as pessoas são personagens. Nesse sentido tem tudo a ver com história oral, com história digital, com ficção, e tem tudo a ver com a verdade também. Mesmo quando o sujeito pretende ser o que não é, no fundo ele é. Aquilo que você quer ser é parte daquilo que você é. Então, quem afirma que quer ser médico, de alguma forma já é um pouquinho médico. Só pelo fato de querer ser, ele já passa a ser. Quando o sujeito diz que quer ser assassino, matar um montão de gente, no fundo já é um pouco assassino, se você permitir. O Fernando Pessoa já dizia isso, que “o poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a sentir que é dor a dor que deveras sente”. O sujeito que entra no chat e diz sou uma loira de olhos azuis, no fundo talvez queria experimentar isso. Não quer dizer que queira ser isso de verdade. Ou seja, no chat você pode vivenciar coisas que não é.

Um jogo que o Thom Gillespie mencionou, de um sujeito que mija no elevador ou o sujeito que atropela cachorros, não acho que isso seja necessariamente negativo, porque faz parte de um experimentar. Quem, ao jogar War, já não foi um grande general que arrasou continentes? No fundo, aquele sujeito é o maior pacifista do mundo, incapaz de matar uma mosca. Faz parte do processo civilizatório viver coisas que você não é, até para saber que não quer ser. Quando você lê um romance passado na Bessarábia, pode achar que foi ótimo ler o livro, mas não pretende ir passar suas férias lá. Quando joga um joguinho em que você é um grande assassino nas catacumbas do planeta tal, você descarrega toda uma energia. Isso não é barbárie. Barbárie é um sujeito no boteco da esquina, na favela da periferia, quebrar uma garrafa e espetar a garganta do outro, assassiná-lo porque estava um pouco alto e o alvo falou que torcia para o time que ele odeia. Processo civilizatório é o sujeito dar vazão a toda essa carga primitiva e agressiva em processos criativos, seja na arte, na música. Beethoven era um dos maiores loucos do mundo. Só que usou essa loucura para produzir sinfonias fantásticas. Van Gogh era outro louco que utilizou sua insanidade na pintura.

Quando alguém está jogando xadrez, acha que isso é civilizado e não percebe que representa uma agressão recíproca porque é o simulacro de uma batalha. Mas o xadrez muda também, ao longo do tempo. Por exemplo, o xadrez que acabei de mencionar, nasceu como chaturanga na Índia; ele era um jogo para quatro pessoas, característica dos jogos indianos. Quando foi para os países árabes o xadrez virou shatranj, e, de quatro pessoas, reduziu-se o número a duas. Ao invés de ter dois reis no exército, passou-se a ter um vice-rei. Só quando o xadrez veio para o ocidente é que o vice-rei passou a ser chamado de rainha. E do mesmo jeito o elefante: quando o jogo veio para o ocidente, a estilização das duas orelhas do animal fazia lembrar a mitra do bispo. Então, ele passou a ser chamado de bispo. E, quando no xadrez ocidental o peão chegava na última fileira, ele ficava lá parado esperando ser comido. Foi preciso vir a Revolução Francesa para mudar o papel do peão no xadrez. Só depois disso é que o peão foi promovido a uma peça nobre. Há poucos anos atrás, um professor norte-americano da New Left – lá também há gente de esquerda –, inventou uma variação do xadrez chamada Luta de Classes, em que você coloca de um lado os dezesseis peões e do outro as oito peças nobres. A estratégia entre ambos é completamente diferente.

Voltando mais uma vez à questão do chat, ele possui uma outra coisa também: é um jogo em que as pessoas entram, inventam o seu personagem e como em todo jogo, é necessário um mínimo de respeito às regras. O estraga-prazeres não é aquele que rouba no jogo, é aquele que se recusa a jogar. O sujeito que procura jogar uma carta que não tem está de algum modo fazendo parte do jogo. O que pega a sua parte no baralho, põe no bolso e vai embora, esse é o verdadeiro estraga-prazeres, porque está se recusando a jogar. Uma experiência muito interessante para se para fazer numa sala de chat é sobre aquelas tradicionais perguntas. A primeira coisa que as pessoas querem saber é se você é homem ou mulher. Experimente entrar com um nick name dúbio, que não informa isso. Você vai ser bombardeado. Em seguida querem saber o local geográfico onde você está, depois a idade. Se você conseguir fazer um jogo sutil de não passar nenhuma dessas informações, as pessoas entram em paroxismo. As pessoas precisam disso até para inventar quem você é. A invenção está dos dois lados. Você diz: Eu tenho tanto de altura, peso tanto. Aí ele começa imaginar o que quiser. Ou seja, você é responsável por aquilo que você diz, mas não por aquilo que o outro imagina. Se você não der os elementos mínimos, e esse anti-jogo é muito divertido também enquanto experiência, você vai ver que a pessoa fica irritada. Elas preferem que você invente, mas que forneça a elas o mínimo para que possam inventar o resto.

Caverna de Platão

Uma coisa engraçada que eu estava aqui pensando enquanto o Thom falava é a que, não sei se alguém já leu sobre a alegoria da caverna, de Platão. Ele diz que, na verdade, o mundo existe num local virtual que é a caverna. É nesse mundo ilusório que existe a verdade. E nós, aqui, somos uma mera projeção. Então, de certa forma, entramos nesse novo mundo virtual que nos traz grandes desafios, pois parece que não existe, que é uma dimensão paralela. Só quem está no mundo virtual transita e vem ao mundo real. Cada vez mais o valor do arroz e do feijão, da saca de cimento, é ditado por esse mundo virtual. Quem joga o grande jogo da Bolsa de Valores, da manipulação desses meios virtuais, tem cada vez mais controle sobre o mundo real. E quem só está no mundo real, como o morador lá da favela, analfabeto, está cada vez mais alienado do mundo em que vive.

Sempre uso um exemplo nas minhas palestras sobre inclusão digital: lá está o seu Zé no campo cavando a terra. Aí passa o patrão dele a cavalo e fala para o seu Zé: “Oi? Tudo bem?” Ele saúda o patrão, conversam um pouquinho, um vai embora e o outro continua cavando a terra. Passam-se os anos, e está lá o seu José, ou o filho dele, ou o neto, o tataraneto, porque sempre existe um seu Zé cavando a terra. Cresceu a tecnologia. Passa o patrão, que pode ser o neto ou o bisneto do patrão do início desta história, só que agora cresceu a tecnologia e ele não passa mais a cavalo. Passa num BMW, na estrada, em alta velocidade, abaixa o vidro fumê de seu carro (que estava fechado por causa do ar condicionado), e dá um tchauzinho para o seu Zé lá embaixo do sol. Eles já não conversam mais, mas ele dá tchau para o patrão que passa nessa nova tecnologia chamada automóvel. Passam-se os anos e está lá o seu Zé, ou um descendente dele, e passa o patrão dele agora de avião, num jatinho no céu. Então, o seu Zé ainda dá um tchau para aquele jatinho sem saber se o patrão está a bordo ou não. O patrão olha para baixo e vê um pontinho preto; não sabe se é um seu Zé qualquer ou um boi lá no meio da propriedade. A tecnologia está então aumentando ainda mais à distância da possível comunicação. E hoje o patrão desse seu Zé passa pela Internet. O seu Zé nem sabe se ele está passando ou não, o patrão dele é virtual. Ele nem sabe se o patrão está aqui no Brasil ou na Bélgica. O patrão dele agora se desloca na forma de bits e não mais de átomos. Então, esse novo mundo virtual que interage com o nosso mundo real, esse novo Topus nu Ethos que temos traz novas percepções da realidade. É muito interessante o caso de Thimoty Leary, aquele louco que usava LSD para expandir as fronteiras da mente e que em seus últimos anos se dedicou à pesquisa de software. Ele dizia: se existisse software quando comecei fazer as pesquisas com LSD, eu nem teria precisado daquilo, porque o software dá muito mais barato. Mexe muito mais com a percepção.

