Posts Tagged ‘educação’

Acessar o virtual: um direito real

17/06/2007

JUNHO 2007

Trecho de entrevista concedida à Revista do Itaú Cultural de junho de 2007

Seriam mais 20 rotineiros minutos para Shirlei da Silva. Ela verificaria os e-mails, se corresponderia com as amigas de Nova Iguaçu – sua cidade natal -, faria suas pesquisas nos buscadores virtuais, visitaria os sites de sempre; tudo nos 20 minutos estipulados para navegar pela rede virtual em um dos postos públicos de acesso à internet, localizado no Poupatempo Santo Amaro, na capital paulista. O que Shirlei não poderia imaginar era que, naquele dia de maio de 2006, o trivial acesso à internet mudaria sua vida. Ao entrar em um site de relacionamentos, a carioca, de 27 anos, deparou com um nome muito familiar: o nome da irmã de quem não recebia notícias havia 21 anos, desde que os pais se separaram no Rio de Janeiro.

A história de Shirlei é um exemplo de como a internet é capaz de expandir redes sociais, além de proporcionar reencontros inusitados. “Por causa da internet eu pude reencontrar várias amigas que não via fazia tempo, e graças a ela eu também pude achar minha irmã”, explica. Porém, ainda são poucos os brasileiros que têm a oportunidade de acessar a grande rede virtual. Segundo pesquisa divulgada em abril pelo Ibope, 25 milhões de pessoas moram em domicílios com ao menos um computador conectado à web, e 32,9 milhões conseguem acessá-la em outros locais, como escolas ou universidades, por exemplo. É um número relativamente baixo, levando em conta a população nacional, mas que poderia ser menor não fossem as iniciativas que visam à inclusão digital. Em São Paulo, o programa de maior abrangência é o Acessa SP, uma parceria da Escola do Futuro, da Universidade de São Paulo, com o Governo do Estado.

O primeiro clique

Com mais de 1,1 milhão de cadastrados, o Acessa SP atende a quase 400 municípios paulistas por meio dos Postos Públicos com Acesso à Internet, os chamados Popais. Foi por um desses postos que Shirlei pôde reencontrar sua irmã. “Eu sempre ouvia falar em site, e-mail, chats, Orkut, então resolvi me cadastrar no posto do Acessa”, explica. “Só precisei mostrar o RG e um comprovante de residência e no mesmo dia já podia usar o computador.” Assim como Shirlei, milhares de pessoas nunca haviam acessado a internet antes de conhecer o programa de inclusão digital. Para Hernani Dimantas, coordenador do Laboratório de Inclusão Digital e Educação Comunitária (Lidec), da Escola do Futuro, a responsabilidade de manter trabalhos de inclusão nessa área é grande. “Para 60% dos cadastrados no Acessa SP, esse é o primeiro contato que se tem com a web”, afirma. “Nossa intenção é que a pessoa entenda a internet e se aproprie dela; nós fornecemos os links para isso.”

Dentre as instituições que fazem parte do programa Acessa SP, está a Associação de Deficientes Visuais e Amigos (Adeva), voltada exclusivamente para deficientes visuais. Para Markiano Charan Filho, diretor-presidente da instituição, a internet e a tecnologia em geral facilitaram a vida do deficiente visual. “A internet abriu muitos caminhos para nós, tem coisas que só dá para fazer pela internet, como verificar extratos bancários.” Os computadores da associação são equipados com softwares que fazem a leitura de alguns sites. Como em todos os outros postos do Acessa SP, a Adeva também possui seus monitores. Francisco Alves Batista, que aos 17 anos perdeu a visão, ensina há oito anos outros deficientes a usar o computador. “Há a diferença entre os alunos quanto à questão visual, alguns ainda têm o resíduo visual”, explica. “Já determinados alunos nunca viram a seta do mouse.”

Inclusão digital, inclusão social

Fora do estado de São Paulo, existem outros programas bem-sucedidos de inclusão digital. São os casos do Identidade Digital, na Bahia, que já conta com mais de 300 mil cadastrados, e dos programas realizados pelo Centro de Tecnologia da Informação e Comunicação do Estado do Rio de Janeiro (Proderj). Ainda não há um número exato de quantas pessoas são atendidas no Brasil por esse tipo de programa. De acordo com Carlos Seabra, diretor de tecnologia e projetos do Instituto de Pesquisas e Projetos Sociais e Tecnológicos (IPSO), primeiro é preciso definir o que é inclusão digital. “Não basta colocar uma pessoa de baixa renda na frente do computador para fazer inclusão digital”, afirma. “É preciso ensiná-la, mostrar os caminhos a seguir; a inclusão digital deve ser também inclusão social.” Outro ponto levantado por Seabra é a conexão à rede virtual. “Não se deve confundir inclusão digital com aula de informática. A internet hoje é obrigação. Ter um computador que não está conectado é como ter um carro sem estrada”, explica. Segundo o diretor de tecnologia do Ipso, o acesso promovido pelas iniciativas de inclusão digital deve ser público ou deve ser cobrada uma quantia simbólica destinada à manutenção do serviço. “Se cobrar e o dinheiro for usado para outro fim, chame isso de lan house ou cibercafé, e não de centro de inclusão digital.” Seabra é também consultor de projetos relacionados à educação a distância, modelo de ensino mediado por aparatos tecnológicos, como a internet, e estruturado em recursos multimídia. “Com a educação a distância, uma aula que era dada para 50 alunos pode ser dada para 5 mil”, afirma (veja box).

Apesar de todos os avanços proporcionados pelos programas de inclusão digital, o Brasil ainda precisa percorrer um longo caminho. Em pesquisa realizada pelo Comitê Gestor de Internet (CGI), ficou constatado que 67% dos brasileiros nunca acessaram a rede. Drica Guzzi, coordenadora do Lidec, acredita que, além de enriquecer o capital social dos usuários, a internet deve ser uma opção para todos. “Não digo que a internet seja algo essencial à vida, pois muitos vivem bem sem ela”, diz. “Mas todos devem ter o poder de escolher se querem acessar ou não; inclusão digital é, antes de tudo, um direito.” Um direito que Shirlei conseguiu aproveitar. Hoje, as duas irmãs se falam tanto pessoal quanto – como não poderia deixar de ser – virtualmente.

A educação segundo a internet

De acordo com o diretor de tecnologia e projetos do IPSO, Carlos Seabra, os aparatos tecnológicos podem ser a solução para a educação, mas também podem se tornar um grande problema. “Com a tecnologia na mão de um bom professor, mais gente pode aprender. Na mão de um mau professor, mais gente pode se prejudicar.” O raciocínio de Seabra está ligado à questão da formação do educador e sua nova relação com o educando. “O computador evidencia o despreparo de quem ensina e coloca em xeque o modelo hierárquico da escola; o aluno se torna cada vez mais o protagonista.” Para Seabra, o professor, além de ser mal remunerado, não recebe a formação adequada. “Coloca-se o computador na escola, para os alunos, mas antes não se coloca um computador na casa do professor.”

Apesar dos desafios, a educação a distância é um dos projetos que podem gerar mudanças positivas no sistema de ensino. Trata-se de um sistema no qual há separação no tempo e no espaço entre alunos e professores, e a comunicação é mediada por alguma forma de tecnologia. Segundo Seabra, o correto seria chamá-la de aprendizagem em rede. “A educação a distância é feita sob uma concepção hidráulica, em que se colocam uns canos e se transmite a água. Conhecimento não é água, não dá para transmitir hidraulicamente. Devem-se transmitir dados e fazer com que a informação seja absorvida, trocada e produzida.”

Para haver essa transmissão de dados, no entanto, é necessário criar um sistema de ensino virtual de boa qualidade. Para tanto, necessita-se de uma infra-estrutura que compreende redatores, revisores, fotógrafos, designers e recursos multimídias. “Além disso tudo, exige-se mais atenção do professor para que ele compreenda melhor a problemática e os mecanismos cognitivos do aluno.” Seabra acredita que jogos, simulações e comunidades virtuais são os ambientes ideais para aprendizagem em rede. “A educação tem de ser cada vez mais lúdica”, afirma.

Tecnologia pode transformar a educação

27/02/2007

FEVEREIRO 2007

Entrevista dada a Julia Dietrich para o website Aprendiz, em 27 de fevereiro de 2007.

Do mundo industrial ao ambiente privado, certamente não há como negar a onipresença da tecnologia na sociedade contemporânea. Na comunicação é impossível pensar na ausência da internet, enquanto na arquitetura softwares de programação gráfica tornaram-se indispensáveis. Mas, na educação – em especial na rede pública – as novas mídias e adventos tecnológicos continuam sem espaço e metodologia capazes de ampará-los.

Para o editor multimídia e consultor de tecnologia educacional e redes sociais, Carlos Seabra, é fundamental pontuar esses novos instrumentos técnicos como possível alavanca para repensar e transformar o próprio sistema educacional que pouco mudou nos últimos séculos.

“Não adianta substituir o quadro negro pelo powerpoint e também não faz sentido um curso de excel que termine em si mesmo. A tecnologia não deve reforçar as atuais práticas de ensino e sim questionar o papel do educador, a forma de educar e até o conteúdo ensinado”, diz.

Segundo o consultor, a técnica voltada para si mesma torna-se dispensável, insistindo que o produto final transforme-se, ele sim, em algo independente. “Aulas de word só devem existir se o objeto a ser problematizado for, por exemplo, a redação. Ninguém fez curso de lápis para poder escrever”, brinca Seabra que cita o personagem Robinson Crusoé como exemplo. “Sem artefatos na ilha, ele foi capaz de pensar e criar soluções para resolver seus problemas. Tecnologia não está no instrumento e sim na cabeça da pessoa”.

Analice Moura Inácio, mãe dos estudantes do colégio particular Nossa Senhora das Graças da cidade de São Paulo, conta que se surpreendeu ao ver indicada a compra de um pen-drive na lista do material escolar de Frederico, de 11 anos, aluno da 6ª série do ensino fundamental.

“Decidimos esperar para ver qual a real necessidade do aparelho. E, se for realmente necessário, então o compraremos”, diz a mãe que vê, mesmo assim, a inserção tecnológica no ambiente escolar como ação bastante positiva. “É impensável que eles não trabalhem com algo que estará completamente inserido em suas vidas”, observa.

Seabra ressalta que os artefatos podem vir a ser poderosos instrumentos para transformar o próprio espaço físico da sala de aula. “Com uma tarefa a ser transportada num pendrive ou consultada na Intranet da instituição, os estudantes acabam envolvendo suas famílias e até, comunidades, expandindo o espaço das salas de aula e colonizando outros lugares, normalmente, considerados externos ao ambiente escolar”, observa.

“Acho engraçado muitos educadores condenarem a presença de computadores nas bibliotecas, acusando o tecnológico de substituir as outras atividades escolares. Porém, é impressionante ver que, ao esperar pela vaga para utilizar o computador, muitos jovens passaram a ler mais, pela própria convivência no espaço da biblioteca. O problema não está nos artefatos e sim no sistema”, diz ele que insiste na importância da internet como ponte de diálogo com o mundo, na busca e na problematização de informações.

Segundo o consultor, “a má capacitação dos professores, associada ao próprio desconhecimento de um plano tecnológico fazem com que programas muitas vezes desnecessários ou obsoletos substituam artefatos simples como a própria internet”, aponta.

Seabra insiste também que a capacitação dos profissionais deve estar diretamente associada ao questionamento do modelo educacional brasileiro. “O computador é brilhante pois dá um feedback imediato ao professor, que pode repensar suas aulas a partir da relação com os estudantes. Não existe capacitação prévia. Ela deve vir de acordo com as demandas do processo, ao longo da proposição e da finalidade de determinados projetos”, acredita.

Para ele, é necessário entender que a tecnologia pressupõe um tripé interligado, conectando o equipamento, o software e as pessoas que o utilizam. “Muitas vezes, em vez dos softwares de geografia – que na maioria das vezes são muito pobres -, os jogos podem ser utilizados. Eles possibilitam um novo mundo de oportunidades de ensino, promovendo o lúdico e a integração”, observa.

Seabra pontua ainda que novas mídias são instrumentos fundamentais para discutir a forma de ensinar e o trabalho do próprio conteúdo acadêmico. “Porque não, por exemplo, fazer com que os alunos criem e alimentem um blog como atividade interdisciplinar? Eles teriam que congregar suas pesquisas em diferentes assuntos, questionar o espaço coletivo e público do meio virtual e exercitar o raciocínio técnico necessário para construir os textos e confeccionar o produto final”, sugere.

Preocupada com a discussão do espaço público dos meios virtuais, Analice Inácio muitas vezes participa de atividades na internet e jogos para observar e, ao mesmo tempo, interagir com seus filhos. “Não os policio de forma rígida. Busco observar aquilo que meus filhos acessam, participando das suas atividades”, afirma.

Com objetivo similar, a empresa Microsoft desenvolveu o site Navegue Protegido que oferece, de forma sucinta, dicas para pais, professores, jovens e adultos como utilizar a internet de forma segura na escola, no trabalho e em casa. Nele são indicados ainda links de páginas com conteúdos próprios para diferentes faixas etárias e que podem promover a integração familiar no uso de ferramentas tecnológicas.

“Acredito que é preciso sim estimular as atividades tecnológicas na escola, mas busco determinar um tempo de uso diário do computador, televisão e videogame para que eles não deixem de brincar, praticar esportes, ler e realizar atividades externas ao espaço virtual”, diz a mãe de Fred que se vê bastante recompensada por ter suas regras cumpridas mesmo na sua ausência.

Entusiasta do ensino público, Seabra vê que o investimento financeiro das escolas particulares na área tecnológica, embora diretamente associados à disputa mercadológica e ao marketing, serve muitas vezes para pontuar como é grande a defasagem entre os dois sistemas. “Se bem pensada e elaborada de acordo com seus espaços e necessidades, a tecnologia pode servir muito positivamente à sociedade ou então, só veremos aumentar o estágio em que nos encontramos de apartheid tecnológico entre as classes sociais do país”.

