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De olho na inclusão

08/12/2008

DEZEMBRO 2008

Entrevista dada a Igor Ribeiro, da Revista Imprensa, em 8 de dezembro de 2008.

Sobre o Projeto de Lei 84/1999

“A PL exige que os servidores guardem por três anos seu conteúdo. É como se exigisse que as operadoras de celular grampeassem por três anos as conversas de todos, como se a discussão que tem sido polêmica sobre grampear alguns, passasse para um debate sobre grampear todo mundo por default e guardasse essas conversas por três anos. Mas isso iria aumentar absurdamente os gastos – e a internet no Brasil já é uma das mais caras do mundo, então tem um fator de natureza econômica e de viabilidade. Obriga, por exemplo, a você que tem uma rede wireless aberta a mantê-la fechada, porque você passa a ser responsável pelo sujeito que esta trafegando ali através do seu sinal. Isso vai contra a filosofia das cidades digitais, por exemplo, de doar sinal aberto. O mesmo pensamento nos levaria a dizer ‘as ruas são um elemento de crime, porque os ladrões usam a rua. Então deveríamos colocar guardas em cada esquina e para pessoa que andar um quarteirão, deveria ter seu RG verificado’. Muitos assaltos usam veículos motorizados, então também, teria que fazer um imenso controle sobre os automóveis que trafegam por aí. Ou seja é uma síndrome do vigilantismo, termo usado pela Carta de Belém [documento oficial da 7ª Oficina para Inclusão Digital]. Então, porque não se faz um controle autoritariamente rigoroso sobre o uso do celular, o uso do automóvel ou o uso das ruas, como se está propondo para a navegação pelas bandas digitais? E a internet já é completamente rastreável, por meio do IP dá para saber pelas máquinas por que passou. A banda aqui já é lerda e cara, isso só iria piorar. Fora a violação de direitos. Eu, por exemplo, sou escritor, e ao comentar sobre uma obra minha, inédita, com outras pessoas pela internet, é capaz que tenha cópia dela não-autorizada em outros lugares. Não estão falando de evitar a pirataria, evitar a cópia ilegal de filmes e músicas? Então isso levaria a uma violação, ao se manter nos servidores conteúdos de natureza sigilosa, seja uma obra artística ou arquivos de empresas, etc., que não tem nada que ser monitorados. É a mesma coisa que todos os telefones serem gravados.

O PL foi aprovada no Senado e, agora, está na Câmara… Mas houve pouca mobilização, muita gente não conhece, você por exemplo não leu. Ela é muito ruim, deveria ser tirada da pauta, mas no mínimo esperamos que se adie a votação para poder discuti-la melhor.”

Altos preços da banda larga

“A queda do preço depende muito da influência do governo. O governo é um grande comprador de serviços e ele tem que usar essa força enquanto um indutor, um formulador de políticas públicas, enquanto um normatizador, estimulando a concorrência. Na maior parte dos lugares não há concorrência. A gente fez uma pesquisa com lan house no interior e a maioria não tem a menor condição. Quando teve o apagão da Speedy, quartéis, hospitais, delegacias e o próprio governo ficou na mão. Porque você não tem alternativas de conectividades, não tem disputa de mercado.

O governo tem que colocar parâmetros na suas próprias compras. O governo do Estado de São Paulo é o maior comprador da Telefônica e talvez não exija o suficiente. Temos falado, por exemplo, em convergência de mídias, e a TV digital vai ter banda sobrando, porque não vai ser usada em conectividade? Você tem empresas que são donas de determinado serviço de cabeamento e não deixam passar o cabo de outra empresa por ali [pelo mesmo condutor]. Então tem que colocar melhores parâmetros, para aumentar a concorrência.

A internet é como estradas, por exemplo. E ao fazer estradas, como o governo atua? Ele estrutura a estrada primeiro e, depois, dá concessões de pedágio e manutenção à iniciativa privada. As infovias tinham que ser a mesma coisa. O Gesac é uma espécie de gambiarra para fornecer provisoriamente sinal em lugares que tem conectividade ruim, mas o governo tem que investir nas infovias, em fibra óptica.

Qualquer estrada deveria ser uma estrada digital também. Porque ao longo dela você poderia passar um cabeamento óptico. É uma solução muito mais barata do que usar rádio, por exemplo. Wireless é complementar, é muito legal como solução para a última milha. Mas você tem que ter auto-estradas. Grandes espinhas dorsais, depois as costelas e daí vem a ossatura menor. Fibra óptica ainda não decolou porque a priori exige um investimento maior. Mas o reflexo disso vem depois, na forma da economia de todo um país, que vai além do cidadão comum. As próprias empresas e organismos governamentais vão ter, em poucos anos, a recuperação econômica de um investimento em banda larga, larga mesmo.”

Variedade de projetos de inclusão

“Essa diversidade de projetos é uma grande riqueza. Seria não só impossível padronizar isso como também indesejável. Mas é necessário um mínimo de articulação, porque do jeito que esta agora é um caos total. Cada um está fazendo uma coisa sem integração, sem troca de informação. Agora que o governo apóia uma ação pública do governo federal interministerial para inclusão digital, com parte dessa integração com atividades estaduais, municipais e de parceria com sociedade civil, agora talvez melhore.

É fundamental uma política de bolsas para monitores. Muitos trabalham voluntariamente e outros recebem quantias muito pequenas dos projetos nos quais participam. Essa política de bolsas será implementada e deverá ter uma verba substancial do total planejado. Isso é fundamental. E é preciso ter uma rede de capacitação. Como se fosse bibliotecas, que precisam de monitores bem capacitados e que se comuniquem entre si. Muitas vezes o monitor de um projeto do Gesac não se comunica com um do Banco do Brasil, com um do governo estadual, não há uma articulação em rede. Ao se criar isso, vai se permitir uma troca espontânea de informações nessa rede, que funcione de uma maneira muito mais inclusiva e não piramidal, como vem sendo feito, que é ruim, impositivo e pouco democrático.

Pontos de cultura não dão acesso à população, mas trabalham outro aspecto importante dessa inclusão que é a digitalização da cultura. Não adianta você botar na internet um monte de gente para acessar conteúdo pela primeira vez na vida e ver um monte de página em inglês. Então os pontos de cultura são outra faceta que diz respeito à inclusão da nossa cultura no mundo digital.

