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Entrevista com Carlos Seabra sobre microcontos

11/06/2011

JUNHO 2011

Vídeo da conversa online sobre microcontos na educação, feita por Luiz Henrique Gurgel, em 11 de junho de 2011 no Cenpec, para a Twitcam da Comunidade Virtual da Olimpíada de Língua Portuguesa, do projeto Escrevendo o Futuro.

 


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Microcontos, literatura mínima

25/02/2010

FEVEREIRO 2010

Artigo escrito para o site MobileFest e para a revista Língua Portuguesa, edição de abril de 2010.

O precursor e talvez o mais famoso microconto já produzido, do escritor guatelmateco Augusto Monterroso, “Cuando despertó, el dinosaurio todavía estaba allí” (Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá), consolidou uma nova vertente de microliteratura, com o desafio de contar alguma coisa em pouquíssimas palavras de contados toques.

Alguns autores conceituam e estipulam limites precisos, nascendo assim algumas classificações: nanocontos (até 50 letras, sem contar espaços e acentos), microcontos (até 150 toques, ou seja, contando letras, espaços e pontuação) e minicontos (alguns estipulando 300 palavras, outros limite de 600 caracteres). Nada disso é muito rigoroso e depende de critérios editoriais de quem os adotou.

O limite de 150 toques cabe no formato de envio de texto pelo celular, o chamado “torpedo” (ou SMS, short message service). Hoje está-se a usar bastante o limite de 140 toques, limite do Twitter – cada vez mais um grande difusor da microliteratura e que provavelmente acabará impondo este limite como “default”.

Antes de tudo uma divertida brincadeira, os microcontos (nas vertentes de crônicas, contos, aforismos e outras variações) estarão próximos ao minimalismo pós-moderno? Uma coisa é fato, a micronarrativa contém vários ingredientes do nosso tempo, a velocidade e a condensação, a possibilidade de publicação em celulares, painéis eletrônicos, rodapé de e-mails (ou até mesmo em algo mais démodé: tampas de caixas de fósforos). Ao mesmo tempo, há algo neles que remete aos haicais, a tradicional poesia de origem japonesa, com apenas três linhas e um total de 21 sílabas – de certa forma com o mesmo poder de concisão destes porém com a liberdade da prosa.

Alguns escritores de reconhecido talento já brincaram nestas searas, como Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, Millôr Fernandes, Dalton Trevisan e tantos outros, ainda que a maioria sem pensar no conceito de “microcontos”. Literatura de alta velocidade? Sônia Bertocchi nos lembra que Drummond já antecipava que “escrever é cortar palavras”, Hemingway sugeriu “corte todo o resto e fique no essencial” e João Cabral proclamou “enxugar até a morte”. A mesma Sônia, em seu blog “Lousa digital” (outra forma atual de publicar que tantos efeitos ainda vai provocar na produção literária), diz que “Seguindo à risca a lição dos mestres, chegamos aos microcontos: ‘miniaturas literárias’ que cabem em panfletos, filipetas, camisetas, adesivos, postes, muros, tatuagens, cartão postal, hologramas, desenhos animados, arquitetura, instalação, música… e que podem ser lidas no ônibus, no metrô e… nas telas do computador (cá entre nós, um prato cheio para propostas atrativas de ensino de literatura e integração de novas tecnologias)”.

Entre outros inúmeros conselhos acerca de como dizer muito e escrever pouco, podemos destacar também Blaise Pascal “Se escrevi esta carta tão longa, foi por não ter tido tempo para fazê-la mais curta”, Isabel Allende “Usar o substantivo certo para evitar dois ou três adjetivos”, São Gregório de Nazianzo “Ser breve não é, como julgas, escrever poucas sílabas, mas dizer muito com poucas” e Thomas Jefferson “O mais valioso de todos os talentos é aquele de nunca usar duas palavras quando uma basta”.