O prazer do jogo

01/08/2003

AGOSTO 2003

Palestra apresentada durante o Seminário Internacional “Memória, Rede e Mudança Social“, do Museu da Pessoa em conjunto com o Sesc SP, de 12 a 14 de agosto de 2003, na mesa “Histórias Digitais”, da qual fizeram parte Thom Gillespie e Carlos Seabra.

Sou criador de vários jogos e trabalho com educação. A abordagem em que sempre penso, ao elaborar projetos educacionais, culturais e outros, e muitas vezes não digo isso para não assustar as pessoas, é a lúdica. Digo isso porque, na verdade, acho que vivemos num jogo, que é a vida; um jogo não no sentido de manipulação do outro, embora muita gente jogue assim.

Podemos pensar no planeta como um tabuleiro, ele é todo cheio de casinhas, latitudes, longitudes e nós somos peças. Em parte, herdamos da nossa cultura as regras do jogo. Em parte, as inventamos, reinventamos, tentamos descobrir que regras são essas. Nesse sentido, recomendo um livro muito interessante, o Homo Ludens, de Huizinga. Neste livro (escrito em 1938, publicado no Brasil pela Editora Perspectiva), o autor aborda o jogo na história da humanidade, nas relações entre as pessoas; ele mostra como em tudo existe algo de jogo; e não só entre os seres humanos, mas também entre os animais. Quando um cachorrinho está brigando com outro, não é de verdade. Estão brincando de brigar e se preparando para futuras disputas pela fêmea. O jogo existe em tudo, até na relação amorosa: esta é um jogo em que o tabuleiro são os corpos de um e de outro, e onde as regras também precisam ser descobertas, criadas.

Vivemos com a Internet, que é um grande jogo do encontro das pessoas. No fundo, o jogo é também um pretexto para as pessoas se encontrarem e interagirem. O pessoal que fica jogando durante horas uma partida de buraco, está também batendo papo, comendo amendoins, tomando um chope: é uma forma de sociabilidade. O jogo tem essa função também. Um grande jogo freqüentado pela maioria dos internautas, que não se apercebem que é um jogo, é o chat. A sala de bate-papo é um grande passatempo. Sobre ele ouço as mais diferentes manifestações. Há pessoas que são viciadas: ficam lá horas por dia, mas não admitem isso. Dizem que usam Internet para navegar, para pesquisar, trocar e-mails, e que chat é muito chato, que só entraram uma vez. Existe aí uma dose de mentira muito grande, isso voltando à questão da verdade e da mentira, que também é um jogo.

Escola sem prazer

São atividades que dão prazer e são mais ou menos censuradas. Tem origem na nossa educação escolar, e é isso que temos que mudar. E aqui uma curiosidade: o significado grego da palavra escola é local de prazer. Isso é que a escola deveria ser. Um local para se ter prazer intelectual. Não precisa de outros, porque o mundo está cheio deles, mas o prazer intelectual a escola não estimula. A criança que está curiosa para saber o que são essas letrinhas aqui, entra na escola e sai dela odiando Machado de Assis. É um jogo que não está dando certo, pois nasceu da construção de competências de outra sociedade, a da mão de obra fabril. Hoje, a escola ainda é taylorista, fordista, as pessoas aprendem mais a ter disciplina e a respeitar o professor do que a ter a prazer na aprendizagem. A isso se juntam alguns traços da nossa cultura judaico-cristã, que associa o erro ao pecado. Se o fulano errou, quer dizer que ele pecou. Mas nunca que ele formulou uma hipótese que não obteve sucesso. E errar é parte intrínseca do jogo.

Master Mind é um jogo internacionalmente conhecido, lançado no Brasil como Senha. Você coloca uns pininhos coloridos, e o adversário tem que adivinhar a ordem deles. Conforme ele põe pinos coloridos, você responde colocando pininhos pretos ou brancos indicando se é a cor certa no lugar certo ou no lugar errado. Nesse sentido, a melhor resposta que você pode ter, quando você formula a sua hipótese é o outro dizer que você errou tudo, pois assim você já descarta de cara aquela cor. É a melhor coisa, a melhor informação que poderia haver, porque do erro advém informação. É na escola que se forma uma série de conceitos, e acabamos carregando isso, por exemplo, do errar como sendo um sinônimo de pecar. Isso também tem a ver com a cultura industrial, porque o operário que está na linha de montagem, como Charles Chaplin em Tempos Modernos, não pode errar porque um erro vai parar a esteira de montagem. Errar é um luxo impensável na sociedade industrial. Mas, na sociedade da informação e da comunicação, o erro deve ser estimulado.

O jogo na escola deve mudar também. A prova é o único lugar onde é usada a linguagem escrita. A escola deveria ensinar a ler e a escrever, mas ensina a odiar Machado de Assis e outros autores e pune quando os alunos escrevem espontaneamente. Na escola só é permitida a escrita no ritual sado-masoquista da prova. Quando o aluno escreve para armazenar informações, visando posterior recuperação no contexto adequado de utilizá-las, isso é chamado de cola e é punido. Deveria ser estimulado. É a atividade mais útil, armazenar dados para transformar em informação e construção de conhecimento.

A verdadeira prova deveria ser assim. O Joãozinho traz a prova para a professora, que diz: “Joãozinho, a primeira questão está certa, mas você foi muito lacônico, peço que você reconsidere e aprofunde um pouco mais a resposta. A segunda está totalmente errada, você deve pesquisar melhor. A terceira está muito boa, até peço licença para usá-la em minhas aulas futuras”. Você devolve a prova ao Joãozinho e quando ele a trouxer pela segunda vez, após os comentários da professora, aí sim a prova deveria ser merecedora de nota. Isso é mudar as regras do jogo. Nesse sentido, o raciocínio lúdico é muito importante para entender o mundo. É que às vezes o jogo é usado no sentido pejorativo, como sinônimo de manipulação. No entanto, a consciência lúdica é mais uma ferramenta para entender a realidade.

O jogo do chat

Mas, voltando ao chat, ele é um grande jogo em que as pessoas são personagens. Nesse sentido tem tudo a ver com história oral, com história digital, com ficção, e tem tudo a ver com a verdade também. Mesmo quando o sujeito pretende ser o que não é, no fundo ele é. Aquilo que você quer ser é parte daquilo que você é. Então, quem afirma que quer ser médico, de alguma forma já é um pouquinho médico. Só pelo fato de querer ser, ele já passa a ser. Quando o sujeito diz que quer ser assassino, matar um montão de gente, no fundo já é um pouco assassino, se você permitir. O Fernando Pessoa já dizia isso, que “o poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a sentir que é dor a dor que deveras sente”. O sujeito que entra no chat e diz sou uma loira de olhos azuis, no fundo talvez queria experimentar isso. Não quer dizer que queira ser isso de verdade. Ou seja, no chat você pode vivenciar coisas que não é.

Um jogo que o Thom Gillespie mencionou, de um sujeito que mija no elevador ou o sujeito que atropela cachorros, não acho que isso seja necessariamente negativo, porque faz parte de um experimentar. Quem, ao jogar War, já não foi um grande general que arrasou continentes? No fundo, aquele sujeito é o maior pacifista do mundo, incapaz de matar uma mosca. Faz parte do processo civilizatório viver coisas que você não é, até para saber que não quer ser. Quando você lê um romance passado na Bessarábia, pode achar que foi ótimo ler o livro, mas não pretende ir passar suas férias lá. Quando joga um joguinho em que você é um grande assassino nas catacumbas do planeta tal, você descarrega toda uma energia. Isso não é barbárie. Barbárie é um sujeito no boteco da esquina, na favela da periferia, quebrar uma garrafa e espetar a garganta do outro, assassiná-lo porque estava um pouco alto e o alvo falou que torcia para o time que ele odeia. Processo civilizatório é o sujeito dar vazão a toda essa carga primitiva e agressiva em processos criativos, seja na arte, na música. Beethoven era um dos maiores loucos do mundo. Só que usou essa loucura para produzir sinfonias fantásticas. Van Gogh era outro louco que utilizou sua insanidade na pintura.

Quando alguém está jogando xadrez, acha que isso é civilizado e não percebe que representa uma agressão recíproca porque é o simulacro de uma batalha. Mas o xadrez muda também, ao longo do tempo. Por exemplo, o xadrez que acabei de mencionar, nasceu como chaturanga na Índia; ele era um jogo para quatro pessoas, característica dos jogos indianos. Quando foi para os países árabes o xadrez virou shatranj, e, de quatro pessoas, reduziu-se o número a duas. Ao invés de ter dois reis no exército, passou-se a ter um vice-rei. Só quando o xadrez veio para o ocidente é que o vice-rei passou a ser chamado de rainha. E do mesmo jeito o elefante: quando o jogo veio para o ocidente, a estilização das duas orelhas do animal fazia lembrar a mitra do bispo. Então, ele passou a ser chamado de bispo. E, quando no xadrez ocidental o peão chegava na última fileira, ele ficava lá parado esperando ser comido. Foi preciso vir a Revolução Francesa para mudar o papel do peão no xadrez. Só depois disso é que o peão foi promovido a uma peça nobre. Há poucos anos atrás, um professor norte-americano da New Left – lá também há gente de esquerda –, inventou uma variação do xadrez chamada Luta de Classes, em que você coloca de um lado os dezesseis peões e do outro as oito peças nobres. A estratégia entre ambos é completamente diferente.

Voltando mais uma vez à questão do chat, ele possui uma outra coisa também: é um jogo em que as pessoas entram, inventam o seu personagem e como em todo jogo, é necessário um mínimo de respeito às regras. O estraga-prazeres não é aquele que rouba no jogo, é aquele que se recusa a jogar. O sujeito que procura jogar uma carta que não tem está de algum modo fazendo parte do jogo. O que pega a sua parte no baralho, põe no bolso e vai embora, esse é o verdadeiro estraga-prazeres, porque está se recusando a jogar. Uma experiência muito interessante para se para fazer numa sala de chat é sobre aquelas tradicionais perguntas. A primeira coisa que as pessoas querem saber é se você é homem ou mulher. Experimente entrar com um nick name dúbio, que não informa isso. Você vai ser bombardeado. Em seguida querem saber o local geográfico onde você está, depois a idade. Se você conseguir fazer um jogo sutil de não passar nenhuma dessas informações, as pessoas entram em paroxismo. As pessoas precisam disso até para inventar quem você é. A invenção está dos dois lados. Você diz: Eu tenho tanto de altura, peso tanto. Aí ele começa imaginar o que quiser. Ou seja, você é responsável por aquilo que você diz, mas não por aquilo que o outro imagina. Se você não der os elementos mínimos, e esse anti-jogo é muito divertido também enquanto experiência, você vai ver que a pessoa fica irritada. Elas preferem que você invente, mas que forneça a elas o mínimo para que possam inventar o resto.

Caverna de Platão

Uma coisa engraçada que eu estava aqui pensando enquanto o Thom falava é a que, não sei se alguém já leu sobre a alegoria da caverna, de Platão. Ele diz que, na verdade, o mundo existe num local virtual que é a caverna. É nesse mundo ilusório que existe a verdade. E nós, aqui, somos uma mera projeção. Então, de certa forma, entramos nesse novo mundo virtual que nos traz grandes desafios, pois parece que não existe, que é uma dimensão paralela. Só quem está no mundo virtual transita e vem ao mundo real. Cada vez mais o valor do arroz e do feijão, da saca de cimento, é ditado por esse mundo virtual. Quem joga o grande jogo da Bolsa de Valores, da manipulação desses meios virtuais, tem cada vez mais controle sobre o mundo real. E quem só está no mundo real, como o morador lá da favela, analfabeto, está cada vez mais alienado do mundo em que vive.

Sempre uso um exemplo nas minhas palestras sobre inclusão digital: lá está o seu Zé no campo cavando a terra. Aí passa o patrão dele a cavalo e fala para o seu Zé: “Oi? Tudo bem?” Ele saúda o patrão, conversam um pouquinho, um vai embora e o outro continua cavando a terra. Passam-se os anos, e está lá o seu José, ou o filho dele, ou o neto, o tataraneto, porque sempre existe um seu Zé cavando a terra. Cresceu a tecnologia. Passa o patrão, que pode ser o neto ou o bisneto do patrão do início desta história, só que agora cresceu a tecnologia e ele não passa mais a cavalo. Passa num BMW, na estrada, em alta velocidade, abaixa o vidro fumê de seu carro (que estava fechado por causa do ar condicionado), e dá um tchauzinho para o seu Zé lá embaixo do sol. Eles já não conversam mais, mas ele dá tchau para o patrão que passa nessa nova tecnologia chamada automóvel. Passam-se os anos e está lá o seu Zé, ou um descendente dele, e passa o patrão dele agora de avião, num jatinho no céu. Então, o seu Zé ainda dá um tchau para aquele jatinho sem saber se o patrão está a bordo ou não. O patrão olha para baixo e vê um pontinho preto; não sabe se é um seu Zé qualquer ou um boi lá no meio da propriedade. A tecnologia está então aumentando ainda mais à distância da possível comunicação. E hoje o patrão desse seu Zé passa pela Internet. O seu Zé nem sabe se ele está passando ou não, o patrão dele é virtual. Ele nem sabe se o patrão está aqui no Brasil ou na Bélgica. O patrão dele agora se desloca na forma de bits e não mais de átomos. Então, esse novo mundo virtual que interage com o nosso mundo real, esse novo Topus nu Ethos que temos traz novas percepções da realidade. É muito interessante o caso de Thimoty Leary, aquele louco que usava LSD para expandir as fronteiras da mente e que em seus últimos anos se dedicou à pesquisa de software. Ele dizia: se existisse software quando comecei fazer as pesquisas com LSD, eu nem teria precisado daquilo, porque o software dá muito mais barato. Mexe muito mais com a percepção.