A nova escrita

O que o chat nos traz de novo? Fazendo uma conexão com a questão das histórias digitais, é um jogo no qual estamos contando histórias, inventando, sendo protagonistas. Todo mundo sempre contou histórias ao longo dos tempos, só que a história oral não fica. Já diziam os romanos: verba volant scripta manent. Quer dizer: as palavras voam, a escrita fica. Temos historinhas da Mesopotâmia até hoje em tabuinhas e já não sabemos com certeza se o que diziam na época chegou até nós. Já a Internet nos traz um ambiente onde a pessoa, ao falar com o outro, nem que seja uma bobagem, está escrevendo. Isso muda também a nossa relação com a escrita, que deixou de ficar circunscrita a poucas palavras trocadas pelas pessoas. Antigamente, quando não existia telefone, televisão, não existia rádio, a pessoa vinha para o Brasil e deixava a amada em Portugal. Aí mandava uma missiva pela caravela d’El Rei, que demorava seis meses para chegar, se a caravela não afundasse. Se ao chegar, a amada dele ainda o amasse e lhe respondesse, outros seis meses decorreriam até chegar uma possível resposta. Era um processo longo, que nos deu belas histórias da humanidade, como as cartas de Van Gogh ao seu irmão. Existem hoje belíssimos acervos na forma de cartas, de correspondências entre intelectuais, material de anônimos, etc. Quando Graham Bell teve a genial idéia de inventar o segundo telefone – a grande idéia do Graham Bell não foi inventar o primeiro, que não serve para nada, mas foi inventar o segundo, que permite a comunicação com o outro (aliás, pequena curiosidade, esse segundo aparelho foi comprado por Dom Pedro II) – deixou de ser importante a comunicação por escrito. Ficou mais fácil ligar: “Oi querida! Você ainda gosta de mim? Desligue. Amanhã ligo de novo”.

A escrita perdeu o papel que tinha antes, mas a Internet veio resgatar isso. Ela faz com que todo mundo escreva e colocou na educação um potencial fantástico. Tenho desenvolvido vários projetos sobre isso em escolas, públicas principalmente. Usando a comunicação pela Internet, notamos um salto de qualidade na capacidade das pessoas colocarem suas idéias no papel, nem que seja esse papel virtual e a projeção da sua auto-imagem na escrita. Aquela menina paulista que está trocando correspondência com um rapaz de Pernambuco, por exemplo, ela diz: “estou conversando com um gatinho lá de Recife”. Como você sabe que ele é um gatinho? Ele te mandou foto? “Não, mas ele me escreve tudo bonitinho”. Porque nós somos aquilo que escrevemos. E como é essa menina? Pela Internet, ela não pode seduzir com uma roupa bonita, com a maquiagem, com corte de cabelo, aqueles truques femininos, um jogo tão delicioso de jogar. Eu particularmente adoro isso, o jogo de sedução que caracteriza a relação entre os sexos, mesmo que o objetivo não seja sexo. Só um mero flerte já é um grande jogo, que passa através daquilo que escrevemos. Então, se escrevemos com erros de português, o outro já faz uma imagem sua como um sujeito desdentado, que não tomou banho, que usa roupas feias. Isso nos traz um contexto, um tabuleiro de jogo fantástico, se pensarmos em novos tipos de relações na rede social e na possibilidade de uso disso na educação.

Outra coisa que as novas tecnologias de comunicação, principalmente a Internet, nos trazem é a possibilidade de mais facilmente sermos autores, protagonistas. Sempre digo para o pessoal nas escolas que mais importante do que surfar na Internet é aprender a fazer onda; ou seja, compor uma musiquinha, fazer um rap, fazer o seu MP3 e mandar para a rede. É usar o Napster, o Kazaa, etc. Todas essas ferramentas peer to peer, não existem somente para pegar músicas, mas para sermos autores também. Gravar a música da sua banda, codificá-la em MP3 e colocar no ar na Rede. Nos nossos trabalhos de inclusão digital na periferia de São Paulo, procuramos trazer a terceira idade, pois a juventude não precisa. Na periferia ou na escola, parece que essa juventude já nasceu com o mouse na mão. O pessoal vê o computador e já sabe o que fazer. A minha neta tem quatro anos e a primeira vez que ela se sentou na frente do computador eu não precisei ensinar nada. Ela já sabia abrir, fechar, clicar duas vezes no ícone. Já virou algo meio intuitivo para a nova geração.

Bolo de fubá

Lidar com terceira idade é um processo mais complicado. Aliás, houve um evento no Itaú Cultural sobre jogos, fui até lá dar uma palestra e depois me mostraram uma simulação que o pessoal do ItaúLab desenvolveu, uma versão nossa do MediaLab. É uma visita virtual à Avenida Paulista no começo do século passado (1920/1930), com todos aqueles casarões. Um jogo só para fazer uma simulação histórica. E levaram uma velhinha lá, de noventa e tantos anos. Quem fez isso foi um jornalista da Folha, Sérgio D’Ávila se não me engano. Ele ficava mostrando para ela, que ia comentando. Ao se deparar em um determinado casarão, o operador do computador dava um zoom, e a velhinha se entusiasmou: “aqui as pessoas usavam roupas melhores do que essas.” “Nessa casa está faltando um detalhe.” Ao fim, ela disse: “gostei muito desse filme.” Para ela aquilo não era uma realidade virtual. Disse ainda: “achei engraçado, toda a vez que eu olhava para um detalhe, o filme parava e mostrava mais, parecia que ele estava acompanhando o que eu pensava”. As pessoas até tentaram explicar, mas ela saiu convencida de que tinha assistido a um filme. De fato, a terceira idade tem uma dificuldade maior em entender o novo paradigma.

Há algumas estratégias novas quando trabalhamos com inclusão digital da terceira idade, que no fundo é também colocar as pessoas para serem autores e protagonistas. Por exemplo: uma senhora que passou toda a sua vida sendo dona de casa, não vai querer olhar o Museu do Louvre, nem jogar um joguinho interativo. Mas provavelmente irá gostar de entrar em um site de receitas culinárias. “Olha! Essa receita de bolo de fubá é parecida com a minha”. Aí a receita é impressa. Ela leva a receita em papel – melhor que seja num corpo catorze, para enxergar melhor – e mostra a suas amigas, conquistando certo upgrade social, inclusive. Pois as outras vão dizer: “mas, Clotilde, onde você pegou essa receita? Na Internet? Não acredito! Aquela coisa da novela! Aquela coisa que o meu neto usa?” A partir desse momento, ela está fazendo parte da rede também. É importante pensarmos nas novas tecnologias, usando também as velhas tecnologias, ou seja, a impressão em papel do exemplo, ou lápis e caderno, ainda hoje as melhores tecnologias que existem.

Aquela senhora vai fazer sua rede social levando a receita para as amigas. Isso vai gerar comentários, mas, normalmente, o que ocorre posteriormente? Duas ou três semanas depois ela já não quer mais ver receitas na Internet, e começa a criticar. É muito engraçado. No início: “O que é isso?” Um computador. Um mouse. Duas semanas depois, já se pode ouvir: “a conexão está lenta, não é?” É impressionante. As pessoas se habituam com muita rapidez, e começam a questionar. “Ah, mas eu tenho uma receita muito melhor do que essa, quero colocá-la na Internet”. Esse é o passo seguinte.