Escola é outro ponto de inclusão digital e, cada vez mais, faz menos sentido pensar em escolas desconectadas. Tinha muito professor na Oficina [de Belém] e isso é ótimo. O governo prevê, aliás, oficinas menores, regionais e temáticas ao longo do ano, para quando ocorrer, no fim do ano, já tenha um acúmulo e um debate articulado antes. Então escolas também têm a ver com inclusão digital do aluno, do professor e das famílias, que também vão freqüentar as escolas.

O governo federal também teve grande participação ao diminuir os insumos de computadores para a população da classe C poder comprar, em muitas prestações, seu primeiro computador.

Celular acho que é fundamental, um computador que esta no bolso de todos brasileiros. O equipamento que mais se disseminou. Se você for ver quando o brasileiro atingiu os primeiros 50 milhões de rádios foi um tempo, os primeiros 50 milhões de TVs foi outro tempo, mas os 50 milhões de celulares foi uma fração desse tempo. Hoje são 140 milhões de celulares. Uma senhora me contou que na cidade dela não tem nenhuma operadora de celular, mas todos os jovens andam com celular no bolso. Eles usam como câmera, máquina de filmar, agenda pessoal de compromissos… Na hora que chegar a operadora lá, já vai ter milhares de pessoas com celular.

Tráfego de informação passa por diversos meios. Assim como quando a gente precisa viajar: pega um ônibus até o aeroporto, embarca num avião até o destino e, chegando lá, toma um táxi até um metrô, etc. Essa complementaridade que tem no destino do tráfego de átomos do nosso corpo, também tende a existir no deslocamento da informação. Não existe um único jeito. A informação vai passar por vários meios e a inclusão digital tem que passar por isso.

Vários telecentros proíbem, por exemplo, o uso de jogos, de MSN, o que é um absurdo. Porque um jogo te dá uma familiaridade. E se a gente está falando em democracia, porque um jovem de classe média que tem um computador excepcional e um jogão pode, e um pobre que tem que ir ao telecentro não pode jogar? Tem que ir numa lan house? Claro, o telecentro não é uma lan house, tem que ter limites, mas tem que ter abertura, porque há jogos que trazem conhecimento e a estratégia lúdica tem que ser usada. Principalmente para educação. Os telecentros tendem a focar muito em curso. Eles são espaços de aprendizagem, mas não são escolas. Não são adequados e não podem ter esse papel.

Temos agora, por exemplo, o dia da consciência negra. Por que não mandar os alunos irem para suas casas ou bairro, localizar um parente distante ou alguém da vizinhança que tenha tido um avô escravo, ou que tenha sido dono de escravos, e entrevistar e gravar o áudio com seu celular, e levar para a escola e em grupos de quatro ou cinco alunos cada um fazer um blog coletivo, em vez de um trabalho [tradicional]? Os professores reclamam tanto que a internet facilita o “copiar” e “colar”. Isso porque eles dão trabalhos burros! Você pode dar um trabalho inteligente: faça um blog contando histórias da sua comunidade em vídeo, em áudio, com foto, colocando onde essas pessoas foram localizadas no Google Maps, você vai ter um aprendizado de inclusão digital muito grande. Vão aprender a publicar, a fazer links, a editar algo multimídia, a colocar uma legenda, enfim… E isso leva o grupo de alunos a discutir. Encontram, por exemplo, 40 links [relacionados ao assunto]: vai por todos? Não, vamos escolher 15 e colocar. Vão colocar duas horas de vídeo? Ninguém vai ter saco de assistir. Então eles vão precisar reduzir, vão ter que tomar decisões. Isso é válido para a escola e para um telecentro. Isso vale para oficinas sobre livros, por exemplo, fazer edições caseiras de contos ou romance, o que é uma forma muito mais produtiva de ensinar a mexer num editor de texto. Fazer um boletim de parede se for caro reproduzir [em papel]. Fazer uma agência de noticias, com as informações da sua comunidade, as pessoas não reclamam que os jornalistas só publicam o que o dono do jornal quer? Então porque não criar um jornalismo comunitário? Em vez de um curso de planilha eletrônica para uma dona de casa, aulas sobre como planejar os gastos domésticos com planilhas do computador para as compras de supermercado.”

Observatório Nacional de Inclusão Digital

“Existem cerca de 800 cadastrados no Brasil. A meta é terminar o ano com cerca de 2 mil conveniados.

A iniciativa privada tem ações muito pequenas nesse sentido. São pontuais. A maioria das empresas, quando fazem, é para ter um case de sucesso, dizer ‘olha como somos bonzinhos, olha, isso aqui a gente apóia…’ São defeitos de comportamento, usando nessa atividade uma lógica da atividade empresarial, mantendo certo sigilo, não fazem uma experiência aberta, não é open source, não compartilha os motivos que levaram ao sucesso e escamoteia o que deu errado. Por um lado não tem escala, e o pouco que poderia trazer em experiências, relatos e trocas, acaba não rolando. O pessoal tem um pensamento muito de marketing e não de investimento público.

Então, mesmo quando tem, essa articulação é pequena, não há uma rede. Os projetos de inclusão do governo estadual não se comunicam com os do federal porque são de partidos diferentes. A mesma coisa com empresas, que não se comunicam por causa da grife, da marca da concorrente.

O que essas empresas discutem ou propõem, por exemplo, para incentivar ou apoiar as lan houses, por exemplo? Não tem linhas de atuação interessantes, não tem política nesse sentido. Acho que o poder publico não tem que investir em lan houses, assim como não tem que investir em livrarias. O estado tem investir em bibliotecas e telecentros. Mas como dá isenção de impostos para livros, tem que ter algo semelhante para computadores. Sei que o Sebrae, agora, está discutindo o lançamento do Sebrae digital e uma das ações será uma política de fomento a lan houses, que é uma atividade de micro e pequenos empresários, muitos na informalidade. Então há sim setores em que o governo atua, mas o resto depende da iniciativa privada, e como as empresas podem ajudar nisso? Talvez até produzindo equipamentos diferenciados para a lanhouse.”