A nova escrita

O que o chat nos traz de novo? Fazendo uma conexão com a questão das histórias digitais, é um jogo no qual estamos contando histórias, inventando, sendo protagonistas. Todo mundo sempre contou histórias ao longo dos tempos, só que a história oral não fica. Já diziam os romanos: verba volant scripta manent. Quer dizer: as palavras voam, a escrita fica. Temos historinhas da Mesopotâmia até hoje em tabuinhas e já não sabemos com certeza se o que diziam na época chegou até nós. Já a Internet nos traz um ambiente onde a pessoa, ao falar com o outro, nem que seja uma bobagem, está escrevendo. Isso muda também a nossa relação com a escrita, que deixou de ficar circunscrita a poucas palavras trocadas pelas pessoas. Antigamente, quando não existia telefone, televisão, não existia rádio, a pessoa vinha para o Brasil e deixava a amada em Portugal. Aí mandava uma missiva pela caravela d’El Rei, que demorava seis meses para chegar, se a caravela não afundasse. Se ao chegar, a amada dele ainda o amasse e lhe respondesse, outros seis meses decorreriam até chegar uma possível resposta. Era um processo longo, que nos deu belas histórias da humanidade, como as cartas de Van Gogh ao seu irmão. Existem hoje belíssimos acervos na forma de cartas, de correspondências entre intelectuais, material de anônimos, etc. Quando Graham Bell teve a genial idéia de inventar o segundo telefone – a grande idéia do Graham Bell não foi inventar o primeiro, que não serve para nada, mas foi inventar o segundo, que permite a comunicação com o outro (aliás, pequena curiosidade, esse segundo aparelho foi comprado por Dom Pedro II) – deixou de ser importante a comunicação por escrito. Ficou mais fácil ligar: “Oi querida! Você ainda gosta de mim? Desligue. Amanhã ligo de novo”.

A escrita perdeu o papel que tinha antes, mas a Internet veio resgatar isso. Ela faz com que todo mundo escreva e colocou na educação um potencial fantástico. Tenho desenvolvido vários projetos sobre isso em escolas, públicas principalmente. Usando a comunicação pela Internet, notamos um salto de qualidade na capacidade das pessoas colocarem suas idéias no papel, nem que seja esse papel virtual e a projeção da sua auto-imagem na escrita. Aquela menina paulista que está trocando correspondência com um rapaz de Pernambuco, por exemplo, ela diz: “estou conversando com um gatinho lá de Recife”. Como você sabe que ele é um gatinho? Ele te mandou foto? “Não, mas ele me escreve tudo bonitinho”. Porque nós somos aquilo que escrevemos. E como é essa menina? Pela Internet, ela não pode seduzir com uma roupa bonita, com a maquiagem, com corte de cabelo, aqueles truques femininos, um jogo tão delicioso de jogar. Eu particularmente adoro isso, o jogo de sedução que caracteriza a relação entre os sexos, mesmo que o objetivo não seja sexo. Só um mero flerte já é um grande jogo, que passa através daquilo que escrevemos. Então, se escrevemos com erros de português, o outro já faz uma imagem sua como um sujeito desdentado, que não tomou banho, que usa roupas feias. Isso nos traz um contexto, um tabuleiro de jogo fantástico, se pensarmos em novos tipos de relações na rede social e na possibilidade de uso disso na educação.

Outra coisa que as novas tecnologias de comunicação, principalmente a Internet, nos trazem é a possibilidade de mais facilmente sermos autores, protagonistas. Sempre digo para o pessoal nas escolas que mais importante do que surfar na Internet é aprender a fazer onda; ou seja, compor uma musiquinha, fazer um rap, fazer o seu MP3 e mandar para a rede. É usar o Napster, o Kazaa, etc. Todas essas ferramentas peer to peer, não existem somente para pegar músicas, mas para sermos autores também. Gravar a música da sua banda, codificá-la em MP3 e colocar no ar na Rede. Nos nossos trabalhos de inclusão digital na periferia de São Paulo, procuramos trazer a terceira idade, pois a juventude não precisa. Na periferia ou na escola, parece que essa juventude já nasceu com o mouse na mão. O pessoal vê o computador e já sabe o que fazer. A minha neta tem quatro anos e a primeira vez que ela se sentou na frente do computador eu não precisei ensinar nada. Ela já sabia abrir, fechar, clicar duas vezes no ícone. Já virou algo meio intuitivo para a nova geração.

Bolo de fubá

Lidar com terceira idade é um processo mais complicado. Aliás, houve um evento no Itaú Cultural sobre jogos, fui até lá dar uma palestra e depois me mostraram uma simulação que o pessoal do ItaúLab desenvolveu, uma versão nossa do MediaLab. É uma visita virtual à Avenida Paulista no começo do século passado (1920/1930), com todos aqueles casarões. Um jogo só para fazer uma simulação histórica. E levaram uma velhinha lá, de noventa e tantos anos. Quem fez isso foi um jornalista da Folha, Sérgio D’Ávila se não me engano. Ele ficava mostrando para ela, que ia comentando. Ao se deparar em um determinado casarão, o operador do computador dava um zoom, e a velhinha se entusiasmou: “aqui as pessoas usavam roupas melhores do que essas.” “Nessa casa está faltando um detalhe.” Ao fim, ela disse: “gostei muito desse filme.” Para ela aquilo não era uma realidade virtual. Disse ainda: “achei engraçado, toda a vez que eu olhava para um detalhe, o filme parava e mostrava mais, parecia que ele estava acompanhando o que eu pensava”. As pessoas até tentaram explicar, mas ela saiu convencida de que tinha assistido a um filme. De fato, a terceira idade tem uma dificuldade maior em entender o novo paradigma.

Há algumas estratégias novas quando trabalhamos com inclusão digital da terceira idade, que no fundo é também colocar as pessoas para serem autores e protagonistas. Por exemplo: uma senhora que passou toda a sua vida sendo dona de casa, não vai querer olhar o Museu do Louvre, nem jogar um joguinho interativo. Mas provavelmente irá gostar de entrar em um site de receitas culinárias. “Olha! Essa receita de bolo de fubá é parecida com a minha”. Aí a receita é impressa. Ela leva a receita em papel – melhor que seja num corpo catorze, para enxergar melhor – e mostra a suas amigas, conquistando certo upgrade social, inclusive. Pois as outras vão dizer: “mas, Clotilde, onde você pegou essa receita? Na Internet? Não acredito! Aquela coisa da novela! Aquela coisa que o meu neto usa?” A partir desse momento, ela está fazendo parte da rede também. É importante pensarmos nas novas tecnologias, usando também as velhas tecnologias, ou seja, a impressão em papel do exemplo, ou lápis e caderno, ainda hoje as melhores tecnologias que existem.

Aquela senhora vai fazer sua rede social levando a receita para as amigas. Isso vai gerar comentários, mas, normalmente, o que ocorre posteriormente? Duas ou três semanas depois ela já não quer mais ver receitas na Internet, e começa a criticar. É muito engraçado. No início: “O que é isso?” Um computador. Um mouse. Duas semanas depois, já se pode ouvir: “a conexão está lenta, não é?” É impressionante. As pessoas se habituam com muita rapidez, e começam a questionar. “Ah, mas eu tenho uma receita muito melhor do que essa, quero colocá-la na Internet”. Esse é o passo seguinte.

A Internet é por excelência o espaço para sermos autores, protagonistas. Claro que não é o caso da senhora dona-de-casa aprender a programar HTML para fazer uma página. Aí começamos também a quebrar um conflito de gerações. Chamamos um rapaz que está lá, louco para aprender HTML, para fazer sites que não tenham tanto conteúdo. Ele pode ajudar a velhinha a colocar sua receita na Internet ou, o que está cada vez mais freqüente, usar ferramentas disponíveis para editoração automática. Não é preciso entender de HTML, de flash, etc. É só entrar na Rede, os blogs estão explodindo, porque é um instrumento fácil e existem diversos outros softwares para construir histórias coletivas, uma ficção coletiva. Aquilo que o Ramalho Ortigão e o Eça de Queirós fizeram com o romance O mistério da estrada de Sintra, em que cada um escrevia uma parte. Passava para o outro o pepino, uma parte mais difícil, o outro continuava a história e isso resultou em um excelente romance. Você pode fazer isso hoje na Internet, um trabalho de ficção coletiva em que cada um vai escrevendo um parágrafo, que vai sendo agregado. Isso é um jogo e ao mesmo tempo as pessoas colocam, às vezes, uma história de vida. Esses ambientes estão cada vez mais ricos.

Outra coisa fantástica é o Wiki, desenvolvido por um norte-americano, Ward Cunningham. O wiki, segundo o autor, vem do idioma que se fala no Havaí. Wiki wiki significa rápido, e é uma série de telas, ligadas umas às outras, onde se pode escrever o que quiser e uma palavra pode ser um link para outra tela que outro escreveu, mesmo se a pessoa não entender nada de produção de páginas. Tem até uma experiência internacional chamada Wikiedia (wikipedia.org em inglês e pt.wikipedia.org em português), uma enciclopédia em Wiki em que cada um vai colocando seus verbetes. Claro, há muita porcaria misturada a coisas geniais. Como o Thom disse, a diferença entre nós, pessoas comuns, e um Leonardo da Vinci, um Einstein, é que eles fizeram muito mais lixo do que nós. Não tiveram medo de errar, de ousar. E todo mundo sabe que um processo de brain storming, um “toró de palpites”, em português, é falar muita besteira. No meio disso, surge uma idéia muito legal. Assim, esses ambientes de criação coletiva são novos desafios para nossa criatividade, e um grande instrumento em que aparece de tudo.

O saci pererê

Acho importante também, nessas novas ferramentas, ter mais conteúdos de língua portuguesa, que representam hoje apenas 2% dos conteúdos da Internet mundial, segundo cálculos do Comitê Gestor da Internet no Brasil. Quando fazemos um trabalho de inclusão digital, o grande objetivo é fazer inclusão social, e não viabilizar acesso às contas no banco ou fazer compras no supermercado. Até porque essa população excluída nem tem cartão de crédito. Nada contra, até porque é uma forma de democratização. Mas isso é tarefa para as empresas que irão lucrar com isso. Projeto de inclusão digital com dinheiro do Estado e o envolvimento de empresa de responsabilidade social devem visar um conteúdo de inclusão da pessoa, de forma que ela seja autora e protagonista. Porém, quando esse pessoal entra na Internet, a imensa maioria dos conteúdos é em outros idiomas. É um belíssimo desafio aprender a se comunicar em outros idiomas, através da tentativa e erro – e há casos fantásticos de pessoas que começaram a dominar inglês sem nunca ter feito um curso porque, com o já disse a Rita Lee, o inglês é o esperanto que deu certo. As pessoas aprendem essa língua de um jeito ou de outro e o idioma acaba sendo uma linha de comunicação. Mas também é preciso falar e encontrar conteúdos em seu próprio idioma.

Aí reside nosso desafio, o nosso Saci Pererê. Colocar as histórias que o nosso povo conta, as tradições e as histórias pessoais de cada um. Esse belíssimo trabalho que o Museu da Pessoa faz é uma das formas de ocuparmos a Internet com o conteúdo de quem nós somos. Se não está no virtual, você não existe, a sociedade virtual se caracteriza por isso. Então nós, de língua portuguesa, deveríamos ter como meta dobrar nossa participação. Em espanhol, os conteúdos somam cerca de 5%. Essa é outra dimensão interessante de considerar quando estamos inserindo novos conteúdos, não só populares, mas dos nossos intelectuais, que também são excluídos digitais. Por exemplo, meu amigo Fábio Lucas, que foi cinco vezes presidente da União Brasileira de Escritores, não usa e-mail. Ele ainda escreve usando máquina datilográfica. Como ele, há uma quantidade enorme de pintores, de escritores, que ainda não estão incluídos digitalmente. Com isso passamos a ter menos conteúdos na Internet.

Para concluir volto à questão da verdade que o Thom mencionou anteriormente. Creio que a verdade é uma procura e há uma espécie de jogo nisso. Quando é divulgada uma notícia, não sabemos mais em quem acreditar. Thom mencionou a CNN, nós temos aqui a Globo, o SBT, uma profusão de canais, e quanto mais a história é igual, mais desconfiamos que não estamos tendo acesso total a ela. Thom mencionou a CNN, Al Jazeera, e talvez sejam dois lados de uma mesma moeda, que ajudam a enxergar o mundo um pouco mais tridimensionalmente. Possivelmente tanto a Al Jazeera quanto a CNN não estão contando a história como talvez a víssemos olhando por um outro lado, pois dois envolvidos num mesmo conflito têm sempre uma visão unilateral. É por isso mesmo que há o conflito. Quem está fora vê tudo de outra forma, o que é um jogo também; talvez o principal, que vivemos no dia a dia.

De vez em quando somos convocados a jogar nesse grande tabuleiro em que brincamos com urnas eletrônicas – nisso o Brasil tem uma experiência ímpar, mas que também deixa dúvidas. Será que existe algum algorítimo por trás disso que pode fazer com que o voto que depositamos vá para outro? Essas dúvidas serão esclarecidas apenas quando tentarmos entender qual é a regra que está por trás disso. Qual é o funcionamento desse tabuleiro, desse mecanismo.

Conexões inéditas

Para finalizar, quero falar de uma experiência muito interessante, que mostra como a rede é próxima… Todos nós estamos muito perto. As pessoas sempre dizem: “como o mundo é pequeno”. E a Universidade Columbia fez um experimento para provar isso. Parece que estamos separados de outra pessoa em qualquer parte do planeta por cinco, seis ou sete pessoas. Qualquer um pode participar desse experimento através da URL www.smallworld.columbia.edu. Ao se cadastrar, recebe-se um target, que é uma pessoa. Eu me cadastrei e recebi uma moça, com nome que não vou citar. Ela é judia, mora em Nova Iorque e tem vinte e nove anos de idade. Meu objetivo é mandar um e-mail para outra pessoa que imagino possa chegar nela. Essa outra pessoa vai mandar para outra. Essa experiência é monitorada, eles vão tabulando e tecendo as redes. É muito interessante porque às vezes encontramos outra pessoa depois de duas ou três etapas, assim como pode também demorar quinze, mas a média no planeta é de cinco a sete pessoas. É a distância que cada um de nós está separado de qualquer outro, através de uma rede de desconhecidos. Essa rede é interessantíssima de ser utilizada para um grande jogo, em que é possível fazer uma rede de histórias pessoais, que talvez seja o que nos dá a visão mais multilateral da história do mundo. É como cada um de nós enxerga o negócio.