De certa forma, o microconto tem uma outra dimensão: ele é como uma ligação muito forte através de um furinho de agulha no universo, algo que permite projetar uma imagem de uma realidade situada em outra dimensão. Como se através desse furo, dois cones se tocassem nas pontas, um cone menor, que é o que está escrito no microconto, outro cone maior, que é a imaginação a partir da leitura de cada um – pois mais do que contar uma história, um microconto sugere diversas, abrindo possibilidades para cada um completar as imagens, o roteiro, as alternativas de desdobramento.

Seja seu destino a publicação em celulares, camisetas, postais, folhetos na praia, cartazes nos postes, azulejos, hologramas, blogs, e-mails, no twitter, o mero esquecimento ou o lixo simplesmente, uma coisa posso afirmar: microconto é um belo exercício de criatividade, síntese e algo muito divertido de escrever!

Entrevista sobre microcontos à Revista Minguante

08/08/2007

AGOSTO 2007

Entrevista concedida à publicação bimestral online Minguante – Revista de Micronarrativas, e publicada em sua edição nº7 (agosto de 2007).

Carlos Seabra, quer pelas quantidade e qualidade dos seus pequenos textos quer pelo uso preferencial dos novos meios para a sua divulgação, pode facilmente ser considerado como um mestre de uma novíssima arte, e foi assim pensando que decidimos entrevistá-lo. As suas respostas só não excederam as nossas expectativas porque estas eram já muito elevadas.

Minguante: De onde vem o seu interesse por um formato breve, quer sejam haicais quer sejam micronarrativas, que tem desenvolvido de igual modo?

Carlos Seabra: Acho que em tempos de comunicação eletrônica, seja na internet ou cartazes na rua, mensagens de texto em celulares ou camisetas, há todo um conjunto de formas de comunicação atuais que permitem e pedem que a microliteratura as utilize.

Para mim, essa entrada na micronarrativa deu-se através da micropoesia, que é o haicai. Para mim isso traz um prazer lúdico muito grande, conseguir criar algo com limites tão minimalistas.

Minguante: Sei que em tempos tentou criar um serviço de microtextos para serviço de celular. Poderia falar sobre isso, quer no que se refere à história dessa tentativa, quer aos propósitos por detrás dela?

Carlos Seabra: Na verdade, tratou-se de uma iniciativa que não foi minha mas sim do Luiz Mendonça, que criou um serviço chamado Celuler. Tinha trovas, quadras, aforismas, haicais, de diversos autores contratados (como Alice Ruiz, Paulo Franchetti, Eliana Mora, Ricardo Silvestrin e outros). As pessoas compravam um “celulivro” – composto por 45 mensagens – e ofereciam a alguém por ocasião festiva ou não, ou mesmo para desfrute próprio, e durante quarenta e cinco dias era enviado um SMS.

Ao conversar com o Luiz Mendonça, que contratou meus haicais, disse-lhe que não teria produção tão grande nem como escrevê-los por encomenda, mas que adoraria escrever microcontos e sentia que poderia fazê-lo em larga escala. Dito e feito, passei a escrever microcontos durante os vôos para reuniões em outras cidades, nos congestionamentos na cidade e até mesmo no banheiro ou em momentos de insônia… e em dois meses tinha escrito mais de trezentos microcontos, procurando fazer uns cômicos, outros eróticos, outros meio surreais, outros maldosos ou cruéis, sempre pensando em um produto que não cansasse os leitor que os receberia diariamente no celular.

Infelizmente, a iniciativa foi inviabilizada financeiramente pela operadora de telefonia móvel que na ocasião detinha a maior parte do mercado brasileiro, o que fez o projeto ser abortado, os leitores ressarcidos do que haviam pago, e os contratos com os autores desfeitos, com enormes prejuízos empresariais para este precursor – ao qual agradeço me ter dado o empurrão em direção à criação de microcontos.

Minguante: Tem publicado em livro mas também tem usado o formato digital. Pode falar-nos de como encara um e outro meio no seu percurso?