A Internet é por excelência o espaço para sermos autores, protagonistas. Claro que não é o caso da senhora dona-de-casa aprender a programar HTML para fazer uma página. Aí começamos também a quebrar um conflito de gerações. Chamamos um rapaz que está lá, louco para aprender HTML, para fazer sites que não tenham tanto conteúdo. Ele pode ajudar a velhinha a colocar sua receita na Internet ou, o que está cada vez mais freqüente, usar ferramentas disponíveis para editoração automática. Não é preciso entender de HTML, de flash, etc. É só entrar na Rede, os blogs estão explodindo, porque é um instrumento fácil e existem diversos outros softwares para construir histórias coletivas, uma ficção coletiva. Aquilo que o Ramalho Ortigão e o Eça de Queirós fizeram com o romance O mistério da estrada de Sintra, em que cada um escrevia uma parte. Passava para o outro o pepino, uma parte mais difícil, o outro continuava a história e isso resultou em um excelente romance. Você pode fazer isso hoje na Internet, um trabalho de ficção coletiva em que cada um vai escrevendo um parágrafo, que vai sendo agregado. Isso é um jogo e ao mesmo tempo as pessoas colocam, às vezes, uma história de vida. Esses ambientes estão cada vez mais ricos.

Outra coisa fantástica é o Wiki, desenvolvido por um norte-americano, Ward Cunningham. O wiki, segundo o autor, vem do idioma que se fala no Havaí. Wiki wiki significa rápido, e é uma série de telas, ligadas umas às outras, onde se pode escrever o que quiser e uma palavra pode ser um link para outra tela que outro escreveu, mesmo se a pessoa não entender nada de produção de páginas. Tem até uma experiência internacional chamada Wikiedia (wikipedia.org em inglês e pt.wikipedia.org em português), uma enciclopédia em Wiki em que cada um vai colocando seus verbetes. Claro, há muita porcaria misturada a coisas geniais. Como o Thom disse, a diferença entre nós, pessoas comuns, e um Leonardo da Vinci, um Einstein, é que eles fizeram muito mais lixo do que nós. Não tiveram medo de errar, de ousar. E todo mundo sabe que um processo de brain storming, um “toró de palpites”, em português, é falar muita besteira. No meio disso, surge uma idéia muito legal. Assim, esses ambientes de criação coletiva são novos desafios para nossa criatividade, e um grande instrumento em que aparece de tudo.

O saci pererê

Acho importante também, nessas novas ferramentas, ter mais conteúdos de língua portuguesa, que representam hoje apenas 2% dos conteúdos da Internet mundial, segundo cálculos do Comitê Gestor da Internet no Brasil. Quando fazemos um trabalho de inclusão digital, o grande objetivo é fazer inclusão social, e não viabilizar acesso às contas no banco ou fazer compras no supermercado. Até porque essa população excluída nem tem cartão de crédito. Nada contra, até porque é uma forma de democratização. Mas isso é tarefa para as empresas que irão lucrar com isso. Projeto de inclusão digital com dinheiro do Estado e o envolvimento de empresa de responsabilidade social devem visar um conteúdo de inclusão da pessoa, de forma que ela seja autora e protagonista. Porém, quando esse pessoal entra na Internet, a imensa maioria dos conteúdos é em outros idiomas. É um belíssimo desafio aprender a se comunicar em outros idiomas, através da tentativa e erro – e há casos fantásticos de pessoas que começaram a dominar inglês sem nunca ter feito um curso porque, com o já disse a Rita Lee, o inglês é o esperanto que deu certo. As pessoas aprendem essa língua de um jeito ou de outro e o idioma acaba sendo uma linha de comunicação. Mas também é preciso falar e encontrar conteúdos em seu próprio idioma.

Aí reside nosso desafio, o nosso Saci Pererê. Colocar as histórias que o nosso povo conta, as tradições e as histórias pessoais de cada um. Esse belíssimo trabalho que o Museu da Pessoa faz é uma das formas de ocuparmos a Internet com o conteúdo de quem nós somos. Se não está no virtual, você não existe, a sociedade virtual se caracteriza por isso. Então nós, de língua portuguesa, deveríamos ter como meta dobrar nossa participação. Em espanhol, os conteúdos somam cerca de 5%. Essa é outra dimensão interessante de considerar quando estamos inserindo novos conteúdos, não só populares, mas dos nossos intelectuais, que também são excluídos digitais. Por exemplo, meu amigo Fábio Lucas, que foi cinco vezes presidente da União Brasileira de Escritores, não usa e-mail. Ele ainda escreve usando máquina datilográfica. Como ele, há uma quantidade enorme de pintores, de escritores, que ainda não estão incluídos digitalmente. Com isso passamos a ter menos conteúdos na Internet.

Para concluir volto à questão da verdade que o Thom mencionou anteriormente. Creio que a verdade é uma procura e há uma espécie de jogo nisso. Quando é divulgada uma notícia, não sabemos mais em quem acreditar. Thom mencionou a CNN, nós temos aqui a Globo, o SBT, uma profusão de canais, e quanto mais a história é igual, mais desconfiamos que não estamos tendo acesso total a ela. Thom mencionou a CNN, Al Jazeera, e talvez sejam dois lados de uma mesma moeda, que ajudam a enxergar o mundo um pouco mais tridimensionalmente. Possivelmente tanto a Al Jazeera quanto a CNN não estão contando a história como talvez a víssemos olhando por um outro lado, pois dois envolvidos num mesmo conflito têm sempre uma visão unilateral. É por isso mesmo que há o conflito. Quem está fora vê tudo de outra forma, o que é um jogo também; talvez o principal, que vivemos no dia a dia.

De vez em quando somos convocados a jogar nesse grande tabuleiro em que brincamos com urnas eletrônicas – nisso o Brasil tem uma experiência ímpar, mas que também deixa dúvidas. Será que existe algum algorítimo por trás disso que pode fazer com que o voto que depositamos vá para outro? Essas dúvidas serão esclarecidas apenas quando tentarmos entender qual é a regra que está por trás disso. Qual é o funcionamento desse tabuleiro, desse mecanismo.

Conexões inéditas

Para finalizar, quero falar de uma experiência muito interessante, que mostra como a rede é próxima… Todos nós estamos muito perto. As pessoas sempre dizem: “como o mundo é pequeno”. E a Universidade Columbia fez um experimento para provar isso. Parece que estamos separados de outra pessoa em qualquer parte do planeta por cinco, seis ou sete pessoas. Qualquer um pode participar desse experimento através da URL www.smallworld.columbia.edu. Ao se cadastrar, recebe-se um target, que é uma pessoa. Eu me cadastrei e recebi uma moça, com nome que não vou citar. Ela é judia, mora em Nova Iorque e tem vinte e nove anos de idade. Meu objetivo é mandar um e-mail para outra pessoa que imagino possa chegar nela. Essa outra pessoa vai mandar para outra. Essa experiência é monitorada, eles vão tabulando e tecendo as redes. É muito interessante porque às vezes encontramos outra pessoa depois de duas ou três etapas, assim como pode também demorar quinze, mas a média no planeta é de cinco a sete pessoas. É a distância que cada um de nós está separado de qualquer outro, através de uma rede de desconhecidos. Essa rede é interessantíssima de ser utilizada para um grande jogo, em que é possível fazer uma rede de histórias pessoais, que talvez seja o que nos dá a visão mais multilateral da história do mundo. É como cada um de nós enxerga o negócio.