Nesse sentido é bom lembrar do livro 1984, em que o Big Brother observava a todos, tudo o que todo mundo fazia. Usando as tecnologias através da rede de histórias pessoais, cada um de nós sendo autor, protagonista, todos seremos os olhos que vigiam o Big Brother. Quando pudermos entrar no sistema do Senado, da Receita Federal e cruzar aquela verba que foi liberada para um determinado prefeito com o CIC, o RG dos proprietários daquela empreiteira que ganhou a concorrência, começaremos a perceber como os recursos são aplicados e onde e que interesses estão por trás disso. A partir desse momento nós estaríamos construindo o tabuleiro dessa democracia eletrônica que é a expressão, a caverna de Platão da democracia real do dia-a-dia, do nosso arroz, do nosso feijão, dessa vida de átomos. Só essa é a diferença do conceito entre bits e átomos, e aí eu concluo por agora, lembrando o professor Negroponte do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachussets), quando veio ao Brasil. Na alfândega, ele trazia um notebook e o fiscal perguntou: “você tem alguma coisa a declarar?” Ele disse: “não, só este notebook”. O fiscal quis saber quanto ele valia, e então Nicholas Negroponte retrucou: “você quer saber o valor em bits ou em átomos? Porque em átomos vale quatro mil dólares, mas em bits tem aqui uns quarenta mil dólares”. Cada vez mais estamos nesse mundo virtual, lidando com novos valores e agregando uma série de possibilidades para novos e interessantes jogos, conexão de rede e histórias digitais que é o que todos nós fazemos no dia-a-dia.

·


·

Cultura e inclusão digital

01/06/2002

JUNHO 2002

Fala proferida na mesa de abertura do I Fórum Regional de Políticas Culturais, realizado no Centro Cultural Roberto Palmari, em Rio Claro – SP, em 2002. Na mesma mesa participaram João Baptista Pimentel, Danilo dos Santos Miranda e Hamílton Faria, entre outros. Transcrição da fala de Carlos Seabra, em gravação feita pela equipe do CREC, com a copidescagem de Alda Ribeiro.

Atualmente, estou envolvido profundamente na questão educacional e da tecnologia na educação. Eu percebo que a cultura é o que mais falta hoje em dia no processo educacional. Alguém já definiu que cultura é aquilo que sobra depois que você esquece tudo o que aprendeu, o que mostra como o lastro final é realmente a coisa da cultura.

As maiores dificuldades da escola são de natureza cultural, e hoje que se inaugura o infocentro do Acessa São Paulo aqui, essas questões devem ser analisadas. Para você navegar na internet, ter e-mail, publicar e ser autor envolve muito mais habilidades e competências culturais do que propriamente uma habilidade tecnológica. Essa é uma coisa secundária que se adquire tendo a primeira.

Vou ser muito breve e terminar dizendo que nesta questão da inclusão digital, de incorporação da tecnologia, muito mais importante do que surfar na internet é aprender a fazer onda que é uma coisa eminentemente de construção cultural.

Eu vou dar uma abordagem diferente sobre a questão dos corredores. Por toda minha vida militei na área cultural com cineclubismo há uns 15 anos mais ou menos, em um projeto no qual a gente levava cinema para 80 cidades.

Atualmente estou trabalhando na área educacional e na inclusão digital e não poderia deixar de dar uma visão da minha experiência da área de cultura. Eu vejo educação e inclusão digital com enfoque cultural e agora vou procurar mesclar as duas áreas.

Nós estamos vivendo uma época na qual está se criando uma nova geografia, trata-se da geografia virtual. Todo mundo já deve ter visto filme de ficção científica em que há uma dimensão paralela e as pessoas passam de uma para outra dimensão.

Essa dimensão virtual está sobre nós e em cima de todo o planeta. Ela tem uma nova economia, baseada em bytes, não mais em átomos. Isso traz uma série de desafios para nós, em termos de organização do estado, democracia, cultura, educação, enfim, toda uma série de desafios que o mundo novo nos traz.

Da mesma forma que um novo mundo foi a “descoberta” das Américas, como um continente que estava em crise exportou toda uma série de gente, mão-de-obra para esse Novo Mundo. Hoje em dia, não há mais lugar na Terra para se expandir a não ser em direção ao virtual. Seguindo na mesma comparação, assim como antigamente as caravelas eram o instrumento de descoberta do Novo Mundo, atualmente a tecnologia cumpre um papel similar ao desses barcos. O que ocorria com a caravela? Quando ela não afundava ao ir para o novo mundo e as pessoas não morriam de escorbuto a bordo, chegavam a uma terra onde eram picadas por mosquitos, contagiados por doenças desconhecidas ou morriam atacadas por índios. Se sobreviviam a tudo isso, criavam cidades sem leis, sem esgoto, que eram uma porcaria. Porém, daí nasceu o Novo Mundo.

Hoje, tecnologia é essa coisa, o computador que quebra, dá problema. Eu até fiz um haicai em “homenagem” ao Bill Gates, falando que cada vez que dá pau no micro, ele fica mais rico. Nós estamos atualmente nessa fase em que a gente naufraga. A tecnologia é uma coisa que não é transparente, principalmente para uma população excluída.

Isso faz com que nós, que trabalhamos com cultura e produção cultural, tenhamos o dobro do desafio que é criar o contorno desse continente para que ele não seja desenhado por outros que tenham o interesse meramente comercial como os tais bill gates e outros do tipo.

Um exemplo muito claro desse desafio é o da televisão que na área educacional é um pavor, é um desastre. Na época em que surgiu a televisão, os educadores tiveram uma postura omissa quando não reacionária. Eles pensavam o que hoje muita gente acha, que computador é uma coisa de elite e, no entanto, na favela cada vez tem mais computadores.

Com o atual estágio de avanços e interesses do capitalismo no nosso modo de produção, daqui a pouco vai ter um microcomputador em cada casebre, seja em uma favela ou num bairro rico. Nós temos que estar preparados para criar novos tipos de corredores virtuais, além dos corredores geográficos. Temos que saber atender a essa nova geografia, que também existe, para além do município, do estado, da federação, do planeta. Hoje nós temos o ciberespaço que precisa ser ocupado porque se não fizermos isso alguém ocupará esse espaço, já que não existe vácuo na natureza.

Além disso, trazendo aqui para um terreno mais imediato, existe a conexão do virtual com o real que é básica, ou seja, quando o sujeito domina a informação, os bits e bytes desse espaço, na verdade, ele está dominando as coisas nessa terra que a gente apalpa. Quero dizer que os preços das ações, do arroz e do feijão são determinados virtualmente, mas o seu reflexo tem impacto na realidade.

Poderia dar um exemplo bastante imbecilzinho que serve para o que eu quero dizer. É o seguinte: você pega o seu Zé cavando a terra e ele é um excluído social, um analfabeto, um sujeito que tem verminose. Ele não tem muita expectativa e qualidade de vida. Seu Zé está lá, cavoucando a terra e passa o seu patrão a cavalo; ele conversa com o patrão, dá tchau e o patrão vai embora. A tecnologia se desenvolve e o patrão agora passa numa estrada em uma BMW em alta velocidade, dá uma abaixadinha no vidro fumê, que fica normalmente fechado por causa do ar condicionado, dá um tchau para o seu Zé que continua cavoucando. Esse seu Zé é o mesmo ou é o filho, o neto ou o bisneto daquele, que continua analfabeto, com verminose e excluído socialmente.

A tecnologia se desenvolve mais ainda e o patrão passa agora de jatinho e o seu Zé aqui embaixo dá tchau para o jatinho e o patrão olha, lá de cima, vê um pontinho preto e não sabe se é uma vaca, um boi ou um seu Zé qualquer, porque há vários seus Zés, assim vacas e bois. O seu Zé aqui embaixo não sabe se naquele jatinho vai o seu patrão ou não. Ainda dá um tchau na esperança de alguma comunicação remota com aquele objeto tecnológico. Só que agora a tecnologia deu mais um passo e o patrão dele passa pela internet na forma de um e-mail,na forma de uma conversa em chat e é aí que seu Zé está totalmente frito, ele é um excluído total. Ou seja, com o impacto das novas tecnologias, ou a gente trabalha em um projeto de inclusão digital, que traga junto a inclusão social ou estaremos totalmente equivocados porque só a inclusão digital sem a inclusão social significa informar os usuários de banco 24 horas como usar os serviços ou fazer compras no supermercado, não é isso o que nos interessa, a sociedade capitalista se encarrega de desenvolver isso.

Nós temos que aproveitar essa inclusão para fazer com que a tecnologia seja um cavalo de Tróia, que penetre as muralhas antes indevassadas dessa cidadela do acúmulo do poder e da riqueza que deixa um montão de gente aqui fora. Para isso não basta entrar com o cavalo de Tróia, é necessário que no seu bojo haja guerreiros que tenham um projeto e saibam o que fazer para tomar o poder dentro dessa cidadela, porque na verdade é disso que se trata.

A questão da tecnologia acaba excluindo muita gente, não só os miseráveis, mas também as classe C, D e E. Também há excluídos entre os produtores culturais que ainda, em alguns casos, não se aperceberam que têm pequenas resistências à tecnologia. Com isso, há muita produção cultural que não vai para a internet. Eu assino duas TVs a cabo em casa, antes achava que uma era ruim e agora percebi que duas é o dobro de ruim. Você fica zapeando os canais e só tem porcaria. Aí eu vou para a TV aberta e encontro mais porcaria. A conclusão é que falta conteúdo e eu acredito que também falte produção de qualidade porque houve uma posição omissa ou reacionária de achar que a televisão não era um espaço a ser ocupado e o que aconteceu é que esse espaço foi ocupado pelo Sílvio Santos, Roberto Marinho etc. Temos aí honrosas exceções de boa produção cultural, mas são exceção.

Corremos o mesmo risco disso acontecer com a internet, que é um espaço libertário. Só que a homepage feita por um desconhecido vai ser visitada por 15 pessoas e outra que tenha o patrocínio de uma grande multinacional, seja uma grande operação comercial, é visitada por todo mundo. A maior parte dos usuários, inclusive, carrega automaticamente, homepages de portais não só para os quais pagam como ainda viram propagadores a aumentar uma enorme quantidade de hits.

É necessário, então, que a gente faça a inclusão digital de produtores culturais para que a gente comece a colocar a nossa literatura, a nossa arte, o nosso cinema, a nossa poesia, o nosso folclore e a nossa produção cultural como um todo na internet também. Precisamos ter um projeto nacional e popular de ocupação da internet também enquanto nação, se a gente não ocupar um pedaço neste espaço virtual, alguém irá ocupá-lo. Assim como é importante o Brasil ter um pedacinho lá na Antártida. Nós precisamos ter um espaço no cenário mundial e na internet principalmente, para que qualquer brasileiro, esteja ele no Piauí, em Xiririca da Serra ou morando fora do país tenha um conteúdo no nosso idioma.

Tenho um grande amigo, Fábio Lucas, ex-presidente da União Brasileira dos Escritores, que até agora não conseguimos convencer a ligar um computador que alguém lhe deu de presente. Ele usa o equipamento como um porta-papéis bem sofisticado. Esse meu amigo poderia estar ajudando a diminuir os 90% de mediocridade no conteúdo da internet e colaborando para aumentar os 10% restantes de qualidade.

Nessa formação de corredores virtuais a gente está criando uma rede e como toda rede tem que servir para colher alguma coisa. A rede do pescador tem que ser suficientemente vazada para não colher água e trazer peixe graúdo que não fuja por ela. A rede virtual também tem que ser feita para nós colhermos, para nos trazer o peixe do conhecimento.

Na nova geografia temos um fenômeno novo, o deslocamento da informação e não mais do corpo. Toda vez que a gente puder substituir o deslocamento do corpo pelo da informação, teremos um ganho de qualidade.

Não estou dizendo que a gente vá passar a ficar em casa cada vez mais sedentário com as nádegas e cérebro enormes, o que seria uma visão terrível de futuro. Na realidade, a gente percebe que quando a pessoa entra nessas salas de chat, em sua imensa maioria, vai logo para o contato humano, namorar, paquerar etc. O que rola daí? Casamentos reais de carne e osso porque o ser humano está procurando contato, nunca ninguém substituiu visitar a namorada por ficar telefonando para ela. A internet não vem também substituir nada que seja melhor fazer em carne e osso e isso inclui o prazer e uma série de outras coisas.

Ninguém deixa de visitar a Bahia porque viu um folheto de uma praia de lá, pelo contrário, isso lhe dá mais vontade de ir. Quando estou falando em não deslocar mais o corpo é naquele deslocamento inútil, por exemplo, eu me deslocar até a bilheteria de um teatro para saber se tem ingresso ou não. Para assistir à peça, entretanto, eu quero ver os atores a dez metros de mim. Está na moda agora a gente estar se preparando para o governo eletrônico, a gente paga imposto de renda pela internet e fica muito feliz com isso. Já que tem que pagar mesmo, que seja um processo mais rápido e fácil.

Nós temos que começar também a colocar a produção cultural na internet, não significa transformá-la só em virtual. Vamos continuar assistindo os tocadores de música do nosso folclore no Parque da Água Branca, mas para saber o que está ocorrendo a gente tem que colocar isso na internet, porque senão a gente vai estar perdendo o espaço que vai ser usado para propaganda da TV a cabo ou do banco tal.