Carlos Seabra: Publiquei o livro pelo Massao Ohno, o maior editor de haicais no Brasil e que teve uma importância fundamental na escolha de quais publicar, bem como no incentivo a que o fizesse. Mas se os livros já pouco vendem no Brasil (infelizmente, uma das maiores mazelas desta grande nação!), pelos de poesia então poucos editores se interessam, distribuidores e livreiros menos ainda. Tirando pouquíssimos lugares que têm meu livro à venda (Haicais e Que Tais), vendi a maioria no dia do lançamento e boa parte acaba indo como cortesia a amigos e conhecidos que volta e meia me pedem.

Assim, colocar o que escrevo na web é a melhor forma de ser lido. Aliás, tudo o que escrevi até hoje tem geralmente sido primeiramente publicado na web e somente depois ganha eventuais suportes de papel. No entanto, nunca escrevi um haicai ou um microconto no computador, sempre o faço em pequenos cadernos de bolso ou guardanapos de papel, com lapiseira preferencialmente, mas com caneta se estiver mais à mão. Acho que a publicação digital não canibaliza a publicação em papel, ao contrário, pode até ajudar a promover sua divulgação e venda (desde que haja distribuição, obviamente).

Minguante: Será a micronarrativa um novo género, que para além do mais ganhe ainda mais sentido com a utilização dos meios electrónicos?

Carlos Seabra: Não quero afirmar algo tão peremptoriamente, pois que para que possamos definir a micronarrativa como um gênero há que ter um pouco mais de produção, de distanciamento histórico, críticos engajados em analizar esta produção. É muito fácil escrever pequeníssimos textos e grandessíssimas porcarias. Não digo isto para depreciar a maioria da produção de microcontos (ou nanocontos, ou minicontos, ou haicais), que julgo muito sofríveis, mas também com a visão que é uma excelente porta de entrada para as pessoas se soltarem e começarem a escrever. Inclusive uma interessantíssima possibilidade de trabalhar a criação literária na escola, espaço tão tradicionalmente usado para fazer os alunos odiarem a literatura e terem medo do nosso idioma.

Como você aponta, o uso maciço dos meios eletrônicos faz com que os microtextos ganhem todo o sentido e sejam importantes conteúdos para popular áreas desertificadas de conteúdos culturais das novas tecnologias de informação e comunicação, como os celulares e tantos outros microespaços. No momento, inclusive, eu estou a preparar uma intervenção com haicais e microcontos na Internet 3D, na forma de uma galeria de microtextos dentro do Second Life – aliás, um belíssimo ambiente para este gênero.

Minguante: Diverte-se a escrever, disso ninguém duvidará, mas será para si a escrita de microtextos puro divertimento?

Carlos Seabra: Está bem próximo do puro divertimento, sim. E isso não é um conceito desqualificante, pois na sociedade pós-industrial, o ócio e o lúdico resgatam seu conceito mais profundo, existencialmente falando. Não se trata apenas de um novo epicurismo, mas cada vez mais o lazer, o ócio qualificado, o esporte, a diversão enfim, são até mesmo pujantes produtos econômicos. Finalmente, a cigarra vende seu cantar para as formigas cansadas de só trabalharem.

É nesse sentido que eu encaro o puro divertimento da escrita de microtextos, do qual faz parte um desafio interno para mim mesmo, e me solta para eventualmente vir a produzir textos literários maiores que micronarrativas. Como disse acima, a produção de microcontos começou com um viés econômico, tratava-se de um serviço, de um produto, com resultados a serem palpáveis financeiramente (o que não deixa de ser um outro tipo de divertimento).

Minguante: Depois de cortar e enxugar o texto o que fica é o essencial? Como trabalha os seus textos e o que procura alcançar?