Acessar o virtual: um direito real

17/06/2007

JUNHO 2007

Trecho de entrevista concedida à Revista do Itaú Cultural de junho de 2007

Seriam mais 20 rotineiros minutos para Shirlei da Silva. Ela verificaria os e-mails, se corresponderia com as amigas de Nova Iguaçu – sua cidade natal -, faria suas pesquisas nos buscadores virtuais, visitaria os sites de sempre; tudo nos 20 minutos estipulados para navegar pela rede virtual em um dos postos públicos de acesso à internet, localizado no Poupatempo Santo Amaro, na capital paulista. O que Shirlei não poderia imaginar era que, naquele dia de maio de 2006, o trivial acesso à internet mudaria sua vida. Ao entrar em um site de relacionamentos, a carioca, de 27 anos, deparou com um nome muito familiar: o nome da irmã de quem não recebia notícias havia 21 anos, desde que os pais se separaram no Rio de Janeiro.

A história de Shirlei é um exemplo de como a internet é capaz de expandir redes sociais, além de proporcionar reencontros inusitados. “Por causa da internet eu pude reencontrar várias amigas que não via fazia tempo, e graças a ela eu também pude achar minha irmã”, explica. Porém, ainda são poucos os brasileiros que têm a oportunidade de acessar a grande rede virtual. Segundo pesquisa divulgada em abril pelo Ibope, 25 milhões de pessoas moram em domicílios com ao menos um computador conectado à web, e 32,9 milhões conseguem acessá-la em outros locais, como escolas ou universidades, por exemplo. É um número relativamente baixo, levando em conta a população nacional, mas que poderia ser menor não fossem as iniciativas que visam à inclusão digital. Em São Paulo, o programa de maior abrangência é o Acessa SP, uma parceria da Escola do Futuro, da Universidade de São Paulo, com o Governo do Estado.

O primeiro clique

Com mais de 1,1 milhão de cadastrados, o Acessa SP atende a quase 400 municípios paulistas por meio dos Postos Públicos com Acesso à Internet, os chamados Popais. Foi por um desses postos que Shirlei pôde reencontrar sua irmã. “Eu sempre ouvia falar em site, e-mail, chats, Orkut, então resolvi me cadastrar no posto do Acessa”, explica. “Só precisei mostrar o RG e um comprovante de residência e no mesmo dia já podia usar o computador.” Assim como Shirlei, milhares de pessoas nunca haviam acessado a internet antes de conhecer o programa de inclusão digital. Para Hernani Dimantas, coordenador do Laboratório de Inclusão Digital e Educação Comunitária (Lidec), da Escola do Futuro, a responsabilidade de manter trabalhos de inclusão nessa área é grande. “Para 60% dos cadastrados no Acessa SP, esse é o primeiro contato que se tem com a web”, afirma. “Nossa intenção é que a pessoa entenda a internet e se aproprie dela; nós fornecemos os links para isso.”

Dentre as instituições que fazem parte do programa Acessa SP, está a Associação de Deficientes Visuais e Amigos (Adeva), voltada exclusivamente para deficientes visuais. Para Markiano Charan Filho, diretor-presidente da instituição, a internet e a tecnologia em geral facilitaram a vida do deficiente visual. “A internet abriu muitos caminhos para nós, tem coisas que só dá para fazer pela internet, como verificar extratos bancários.” Os computadores da associação são equipados com softwares que fazem a leitura de alguns sites. Como em todos os outros postos do Acessa SP, a Adeva também possui seus monitores. Francisco Alves Batista, que aos 17 anos perdeu a visão, ensina há oito anos outros deficientes a usar o computador. “Há a diferença entre os alunos quanto à questão visual, alguns ainda têm o resíduo visual”, explica. “Já determinados alunos nunca viram a seta do mouse.”

Inclusão digital, inclusão social

Fora do estado de São Paulo, existem outros programas bem-sucedidos de inclusão digital. São os casos do Identidade Digital, na Bahia, que já conta com mais de 300 mil cadastrados, e dos programas realizados pelo Centro de Tecnologia da Informação e Comunicação do Estado do Rio de Janeiro (Proderj). Ainda não há um número exato de quantas pessoas são atendidas no Brasil por esse tipo de programa. De acordo com Carlos Seabra, diretor de tecnologia e projetos do Instituto de Pesquisas e Projetos Sociais e Tecnológicos (IPSO), primeiro é preciso definir o que é inclusão digital. “Não basta colocar uma pessoa de baixa renda na frente do computador para fazer inclusão digital”, afirma. “É preciso ensiná-la, mostrar os caminhos a seguir; a inclusão digital deve ser também inclusão social.” Outro ponto levantado por Seabra é a conexão à rede virtual. “Não se deve confundir inclusão digital com aula de informática. A internet hoje é obrigação. Ter um computador que não está conectado é como ter um carro sem estrada”, explica. Segundo o diretor de tecnologia do Ipso, o acesso promovido pelas iniciativas de inclusão digital deve ser público ou deve ser cobrada uma quantia simbólica destinada à manutenção do serviço. “Se cobrar e o dinheiro for usado para outro fim, chame isso de lan house ou cibercafé, e não de centro de inclusão digital.” Seabra é também consultor de projetos relacionados à educação a distância, modelo de ensino mediado por aparatos tecnológicos, como a internet, e estruturado em recursos multimídia. “Com a educação a distância, uma aula que era dada para 50 alunos pode ser dada para 5 mil”, afirma (veja box).

Apesar de todos os avanços proporcionados pelos programas de inclusão digital, o Brasil ainda precisa percorrer um longo caminho. Em pesquisa realizada pelo Comitê Gestor de Internet (CGI), ficou constatado que 67% dos brasileiros nunca acessaram a rede. Drica Guzzi, coordenadora do Lidec, acredita que, além de enriquecer o capital social dos usuários, a internet deve ser uma opção para todos. “Não digo que a internet seja algo essencial à vida, pois muitos vivem bem sem ela”, diz. “Mas todos devem ter o poder de escolher se querem acessar ou não; inclusão digital é, antes de tudo, um direito.” Um direito que Shirlei conseguiu aproveitar. Hoje, as duas irmãs se falam tanto pessoal quanto – como não poderia deixar de ser – virtualmente.

A educação segundo a internet

De acordo com o diretor de tecnologia e projetos do IPSO, Carlos Seabra, os aparatos tecnológicos podem ser a solução para a educação, mas também podem se tornar um grande problema. “Com a tecnologia na mão de um bom professor, mais gente pode aprender. Na mão de um mau professor, mais gente pode se prejudicar.” O raciocínio de Seabra está ligado à questão da formação do educador e sua nova relação com o educando. “O computador evidencia o despreparo de quem ensina e coloca em xeque o modelo hierárquico da escola; o aluno se torna cada vez mais o protagonista.” Para Seabra, o professor, além de ser mal remunerado, não recebe a formação adequada. “Coloca-se o computador na escola, para os alunos, mas antes não se coloca um computador na casa do professor.”