Eu sempre procuro colocar isso na cabeça das pessoas pouco afeitas à tecnologia, meus amigos pintores, escritores, cineastas etc. que é importante que a gente passe a ser autor e protagonista para tomar conta da internet.

Se você faz literatura e resolver aprender a fazer html, uma homepage, para aprender com seu filho, você vai estar colocando a sua cara, aprendendo a produzir algo novo, inclusive descobrindo um modo novo de linguagem, porque a imensa maioria do que a gente vê na internet é muito ruim do ponto de vista da concepção visual e estética, assim como a qualidade de texto, dado o pouco engajamento dos produtores culturais na produção dessa mídia.

Sempre levanto que a questão não é tecnológica, aprender a mexer no computador é a coisa mais fácil do mundo, aliás, eu acho que as pessoas só poderiam começar a mexer com informática se já tiverem algum conteúdo, ciência, arte, educação, biologia, qualquer coisa que seja no cérebro. Ao ter contato com a informática isso estraga os neurônios, a gente vê esses jovenzinhos que sabem mexer com hardware, software mas não pegam num livro, que na verdade não sabem produzir nada porque tecnologia não é o artefato tecnológico. Se fosse, a Arábia Saudita seria o principal país do mundo em termos de tecnologia. Quando o reizinho ou vice-rei de lá precisa comprar um forno de microondas, ele adquire o último tipo, o mais moderno dvd, mas se quebrar alguma coisa nos seus brinquedinhos, ele não tem tecnologia para consertar nada. Ao contrário disso, Robson Crusoé, do romance de Daniel Deffoe, que a maioria aqui deve ter lido, é o sujeito que naufragou numa ilha deserta e só mais tarde foi ter aquele caso suspeito com o Sexta-Feira. O cara recriou tudo o que a civilização de sua época tinha com suas mãos e o cérebro, captava o movimento do rio para fazer uma moinho e moer a farinha. Bom, é isso aí, por enquanto, muito obrigado.

·


·

O computador na criação de ambientes interativos de aprendizagem

01/01/1993

Artigo publicado na revista Em Aberto, edição com o tema “Tendências na Informática em Educação”, publicada pelo INEP – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais. Brasília, ano 12, nº 57, jan/mar 1993.

O uso da informática educacional no Brasil já completou sua primeira década, e muitas escolas já contam com laboratórios de computadores. Seu uso pode ser dividido em duas abordagens: a informática no ensino e o ensino da informática.

Quando se fala em computadores na escola sempre surgem as inevitáveis menções à merenda escolar, às janelas quebradas e aos baixos salários dos professores. Sem pretender entrar nessa discussão, pelo menos neste texto, não podemos deixar de levantar que é apenas com muita e da melhor tecnologia que evitaremos uma clivagem social ainda maior entre a escola pública e a privada (ou entre o Brasil e as nações desenvolvidas). Como disse Seymour Pappert a um interlocutor: “não morda meu dedo, olhe para onde estou apontando”.

A primeira, o uso da informática no ensino, padece da grave falta de softwares educacionais, mormente em língua portuguesa, falta esta agravada pela baixa qualidade e restrito efeito educacional dos disponíveis. Não é apenas por suas qualidades, e que muitas são, que a linguagem Logo acaba dominando a informática educacional – o Logo acaba sendo a única opção séria ao alcance das escolas.

A segunda abordagem do uso da informática no ambiente escolar é talvez o mais difundido hoje – principalmente nas escolas particulares. Trata-se de ensinar Basic, Pascal, planilhas eletrônicas, gerenciadores de bancos de dados e processadores de texto. Em parte porque o “mercado” o pede (e nisso as escolas não se diferenciam em qualidade dos piores cursos de informática oferecidos em qualquer esquina), mas também porque a falta de bons softwares educacionais impede pensar alternativas que realmente agreguem qualidade ao processo ensino-aprendizagem.

Neste artigo vamos nos deter exclusivamente nas possibilidades do uso da informática na criação de um ambiente não só facilitador mas principalmente instigador da reflexão crítica, do prazer pela pesquisa e da aprendizagem contínua e autônoma.

Robinson Crusoe e a Tecnologia Educacional

Quando se fala em computadores na escola sempre surgem as inevitáveis menções à merenda escolar, às janelas quebradas e aos baixos salários dos professores. Sem pretender entrar nessa discussão, pelo menos neste texto, não podemos deixar de levantar que é apenas com muita e da melhor tecnologia que evitaremos uma clivagem social ainda maior entre a escola pública e a privada (ou entre o Brasil e as nações desenvolvidas). Como disse Seymour Pappert a um interlocutor: “não morda meu dedo, olhe para onde estou apontando”.

Antes de prosseguir, gostaria de conceituar tecnologia. Isto é fundamental numa área de ponta como a informática, onde se cultuam tantos totens tecnológicos – onde se consideram obsoletos computadores que sequer tiveram suas possibilidades exploradas, e onde a “culpa” pelo não-uso é sempre da falta de equipamentos melhores.

Como contraponto ao conceito de tecnologia podemos mencionar o Kwait: um país que pode comprar os computadores mais potentes, os carros mais velozes, os videocassetes mais modernos… mas que não sabe construir ou sequer consertar qualquer um deles. O inverso disso é Robinson Crusoe, o do clássico de Daniel Defoe: de mãos nuas, escapado de um naufrágio, reproduz em sua ilha deserta toda a tecnologia da época, usando apenas seu conhecimento e a vontade de transformar a realidade. Ou seja, não podemos confundir artefatos tecnológicos com tecnologia, geradora daqueles.

Na educação essa distinção é fundamental, pois não há máquina que substitua o professor (e quando isso ocorre é porque o professor o merece). Tecnologia educacional é, por exemplo, usar uma lata de água, um pedaço de madeira e uma pedra para explicar a flutuação dos corpos; apertar a tecla de um vídeo sobre o assunto e deixar os alunos o assistirem passivamente, em contrapartida, nada tem de tecnologia.

A Caverna dos Lápis

O uso da informática nas escolas tem ocorrido através da implantação de laboratórios de computadores, variando seu número de cinco a dez, ou mesmo mais, num único ambiente. Raramente permitindo o uso individual e quase sempre trabalhando em duplas, ou mesmo trios, este formato firmou-se quase como que um padrão de informática educacional.

O laboratório de computadores é a única forma para o ensino da informática, onde tem que ocorrer o “corpo-a-corpo” do aluno com a máquina. Também se revela a melhor forma de explorar um ambiente como o Logo. Mas é totalmente ineficaz se queremos usar a informática para o ensino das tradicionais disciplinas curriculares – afinal a coisa mais importante e urgente a mudar na escola.

Gabriel Salomon, da Faculdade de Educação da Universidade do Arizona, em seu artigo “Laboratório de computador: unia má idéia atualmente santificada” (in “Educational Technology”, outubro de 1990), faz uma interessante analogia do computador com o lápis. Imagine que estamos na época das cavernas e alguém inventa o lápis (com a devida liberdade histórica). Imediatamente se descobre sua utilidade para a educação e cria-se a caverna dos lápis, onde os alunos aprenderão “lapislogia” e até mesmo a usar o lápis em outras matérias do conhecimento. Mas o lápis não sai da caverna, o ensino das outras matérias nas outras cavernas continua sendo feito sem o lápis, e muita gente vai achar que existem outras prioridades na educação antes dessa nova tecnologia (tapar o teto das cavernas, as peles para vestir os professores etc.).

Ao invés disso, por que não levar o micro para dentro da sala de aula? Usá-lo como um instrumento do dia-a-dia do ambiente de estudo, uma ferramenta quotidiana de aprendizagem, um gerenciador de simulações e jogos na sala de aula, cruzando dados para pesquisas e fornecendo material para discussões e levantamento de hipóteses.

Se é estranho imaginar um professor de Biologia levando sua classe para um laboratório de computadores (fazer o quê lá?), imaginemo-lo em sua classe instigando uma pesquisa sobre felinos e seus hábitos. Os alunos pesquisando os animais, suas velocidades em corrida, seus hábitos alimentares, predadores etc. Ao invés das tradicionais redações de “pesquisa” as informações alimentariam um banco de dados, no computador da sala de aula. A pesquisa não terminaria aí, pelo contrário, iniciar-se-ia. A classe, estimulada pelo professor, levantaria hipóteses – por exemplo, quem corre mais: os felinos de hábitos noturnos ou diurnos? A pesquisa no computador apontaria para uma velocidade maior dos felinos de hábitos diurnos e o professor instigaria a discussão sobre o resultado. A classe discutiria a camuflagem natural da noite, a maior importância da velocidade à luz do dia etc.

Estimulando o Pensar Crítico

Num mundo em que a quantidade de informação produzida diariamente supera a que pode ser absorvida por um ser humano durante toda a sua vida, há que preparar a relação com o saber na escola em bases completamente diferentes das que, hoje, são praticadas.

Não basta, por outro lado, que os alunos simplesmente se lembrem das informações: eles precisam ter a habilidade e o desejo de utilizá-las, precisam saber relacioná-las, sintetizá-las, analisá-las e avaliá-las. Juntos, estes elementos constituem o que se pode chamar de pensamento crítico. Este aparece em cada sala de aula quando os alunos se esforçam para ir além de respostas simples, quando desafiam idéias e conclusões, quando procuram unir eventos não relacionados dentro de um entendimento coerente do mundo.

Mas sua aplicação mais importante está fora da sala de aula – e é para lá que a escola deve voltar seu esforço. A habilidade de pensar criticamente pouco valor tem se não for exercitada no dia-a-dia das situações da vida real. É aí que as simulações, feitas em computador ou não, têm seu papel, fornecendo o cenário para interessantes aventuras do intelecto.

A tomada de decisões, “motor” básico de quase toda a simulação, pode levar o aluno a se colocar uma série de perguntas, visando a algumas abordagens que a resolução de problemas implica:

  • Análise da situação: O que eu sei? O que preciso saber?
  • Definição de metas e objetivos: O que é mais importante para mim? Como eu quero que a situação se defina?
  • Procura de analogias: Quais são algumas situações semelhantes e quais são diferentes? Como elas se ajustam?
  • Consideração de opções: Quais são as conseqüências de minhas opções? O que me levará em direção às minhas metas?
  • Enfrentar as conseqüências: Estou disposto a correr o risco? Estou preparado para enfrentar as conseqüências?
  • Rever decisões: Aproximei-me mais de minhas metas? Este resultado exige uma ação posterior?
  • Avaliação: Como decidi o que fazer? O que posso aprender através destes resultados?
  • Transferência de conhecimentos: Como posso usar este processo novamente? O quanto isto é significativo para minha vida?

Claro que tudo isto não ocorre espontaneamente, e aí entra o papel do professor, encorajando os alunos a fazerem conexões com eventos externos ao mundo da simulação, descobrindo a ligação entre a situação vivida e os conteúdos curriculares. Existem muitas táticas simples que o professor pode utilizar e que podem ser enormemente motivadoras, estimulando processos de transferência:

  • Encorajar os alunos a dramatizarem papéis que tenham diferentes perspectivas, para ver a situação por outros pontos de vista.
  • Elaborar vocabulários (incluindo palavras como objetivos, analogias, prioridades, conseqüências etc.) que os alunos possam usar em outras ocasiões.
  • Solicitar historietas pessoais que possam servir como analogias úteis e ajudem os alunos a tomar decisões.

É importante não cair nas “armadilhas” que a rotina do ensinar tantas vezes impõe. Dar todo o tempo para as respostas (o silêncio é um grande aliado), pois respostas pensadas, não apressadas, são as metas do pensamento crítico. Encorajar os alunos a explicarem como chegaram a suas conclusões, pedindo que eles verbalizem como estão pensando sobre um problema enquanto raciocinam. Essas são algumas abordagens possíveis, mas a principal é usar a imaginação – sempre visando a fazer do ambiente da sala de aula um estímulo que promova uma sensação de prazer pelo uso do intelecto.

Um Computador na Sala de Aula

Geralmente as soluções mais baratas não são as melhores, aponta-nos a experiência. Mas neste caso parece sê-lo. Não só o uso de um único computador por sala de aula permite uma extensa informatização das escolas a baixo custo, como também promove uma efetiva “subversão” das tépidas rotinas da didática – qual um cavalo de Tróia que carrega em seu bojo o novo e o desconhecido.

Este modelo não é novo nem desconhecido. Tom Snyder é um professor americano que se especializou em desenvolver ambientes interativos com o uso de softwares de simulação voltados para o uso de um único computador por classe, sempre procurando trabalhar com o desen­volvimento do pensamento crítico na sala de aula. Hoje a Tom Snyder Productions possui dezenas de groupwares em seu catálogo – quase todos para as áreas de estudos sociais – agrupados nas séries “Decisons, Decisions”, “Smart Choices” e outras.

Paulo Emílio Salles Gomes costumava dizer que “às vezes um mau filme pode originar um ótimo debate”. O uso coletivo de um software educacional pode proporcionar o mesmo ambiente; um programa falho e pobre pode permitir, com um bom professor (condição sine qua non), uma interessante aula. Jamais colocaríamos nossos alunos, sozinhos, com a maioria dos péssimos softwares educacionais que por aí existem – do mesmo modo que não podemos usar dessa forma softwares em alemão, japonês ou mesmo inglês –, mas abrimos uma infinidade de novas opções ao navegar por esses mares sob a coordenação de um professor frente a uma classe.

Além de poder usar programas em outras línguas – até mesmo para ensiná-las –, esse formato também permite uma interessante utilização de programas feitos com outras finalidades que não as educacionais. Destacam-se nesse campo os jogos. Geralmente muito bem feitos e motivacionais, podem tornar-se uma interessante ferramenta didática nas mãos de um professor, criando um ambiente lúdico que pode ser a base para uma abordagem diferenciada da matéria. Dois exemplos de jogos que permitem a criação de interessantes contextos de aprendizagem são a série “Where is Carmen Sandiego” (para Geografia e História) e “SimCity” (urbanismo e meio ambiente) – ambos possuem capacidade de utilização ao longo de várias aulas, rico material de apoio, possibilidade de integração com outras mídias (vídeos, desenhos, redações) e permitem atividades multidisciplinares envolvendo professores de diversas áreas.