Nesse sentido é bom lembrar do livro 1984, em que o Big Brother observava a todos, tudo o que todo mundo fazia. Usando as tecnologias através da rede de histórias pessoais, cada um de nós sendo autor, protagonista, todos seremos os olhos que vigiam o Big Brother. Quando pudermos entrar no sistema do Senado, da Receita Federal e cruzar aquela verba que foi liberada para um determinado prefeito com o CIC, o RG dos proprietários daquela empreiteira que ganhou a concorrência, começaremos a perceber como os recursos são aplicados e onde e que interesses estão por trás disso. A partir desse momento nós estaríamos construindo o tabuleiro dessa democracia eletrônica que é a expressão, a caverna de Platão da democracia real do dia-a-dia, do nosso arroz, do nosso feijão, dessa vida de átomos. Só essa é a diferença do conceito entre bits e átomos, e aí eu concluo por agora, lembrando o professor Negroponte do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachussets), quando veio ao Brasil. Na alfândega, ele trazia um notebook e o fiscal perguntou: “você tem alguma coisa a declarar?” Ele disse: “não, só este notebook”. O fiscal quis saber quanto ele valia, e então Nicholas Negroponte retrucou: “você quer saber o valor em bits ou em átomos? Porque em átomos vale quatro mil dólares, mas em bits tem aqui uns quarenta mil dólares”. Cada vez mais estamos nesse mundo virtual, lidando com novos valores e agregando uma série de possibilidades para novos e interessantes jogos, conexão de rede e histórias digitais que é o que todos nós fazemos no dia-a-dia.

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Cultura e inclusão digital

01/06/2002

JUNHO 2002

Fala proferida na mesa de abertura do I Fórum Regional de Políticas Culturais, realizado no Centro Cultural Roberto Palmari, em Rio Claro – SP, em 2002. Na mesma mesa participaram João Baptista Pimentel, Danilo dos Santos Miranda e Hamílton Faria, entre outros. Transcrição da fala de Carlos Seabra, em gravação feita pela equipe do CREC, com a copidescagem de Alda Ribeiro.

Atualmente, estou envolvido profundamente na questão educacional e da tecnologia na educação. Eu percebo que a cultura é o que mais falta hoje em dia no processo educacional. Alguém já definiu que cultura é aquilo que sobra depois que você esquece tudo o que aprendeu, o que mostra como o lastro final é realmente a coisa da cultura.

As maiores dificuldades da escola são de natureza cultural, e hoje que se inaugura o infocentro do Acessa São Paulo aqui, essas questões devem ser analisadas. Para você navegar na internet, ter e-mail, publicar e ser autor envolve muito mais habilidades e competências culturais do que propriamente uma habilidade tecnológica. Essa é uma coisa secundária que se adquire tendo a primeira.

Vou ser muito breve e terminar dizendo que nesta questão da inclusão digital, de incorporação da tecnologia, muito mais importante do que surfar na internet é aprender a fazer onda que é uma coisa eminentemente de construção cultural.

Eu vou dar uma abordagem diferente sobre a questão dos corredores. Por toda minha vida militei na área cultural com cineclubismo há uns 15 anos mais ou menos, em um projeto no qual a gente levava cinema para 80 cidades.

Atualmente estou trabalhando na área educacional e na inclusão digital e não poderia deixar de dar uma visão da minha experiência da área de cultura. Eu vejo educação e inclusão digital com enfoque cultural e agora vou procurar mesclar as duas áreas.

Nós estamos vivendo uma época na qual está se criando uma nova geografia, trata-se da geografia virtual. Todo mundo já deve ter visto filme de ficção científica em que há uma dimensão paralela e as pessoas passam de uma para outra dimensão.

Essa dimensão virtual está sobre nós e em cima de todo o planeta. Ela tem uma nova economia, baseada em bytes, não mais em átomos. Isso traz uma série de desafios para nós, em termos de organização do estado, democracia, cultura, educação, enfim, toda uma série de desafios que o mundo novo nos traz.

Da mesma forma que um novo mundo foi a “descoberta” das Américas, como um continente que estava em crise exportou toda uma série de gente, mão-de-obra para esse Novo Mundo. Hoje em dia, não há mais lugar na Terra para se expandir a não ser em direção ao virtual. Seguindo na mesma comparação, assim como antigamente as caravelas eram o instrumento de descoberta do Novo Mundo, atualmente a tecnologia cumpre um papel similar ao desses barcos. O que ocorria com a caravela? Quando ela não afundava ao ir para o novo mundo e as pessoas não morriam de escorbuto a bordo, chegavam a uma terra onde eram picadas por mosquitos, contagiados por doenças desconhecidas ou morriam atacadas por índios. Se sobreviviam a tudo isso, criavam cidades sem leis, sem esgoto, que eram uma porcaria. Porém, daí nasceu o Novo Mundo.

Hoje, tecnologia é essa coisa, o computador que quebra, dá problema. Eu até fiz um haicai em “homenagem” ao Bill Gates, falando que cada vez que dá pau no micro, ele fica mais rico. Nós estamos atualmente nessa fase em que a gente naufraga. A tecnologia é uma coisa que não é transparente, principalmente para uma população excluída.

Isso faz com que nós, que trabalhamos com cultura e produção cultural, tenhamos o dobro do desafio que é criar o contorno desse continente para que ele não seja desenhado por outros que tenham o interesse meramente comercial como os tais bill gates e outros do tipo.

Um exemplo muito claro desse desafio é o da televisão que na área educacional é um pavor, é um desastre. Na época em que surgiu a televisão, os educadores tiveram uma postura omissa quando não reacionária. Eles pensavam o que hoje muita gente acha, que computador é uma coisa de elite e, no entanto, na favela cada vez tem mais computadores.

Com o atual estágio de avanços e interesses do capitalismo no nosso modo de produção, daqui a pouco vai ter um microcomputador em cada casebre, seja em uma favela ou num bairro rico. Nós temos que estar preparados para criar novos tipos de corredores virtuais, além dos corredores geográficos. Temos que saber atender a essa nova geografia, que também existe, para além do município, do estado, da federação, do planeta. Hoje nós temos o ciberespaço que precisa ser ocupado porque se não fizermos isso alguém ocupará esse espaço, já que não existe vácuo na natureza.

Além disso, trazendo aqui para um terreno mais imediato, existe a conexão do virtual com o real que é básica, ou seja, quando o sujeito domina a informação, os bits e bytes desse espaço, na verdade, ele está dominando as coisas nessa terra que a gente apalpa. Quero dizer que os preços das ações, do arroz e do feijão são determinados virtualmente, mas o seu reflexo tem impacto na realidade.

Poderia dar um exemplo bastante imbecilzinho que serve para o que eu quero dizer. É o seguinte: você pega o seu Zé cavando a terra e ele é um excluído social, um analfabeto, um sujeito que tem verminose. Ele não tem muita expectativa e qualidade de vida. Seu Zé está lá, cavoucando a terra e passa o seu patrão a cavalo; ele conversa com o patrão, dá tchau e o patrão vai embora. A tecnologia se desenvolve e o patrão agora passa numa estrada em uma BMW em alta velocidade, dá uma abaixadinha no vidro fumê, que fica normalmente fechado por causa do ar condicionado, dá um tchau para o seu Zé que continua cavoucando. Esse seu Zé é o mesmo ou é o filho, o neto ou o bisneto daquele, que continua analfabeto, com verminose e excluído socialmente.