Apesar dos desafios, a educação a distância é um dos projetos que podem gerar mudanças positivas no sistema de ensino. Trata-se de um sistema no qual há separação no tempo e no espaço entre alunos e professores, e a comunicação é mediada por alguma forma de tecnologia. Segundo Seabra, o correto seria chamá-la de aprendizagem em rede. “A educação a distância é feita sob uma concepção hidráulica, em que se colocam uns canos e se transmite a água. Conhecimento não é água, não dá para transmitir hidraulicamente. Devem-se transmitir dados e fazer com que a informação seja absorvida, trocada e produzida.”

Para haver essa transmissão de dados, no entanto, é necessário criar um sistema de ensino virtual de boa qualidade. Para tanto, necessita-se de uma infra-estrutura que compreende redatores, revisores, fotógrafos, designers e recursos multimídias. “Além disso tudo, exige-se mais atenção do professor para que ele compreenda melhor a problemática e os mecanismos cognitivos do aluno.” Seabra acredita que jogos, simulações e comunidades virtuais são os ambientes ideais para aprendizagem em rede. “A educação tem de ser cada vez mais lúdica”, afirma.

Cultura digital e inclusão

01/05/2006

MAIO 2006

Artigo publicado na revista A Rede nº 14, de maio de 2006, sob o título de “O que quer, o que pode essa língua”.

Quando se fala em inclusão digital é muito comum pensar-se apenas nas pessoas socialmente excluídas, em situação de pobreza. Mas há mais fatores fundamentais a levar em conta, sendo o objetivo deste artigo a questão dos conteúdos e a inserção de novos atores nesse processo.

Ações de inclusão digital meramente direcionadas para o ensino de informática já se mostraram pobres, tanto nas dinâmicas geradas quanto nos resultados alcançados – transformando muitas vezes em medíocres escolinhas de computação o que poderiam ser ricos espaços de interação social, com apropriação tecnológica focada no protagonismo autoral e na cultura digital.

Como apontou Paulo Freire, os conteúdos educadores e libertadores devem ser buscados na cultura e na consciência de cada pessoa. Assim é de fundamental importância a existência, na internet, de mais conteúdos em língua portuguesa (hoje estimados em cerca de 2% da rede mundial). Textos, imagens, sons e vídeos com conteúdo popular e nacional (além, é claro, de conteúdos de outros países de língua portuguesa e latino-americanos em geral).

Se hoje pesquisarmos no Google a ocorrência de “halloween”, encontraremos mais de cem milhões de páginas. Já a ocorrência de “saci-pererê” fica em 127 mil páginas. A mesma proporção ocorre se compararmos receitas de abóbora escritas em inglês com bolos de fubá em português.

Estimular e direcionar projetos de inclusão digital para a captação e criação de conteúdos na rede não só atende a esse objetivo, de aumentar a quantidade de material em nosso idioma na web, como também é a melhor forma de as pessoas se apropriarem das ferramentas tecnológicas sem perderem tempo em cursinhos de informática (de natureza taylorista-fordista em sua maioria).

Para isso, devemos direcionar esforços para escanear e digitalizar conteúdos já existentes, bem como criar novos conteúdos, em áreas as mais diversas, como depoimentos pessoais e histórias de vida, receitas culinárias típicas, contos e causos do nosso folclore, repentes e desafios musicais, modas de viola, corais, cantares regionais, música de novos conjuntos, desenhos e pinturas de artistas locais, fotografias de diversos lugares de interesse geográfico, turístico ou histórico, de pessoas, de animais e de plantas, documentação de projetos sociais, culturais, de desenvolvimento local, captura de imagens ou pequenos filmes com celulares e câmeras digitais, literatura de autores desconhecidos ou esquecidos, esgotados ou mal distribuídos, tudo com direitos autorais liberados para circulação e publicação sem fins lucrativos, quando possível e desejável.

O potencial de transformação do mundo é enormemente auxiliado e fortalecido pela apropriação das novas tecnologias de comunicação e informação, permitindo que cada um seja autor de blogs, boletins, podcasts, webrádios, serviços noticiosos e sites de todo o tipo. Fazer com que cada telecentro, ou iniciativas semelhantes de diferentes nomes, seja um centro de produção, com apoio colaborativo, é a estratégia mais adequada para garantir o efetivo domínio do digital por cada indivíduo e sua inserção e articulação em projetos coletivos, de alcance social e cultural, que gerem o fortalecimento da ação política e da cidadania.

Para tudo isso, é de fundamental importância que se engajem intelectuais, escritores, pintores, músicos, fotógrafos, educadores, militantes políticos e demais articuladores sociais e produtores culturais nas ações de inclusão digital. Parodiando o que Clemanceau disse em relação à guerra, inclusão digital é uma coisa séria demais para ficar apenas na mão dos informatas!

Inclusão digital: algumas promessas e muitos desafios

01/12/2002

DEZEMBRO 2002

Artigo publicado na revista Eixos, da Câmara Brasil Alemanha e Instituto de Fomento Sócio-Cultural Brasil-Alemanha, em dezembro de 2002, edição especial sobre Responsabilidade Social e Cidadania.

A chamada sociedade da informação e do conhecimento traz consigo impactos sociais capazes de levar a uma transformação maior que a produzida pela máquina a vapor. Um mundo baseado cada vez mais na troca de valores simbólicos, do dinheiro à informação, vai mudar o eixo da economia, acabar com o conceito atual de trabalho, valorizar mais que tudo o conhecimento e a aprendizagem. Neste contexto, os excluídos sê-lo-ão ainda mais, se não houverem políticas e ações visando combater o aprofundamento da clivagem social trazida pelas novas tecnologias.

A tecnologia em si não é boa ou ruim, mas amplifica e potencializa a ação humana, tal como um megafone pode fazer o bom cantor alegrar multidões e o desafinado incomodar muito mais gente! Inclusão digital pressupõe uma série de outros objetivos conexos que não os meramente tecnológicos, podendo ser uma ação comparada ao “cavalo de Tróia”, que, após permitir a penetração das muralhas antes indevassáveis da cidade, em seu bojo carregava guerreiros sabedores de qual estratégia implementar.