Esse uso do computador exige, mais que nunca, um professor preparado, dinâmico e investigativo, pois as perguntas e situações que surgem na classe fogem do controle preestabelecido do currículo. Essa é a parte mais difícil desta tecnologia. Do ponto de vista prático, dá para usar um micro com monitor normal em várias situações, mas obtém-se um resultado muitas vezes melhor com um data display. Esse equipamento consiste em uma placa de cristal líquido colocada sobre um retroprojetor normal, que amplia e projeta a imagem sobre uma tela.

No Brasil esse formato tem norteado o desenvolvimento e aplicação de software no SENAC de São Paulo, através do Programa Informática e Educação (que até recentemente coordenávamos) e, hoje, em seu Centro de Tecnologia Educacional. Pretendo relatar a seguir o processo envolvido no desenvolvimento de um software educacional nesses moldes, bem como seus objetivos educacionais, a partir da experiência bem sucedida do SENAC.

O Desenvolvimento de Software Educacional

O objetivo inicial do Programa Informática era a pesquisa de softwares já prontos e o desenvolvimento de metodologias de utilização nos cursos do SENAC. O que hoje é um grande problema, há oito anos atrás era quase uma impossibilidade. Essa constatação levou-nos a partir para o desenvolvimento de software educacional – o que acabou se revelando um grande acerto, não apenas pelos programas em si mas principalmente pelo desenvolvimento dos recursos humanos envolvidos e pela visão crítica dos objetivos e conteúdos dos cursos analisados. Nesse processo foram desenvolvidos até agora mais de 20 softwares, inicialmente para a linha Apple e hoje para IBM-PC e Macintosh.

O primeiro passo no processo de desenvolvimento desse tipo de material é a análise da área a “atacar”. No SENAC, optou-se pelos cursos da área de saúde como início do trabalho – sendo dessa área a maioria dos programas até agora desenvolvidos. Em seguida, montaram-se equipes multidisciplinares para o estudo dos objetivos, levantamento das dificuldades de ensino mais recorrentes e prototipagem do software propriamente dito.

O método de desenvolvimento de um software, educacional ou não, possui muito em comum com q processo de editoração de um livro: exige o envolvimento de profissionais de diversas áreas, dos especialistas no conteúdo específico até ilustradores e redatores, agregando-se neste caso também vários tipos de profissionais da área de informática. Da interação destes conhecimentos específicos e do embate muitas vezes caloroso de idéias nasce o protótipo que, então, deve ter muitas horas de testagem com alunos, com o devido acompanhamento especializado, para as modificações e validação definitiva (embora neste “mundo” o termo definitivo pareça muito transitório, sempre originando novas versões).

O custo envolvido nesse processo não é pequeno e o tempo investido é muito maior que o desejo de ver o software pronto. Isto se torna mais verdadeiro quando o produto em questão é uma simulação (para fazer programinhas de exercitação, tipo pergunta-e-resposta, ‘ gasta-se muitíssimo menos tempo e dinheiro em termos absolutos – mas quase nada se agrega de novo ao processo educacional). Grosso modo, podemos estimar que o custo do hardware corresponde a 10% do investimento necessário, o software (é preciso software para desenvolver software) corresponde a algo como 20% e, finalmente, mas não por último, o chamado peopleware, absorvendo cerca de 70% dos custos: professores, técnicos, analistas, consultores, programadores de telas, ilustradores, redatores, editores, programadores de rotinas especificas (sonoras, linguagem de máquina, animações etc.) e programadores de “alto nível”, revisores, equipe de testagem etc.

“Microguerra” – uma simulação na área de microbiologia

Um exemplo concreto pode ser o programa “Microguerra”, uma simulação para a área de microbiologia. O software começou a ser criado há 4 anos, com o estudo da disciplina de Microbiologia no curso de Técnico de Enfermagem do SENAC. Como resultado imediato do início desse trabalho, foram modificados vários objetivos da disciplina e aumentada sua carga horária, ou seja, antes mesmo de pronto, o software já surte seus primeiros efeitos, mostrando que a informática educacional também pode ser um ótimo pretexto para se repensar a educação. Nessa etapa inicial, foi criado um grupo de estudos envolvendo quatro professoras, destacadas por seis meses, quatro horas por dia.

Levantado o problema, com seus imensos contornos, e definidos os objetivos educacionais, partiu-se para o desenho do software. Desde o início, partiu-se para uma “guerra” de interesses conflitantes entre uma colônia de microrganismos e seu hospedeiro. Os primeiros esboços mostravam um problema: a classe tenderia a resolver os problemas surgidos com a defesa do hospedeiro usando os conhecimentos rotineiros e o chamado bom-senso, ou seja, “ficou com febre? tome tal remédio” em vez de usar as defesas naturais do corpo. Com isso não atingiríamos nosso principal objetivo, o conhecimento dos fenômenos naturais desse nível da vida, tanto nos aspectos do nosso corpo como dos microrganismos. A solução veio com uma inversão de papéis, a classe desempenhando o papel de colônia de bactérias e o computador assumindo a defesa do corpo humano. Deste modo, sem nenhuma referência passiva, a classe teria que pensar no que fazer a cada passo.

As etapas seguintes foram levantar o modelo científico, quais as variáveis envolvidas (milhares) e sua quantificação (difícil, mas essencial para o processo de programação). Depois de se chegar a um modelo de alta complexidade, partiu-se para a sua simplificação – fundamental para poder servir como modelo educacional e não como simulacro da realidade. Uma simulação deve ser tão simples que permita manipular com clareza algumas variáveis (senão temos a realidade propriamente dita), mas não a ponto que se torne inverídica. Este é o ponto mais difícil de se achar na criação de uma simulação.

O produto obtido (eliminando a descrição de algumas dezenas de etapas) foi um produto capaz de gerar ambientes de descoberta, discussão e experimentação em Microbiologia que tanto pode ser usado numa classe do 1 °- grau como num curso superior da área médica. Para isso foram criados vários níveis de jogo (onde, nos mais avançados, a classe pode “montar” as características do microrganismo e do hospedeiro, com alguns milhares de combinações possíveis). O software também permite diversas opções de estratégia educacional por parte do professor: tanto pode ser usado como “joguinho”, onde se foge de inimigos coloridamente animados na tela (mais tarde o professor pode referenciar: “lembram daquele inimigo azul? então, era uma defesa química de tal tipo”), como se pode parar a todo momento para efetuar pesquisas em material de referência e debater as atitudes a tomar (“se somos um microrganismo anaeróbio, então vamos evitar o pulmão” etc.).

Como todo o bom software, o material completo possui um manual de referência para o aluno (com mapas de “navegação” pelo corpo, descrição de cada característica utilizada na simulação, tanto do hospedeiro como dos microrganismos, referências bibliográficas para orientação em pesquisas etc.) e um manual para o professor (com o detalhamento do modelo científico utilizado, as diferenças entre a realidade e as simplificações adotadas na simulação, estratégias de uso em sala de aula, sugestão de atividades complementares e integração com outras mídias e materiais educacionais).

Cometendo a injustiça de não citar todas as pessoas envolvidas na criação deste software, pois muitas e todas importantes são, não posso deixar de destacar Fernando Moraes Fonseca Jr., que coordenou todas as etapas de desenvolvimento do “Microguerra”, e Jarbas Novelino Barato, que hoje gerencia o Centro de Tecnologia Educacional do SENAC.

Além dessa simulação e de outros programas, foi também desenvolvido o software “Investigações em Ótica Geométrica”, para a área de física, e estão em desenvolvimento “Peste X”, simulação sobre uma epidemia numa pequena cidade, e “Gerenciamento de Pequenos Negócios”, simulação empresarial. Embora desenvolvidos para fazer face a necessidades educacionais internas do SENAC, todos eles possuem uma amplitude didática que permite com que sejam utilizados em outras instituições – como vários já estão sendo usados em universidades, escolas particulares e públicas e também no exterior (com algumas versões em inglês e em espanhol).

Para finalizar, quero destacar a importância da informação e da troca de experiências (para não falar da efetiva parceria no desenvolvimento de tecnologias) para o avanço da informática educativa no Brasil. Não bastam alguns encontros anuais entre alguns expoentes do setor: precisamos construir canais de comunicação permanentes e efetivos entre os pesquisadores, professores e usuários de modo geral. Cada experiência deve ser relatada e analisada, ao invés da quase clandestinidade em que o conhecimento na área vive hoje. O que pode ajudar muito nessa tarefa é a telemática, que já tem diversas redes de pesquisa ao dispor da comunidade educacional, mas que pouco são utilizadas.


Revista “Em Aberto” (ISSN 0104-1037), edição com o tema “Tendências na Informática em Educação”, publicada pelo INEP – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais. Brasília, ano 12, nº 57, jan/mar 1993.


Senac na era da informática educacional

01/06/1988

JUNHO 1988

Entrevista dada à “Acesso”, Revista de Educação e Informática da FDE – Fundação para o Desenvolvimento da Educação, organismo da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo, – Ano I – Julho/Dezembro 1988.

A entrevista foi feita por Maria José do A. Ferreira e Marta Marques Costa, com edição de Fábio Barbosa Jr. Participaram da mesma, Sonia Zaitune, Fernando Moraes Fonseca Jr. e Evanisa Arone, membros da equipe do Programa Informática e Educação do Senac SP.

Saúde, uma experiência que está dando certo

Acesso esteve no SENAC-Saúde da avenida Tiradentes, em São Paulo, para conhecer a experiência no campo da Informática Educacional que vem sendo desenvolvida nesta unidade. Trata-se de uma experiência de ensino assistido por computador iniciada em 1986 pelo Programa de Informática e Educação, vinculado à Gerência de Formação Profissional do Departamento Regional de São Paulo do SENAC. Na área de Saúde, o Programa Informática e Educação priorizou a Enfermagem, iniciando a informatização dos cursos de formação de técnico e assistente de Enfermagem.

Neste número, estamos publicando entrevista com Carlos Seabra, coordenador do Programa, onde ele relata e analisa a experiência desde a sua origem até o momento atual, falando sobre a filosofia educacional que a orienta e sobre as perspectivas de sua continuidade.

Programa Informática e Educação em 1988. Da esquerda para a direita, Carlos Seabra, Marta Marques Costa, Sonia Zaitune, Fernando Moraes Fonseca Jr., Evanisa Arone e Maria José Ferreira.

Da esquerda para a direita: Carlos Seabra, Marta Marques Costa, Sonia Zaitune, Fernando Moraes Fonseca Jr., Evanisa Arone e Maria José Ferreira.

AcessoO que é Programa Informática e Educação?
Seabra – O Programa Informática e Educação visa utilizar o computador e a Informática como recursos instrucionais e surgiu da necessidade, percebida pelo SENAC, de se utilizar esse recurso em algumas áreas onde os recursos tradicionais não são tão efetivos como o do uso do computador. O uso do computador, por obrigar a uma metodização, a uma planificação, a uma classificação de conhecimentos, produz uma série de resultados que interferem no processo ensino-aprendizagem, acessórios, periféricos ao próprio fenômeno da informatização, mas que talvez sejam, inclusive, os mais importantes. Nós tínhamos, inicialmente, um programa chamado “Educação para o Futuro”, onde trabalhávamos com alunos do 1° Grau e com professores da rede pública, mexendo com a questão da Informática. Queríamos fazer um mapeamento das potencialidades e possibilidades do uso da Informática na Educação. Depois de uns dois anos de trabalho com esse tipo de público, formou-se uma equipe dentro da instituição, criou-se um certo know-how e percebemos que era um desvio de esforços estar investindo nessa área de educação formal de 1° Grau, que não é uma área do SENAC, e, sim, da Secretaria da Educação. Nós não estávamos atendendo necessidades imediatas nossas, como a formação profissional. Foi constituído, então, esse novo Programa, chamado Informática e Educação. Basicamente, foi essa a origem do Programa, que conta, hoje, com dois anos e meio de existência.

AcessoComo foi constituído o grupo de trabalho encarregado do Programa?

Seabra – Inicialmente, a equipe era de apenas duas pessoas: eu e a Sônia. Ela é psicóloga e eu sou editor. Venho da área de Comunicação Editorial e a Sônia da área de Psicologia e Educação Infantil. Aí, nós nos encontramos na Informática. Atualmente, a equipe tem cinco pessoas fixas – a equipe central – mais um supervisor pedagógico. Essa equipe é constituída por dois psicólogos, um filósofo e matemático, um físico e eu, da área editorial: ou seja, ninguém tem uma formação específica de Informática, embora vários de nós já tivéssemos tido contato com a área. Temos também uma série de colaboradores externos, que são programadores: alguns que só mexem com linguagem de máquina, outros da área gráfica, produzindo desenhos e ilustrações para os softwares etc. Além disso, temos consultores específicos para as áreas de conteúdo e trabalhamos com equipes de docentes para informatização e estudo específico de cada disciplina. Por exemplo, colaboram conosco três enfermeiras da disciplina de Microbiologia. Basicamente, portanto, há uma equipe central e uma série de trabalhadores externos ou equipes acessórias internas, para cada trabalho.

AcessoPor que foi escolhida, para inicio dos trabalhos do Programa, a área de Saúde?