A tecnologia se desenvolve mais ainda e o patrão passa agora de jatinho e o seu Zé aqui embaixo dá tchau para o jatinho e o patrão olha, lá de cima, vê um pontinho preto e não sabe se é uma vaca, um boi ou um seu Zé qualquer, porque há vários seus Zés, assim vacas e bois. O seu Zé aqui embaixo não sabe se naquele jatinho vai o seu patrão ou não. Ainda dá um tchau na esperança de alguma comunicação remota com aquele objeto tecnológico. Só que agora a tecnologia deu mais um passo e o patrão dele passa pela internet na forma de um e-mail,na forma de uma conversa em chat e é aí que seu Zé está totalmente frito, ele é um excluído total. Ou seja, com o impacto das novas tecnologias, ou a gente trabalha em um projeto de inclusão digital, que traga junto a inclusão social ou estaremos totalmente equivocados porque só a inclusão digital sem a inclusão social significa informar os usuários de banco 24 horas como usar os serviços ou fazer compras no supermercado, não é isso o que nos interessa, a sociedade capitalista se encarrega de desenvolver isso.

Nós temos que aproveitar essa inclusão para fazer com que a tecnologia seja um cavalo de Tróia, que penetre as muralhas antes indevassadas dessa cidadela do acúmulo do poder e da riqueza que deixa um montão de gente aqui fora. Para isso não basta entrar com o cavalo de Tróia, é necessário que no seu bojo haja guerreiros que tenham um projeto e saibam o que fazer para tomar o poder dentro dessa cidadela, porque na verdade é disso que se trata.

A questão da tecnologia acaba excluindo muita gente, não só os miseráveis, mas também as classe C, D e E. Também há excluídos entre os produtores culturais que ainda, em alguns casos, não se aperceberam que têm pequenas resistências à tecnologia. Com isso, há muita produção cultural que não vai para a internet. Eu assino duas TVs a cabo em casa, antes achava que uma era ruim e agora percebi que duas é o dobro de ruim. Você fica zapeando os canais e só tem porcaria. Aí eu vou para a TV aberta e encontro mais porcaria. A conclusão é que falta conteúdo e eu acredito que também falte produção de qualidade porque houve uma posição omissa ou reacionária de achar que a televisão não era um espaço a ser ocupado e o que aconteceu é que esse espaço foi ocupado pelo Sílvio Santos, Roberto Marinho etc. Temos aí honrosas exceções de boa produção cultural, mas são exceção.

Corremos o mesmo risco disso acontecer com a internet, que é um espaço libertário. Só que a homepage feita por um desconhecido vai ser visitada por 15 pessoas e outra que tenha o patrocínio de uma grande multinacional, seja uma grande operação comercial, é visitada por todo mundo. A maior parte dos usuários, inclusive, carrega automaticamente, homepages de portais não só para os quais pagam como ainda viram propagadores a aumentar uma enorme quantidade de hits.

É necessário, então, que a gente faça a inclusão digital de produtores culturais para que a gente comece a colocar a nossa literatura, a nossa arte, o nosso cinema, a nossa poesia, o nosso folclore e a nossa produção cultural como um todo na internet também. Precisamos ter um projeto nacional e popular de ocupação da internet também enquanto nação, se a gente não ocupar um pedaço neste espaço virtual, alguém irá ocupá-lo. Assim como é importante o Brasil ter um pedacinho lá na Antártida. Nós precisamos ter um espaço no cenário mundial e na internet principalmente, para que qualquer brasileiro, esteja ele no Piauí, em Xiririca da Serra ou morando fora do país tenha um conteúdo no nosso idioma.

Tenho um grande amigo, Fábio Lucas, ex-presidente da União Brasileira dos Escritores, que até agora não conseguimos convencer a ligar um computador que alguém lhe deu de presente. Ele usa o equipamento como um porta-papéis bem sofisticado. Esse meu amigo poderia estar ajudando a diminuir os 90% de mediocridade no conteúdo da internet e colaborando para aumentar os 10% restantes de qualidade.

Nessa formação de corredores virtuais a gente está criando uma rede e como toda rede tem que servir para colher alguma coisa. A rede do pescador tem que ser suficientemente vazada para não colher água e trazer peixe graúdo que não fuja por ela. A rede virtual também tem que ser feita para nós colhermos, para nos trazer o peixe do conhecimento.

Na nova geografia temos um fenômeno novo, o deslocamento da informação e não mais do corpo. Toda vez que a gente puder substituir o deslocamento do corpo pelo da informação, teremos um ganho de qualidade.

Não estou dizendo que a gente vá passar a ficar em casa cada vez mais sedentário com as nádegas e cérebro enormes, o que seria uma visão terrível de futuro. Na realidade, a gente percebe que quando a pessoa entra nessas salas de chat, em sua imensa maioria, vai logo para o contato humano, namorar, paquerar etc. O que rola daí? Casamentos reais de carne e osso porque o ser humano está procurando contato, nunca ninguém substituiu visitar a namorada por ficar telefonando para ela. A internet não vem também substituir nada que seja melhor fazer em carne e osso e isso inclui o prazer e uma série de outras coisas.

Ninguém deixa de visitar a Bahia porque viu um folheto de uma praia de lá, pelo contrário, isso lhe dá mais vontade de ir. Quando estou falando em não deslocar mais o corpo é naquele deslocamento inútil, por exemplo, eu me deslocar até a bilheteria de um teatro para saber se tem ingresso ou não. Para assistir à peça, entretanto, eu quero ver os atores a dez metros de mim. Está na moda agora a gente estar se preparando para o governo eletrônico, a gente paga imposto de renda pela internet e fica muito feliz com isso. Já que tem que pagar mesmo, que seja um processo mais rápido e fácil.

Nós temos que começar também a colocar a produção cultural na internet, não significa transformá-la só em virtual. Vamos continuar assistindo os tocadores de música do nosso folclore no Parque da Água Branca, mas para saber o que está ocorrendo a gente tem que colocar isso na internet, porque senão a gente vai estar perdendo o espaço que vai ser usado para propaganda da TV a cabo ou do banco tal.

Eu sempre procuro colocar isso na cabeça das pessoas pouco afeitas à tecnologia, meus amigos pintores, escritores, cineastas etc. que é importante que a gente passe a ser autor e protagonista para tomar conta da internet.

Se você faz literatura e resolver aprender a fazer html, uma homepage, para aprender com seu filho, você vai estar colocando a sua cara, aprendendo a produzir algo novo, inclusive descobrindo um modo novo de linguagem, porque a imensa maioria do que a gente vê na internet é muito ruim do ponto de vista da concepção visual e estética, assim como a qualidade de texto, dado o pouco engajamento dos produtores culturais na produção dessa mídia.

Sempre levanto que a questão não é tecnológica, aprender a mexer no computador é a coisa mais fácil do mundo, aliás, eu acho que as pessoas só poderiam começar a mexer com informática se já tiverem algum conteúdo, ciência, arte, educação, biologia, qualquer coisa que seja no cérebro. Ao ter contato com a informática isso estraga os neurônios, a gente vê esses jovenzinhos que sabem mexer com hardware, software mas não pegam num livro, que na verdade não sabem produzir nada porque tecnologia não é o artefato tecnológico. Se fosse, a Arábia Saudita seria o principal país do mundo em termos de tecnologia. Quando o reizinho ou vice-rei de lá precisa comprar um forno de microondas, ele adquire o último tipo, o mais moderno dvd, mas se quebrar alguma coisa nos seus brinquedinhos, ele não tem tecnologia para consertar nada. Ao contrário disso, Robson Crusoé, do romance de Daniel Deffoe, que a maioria aqui deve ter lido, é o sujeito que naufragou numa ilha deserta e só mais tarde foi ter aquele caso suspeito com o Sexta-Feira. O cara recriou tudo o que a civilização de sua época tinha com suas mãos e o cérebro, captava o movimento do rio para fazer uma moinho e moer a farinha. Bom, é isso aí, por enquanto, muito obrigado.