Segundo Fredric Litto, coordenador científico da Escola do Futuro da USP, “organizações locais devem ser envolvidas e comprometidas com o sucesso do projeto desde o seu início, incluindo responsabilidade para o design, operação e produção de conteúdo; a estratégia apropriada para essa transferência de tecnologia tem de ser voltada para o desenvolvimento local de capacidade e autonomia”.

O Centro de Inclusão Digital e Educação Comunitária, CIDEC, da Escola do Futuro da USP tem entre seus objetivos o acompanhamento, estudo e debate de todas as experiências de inclusão digital no país e no mundo, mas também leva a cabo uma importante tarefa prática, que é a capacitação e gerenciamento de competências dos monitores de cinqüenta infocentros do Programa Acessa São Paulo. As considerações a seguir, na forma de três itens que, longe de esgotar o assunto, levantam algumas preocupações básicas, são embasadas nesta experiência prática e norteadas pelas formulações metodológicas construídas em mais de uma década de experiência da Escola do Futuro com aplicações da tecnologia em ambientes de aprendizagem.

A “maldição” dos cursos

A primeira expectativa de lideranças e usuários em relação aos projetos de inclusão digital é a da realização de cursos. Um lugar que reúne uma dezena de computadores serve para que outra coisa além de realizar cursos? Cursos de quê? Windows, Word, Excel, claro! E para que serviriam tais cursos? Para se obter um certificado, um diploma. Obviamente este destina-se a obter emprego, ou melhoria da condição profissional dentro de um já existente. Este é o grande desafio: combater a “maldição” do formato taylorista e fordista de transmissão de informações, que não assegura a construção do conhecimento e, ao contrário, promete demagogicamente uma capacitação que o formato de tempo disponível e a qualificação dos envolvidos não atende. Claro que um telecentro é um espaço de aprendizagem, mas a mesma dá-se de forma diferenciada do ambiente escolar, da sala de aula. Ocorre na resolução de problemas significativos, com apoio de monitores e com a participação dos demais usuários, numa verdadeira rede local humana de aprendizagem cooperativa, focada nos contextos significativos do uso das aplicações, sejam elas navegar na internet para fazer um boletim eletrônico ou tirar uma segunda via de conta telefônica ou usar um processador de textos para redigir o currículo e enviá-lo por e-mail. Cada uma destas tarefas exige um acompanhamento pedagógico individualizado que não pode ser feito na forma de curso, embora este último atenda as expectativas imediatas de usuários e a distribuição de certificados mostre mais rapidamente um resultado, porém muito mais próximo da demagogia do que da real apropriação do conteúdo.

O ambiente de um centro de inclusão digital

Geralmente um telecentro ou infocentro possui dez computadores e um servidor, conectados em rede e ligados em banda larga à Internet. Aliás, hoje em dia não faz o menor sentido ter computadores sem conexão na rede mundial e experiências até bem intencionadas de reaproveitamento de lixo tecnológico que não levem isso em consideração acabam não promovendo inclusão mas sim funcionando como uma esmola tecnológica, uma sopa dos pobres da era da informática. Mas não basta esse ambiente, que deve ser enriquecido com impressora, webcam, possuir acesso individual a multimídia etc. É fundamental que faça parte desse espaço uma outra sala sem computadores, com cadeiras e mesas, com estantes e publicações, com murais de cortiça, com área para os usuários esperarem e fazerem algo útil conexo às atividades ali desenvolvidas, onde ocorra troca e socialização. Como geralmente o tempo de uso do computador, dada a enorme procura, é cerca de meia-hora para cada usuário, convém que um desempregado que vá fazer seu currículo no micro antes o rascunhe em papel, e nesse espaço fora do laboratório ele pode obter auxílios de quem tem mais experiência. Ou uma senhora que ache receitas de culinária interessantes na Internet e as imprima pode depois compartilhá-las com suas amigas. Links e dicas de sites podem ser afixados nos murais e, acima de tudo, a troca de calor humano, piadas, histórias do dia-a-dia fazem com que a tecnologia seja mais uma ferramenta de troca humana e que seja apropriada como tal. Num ambiente destes ocorre a multiplicação e democratização do acesso à informação mesmo para os que ainda não mexem no computador, ampliando enormemente o alcance da inclusão digital. Se junto com isto houver uma sala de aula em anexo, então nela podem ocorrer alguns dos cursos que criticamos acima, mas que em adequado ambiente podem ser altamente desejáveis.

Inclusão também dos não-excluídos

Sempre que se fala em inclusão digital pensamos nas classes C, D e E. Obviamente este é o foco principal, mas para atingir tal objetivo é importante não esquecer que qualquer ação completa deve ser integradora e potencializar outros segmentos da sociedade, pois a cidadania é alcançada digitalmente quando a rede é tecida incluindo excluídos e não-excluídos. Assim, no centro físico de inclusão, seja um telecentro, infocentro ou outra designação, é desejável que jovens que possuem micro em casa o freqüentem, pois estes poderão ser de inestimável ajuda nas tarefas impossíveis de serem levadas somente pelos monitores, que adultos dominando diversos campos do conhecimento colaborem como voluntários, principalmente se também forem usuários, esporádicos ou não. Outro aspecto da “inclusão dos não-excluídos” é o da geração e captação de conteúdos em língua portuguesa. Segundo dados do Ministério da Ciência e Tecnologia, aproximadamente apenas 2% dos conteúdos da Internet mundial são em língua portuguesa, contra cerca de 5% em língua espanhola. Mais importante que a criação de novos conteúdos deve ser a captação dos já existentes, considerando três eixos: diversidade de conteúdos, convergência de mídias e formação de redes e comunidades. As ações de inclusão digital devem incluir empresas, entidades sociais, intelectuais, estudantes, empresários, políticos, militares, sindicalistas, jovens, pessoas da terceira idade, portadores de deficiências, homens e mulheres, tanto usuários como, principalmente, produtores de conteúdo. Afinal, não basta apenas surfar na Internet: também é preciso aprender a fazer onda!