Seabra – Vários motivos nos levaram a isso, desde os menos relevantes, como ter um belíssimo prédio especializado só para a área de Saúde, com disponibilidade de espaço e, portanto, possibilidade concreta de investir em laboratórios amplos, colocar equipamentos etc., até os principais, referentes a características da própria área de Saúde, em que, muitas vezes, os alunos têm uma baixa formação escolar. Aí você tem, por exemplo, pessoas na faixa de trinta anos, nossos alunos, que são assistentes de enfermagem, que já têm prática, já trabalham em hospitais, mas que fizeram o primário há vinte, quinze anos atrás. Além de terem estudado já há bastante tempo, a formação que tiveram foi bastante deficiente. E Saúde envolve uma série de conteúdos cognitivos, uma massa de informações muito grande, uma necessidade de o aluno não apenas “ser treinado”, de executar uma série de operações, mas de entender o que está fazendo. Então, por exemplo, ao assistente de enfermagem, que, teoricamente, se limitaria, na sua prática, a ver se o lençol do paciente está limpo e a observar uma série de cuidados básicos de higiene, nós ensinamos os princípios mínimos de doenças transmissíveis: a Microbiologia, como é que são os processos de imunização natural do corpo etc. Queremos que ele entenda o que está fazendo, que perceba a importância de lavar as mãos, de esterilizar um instrumento, da dosagem correta de medicamentos etc. O curso de Assistente de Enfermagem tem, praticamente, mil e quinhentas horas de carga horária, com uma série de conteúdos cognitivos extremamente díspares, multo ricos e bastante avançados. Colocava-se, então, um desafio. Uma área que não apresenta problemas tão cruciais como esses conteúdos, não seria prioritária para informatizar, Há necessidade de se investir mais, em termos de qualidade de ensino, onde se apresentam problemas maiores. Outro fator que consideramos é que os professores e o corpo técnico, na área de Saúde, têm uma formação superior à do pessoal de várias outras áreas. Todos os nossos professores são enfermeiras, com nível de formação bastante bom, o que dá uma cena homogeneidade a essa equipe, e facilita a constituição de grupos para iniciar esse trabalho de informatização. Como estamos ainda adquirindo experiência, refletindo em cima disso, tentanto ver o que é exatamente a Informática na Educação, que problemas ela traz quando se leva um trabalho à prática, então precisávamos fazer isso numa área em que os recursos humanos estivessem melhor preparados. E a Saúde é ótima também por causa disso, porque, se com os alunos você têm o problema do nível extremamente heterogéneo e da baixa formação, com os professores sucede exatamente o contrário. Tínhamos, então, o ambiente ideal e adequado para o início dessa experiência. Por outro lado, dentro da área de Saúde, onde o SENAC oferece vários cursos – ótica, pedicure, atendente de farmácia, protético e outros –, escolhemos Enfermagem, porque teríamos de iniciar por algum ponto. Enfermagem.é o curso que tem a maior carga de conteúdos cognitivos, mais do que qualquer outro, e onde os alunos interagem, no dia-a-dia, com uma série de problemas muito candentes, até mesmo tratar de um paciente terminal.

AcessoComo se iniciou o trabalho do Programa Informática e Educação?

Seabra – Quando começamos a ver o que já existia de informatização nas outras escolas, constatamos que a primeira providência que as escolas tomam é comprar o equipamento, no qual investem alguma grana, e do qual se utilizam para fazer todo um merchandising em cima, com mais ou menos seriedade, evidentemente. Depois de algum tempo percebem que não têm software, aí partem para pirataria generalizada ou então decidem comprar alguma coisa no mercado. Isto também é muito difícil, porque mesmo que a instituição tenha boa intenção de não usar programas pirateados, vai ter muita dificuldade, uma vez que praticamente não existe nada no mercado e o que existe não se adapta ao currículo, á forma de educação desejada etc. As escolas, entretanto, acabam conseguindo alguns softwares e só depois, como última etapa, sentem a necessidade de formação de recursos humanos. Esta é, normalmente, a parte mais descurada, na qual não existem investimentos. Um diretor de escola aprova a compra de um equipamento, e já torce o nariz quando se fala em comprar software; não tem nenhuma visão de que é preciso liberar professores durante murtas e muitas horas para uma discussão aprofundada dos objetivos, de como se pretende implantar a coisa etc., e de que é necessário formar os próprios recursos humanos. Nós resolvemos partir, portanto, do processo inverso, por acharmos que é o que conduziria melhor a experiência. Daí a nossa opção por iniciar o nosso trabalho com um treinamento de Recursos Humanos para formar uma espécie de massa crítica dentro da instituição, constituída por docentes, técnicos e corpo gerencial. Não queríamos que uma meia dúzia de pessoas com mentes iluminadas determinassem o rumo da informatização no SENAC, mas sim, fazer com que todo o mundo envolvido no processo educacional participasse da discussão da definição de seus objetivos e metodologia. Nossa preocupação principal é com a formação de Recursos Humanos. Eles passam por um treinamento que envolve aprender o que é Informática, analisar uma série de softwares, e desenvolver o espírito crítico em relação a esses softwares. Em relação a esta postura crítica, aliás, achamos que, muitas vezes, é mais fácil trabalhar com o professor que tem críticas do que com aquele que começa deslumbrado quanto aos novos recursos educacionais, que tende a ser menos crítico. Procuramos, entretanto, lidar com esses dois extremos, nesse trabalho de treinamento, levar todo o mundo a uma visão realista e critica da questão do uso da Informática na Educação. Nosso objetivo inicial é, portanto, ter o conjunto do corpo docente, técnico e gerencial sabendo das possibilidades da Informática, das suas falhas, do seu custo, para que possamos decidir o que vale a pena informatizar ou não. Depois, há a constituição de grupos que vão trabalhar, aí sim, na informatização de disciplinas. Não partimos tampouco do princípio de que é necessário desenvolver software. Procuramos primeiro ver o que existe, no mercado, adequado a cada disciplina. No caso de Saúde, não encontramos nada. Havia algumas coisas, mas que não se adequavam ao nosso modo de ensino, aos nossos objetivos. O que é previamente traçado por nós são os objetivos; os softwares são conseqüência desses objetivos. Isso nos levou à necessidade de desenvolver software próprio, caminho que estamos trilhando.

AcessoQual é a clientela atendida pelo Programa Informática e Educação?

Seabra – Nossa meta é trabalhar com todos os professores e todos os técnicos da área de Saúde e depois com os de outras áreas. Já participaram dos treinamentos todo o pessoal da área de Enfermagem – estão faltando apenas duas ou três enfermeiras, que por problemas particulares não participaram até o momento – e três técnicos da área de ótica. Nos próximos treinamentos, está prevista a participação de mais gente da área de ótica e de pessoal de Prótese Dentária e de Pedicuros e Calistas. Está em estudos a participação da área de Farmácia, que, até o momento, não pôde ocorrer. A meta é que todo o mundo participe. Paralelamente, também têm passado pelo treinamento os técnicos da Gerência de Formação Profissional que mexem com produção de recursos audiovisuais e produção de apostilas e outros materiais escritos, de modo que haja uma integração. A nossa idéia ao informatizar uma disciplina – e informatizar nesse sentido não é a palavra mais apropriada – é refazer todo o material, todas as apostilas, o conteúdo curricular… Desse modo, precisamos ter um material integrado, ou seja, o software não funciona sozinho, ele deve funcionar integradamente com a apostila, com o conteúdo dado em aula, com o vídeo apresentado, com o estágio pelo qual os alunos vão passar. Então, a meta de todos que trabalham no SENAC com produção de recursos instrucionais é participar do treinamento, inclusive com vistas à expansão posterior para outras áreas. Outras pessoas também têm participado do treinamento, pois sempre oferecemos uma ou duas vagas a elementos de fora: pessoal da Secretaria da Educação, do Colégio Carlos Campos, da USP, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e também do SENAC Nacional e de Unidades do SENAC de outros Estados. Esta participação visa a possibilitar futuros trabalhos conjuntos com outras instituições, desenvolvimento de software conjunto e experimentações. Vários dos softwares desenvolvidos por nós até o momento já estão sendo usados em outras instituições, e estamos analisando o retorno disso.

AcessoComo vem-se dando a informatização do ensino na área de Enfermagem?

Seabra – Não estamos informatizando o curso. Resolvemos informatizar disciplina por disciplina, inclusive porque praticamente as mesmas disciplinas ocorrem no curso de Assistente e no de Técnico, embora com profundidade diferente. A primeira que decidimos abordar foi Microbiologia, para dividir. Quando você tem um grande problema, você o divide em pequenas partes, assim como uma batata, ninguém gosta de engolir uma batata inteira; agora, se a batata é frita, cortada em pedacinhos, você come um quilo de batatas tranqüilamente. Então dividimos o problema por disciplinas, para facilitar esse processo de informatização e propiciar um aprofundamento maior no conteúdo, senão a gente se limitaria a ficar produzindo pequenos softwares aqui e ali, e não atacaria o problema definido. Selecionamos Microbiologia por ser uma das disciplinas que davam os maiores problemas aqui dentro. Os docentes, embora tenham boa formação, não são biólogos, então, fica muito difícil você ter clareza sobre quais são os conceitos que devem ser passados ao aluno, o que ele deve aprender sobre a bactéria, o que ele deve aprender sobre uma série de mecanismos de reação natural do corpo etc. Por parte dos alunos, também era a disciplina mais assustadora. Embora uma série de outras disciplinas tenham muita carga teórica, envolvem, por outro lado, uma manipulação prática do cotidiano hospitalar muito mais fácil. Microbiologia era, então, a disciplina que apresentava o maior número de problemas e resolvemos começar por ela para encarar o desafio de frente, porque, se trabalharmos logo a disciplina que apresenta o maior número de problemas, ganharemos uma cancha e uma experiência muito maiores, além de uma metodologia de trabalho para depois atacar outras disciplinas. Microbiologia tinha uma carga horária de trinta horas e também este foi um fator determinante, ser uma disciplina com uma carga horária pequena.

AcessoComo vem sendo desenvolvido o trabalho com os professores e como se dá o seu envolvimento no Programa?

Seabra – 0 trabalho com os professores vem sendo desenvolvido, basicamente, através de treinamentos. Os treinamentos são para dez pessoas de cada vez e até o momento já temos trinta treinadas. Vamos ter mais um treinamento de dez, e ficaremos com quarenta. Em relação ao envolvimento, chegamos para as pessoas e dizemos: “Olha, você teria disponibilidade de participar do treinamento? Você seria substituído em sala de aula… topas?” Quer dizer, há um mínimo de interação com o professor, e o objetivo final é que todos acabem participando. O primeiro grupo acabou também tendo uma influência sobre os demais professores e não percebemos aquele medo que o professor teria, de ser substituído pelo computador. Talvez isso seja um fenômeno existente mais ao nível de escola pública, pois aqui isso não ocorreu, ao contrário, até pintou um certo modismo, todo mundo dizia: “Ah, mas eu não participei do treinamento”, “Ah, eu não estou encaixado no segundo!”. Já estão contando com isso. O que há é uma postura crítica de reserva (principalmente levantada no início), se o computador não desumanizaria, não mecanizaria demasiadamente o processo ensino-aprendizagem, com aquela visão de que o aluno seria submetido a uma série de conteúdos que iriam passando ali na tela. Há alguns soffwares, inclusive, que fazem isso. Procuramos ter uma postura crítica em relação a este fato, porque se é para ter uma série de elementos passivamente dispostos na tela, é muito melhor utilizar o livro. Então, a visão a que se chegou é a do computador como um ambiente onde o aluno está em contato consigo próprio, onde pode testar hipóteses, interagir com esse ambiente e ver concretizadas algumas facetas do seu pensamento formal. No treinamento, os professores passam pela experiência de manusear e trabalhar com algumas dezenas de softwares educacionais. A equipe de coordenação fica levantando algumas discussões sobre a qualidade desses softwares e sobre a adequação deles ou não para determinados instantes; por exemplo, “O software tem tais características, será que é desejável que possua ou não? Vamos observar esse aspecto.” Há todo um trabalho nesse sentido, que ocupa pelo menos 1/3 da carga horária. Os treinamentos são intensivos. Os professores são liberados de todas as aulas e participam, durante um mês, única e exclusivamente do treinamento. Eles têm que apresentar um trabalho final, programado e planejado por eles, um programa rodando, e isso é uma coisa importante porque consubstancia todo o conjunto do treinamento. Uma outra coisa, que representa também quase 1/3 da carga horária, é o planejamento de ensino. Nesta fase, levantam-se questões como “Tal objetivo educacional seria classificado como? Como uma memorização de conceitos ou uma aplicação de conceitos”? Isto é importante porque muitas vezes, em sala de aula, a gente percebe que o professor faz com que os alunos apenas memorizem um determinado concerto e depois apresenta uma prova onde eles têm que aplicar esse conceito, embora, na verdade, o aluno não tenha aprendido uma aplicação. Fazemos então esse esmiuçamento, criamos uma série de exercícios, há toda essa preocupação. Vou dar ainda um exemplo: há um exercício que é feito, onde se reúnem dois ou três grupos para fazer o planejamento de um produto industrial, por exemplo, um novo helicóptero, um produto a laser, que corte não sei o quê, qualquer coisa assim. O grupo define qual é o produto e estuda as características do mercado, o que é desejável, que defeitos aquele produto pode ou não ter, o que é preciso controlar, como é que se controla a qualidade, como é que se faz a distribuição; enfim, é feito todo um planejamento. O resultado é sempre muito bom, mas quando fazemos planejamento educacional, as coisas não são tão concretizadas, tão formalizadas, tão definidas. O planejamento educacional murtas vezes limita-se a um ritual de submissão burocrática, que o professor tem que apresentar num ano e depois vira letra morta. Não é um planejamento efetivo, interligado com a realidade, com mecanismos de acompanhamento para ver se está ocorrendo ou não. A gente procura discutir isso, questionar todo o sistema de acomodamento a que leva o ensino tradicional, onde há quarenta alunos numa classe e o professor já dá aquele conteúdo há carradas de tempo, o que acaba levando a uma série de vícios. É neste sentido que eu falo da semente revolucionária do nosso trabalho. Costumamos dizer para os professores, para a Gerência, para todos, que não viemos trazer soluções, viemos criar problemas. Basicamente, é essa a nossa meta. Nosso papel aqui é o de ficar levantando problemas a toda hora, apontando incongruências, inconsistências, fazendo perguntas, questionando, enfim.

