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O celular na sala de aula

03/03/2013

MARÇO 2013

Artigo escrito para a publicação Educação em Revista, do Sindicato do Ensino Privado (SINEPE/RS), edição 96, de março de 2013.

É difícil cada vez mais encontrar algum aluno que não tenha consigo um aparelho celular. Assim como a imensa maioria dos brasileiros (onde já temos uma quantidade muito maior de celulares do que de pessoas no país), quase todo o aluno carrega no bolso, ou na bolsa, um desses dispositivos de comunicação.

Além de servir para dar telefonemas, o celular é também uma ferramenta para recebimento e envio de mensagens de texto, os torpedos. É uma máquina fotográfica, com qualidade cada vez maior, além de também ser um álbum de fotos, permitindo armazenar centenas de imagens ou publicá-las online. Além disso, também é uma filmadora, que possibilita assistir aos filmes feitos nela ou outros online. É um gravador de áudio para anotações e lembretes de voz, gravação de entrevistas, assim como é também um reprodutor de áudio, permitindo ouvir horas e horas de música. Muitos celulares possuem também a capacidade de recepção direta de rádio ou de TV.

Agenda de contatos, com os números telefônicos e e-mails, os endereços das pessoas e outras informações, como foto, data de aniversário etc., o celular é ainda um calendário de compromissos, permitindo configurar avisos para os eventos marcados (reuniões, provas, aniversários) com antecedência de minutos, horas ou dias. Bloco de anotações, planilhas eletrônicas, processador de textos, bancos de dados, mapas de sua cidade ou de qualquer recanto do país ou do planeta, com localização por satélite (GPS) são mais algumas de suas funções.

Navegação e pesquisa na web, tradução de idiomas, acesso a redes sociais, leitura e postagem em blogs, comunicação instantânea por texto, voz ou vídeo, além, é claro, de jogos de todos os tipos, paciências, desafios lógicos, destreza e ação, bem como simulações e ambientes interativos de construção de mundos – e mesmo várias aplicações de “realidade aumentada” (apresentando novos conteúdos, muitos em emulação tridimensional, seja a partir de imagens num livro didático ou mesmo nas ruas de uma cidade).

Apesar desta longa enumeração, que poderia ser ainda mais completa, pois há cada vez mais aplicações (apps) específicas disponíveis, boa parte gratuitamente, é de espantar como a escola não esteja usando todas estas possibilidades para usos pedagógicos, preferindo, na maioria dos casos, proibir sua utilização por parte dos alunos.

Quais os argumentos para impedir seu uso? Que o celular, se utilizado para o aluno conversar com terceiros durante a aula, pode ser um distrator é realmente um fato que deve levar à proibição de telefonemas durante a aula, claro. Porém, lápis e papel (e seu próprio cérebro mais ainda) também podem propiciar muita distração se o aluno não estiver engajado na aula.

A única forma de ferramentas, dispositivos e toda a atenção cognitiva dos alunos não serem usadas para distraí-los da aula é haver propostas e estratégias pedagógicas para sua utilização.

Pesquisas recentes apontam para que 88% dos alunos entrevistados levam seus celulares para a sala de aula, e 90% deles já o utilizou para fazer “cola”. Provavelmente, o mesmo que na época em que foram inventadas as canetas esferográficas e os alunos usavam pequenos papéis ou até partes do corpo para anotações. Claro que o celular, com toda a sua tecnologia, permite “cola” de modo muito mais eficiente. Como combater esse uso inadequado?

Para as utilizações que distraem, o professor deve fazer um combinado com os alunos, discutindo com eles usos aceitáveis e regras a serem observadas, pactuadas. Para a questão da cola, elaborar provas e outras formas de avaliação para as quais não exista cola que resolva, permitindo mesmo a consulta a anotações porventura feitas.

Estimular os alunos a coletarem dados para subsidiar informações e, assim, construírem seu conhecimento, ensiná-los a pesquisar usando as tecnologias disponíveis, pode fazer com que o celular ao invés de disputar com o professor a atenção dos estudantes seja um importante aliado no ensinar a aprender.

Imaginação pedagógica, envolvimento proativo dos alunos em projetos engajadores de seu interesse, ensino feito com carinho e inovação, troca de experiências com outros professores, avaliação crítica de sua metodologia, tudo isso são condições para que o celular – dispositivo computacional com recursos e capacidade muitas vezes maior do que o computador da Apolo que levou o homem à Lua e que está disponível no bolso de quase todos os alunos – possa ser, cada vez mais, uma ferramenta de aprendizagem na sala de aula.