Carlos Seabra: Confesso que não gosto muito de cortar. Quando me pedem textos com, por exemplo, quatro mil toques, acabo escrevendo seis ou sete mil e depois gasto a maior parte do tempo a tentar enxugar o texto até ficar perto da demanda. Com os haicais isso não existe, pois eles já nascem dentro de um padrão bem definido de três versos de cinco, sete e cinco sílabas. No caso dos microcontos, procuro ao máximo já os escrever no tamanho adequado e raríssimamente tive que podar alguma coisa.

Como adotei o formato de 150 caracteres, contando espaços e pontuação, acho que as idéias já nascem quase do tamanho certo. O haicai me deu a experiência de trabalhar estruturalmente com os limites. Sempre procuro ter uma frase que introduza a cena, que construa ou sugira a situação, e outra frase pra terminar, de preferência levando alguma surpresa ao leitor. Claro que nem sempre sigo essa fórmula. Algumas idéias de haicais que não deram certo viraram depois microcontos. Alguns fiz por referência pessoal (morte de um amigo, vivência de uma situação, mero devaneio interno) e podem ter outras leituras. Alguns homenageiam lembranças literárias (escrevi um pensando no Mário-Henrique Leiria, que me contava muitas histórias malucas quando eu era criança), outros são evoluções do próprio texto que nem eu quase tive intenção mas foram se formando.

Procuro alcançar a diversidade, como estrutura lúdica subjacente. Depois de escrever um ou dois mais sensuais ou eróticos, é bom escrever um bem cruel e malvado, depois uns dois meio de crônica do cotidiano, e então meter uma crítica de natureza política ou social, para então produzir alguo bem absurdo, surreal. Pensei isso para dar texturas diferentes para o leitor, mas também me impedem de cansar ou cair na mesmice.

Minguante: Sei que aprecia especialmente o sorteio para apresentação dos microcontos. Por alguma razão especial?

Carlos Seabra: Acho uma forma muito interessante de leitura. Apresentação de pequenos conteúdos de modo aleatório faz sucesso desde que existe o I-Ching e achei que seria um interessante formato. Fiz um site de sorteio de haicais (Caixa de Hai-Kai) no qual várias centenas de haicais de algumas dezenas de autores são apresentadas na tela, sorteando até mesmo a cor das letras, sempre em fundo preto. Aliás, foi a feitura desse website que me levou a escrever haicais, pois no começo eu estava era a estudar uma linguagem de programação (PERL) e precisava sortear coisas. Achei que haicais se adequariam e peguei vários em livros que tinha na minha estante, outros busquei na internet, e de repente achei que poderia até escrever um ou outro e colocar no meio.

O sorteio desconstrói caminhos e pode levar à experimentação e fruição de conteúdos que doutra forma não seriam conhecidos (a tendência de ler-se alguns autores apreciados pode levar a não conhecer o único microconto bom de um escritor que você sempre pule). Isso vale para poesia, micronarrativas, versículos da Bíblia, frases famosas, fotografias…

Minguante: A minificcção, diz-se, desesenvolve-se no limite dos géneros. Os seus haicais não são, de alguma forma, tão minificcção quanto os seus designados microcontos?

Carlos Seabra: Encaro o haicai como algo diferente da ficção, ele tem que ser poético, tem que produzir uma imagem cinematográfica dentro de nossa cabeça, tem que ter algo que não está em nós mas sim na natureza. Claro que eu brinco além disso em meus haicais, por isso inclusive chamei de “que tais” os que não são puramente haicais, mas sim que usam seu formato e algo de seu espirito para pularem o limite do gênero.
Mas você tem razão quanto a boa parte deles (tanto haicais quanto microcontos), que não fosse o fato de estarem num formato (três versos no caso dos haicais) bem que poderiam assumir a outra forma. Meu haicai “no despenhadeiro / a sobra da pedra / cai primeiro” poderia muito bem ter virado um nanoconto… Aliás, muita gente trata indiferenciadamente como microcontos tudo o que é pequeno, mas eu gosto de conceituar como nanocontos os que trabalham com o limite de 50 letras, microcontos os que usam o limite de 150 caracteres, e minicontos os que consideram até 300 palavras ou ainda 600 caracteres.