AcessoComo vem sendo feito o trabalho com os alunos?

Seabra – O trabalho com os alunos é feito pelos professores. Claro, quando se trata de experimentação em salas de aula, sempre há algum membro da equipe coordenadora presente para auxiliar o professor nas dúvidas que surgem – até de manuseio do software –, porque se exige um atendimento mais individualizado, nós só trabalhamos com um aluno por micro. Temos um laboratório com vinte computadores e, portanto, são vinte os alunos que são atendidos de cada vez. Uma turma de quarenta alunos, que é o nosso máximo, no caso de Enfermagem, é obrigada a se dividir em duas: vinte vão trabalhar com o computador e os outros vinte ficam fazendo uma atividade paralela. Isto derruba por terra aquele medo de o professor ser substituído pelo computador. Na verdade, ocorre o contrário. Fomos obrigados a arrumar um professor suplementar para ficar com o resto da turma durante esse tempo de laboratório. Depois eles se revezam. Um elemento da equipe coordenadora está sempre presente para, além de dar uma pequena assessoria ao professor no atendimento individual aos alunos, observar o comportamento destes em face do programa, e como é que o professor trata os problemas advindos daí. Obtemos, assim, subsídios para discutir qual é o papel do professor no laboratório, que tipos de conteúdos deveriam ser trabalhados antes da experiência em laboratório etc. Além dessa utilização orientada pelo professor, o laboratório fica aberto dois dias por semana, em determinados horários, perto do horário do almoço e no final da tarde, pegando o começo da noite, para poder atingir as diferentes turmas. O laboratório está aberto para uso individual do aluno e funciona como uma espécie de biblioteca de software. O aluno vai lá, solicita o software a uma pessoa responsável, isso é anotado numa ficha de inscrição para se acompanhar o uso, e ele fica utilizando o equipamento uma, duas, três horas – o tempo que ele tiver disponível – brincando, se aprofundando, fazendo as suas experiências individuais. Este é um tipo de uso que desejamos estimular, porque fomenta a pesquisa, fomenta o gosto pela aprendizagem. Mais importante do que um software transmitir determinado conteúdo específico, é ele propiciar um insight dentro da cabeça do aluno para que este descubra que é capaz de raciocinar e que tem capacidade de prospecção. Isto desperta nele o gosto pela pesquisa científica e pela aprendizagem. A partir daí, ele se vira sozinho e, se quiser saber mais conteúdos, pega o livro, pergunta etc. Consideramos que esse uso individual vai introduzir uma dinâmica muito interessante.

AcessoQue tipo de software vocês estão utilizando?

Seabra – Temos utilizado até o momento dois tipos de programas: o primeiro é constituído por programas experimentais, que foram produzidos independentemente de se ter uma análise profunda de uma disciplina, e que estamos experimentando com alunos, integrando-os ao currículo, embora sejam softwares isolados. Queremos ver que problemas podem ocorrer, começando pelos de ordem administrativa: deslocamento dos alunos até o andar onde está o laboratório, quantos equipamentos tendem a quebrar, qual a assistência técnica necessária para manter o parque de equipamentos em bom estado etc. Além desses, queremos identificar os problemas advindos das dúvidas de manuseio, como é que o professor se comporta etc. O outro tipo são programas integrados e desenvolvidos no conjunto da disciplina e que aí vão fazer parte de toda uma metodologia aplicada para o conjunto da mesma. São basicamente estas as duas vertentes de utilização de software com os alunos.

AcessoQue condições e vantagens são oferecidas aos professores para o envolvimento no Programa?

Seabra – A primeira condição é a informação, a formação. Todos os livros de que a equipe de professores envolvida na informatização de uma disciplina necessita são comprados, sem nenhuma restrição. Os professores vão a livrarias especializadas, escolhem o que é preciso e tudo é comprado. Se são necessários softwares para se olhar, a gente compra softwares, descobre etc. Se é necessário fazer treinamento, organizar uma palestra, contratar um consultor, faz-se isso, Outra condição é o tempo. Achamos necessário dar muito tempo a esses professores, por isso nosso esquema é “todo professor envolvido na informatização de uma disciplina é liberado meio período, durante quatro ou cinco meses, para esse trabalho”. Meio período e não período integral, porque consideramos que ficar em período integral alotado no Programa é muito cansativo e distancia o professor da sala de aula, dos problemas concretos do dia-a-dia. Queremos que, na parte da manhã, ele continue com uma turma de alunos, dando aulas, e, à tarde, entre nesse outro trabalho. Caso haja necessidade de horas extras, eles recebem como tal. Até o momento, esse grupo tem murtas horas alotadas e um trabalho planejado, não necessitando de horas extras. Depois que é encerrado o trabalho de análise da disciplina e se parte para a informatização, produção de apostilas, elaboração do programa, os professores continuam acompanhando o projeto, participando de reuniões com os programadores e com a equipe de coordenação. Nesse momento, eles já voltaram à sua atividade normal e muitas vezes, aí sim, há hora extra. O envolvimento no Programa não propicia, por outro lado, promoções. Não nos interessa fazer dos professores que mexem com Informática uma nova elite. Nosso objetivo é que todos mexam com isso, não queremos mistificar e valorizar excessivamente a Informática.

AcessoComo a experiência continuará, daqui para a frente?

Seabra – Vamos continuar no SENAC/Saúde, que é uma unidade especializada. A experiência com os alunos ainda é pequena. Nós só colocamos os alunos na jogada quando já existe algo bem-feito para apresentar a eles, segurança por parte dos professores e objetivos definidos. Não queremos complicar o andamento normal dos cursos, fazendo experiências mal-sucedidas, que, inclusive, politicamente, dentro da instituição, poderiam ter um resultado negativo para o andamento do projeto. E nós não estamos usando o computador como uma ferramenta de trabalho, ainda. Este é um outro projeto separado, que também vai ocorrer. No momento, buscamos aprofundar a qualidade de ensino daquilo com o que eles já mexem normalmente. Com relação à ampliação da experiência, nossa idéia é repassá-la paulatinamente para outras unidades do SENAC, tendo uma metodologia, produtos prontos etc. Nossa meta é, em 89, estar com esse projeto implantado em mais uma unidade da Capital e uma unidade do Interior. E, a partir dessa experiência, ver o que acontece em outras realidades, com outros problemas, em termos de alocações de professores, de alunos, de equipamento, de clientela etc. Mas este é um tipo de coisa que temos que experimentar, para, a partir de 1990, começarmos a informatizar a área de Saúde como um todo, aí todas as unidades. Com relação a outras áreas, há várias que estão interessadas. Estamos pensando, dependendo de uma definição da diretoria regional, em partir para a área de línguas, especificamente Inglês. Trata-se de uma unidade com pessoal muito bem-preparado, onde a filosofia de trabalho do SENAC está bem-elaborada, enfim, estão maduros para iniciar essa experiência, o que facilitará o trabalho da equipe coordenadora. Estamos preocupados com isso, porque o trabalho com Saúde vai continuar se desenvolvendo ainda durante muito tempo. Percebemos que são muitas disciplinas e muitas áreas. Então, paralelamente ao início de informatização de uma nova área, estaremos com um enorme acúmulo de trabalho em Saúde. Além disso, percebemos que a área de línguas é uma área relativamente fácil de se informatizar, primeiro porque só usa as letras originais do computador, não sendo necessário redefinir os caracteres acentuados. Faremos softwares de Inglês, tudo vai ser escrito em Inglês. Depois, 80% dos softwares a serem usados já existem no mercado. Há excelentes, desde jogos, até outros mais direcionados para ensino de adjetivos, verbos, conjugações etc. Nessa área, nos dedicaríamos mais à criação de uma metodologia, discussão de uma filosofia de trabalho e eventual desenvolvimento de um outro software.

Acesso Como as atividades do Programa têm sido vistas no SENACISP pela direção e demais setores da instituição?

Seabra – Com relação a este lado institucional, quero dizer o seguinte: a maior dificuldade que temos observado nas demais instituições de Educação, que estão mexendo com Informática é um divórcio entre todas as partes envolvidas. A administração se coloca separada do processo educacional, e ela é colocada de fora pelo processo educacional. Ocorre, então, um processo mútuo de exclusão. Isto não se verifica no SENAC. A própria Diretoria Regional tem demonstrado preocupação em conhecer detalhes do projeto, do ponto de vista educacional. A questão mais burocrática, administrativa, entra como uma preocupação que tem que ser equacionada, mas que não é determinante. O avanço que o projeto tem tido é um reflexo, então, do conjunto da entidade, e da filosofia de trabalho da instituição como um todo. Temos tido surpresas gratas. Quando, por exemplo, apresentamos, logo no início do projeto, para constituição do primeiro laboratório, a hipótese de se fazer um laboratório com apenas cinco equipamentos, mencionamos que talvez fosse ideal começarmos com dez. A Diretoria Regional logo disse: “Então vamos começar já com dez”. E, alguns meses depois, quando se falou que com dez equipamentos (amos ter que dividir a turma em três ou quatro grupos, logo veio a aprovação: “Então vamos ter um laboratório de vinte”. E se for preciso mais e se mais for julgado necessário, mais equipamentos teremos. Pudemos adquirir todo o equipamento necessário para a montagem dos laboratórios, e temos a possibilidade de participar de todos os congressos, encontros, seminários e palestras que julgarmos importantes e de comprar material, livros, revistas, softwares etc.

Acesso Que dificuldades vocês têm encontrado?

Seabra – A maior dificuldade que temos é com a nossa própria ignorância em relação a uma série de fatores. Estamos toda hora procurando colocar em relevo todas as nossas ignorâncias, todas as nossas dúvidas. Realmente, nessa experiência revolucionária, ainda faltam definições e clarezas sobre uma série de mecanismos. Ainda não equacionamos multo a coisa: tem ocorrido um fenômeno de multiplicação de questionamentos que está gerando um processo muito rico de formação para todo o mundo. Temos desde os professores de Saúde aprendendo Informática, até os programadores lendo sobre Saúde. A nossa maior dificuldade é equacionar isso tudo, mas esta é uma dificuldade inerente ao trabalho. Com relação às coisas mais comezinhas, quebra um equipamento ou outro mas temos um contrato com um técnico, que faz a manutenção, quer dizer, se dá algum problema, nós resolvemos. Probleminhas desse tipo ocorrem a toda hora, mas são facilmente sanáveis.

Acesso Como a equipe do Programa avalia a experiência?

Seabra – Esta é a parte mais verde. E ela é de ordem terciária. Não pela importância, claro, mas pela sucessão de fatos na construção desse Programa. Estamos ainda numa fase de experimentação, com poucas turmas; até o momento trabalhamos aproximadamente com 600 alunos e 100 professores, incluindo professores de outras instituições. Estamos agora tentando ter uma avaliação mais imediata dos problemas de relacionamento do aluno com a máquina, com o software, sobre o tipo de conhecimento que deve ser transmitido antes pelos professores, sobre qual o papel do professor em sala de aula, de forma a facilitar uma implantação mais efetiva do Programa, num segundo momento. Gostaria de dizer, também, que temos percebido que a questão da Informática funciona como um cavalo de Tróia, dentro do qual vai uma série de sementes revolucionárias. Nosso objetivo é revolucionar todo o esquema atual de ensino, muito formal, muito consolidado ao longo do tempo, em cima de anos e anos de experiência, cheio de qualidades, mas que acaba levando a uma acomodação, a uma não-discussão, a um não-aprofundamento. Por exemplo, numa apostila, quando você tem um parágrafo falando sobre um micróbio, as pessoas dizem isso está certo, ou está errado, ou está mais ou menos bom” e pronto, fica por aí. A Informática obriga-nos a fazer um trabalho, digamos assim, de engenharia do conhecimento, onde, quando reunimos os professores e os programadores para discutir o que é que eles querem que o programa aborde, chegamos a um alto nível de esmiuçamento do conhecimento e discutimos como é que este conhecimento se interfacia com os outros conhecimentos, como é que está montado numa estrutura etc. Podemos comparar esse processo, digamos, àquela história da sopa de pedra, do mendigo que chega na casa tal e fala: “mas eu queria só fazer uma sopinha de pedra, você me arruma uma agüinha quente?” E a mulher fica curiosa e diz: “Então tudo bem, o senhor entra e faz aqui na cozinha”. “Será que a senhora tem uma pitadinha de sal? Fica muito melhor a comida”. “E agora, que tal uma cenourinha cortada?”. “Agora, se tivesse uma fatiazinha de bacon ia ficar ótimo”. . . No fim, o mendigo tira a pedra, enxuga e guarda no bolso e tomar uma excelente sopa. O processo que nós vivemos é a mesma coisa: se tirarmos o computador, no final desse processo, o salto de qualidade da questão educacional terá sido enorme, certo? Claro que o computador não é a pedra, o exemplo cessa aí, o computador é muito mais do que a pedra, ele dá todo um sabor principal a essa sopa. Ele é uma pièce de résistance dessa sopa, mas, vamos dizer num raciocínio de redução ao absurdo, que se no final desse processo decidíssemos não mais usar o computador, ainda assim o processo teria sido enormemente válido, porque com a desculpa do computador, usando-o como esse cavalo de Tróia, teremos uma ótima sopa: “Olha, nós precisamos de vários professores alocados meio período por dia, durante vários meses”. Aí a dona de casa, digamos, nos dá esses vários professores. “Agora precisamos ter liberdade de redíscutir todo o material instrucional, agora precisamos participar de tais e tais treinamentos, agora precisamos trazer um consultor para uma discussão, agora precisamos de…” No fim, todos esses ingredientes é que fazem a riqueza dessa sopa.

(Acesso – Revista de Educação e Informática – FDE – ISSN 0103.0736 – Ano I – Jul/Dez 1988)

·