Microcontos, literatura mínima

25/02/2010

FEVEREIRO 2010

Artigo escrito para o site MobileFest e para a revista Língua Portuguesa, edição de abril de 2010.

O precursor e talvez o mais famoso microconto já produzido, do escritor guatelmateco Augusto Monterroso, “Cuando despertó, el dinosaurio todavía estaba allí” (Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá), consolidou uma nova vertente de microliteratura, com o desafio de contar alguma coisa em pouquíssimas palavras de contados toques.

Alguns autores conceituam e estipulam limites precisos, nascendo assim algumas classificações: nanocontos (até 50 letras, sem contar espaços e acentos), microcontos (até 150 toques, ou seja, contando letras, espaços e pontuação) e minicontos (alguns estipulando 300 palavras, outros limite de 600 caracteres). Nada disso é muito rigoroso e depende de critérios editoriais de quem os adotou.

O limite de 150 toques cabe no formato de envio de texto pelo celular, o chamado “torpedo” (ou SMS, short message service). Hoje está-se a usar bastante o limite de 140 toques, limite do Twitter – cada vez mais um grande difusor da microliteratura e que provavelmente acabará impondo este limite como “default”.

Antes de tudo uma divertida brincadeira, os microcontos (nas vertentes de crônicas, contos, aforismos e outras variações) estarão próximos ao minimalismo pós-moderno? Uma coisa é fato, a micronarrativa contém vários ingredientes do nosso tempo, a velocidade e a condensação, a possibilidade de publicação em celulares, painéis eletrônicos, rodapé de e-mails (ou até mesmo em algo mais démodé: tampas de caixas de fósforos). Ao mesmo tempo, há algo neles que remete aos haicais, a tradicional poesia de origem japonesa, com apenas três linhas e um total de 21 sílabas – de certa forma com o mesmo poder de concisão destes porém com a liberdade da prosa.

Alguns escritores de reconhecido talento já brincaram nestas searas, como Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, Millôr Fernandes, Dalton Trevisan e tantos outros, ainda que a maioria sem pensar no conceito de “microcontos”. Literatura de alta velocidade? Sônia Bertocchi nos lembra que Drummond já antecipava que “escrever é cortar palavras”, Hemingway sugeriu “corte todo o resto e fique no essencial” e João Cabral proclamou “enxugar até a morte”. A mesma Sônia, em seu blog “Lousa digital” (outra forma atual de publicar que tantos efeitos ainda vai provocar na produção literária), diz que “Seguindo à risca a lição dos mestres, chegamos aos microcontos: ‘miniaturas literárias’ que cabem em panfletos, filipetas, camisetas, adesivos, postes, muros, tatuagens, cartão postal, hologramas, desenhos animados, arquitetura, instalação, música… e que podem ser lidas no ônibus, no metrô e… nas telas do computador (cá entre nós, um prato cheio para propostas atrativas de ensino de literatura e integração de novas tecnologias)”.

Entre outros inúmeros conselhos acerca de como dizer muito e escrever pouco, podemos destacar também Blaise Pascal “Se escrevi esta carta tão longa, foi por não ter tido tempo para fazê-la mais curta”, Isabel Allende “Usar o substantivo certo para evitar dois ou três adjetivos”, São Gregório de Nazianzo “Ser breve não é, como julgas, escrever poucas sílabas, mas dizer muito com poucas” e Thomas Jefferson “O mais valioso de todos os talentos é aquele de nunca usar duas palavras quando uma basta”.

De certa forma, o microconto tem uma outra dimensão: ele é como uma ligação muito forte através de um furinho de agulha no universo, algo que permite projetar uma imagem de uma realidade situada em outra dimensão. Como se através desse furo, dois cones se tocassem nas pontas, um cone menor, que é o que está escrito no microconto, outro cone maior, que é a imaginação a partir da leitura de cada um – pois mais do que contar uma história, um microconto sugere diversas, abrindo possibilidades para cada um completar as imagens, o roteiro, as alternativas de desdobramento.

Seja seu destino a publicação em celulares, camisetas, postais, folhetos na praia, cartazes nos postes, azulejos, hologramas, blogs, e-mails, no twitter, o mero esquecimento ou o lixo simplesmente, uma coisa posso afirmar: microconto é um belo exercício de criatividade, síntese e algo muito divertido de escrever!