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Informática e educação

01/02/1988

FEVEREIRO 1988

Intervenção publicada em “Idéias” nº 4, com a temática de Informática e Educação, edição FDE – Fundação para o Desenvolvimento da Educação, Secretaria de Estado de Educação de SP, em 1988.

Seabra – Nosso trabalho, no Senac, está sendo feito em duas vertentes. Uma é o ensino de Informática propriamente dito, feito no Estado de São Paulo, em 40 escolas do Senac, chamadas de “unidades”. Mas não vou me deter neste aspecto.

0 outro aspecto é a utilização da Informática na Educação, junto a outras matérias do currículo. Resolvemos informatizar primeiramente a área de Saúde, por uma série de características: o docente tem uma formação melhor do que o docente de outras áreas; há uma boa quantidade de matérias teóricas; há, também, o despreparo dos alunos. Para alguns cursos, o pré-requisito é o primeiro grau, para outros, é o segundo. Os alunos deparam-se com uma série de conceitos que eles desconhecem, por exemplo, na disciplina Microbiologia. Eles nunca viram um micróbio na vida, e então há um choque muito maior entre o nível de conhecimento do aluno e o que vai ser exigido dele.

Resolvemos entrar com a Informática também por ser a área mais difícil. Porque não valeria muito a pena entrar com a Informática para rever o que já está resolvido.

Nossa preocupação é criar uma massa crítica dentro da instituição, porque essa massa vai fazer com que todo o processo de informatização siga um determinado rumo. Então, priorizamos o chamado peopleware, formação de recursos humanos; em segundo lugar veio o desenvolvimento de software e, em terceiro lugar, a questão do hardware. A implantação do equipamento, a informatização propriamente, viria como etapa final, para que não se inicie ao contrário, como normalmente acontece. Primeiro você compra o equipamento, depois descola um software e no fim de tudo pensa-se no que se vai fazer com as pessoas que devem mexer com aquilo.

Rapidamente: o processo que seguimos foi constituir uma equipe de 10 pessoas, fundamentalmente docentes e alguns técnicos. Na estrutura do Senac há docentes e técnicos que supervisionam a questão da Educação, não em sala de aula, mas estão trabalhando com a coisa.

Já tivemos dois treinamentos e já temos uma equipe de 20 pessoas que passaram por ele. Este ano teremos mais um. É um processo lento, mas não dá para informatizar todos ao mesmo tempo.

Esse treinamento inicial – o processo não pára aí – é constituído de um mês em tempo integral. O pessoal trabalha 8 ou 10 horas por dia, durante um mês inteiro; à noite e nos fins de semana, os laboratórios ficam à disposição. Nós sobrecarregamos as pessoas com textos para ler e analisar, e tarefas para desenvolver. O pessoal se envolve de tal modo, que acaba ficando 12 ou 15 horas por dia, na etapa final do treinamento, por conta própria.

Em geral são pessoas do Senac, mas eventualmente temos um convidado externo. Tivemos uma pessoa da Escola “Carlos de Campos”, por um convênio que mantemos com a Secretaria da Educação. Há um curso de Enfermagem lá. Outra pessoa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul vai participar também. Mas o objetivo é trabalhar dentro do Senac, apenas. Como fazemos intercâmbio, às vezes temos pessoas de fora participando.

Neste treinamento, os alunos aprendem uma linguagem de programação e discutimos o que é um computador; abrimos um computador, rasgamos um disquete ao meio etc. No entanto, metade do tempo é destinada a discussões sobre educação, planejamento de ensino etc., pois esse é nosso objetivo final. Fazemos uma comparação meio louca; comparamos a Informática à estória da sopa de pedras. O mendigo chega numa casa e pede para fazer uma sopa de pedras: “Vocês me arrumam uma agüinha quente e eu boto as pedras”. A mulher é meio sovina mas concorda, está até curiosa. Aí o mendigo diz: “Teria um pouquinho de sal? Ou quem sabe uma cenourinha?” Aí chega no final, com tantas coisas que pediu, que ele guarda a pedra no bolso e toma uma bela sopa.

Então, o processo de informatização que adotamos é basicamente este. Pode-se dizer que, até o momento, os resultados alcançados já deram um grande salto, só por aquilo que os alunos foram obrigados a fazer em termos de planejamento, de reflexão etc. Um dos nossos exercícios é colocar todo o grupo para fazer o planejamento industrial de um novo tipo de helicóptero. Todos se saem muito bem; todos têm jeito para fazer planejamento industrial, mercadológico. Por que na Educação não conseguem fazer isto facilmente, embora todos sejam educadores? Porque vivemos num tipo de sociedade em que a questão industrial é muito fácil, e Educação é aquela coisa meio nebulosa etc. Partimos de uma série de exercícios de sensibilização para chegarmos à reflexão que queremos alcançar. Aí, discutimos o tipo de educação que queremos dar aos nossos alunos, porque entidades como o Senac sofrem pressão do mercado para fazer treinamento. Mandam os alunos da empresa e querem que saiam apertando o botão certo, no momento certo e não precisam saber mais nada além disso. Até porque, normalmente, se o aluno sabe algo, além disso, ele começa a reivindicar maior salário etc. Então, ficamos nessa contraposição e a filosofia que pretendemos implantar é de não entuchar o aluno de conhecimento, porque é impossível ter todo o conhecimento. Conhecimento é como uma esfera, que à medida que se amplia, aumenta o número de pontos em contato com o desconhecido. Então, quanto mais a pessoa sabe, mais ela descobre que não sabe. Procuramos inclusive reduzir a quantidade de conteúdo a ser transmitida; estamos depurando os currículos. 0 aluno deve ter uma idéia geral e aprender a buscar o conhecimento, em livros, em fontes de referência, na hora em que precisar dele. Neste ponto, o computador permite uma coisa muito rica: que o aluno, sentado à máquina, entre em contato com o seu próprio pensamento. Normalmente ele não raciocina, faz o programa mas não sabe direito por que o fez. No entanto, ele sabe. Assim como nós temos uma série de ações mecânicas, reflexos, complexos, essa coisa toda de psicologia, por exemplo. Mas quando se vai analisar, começa-se a descobrir o porquê de certas atuações, atos falhos etc. Acho que na programação é a mesma coisa. Você faz, o conhecimento está ali dentro; se você fez, é porque sabe. Só que você não sabe refletir sobre o próprio conhecimento. O computador permite isso.

Então, o tipo de software que estamos desenvolvendo no Senac é depurado de uma quantidade de informação que no início achávamos que o aluno deveria saber. Agora nos centramos em dar ao aluno a oportunidade de se exercitar, de errar. 0 erro é criativo, pois é uma hipótese formulada que não encontra comprovação na realidade. Então, no computador, o aluno está sozinho; via máquina, ele encontra seu raciocínio, ele testa muitas coisas e passa a gostar de aprender. Temos visto que o aluno depois deslancha sozinho, cria interesse e vê que aquela matéria não é chata, que aquilo não é uma coisa obrigatória. Acho que este é um aspecto importante a ser relevado.