Em recente pesquisa feita pela Escola do Futuro da USP, em parceria com o instituto de pesquisa Insight, para o programa Acessa São Paulo, sob o tema “necessidades informacionais da população de periferia de São Paulo”, identificamos que 90% (sic) da população pesquisada, das classes C, D e E, já ouviram falar e sabem o que é a Internet, ao passo que 79% nunca usaram um computador (destes, 93% declararam desejar aprender a fazê-lo). Quanto aos conteúdos e serviços considerados mais importantes para possível uso da internet, 81% afirmaram desejar marcar consultas médicas, descobrir endereços de hospitais ou postos de saúde, tirar dúvidas sobre doenças, tratamentos e outras questões de saúde; 79% para procurar emprego, saber de vagas de trabalho, preparar currículo; e 75% para reclamar ou se informar sobre serviços públicos, impostos, luz, asfalto etc.

Num mundo em transformação, onde cada vez mais o computador é o veículo de transporte da mente e um instrumento essencial de trabalho, não podemos preparar as novas gerações para um mundo de subalternidade, tanto do ponto de vista individual quanto na perspectiva da nação. Assim, é necessário frisar que inclusão digital não é apenas ensinar a utilização da tecnologia ou disponibilizar o acesso à rede: é preciso haver um trabalho de identificar as demandas informacionais, como as listadas na pesquisa acima citada. A produção de conteúdos deve ser vista como uma estratégia importante no processo de Inclusão, somando-se aos demais esforços, como formação e capacitação de multiplicadores, criação de redes locais e comunidades virtuais, bem como integração com políticas públicas e ações de responsabilidade social.

Cultura e inclusão digital

01/06/2002

JUNHO 2002

Fala proferida na mesa de abertura do I Fórum Regional de Políticas Culturais, realizado no Centro Cultural Roberto Palmari, em Rio Claro – SP, em 2002. Na mesma mesa participaram João Baptista Pimentel, Danilo dos Santos Miranda e Hamílton Faria, entre outros. Transcrição da fala de Carlos Seabra, em gravação feita pela equipe do CREC, com a copidescagem de Alda Ribeiro.

Atualmente, estou envolvido profundamente na questão educacional e da tecnologia na educação. Eu percebo que a cultura é o que mais falta hoje em dia no processo educacional. Alguém já definiu que cultura é aquilo que sobra depois que você esquece tudo o que aprendeu, o que mostra como o lastro final é realmente a coisa da cultura.

As maiores dificuldades da escola são de natureza cultural, e hoje que se inaugura o infocentro do Acessa São Paulo aqui, essas questões devem ser analisadas. Para você navegar na internet, ter e-mail, publicar e ser autor envolve muito mais habilidades e competências culturais do que propriamente uma habilidade tecnológica. Essa é uma coisa secundária que se adquire tendo a primeira.

Vou ser muito breve e terminar dizendo que nesta questão da inclusão digital, de incorporação da tecnologia, muito mais importante do que surfar na internet é aprender a fazer onda que é uma coisa eminentemente de construção cultural.

Eu vou dar uma abordagem diferente sobre a questão dos corredores. Por toda minha vida militei na área cultural com cineclubismo há uns 15 anos mais ou menos, em um projeto no qual a gente levava cinema para 80 cidades.

Atualmente estou trabalhando na área educacional e na inclusão digital e não poderia deixar de dar uma visão da minha experiência da área de cultura. Eu vejo educação e inclusão digital com enfoque cultural e agora vou procurar mesclar as duas áreas.

Nós estamos vivendo uma época na qual está se criando uma nova geografia, trata-se da geografia virtual. Todo mundo já deve ter visto filme de ficção científica em que há uma dimensão paralela e as pessoas passam de uma para outra dimensão.

Essa dimensão virtual está sobre nós e em cima de todo o planeta. Ela tem uma nova economia, baseada em bytes, não mais em átomos. Isso traz uma série de desafios para nós, em termos de organização do estado, democracia, cultura, educação, enfim, toda uma série de desafios que o mundo novo nos traz.

Da mesma forma que um novo mundo foi a “descoberta” das Américas, como um continente que estava em crise exportou toda uma série de gente, mão-de-obra para esse Novo Mundo. Hoje em dia, não há mais lugar na Terra para se expandir a não ser em direção ao virtual. Seguindo na mesma comparação, assim como antigamente as caravelas eram o instrumento de descoberta do Novo Mundo, atualmente a tecnologia cumpre um papel similar ao desses barcos. O que ocorria com a caravela? Quando ela não afundava ao ir para o novo mundo e as pessoas não morriam de escorbuto a bordo, chegavam a uma terra onde eram picadas por mosquitos, contagiados por doenças desconhecidas ou morriam atacadas por índios. Se sobreviviam a tudo isso, criavam cidades sem leis, sem esgoto, que eram uma porcaria. Porém, daí nasceu o Novo Mundo.

Hoje, tecnologia é essa coisa, o computador que quebra, dá problema. Eu até fiz um haicai em “homenagem” ao Bill Gates, falando que cada vez que dá pau no micro, ele fica mais rico. Nós estamos atualmente nessa fase em que a gente naufraga. A tecnologia é uma coisa que não é transparente, principalmente para uma população excluída.

Isso faz com que nós, que trabalhamos com cultura e produção cultural, tenhamos o dobro do desafio que é criar o contorno desse continente para que ele não seja desenhado por outros que tenham o interesse meramente comercial como os tais bill gates e outros do tipo.

Um exemplo muito claro desse desafio é o da televisão que na área educacional é um pavor, é um desastre. Na época em que surgiu a televisão, os educadores tiveram uma postura omissa quando não reacionária. Eles pensavam o que hoje muita gente acha, que computador é uma coisa de elite e, no entanto, na favela cada vez tem mais computadores.

Com o atual estágio de avanços e interesses do capitalismo no nosso modo de produção, daqui a pouco vai ter um microcomputador em cada casebre, seja em uma favela ou num bairro rico. Nós temos que estar preparados para criar novos tipos de corredores virtuais, além dos corredores geográficos. Temos que saber atender a essa nova geografia, que também existe, para além do município, do estado, da federação, do planeta. Hoje nós temos o ciberespaço que precisa ser ocupado porque se não fizermos isso alguém ocupará esse espaço, já que não existe vácuo na natureza.