Neste treinamento com docentes, procuramos transmitir-lhes todo o conhecimento necessário sobre Informática. O “necessário” também pode ser questionado.

Nosso principal objetivo é que o professor lide com a Informática do mesmo jeito que lida com o material didático tradicional: um livro, por exemplo. Hoje em dia, o professor não se impressiona se uma editora lança um livro com uma aparência muito sofisticada, papel especial etc. Ele vai olhar o conteúdo e não se comporta como um índio, recebendo aquelas pedrinhas coloridas, em troca das quais entrega toda a terra a Pedro Álvares Cabral. Porque isso é o que ocorre atualmente na Informática. A máquina tem sons, cores etc. Então, nós procuramos desenvolver essa consciência crítica do professor, porque ele vai ter duas atuações no nosso projeto: uma, a avaliação de software já existente, para ver se ele se adapta às suas necessidades ou não. A segunda é a orientação e o desenvolvimento de software próprio. Eles entram em contato com dezenas de software, dos melhores aos piores; discutem inclusive o aspecto estético dos programas. A estética normalmente não é relevada em Educação, mas é uma forma de linguagem importantíssima.

Bom, como se encontra atualmente nosso processo de informatização? Como disse, escolhemos a área da Saúde como prioridade. Dentro de Saúde, o curso de técnico e Auxiliar de Enfermagem. Ainda no segundo semestre deste ano vamos entrar em Optometria. São cursos com 900 ou 1.500 horas de duração e que contam com várias disciplinas. Em Enfermagem, resolvemos informatizar uma disciplina por inteiro, a Microbiologia, onde os alunos encontravam maior dificuldade. A Microbiologia era ensinada como uma caricatura do ensino de Biologia que temos na Universidade. Mas, não se pretende formar biólogos e a enfermeira não vai precisar deste conhecimento no hospital. Então estamos redirecionando a própria abordagem, em relação ao fim que temos em vista.
A expectativa inicial da diretoria do Senac, que aprovou entusiasticamente o nosso projeto, talvez tenha sido a seguinte: a carga horária do curso de Microbiologia vai diminuir de 30 para 20 horas. Esse negócio de computador abrevia tudo, não é? Mas não, depois de analisar a disciplina, ela passou a ter 50 horas. Não em função da informática, mas com a Informática, o grupo de estudo (uma equipe multidisciplinar, com três enfermeiras que são docentes, técnicos em Informática, psicólogas e especialistas em Comunicação) chegou à conclusão de que o ensino que tínhamos era totalmente errôneo. Então, cada disciplina que vai ser informatizada passa por esse processo. Entendo aqui Informática como ciência da informação no seu sentido mais amplo, onde o computador, a computação, é o cavalo de Tróia que leva no seu bojo essa semente revolucionária que muda tudo, e que faz com que o gerente da unidade, os administradores etc., arranquem os cabelos, porque nós realmente complicamos a vida toda. Então, estamos reformulando todas as apostilas; todo o material de Microbiologia foi para o lixo, porque ele era o lixo que foi se acumulando ao longo dos anos. E nosso trabalho é integrado, pois não queremos informatizar apenas parcelas do conteúdo da disciplina.
Tudo isto leva ao encarecimento da disciplina, para o desespero da parte administrativa. Mas então, o professor não foi substituído pelo computador? Não, um professor a mais teve de entrar na jogada. Porque fomos obrigados, para melhor atender os alunos, a dividir a turma em duas.

O resultado compensa. Mas existe a idéia enganosa que se procura vender, de que o computador vem facilitar tudo. Ele não vem trazer soluções fáceis, vem revelar todos os problemas, que ficam evidenciados. Essa é a experiência mais rica. Os resultados estão sendo ótimos, em termos de qualidade de ensino. Muitas vezes, na Educação, há um acomodamento; entra-se em sala de aula, transmite-se o conteúdo e vai-se embora. Nós estarmos sendo obrigados a mudar tudo isto.

Como disse, estamos informatizando essa disciplina, a Microbiologia. Já planejamos, vimos qual o software a ser desenvolvido, que apostilas vão ser feitas etc. Vamos fazer um vídeo, em desenho animado. Nesse semestre temos um grupo estudando Anatomia e Fisiologia, uma disciplina atualmente com 60 horas. Outro grupo está estudando doenças transmissíveis. No segundo semestre vamos partir para a Optometria e outra área, ainda não determinada, e que está em processo de discussão.

Os professores que já sabem planejar o desenvolvimento do software participam desse processo. Já temos alguns programas desenvolvidos, de pré-microbiologia: um na área de cálculo de dosagem de insulina; outro na área de instrumentação cirúrgica; e outro em terminologia médico-cirúrgica. Os alunos não entendem os termos novos, não conhecem os radicais latinos ou gregos; só sabem ir ao dicionário e às vezes nem os encontram. Estamos desenvolvendo um software para que eles aprendam a decompor a palavra; não queremos ensinar todas as palavras que existem, mas o próprio aluno precisa entender como elas se formam.

Fazer um software educativo é um processo demorado e caro. Mas os resultados estão aparecendo, a organização tem dado todo apoio, inclusive aumentando as verbas para o seu desenvolvimento. Preferíamos comprar software pronto, mas não encontramos nada de bom, ou nada que se adapte ao que queremos ensinar. Estamos obrigados a desenvolver software, não por opção mas porque eles não existem.

Com relação a testes com alunos, utilizamos uma turma-piloto, sem muita metodologia. Ainda não temos um grupo de controle porque nem sabemos que variáveis controlar. Na hora em que colocamos o aluno em contato com o computador, já estamos dando uma motivação a mais; como será que isto interfere ou não? Ainda não determinamos que tipo de controle de variáveis existem, para fazermos testes, digamos, científicos. Então, aplicamos os testes e analisamos no olhômetro ou batendo um papo com os alunos. Isto vai-nos permitir fazer depois uma experiência para avaliar melhor os resultados. Por enquanto, observamos a olho nu, o que não deixa de ser também uma forma de aferição válida.

É isto. Tenho um resumo do programa, com seus objetivos. Isto pode ser xerocado e distribuído.

Intervenção – Caso houvesse software disponível, você compraria ou acha que é mais importante que o professor participe da produção do software, para poder rever todo o seu planejamento curricular? Seria uma forma de desafio, inclusive para mudar a estruturada escola, remexer como vocês fizeram na escola.

Seabra – Acho que este processo existe de qualquer jeito, mesmo que pegássemos um software já existente. Vamos analisar a disciplina, ver seus objetivos, classificá-los. Se existisse um software que se adaptasse às nossas necessidades, nós o compraríamos. É mais fácil, e poderíamos dedicar o tempo que empregaríamos em fazê-lo, realizando outras atividades. Temos um problema de recursos humanos. Estamos tentando conseguir colaboradores para desenvolver software, mas é muito difícil porque a qualidade em geral, no mercado de trabalho, é muito ruim.

Intervenção – Se existisse, no mercado, software capaz de suprir todas as necessidades do currículo, vocês teriam ganho tempo. Mas você acha que a experiência seria tão rica quanto se fosse necessário construir um programa, mexer no currículo, mudar a postura do professor, atender à cobrança da administração? O que você consideraria mais importante?