Além disso, trazendo aqui para um terreno mais imediato, existe a conexão do virtual com o real que é básica, ou seja, quando o sujeito domina a informação, os bits e bytes desse espaço, na verdade, ele está dominando as coisas nessa terra que a gente apalpa. Quero dizer que os preços das ações, do arroz e do feijão são determinados virtualmente, mas o seu reflexo tem impacto na realidade.

Poderia dar um exemplo bastante imbecilzinho que serve para o que eu quero dizer. É o seguinte: você pega o seu Zé cavando a terra e ele é um excluído social, um analfabeto, um sujeito que tem verminose. Ele não tem muita expectativa e qualidade de vida. Seu Zé está lá, cavoucando a terra e passa o seu patrão a cavalo; ele conversa com o patrão, dá tchau e o patrão vai embora. A tecnologia se desenvolve e o patrão agora passa numa estrada em uma BMW em alta velocidade, dá uma abaixadinha no vidro fumê, que fica normalmente fechado por causa do ar condicionado, dá um tchau para o seu Zé que continua cavoucando. Esse seu Zé é o mesmo ou é o filho, o neto ou o bisneto daquele, que continua analfabeto, com verminose e excluído socialmente.

A tecnologia se desenvolve mais ainda e o patrão passa agora de jatinho e o seu Zé aqui embaixo dá tchau para o jatinho e o patrão olha, lá de cima, vê um pontinho preto e não sabe se é uma vaca, um boi ou um seu Zé qualquer, porque há vários seus Zés, assim vacas e bois. O seu Zé aqui embaixo não sabe se naquele jatinho vai o seu patrão ou não. Ainda dá um tchau na esperança de alguma comunicação remota com aquele objeto tecnológico. Só que agora a tecnologia deu mais um passo e o patrão dele passa pela internet na forma de um e-mail,na forma de uma conversa em chat e é aí que seu Zé está totalmente frito, ele é um excluído total. Ou seja, com o impacto das novas tecnologias, ou a gente trabalha em um projeto de inclusão digital, que traga junto a inclusão social ou estaremos totalmente equivocados porque só a inclusão digital sem a inclusão social significa informar os usuários de banco 24 horas como usar os serviços ou fazer compras no supermercado, não é isso o que nos interessa, a sociedade capitalista se encarrega de desenvolver isso.

Nós temos que aproveitar essa inclusão para fazer com que a tecnologia seja um cavalo de Tróia, que penetre as muralhas antes indevassadas dessa cidadela do acúmulo do poder e da riqueza que deixa um montão de gente aqui fora. Para isso não basta entrar com o cavalo de Tróia, é necessário que no seu bojo haja guerreiros que tenham um projeto e saibam o que fazer para tomar o poder dentro dessa cidadela, porque na verdade é disso que se trata.

A questão da tecnologia acaba excluindo muita gente, não só os miseráveis, mas também as classe C, D e E. Também há excluídos entre os produtores culturais que ainda, em alguns casos, não se aperceberam que têm pequenas resistências à tecnologia. Com isso, há muita produção cultural que não vai para a internet. Eu assino duas TVs a cabo em casa, antes achava que uma era ruim e agora percebi que duas é o dobro de ruim. Você fica zapeando os canais e só tem porcaria. Aí eu vou para a TV aberta e encontro mais porcaria. A conclusão é que falta conteúdo e eu acredito que também falte produção de qualidade porque houve uma posição omissa ou reacionária de achar que a televisão não era um espaço a ser ocupado e o que aconteceu é que esse espaço foi ocupado pelo Sílvio Santos, Roberto Marinho etc. Temos aí honrosas exceções de boa produção cultural, mas são exceção.

Corremos o mesmo risco disso acontecer com a internet, que é um espaço libertário. Só que a homepage feita por um desconhecido vai ser visitada por 15 pessoas e outra que tenha o patrocínio de uma grande multinacional, seja uma grande operação comercial, é visitada por todo mundo. A maior parte dos usuários, inclusive, carrega automaticamente, homepages de portais não só para os quais pagam como ainda viram propagadores a aumentar uma enorme quantidade de hits.

É necessário, então, que a gente faça a inclusão digital de produtores culturais para que a gente comece a colocar a nossa literatura, a nossa arte, o nosso cinema, a nossa poesia, o nosso folclore e a nossa produção cultural como um todo na internet também. Precisamos ter um projeto nacional e popular de ocupação da internet também enquanto nação, se a gente não ocupar um pedaço neste espaço virtual, alguém irá ocupá-lo. Assim como é importante o Brasil ter um pedacinho lá na Antártida. Nós precisamos ter um espaço no cenário mundial e na internet principalmente, para que qualquer brasileiro, esteja ele no Piauí, em Xiririca da Serra ou morando fora do país tenha um conteúdo no nosso idioma.

Tenho um grande amigo, Fábio Lucas, ex-presidente da União Brasileira dos Escritores, que até agora não conseguimos convencer a ligar um computador que alguém lhe deu de presente. Ele usa o equipamento como um porta-papéis bem sofisticado. Esse meu amigo poderia estar ajudando a diminuir os 90% de mediocridade no conteúdo da internet e colaborando para aumentar os 10% restantes de qualidade.

Nessa formação de corredores virtuais a gente está criando uma rede e como toda rede tem que servir para colher alguma coisa. A rede do pescador tem que ser suficientemente vazada para não colher água e trazer peixe graúdo que não fuja por ela. A rede virtual também tem que ser feita para nós colhermos, para nos trazer o peixe do conhecimento.

Na nova geografia temos um fenômeno novo, o deslocamento da informação e não mais do corpo. Toda vez que a gente puder substituir o deslocamento do corpo pelo da informação, teremos um ganho de qualidade.

Não estou dizendo que a gente vá passar a ficar em casa cada vez mais sedentário com as nádegas e cérebro enormes, o que seria uma visão terrível de futuro. Na realidade, a gente percebe que quando a pessoa entra nessas salas de chat, em sua imensa maioria, vai logo para o contato humano, namorar, paquerar etc. O que rola daí? Casamentos reais de carne e osso porque o ser humano está procurando contato, nunca ninguém substituiu visitar a namorada por ficar telefonando para ela. A internet não vem também substituir nada que seja melhor fazer em carne e osso e isso inclui o prazer e uma série de outras coisas.