O resultado compensa. Mas existe a idéia enganosa que se procura vender, de que o computador vem facilitar tudo. Ele não vem trazer soluções fáceis, vem revelar todos os problemas, que ficam evidenciados. Essa é a experiência mais rica. Os resultados estão sendo ótimos, em termos de qualidade de ensino. Muitas vezes, na Educação, há um acomodamento; entra-se em sala de aula, transmite-se o conteúdo e vai-se embora. Nós estarmos sendo obrigados a mudar tudo isto.

Como disse, estamos informatizando essa disciplina, a Microbiologia. Já planejamos, vimos qual o software a ser desenvolvido, que apostilas vão ser feitas etc. Vamos fazer um vídeo, em desenho animado. Nesse semestre temos um grupo estudando Anatomia e Fisiologia, uma disciplina atualmente com 60 horas. Outro grupo está estudando doenças transmissíveis. No segundo semestre vamos partir para a Optometria e outra área, ainda não determinada, e que está em processo de discussão.

Os professores que já sabem planejar o desenvolvimento do software participam desse processo. Já temos alguns programas desenvolvidos, de pré-microbiologia: um na área de cálculo de dosagem de insulina; outro na área de instrumentação cirúrgica; e outro em terminologia médico-cirúrgica. Os alunos não entendem os termos novos, não conhecem os radicais latinos ou gregos; só sabem ir ao dicionário e às vezes nem os encontram. Estamos desenvolvendo um software para que eles aprendam a decompor a palavra; não queremos ensinar todas as palavras que existem, mas o próprio aluno precisa entender como elas se formam.
Fazer um software educativo é um processo demorado e caro. Mas os resultados estão aparecendo, a organização tem dado todo apoio, inclusive aumentando as verbas para o seu desenvolvimento. Preferíamos comprar software pronto, mas não encontramos nada de bom, ou nada que se adapte ao que queremos ensinar. Estamos obrigados a desenvolver software, não por opção mas porque eles não existem. .
Com relação a testes com alunos, utilizamos uma turma-piloto, sem muita metodologia. Ainda não temos um grupo de controle porque nem sabemos que variáveis controlar. Na hora em que colocamos o aluno em contato com o computador, já estamos dando uma motivação a mais; como será que isto interfere ou não? Ainda não determinamos que tipo de controle de variáveis existem, para fazermos testes, digamos, científicos. Então, aplicamos os testes e analisamos no olhômetro ou batendo um papo com os alunos. Isto vai-nos permitir fazer depois uma experiência para avaliar melhor os resultados. Por enquanto, observamos a olho nu, o que não deixa de ser também uma forma de aferição válida.
É isto. Tenho um resumo do programa, com seus objetivos. Isto pode ser xerocado e distribuído.
Intervenção – Caso houvesse software disponível, você compraria ou acha que é mais importante que o professor participe da produção do software, para poder rever todo o seu planejamento curricular? Seria uma forma de desafio, inclusive para mudar a estruturada escola, remexer como vocês fizeram na escola.
Seabra – Acho que este processo existe de qualquer jeito, mesmo que pegássemos um software já existente. Vamos analisar a disciplina, ver seus objetivos, classificá-los. Se existisse um software que se adaptasse às nossas necessidades, nós o compraríamos. É mais fácil, e poderíamos dedicar o tempo que empregaríamos em fazê-lo, realizando outras atividades. Temos um problema de recursos humanos. Estamos tentando conseguir colaboradores para desenvolver software, mas é muito difícil porque a qualidade em geral, no mercado de trabalho, é muito ruim.

Intervenção – Se existisse, no mercado, software capaz de suprir todas as necessidades do currículo, vocês teriam ganho tempo. Mas você acha que a experiência seria tão rica quanto se fosse necessário construir um programa, mexer no currículo, mudar a postura do professor, atender à cobrança da administração? O que você consideraria mais importante?

Seabra – Bom, isto é uma hipótese: se existisse no mercado. De qualquer jeito, teríamos passado pelo mesmo processo; só que no fim, depois de tudo planejado, iríamos ver se existe algo apropriado no mercado. Mas teríamos seguido o mesmo processo. Se encontrássemos algo adequável, compraríamos, sem sombra de dúvida. Temos de informatizar centenas de cursos. O Senac tem dezenas de áreas, centenas de cursos diferentes. É um processo muito lento; talvez no ano 2000 estejamos informatizando a terceira área, pelo modo lento que está se processando. Tudo o que existe no mercado entraria em consideração, sem prejuízo do processo que você mencionou, que é o mais importante, que é o que há de revolucionário em tudo isto; é todo o mundo discutir, fazer uma análise crítica da coisa.

Intervenção – Seria mais uma tecnologia imposta, uma tecnologia onde o professor seria meramente um usuário, como ocorreu com o vídeo, por exemplo. Não se entenderia o porquê, como se programa, qual a importância disso. Pergunto: é importante o professor saber programar, ter o domínio dessa máquina, ou é importante ele ser meramente um usuário?

Seabra – É claro que é importante saber programar, só que, se compramos alguma coisa já pronta, isto só vai acrescentar, não vai suprimir nada. Continua havendo todo o resto.

Intervenção – É sobre a avaliação. Você disse que os quatro softwares serviriam para desenvolvimento daquilo que está sendo exposto. Então, fizeram testes; e qual foi o retorno disso?

Seabra – Por parte do aluno? Olha, a principal coisa para o aluno foi ter um feedback imediato. Experimentamos um programa de avaliação, onde se supõe que o aluno vai ser médico em algum lugar. Ele é confrontado com uma série de situações; vai respondendo e tem o retorno imediato. Assim, se aplicar a vacina Sabin numa criança com hipertermia, a resposta vem logo – a febre dessa criança vai subir. Não é preciso esperar pela correção da prova, que só vem uma semana depois. Isso é um tipo de software de exercício e prática. Um aluno adorou outro tipo de software, mais perto da simulação, porque viu concretizada as coisas que ele pensava; normalmente não se verbaliza todo o pensamento, essa mistura de imagens e sons, aquela coisa toda que é o pensamento. Ele podia ver aquilo, podia chamar o colega para olhar. Houve uma interação entre todos, e eles também gostaram da postura do professor, do tratamento individualizado, de fazer comentários etc. Isto foi o principal.

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Trabalho resultante das intervenções dos participantes do workshop “Didática da Informática”, realizado de 21 a 27 de fevereiro de 1988 com Jean-Louis Léonhardt (IPEACS-CNRS, França), Antonio Picarelli (MEC/SEINF), Bernardete Gatti (Fundação Carlos Chagas), Carlos Seabra (Senac/SP), David Carraher (Universidade Federal de Pernambuco), Dimitri Domatewicz (CIED/FDE), Elian De castro Machado (Universdidade Federal do Ceará), Fernando José de Almeida (PUC-SP), Frederico Galenbeck (São Paulo Computer Institute), Helena Sloczinski (Universidade de Passo Fundo), Heloísa Vieira da Rocha Silva (Educom-Unicamp), João Fernando Marar (Universidade de Bauru), Jorge Fróes (Universidade Federal Fluminense), José Armando Valente (Educom-Unicamp), Léa da Cruz Fagundes (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), Maria Christina de Almeida (CIED/FDE), Maria Hercília Rolim (CIED-FDE), Maria Isabel de Mattos (CIED-FDE), Osvaldo Sangiorgi (ECA-USP), Paulo Gileno Cysneiros (Universidade Federal de Pernambuco), Ricardo Leite de Albuquerque (CIED-MS), Sulamita Ponzo de Menezes (CIED-FDE), Taunay Magalhães Daniel (Multimeios FDE), Zoé Guimarães da Costa (Telesp).


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