Ninguém deixa de visitar a Bahia porque viu um folheto de uma praia de lá, pelo contrário, isso lhe dá mais vontade de ir. Quando estou falando em não deslocar mais o corpo é naquele deslocamento inútil, por exemplo, eu me deslocar até a bilheteria de um teatro para saber se tem ingresso ou não. Para assistir à peça, entretanto, eu quero ver os atores a dez metros de mim. Está na moda agora a gente estar se preparando para o governo eletrônico, a gente paga imposto de renda pela internet e fica muito feliz com isso. Já que tem que pagar mesmo, que seja um processo mais rápido e fácil.

Nós temos que começar também a colocar a produção cultural na internet, não significa transformá-la só em virtual. Vamos continuar assistindo os tocadores de música do nosso folclore no Parque da Água Branca, mas para saber o que está ocorrendo a gente tem que colocar isso na internet, porque senão a gente vai estar perdendo o espaço que vai ser usado para propaganda da TV a cabo ou do banco tal.

Eu sempre procuro colocar isso na cabeça das pessoas pouco afeitas à tecnologia, meus amigos pintores, escritores, cineastas etc. que é importante que a gente passe a ser autor e protagonista para tomar conta da internet.

Se você faz literatura e resolver aprender a fazer html, uma homepage, para aprender com seu filho, você vai estar colocando a sua cara, aprendendo a produzir algo novo, inclusive descobrindo um modo novo de linguagem, porque a imensa maioria do que a gente vê na internet é muito ruim do ponto de vista da concepção visual e estética, assim como a qualidade de texto, dado o pouco engajamento dos produtores culturais na produção dessa mídia.

Sempre levanto que a questão não é tecnológica, aprender a mexer no computador é a coisa mais fácil do mundo, aliás, eu acho que as pessoas só poderiam começar a mexer com informática se já tiverem algum conteúdo, ciência, arte, educação, biologia, qualquer coisa que seja no cérebro. Ao ter contato com a informática isso estraga os neurônios, a gente vê esses jovenzinhos que sabem mexer com hardware, software mas não pegam num livro, que na verdade não sabem produzir nada porque tecnologia não é o artefato tecnológico. Se fosse, a Arábia Saudita seria o principal país do mundo em termos de tecnologia. Quando o reizinho ou vice-rei de lá precisa comprar um forno de microondas, ele adquire o último tipo, o mais moderno dvd, mas se quebrar alguma coisa nos seus brinquedinhos, ele não tem tecnologia para consertar nada. Ao contrário disso, Robson Crusoé, do romance de Daniel Deffoe, que a maioria aqui deve ter lido, é o sujeito que naufragou numa ilha deserta e só mais tarde foi ter aquele caso suspeito com o Sexta-Feira. O cara recriou tudo o que a civilização de sua época tinha com suas mãos e o cérebro, captava o movimento do rio para fazer uma moinho e moer a farinha. Bom, é isso aí, por enquanto, muito obrigado.

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Inclusão digital: desafios maiores que as simples boas intenções

01/10/2001

OUTUBRO 2001

Artigo publicado na Revista Soluções nº 17, de outubro de 2001, da Telefônica Empresas.

Os impactos sociais da informática, conquista da ciência e da tecnologia, são capazes de levar a uma transformação maior que a da máquina a vapor. Uma sociedade baseada cada vez mais na troca de valores simbólicos, do dinheiro à informação, vai mudar o eixo da economia, acabar com o conceito atual de trabalho, valorizar mais que tudo o conhecimento e a aprendizagem. Neste cenário, os excluídos serão cada vez mais excluídos – com o poder se concentrando nas esferas virtuais (com profundo controle nas esferas reais) – a não ser que se implementem eficazes e massivas ações para promover sua “inclusão digital”.

Na educação, a internet traz um potencial inovador ímpar, pois permite superar as paredes da sala de aula, com a troca de idéias com alunos de outras cidades e países, intercâmbio entre os educadores, nacional e internacionalmente, pesquisa online em bancos de dados, assinatura de revistas eletrônicas e o compartilhamento de experiências em comum. Este novo ambiente de aprendizagem, que não reside mais apenas na escola, mas também nos lares e nas empresas, traz novos desafios para os educadores, mais que nunca chamados a serem facilitadores e motivadores.

Como introduzir as novas tecnologias na escola, particularmente no ensino público, onde tantas outras prioridades se colocam? Estaremos aprofundando cada vez mais a clivagem social se não houver uma efetiva política que garanta o pleno acesso de todos às novas tecnologias. Num mundo em transformação, onde cada vez mais o computador é o veículo de transporte da mente e um instrumento essencial de trabalho, não podemos preparar as novas gerações para um mundo de subalternidade, tanto do ponto de vista individual quanto na perspectiva da nação.

No mundo do trabalho as coisas vão mudar bastante, também. Para quê ir até o escritório bater à máquina, se isso pode ser feito à distância, via modem? Poupando, assim, horas de deslocamento (deslocar a informação, não mais o corpo), a presença familiar mudará substancialmente. Nota-se, nas famílias que usam a internet no teletrabalho em casa, um resgate do ensino do ofício aos filhos. Mudanças, portanto, também no seio da família e do que entendemos por lar.

E o desemprego? Hoje, ao fazermos uma transação bancária no micro de nossa casa, estamos repassando para o usuário o trabalho que antes era feito por um funcionário. Em breve, estaremos comprando carros através de um conexão gráfica com a fábrica que, just in time, fabricará o carro que acabamos de desenhar no terminal. Novos desafios, portanto, para a sociedade. Novas formas de se repensar a distribuição de renda e assegurar o direito de todos os seres humanos à busca da felicidade do contrário, teremos um apartheid tecnológico como nunca visto.

Você é daqueles que nem se lembra em quem votou para deputado nas últimas eleições? Que tal votar agora em um para quem você possa escrever via e-mail e que o coloque a par dos projetos, que seja, enfim, seu representante no parlamento? E o que será do Poder Executivo se cada cidadão puder ter acesso, garantido em Constituição, aos bancos de dados e fizer cruzamentos das informações obtidas? Imagine a nova participação da cidadania se cada pessoa com insônia às duas da manhã for ver como estão sendo aplicados os recursos em sua cidade… O voto será eletrônico, sem boca-de-urna, cada um em sua casa? Novas formas de manipulação da informação irão surgir, é claro, mas o pesadelo que Orwell imaginou em seu “1984” será ao contrário, pois o Big Brother poderá estar sendo vigiado por milhões de olhos…