Minguante: Você conhece bem a lingua portuguesa que se fala em Portugal e no Brasil pela sua condição, julgo que de dupla nacionalidade. Se quisesse falar um pouco sobre isso eu agradecia.

Carlos Seabra: Sim, nasci em Lisboa e moro em São Paulo. Vim para o Brasil com 6 anos e voltei para Portugal com 10. Desde os 14 moro no Brasil, mas sempre tive um pé em cada lado do oceano. Mais da metade dos livros que lia na minha adolescência eram portugueses (desde toda a Argonauta de ficção científica, os policiais da Vampiro, até nossos escritores, Eça de Queirós, Virgílio Ferreira, Manuel da Fonseca, Júlio Diniz etc.) e sempre tive muita facilidade em transitar entre ambas as formas de grafia, tendo inclusive, já adulto, trabalhado na área editorial a copidescar (rever e adaptar) edições da Editora Abril, quadrinhos e novelas, para Portugal.

Escrevo meus haicais e microcontos com a língua que cá se fala pois seria muito estranho não o fazer, e aprecio muito as diferenças do idioma tanto em Portugal e no Brasil, como os enriquecimentos africanos e todos os demais que fizeram e fazem deste nosso idioma o que permitiu Fernando Pessoa dizer que “minha pátria é minha língua”.

Minguante: Ainda que saibamos que daria “pano para mangas” não resisistimos a pedir-lhe que fale um pouco do escritor Mário-Henrique Leiria, primo do seu pai, e que você conheceu pessoalmente.

Carlos Seabra: O Mário-Henrique Leiria era primo do meu pai (também Mário, e ambos se chamavam de “primários”). Desde que eu era miúdo, o Leiria era presença habitual em casa. Formava-se uma roda de amigos que ficavam a falar de artes e a tocar música brasileira. Até hoje tenho muito vivos esses momentos, de me emocionar, ainda criança de uns 5 anos de idade, ele acabado de casar com uma alemã que não me recordo o nome, algo como Fipsy, de quem ele se separou pouco depois. Achava muito engraçado o fato de ele barbear não só a cara mas a cabeça toda também, que o deixava com um ar de tartaruga sem casca. Isto lá por 1960. Meu pai tinha sido também o padrinho de casamento dele, e o Leiria era padrinho do meu irmão Eduardo.

Quando meus pais vieram para o Brasil, um par de anos depois veio o Leiria e ficou a morar lá em casa, num quarto nas traseiras sobre a garagem. Ele já tinha graves problemas de reumatismo e subia com dificuldades as escadas, com a ajuda de uma bengala e soltando cabeludos palavrões a cada degrau. O papagaio do vizinho aprendeu todos eles e retribuía-os, fazendo o Leiria passar a xingá-lo também, e eu e meus irmãos nos avisávamos e íamos todos a correr para assistir o espetáculo. Nessa época, lá pelos anos 1963/64, ele comprou-me um avião de montar, que exigia lixar as delicadas e inúmeras peças, colá-las, pintá-las, tudo seguindo uma detalhada e complicada planta e instruções. Claro que depois de muitos meses o avião mal tinha a estrutura do corpo, pois aquilo era só um pretexto para ele me contar suas aventuras na Guerra Civil Espanhola (muitos anos depois me dei conta, ao calcular datas, que tudo não passou de divertidas histórias, bem das dele, sempre numa fímbria entre o crível e o incrível).

Voltei para Portugal, onde residi e estudei uns 5 anos, participei de aventuras e descobertas arqueológicas com o Gustavo Marques, e das expedições etnológicas do Michel Giacometti, além de inúmeros outros intelectuais e gente engajada, escritores, músicos, pintores. Em 1969 cá estava eu de volta ao Brasil. Logo na primeira semana fui visitar o Leiria, que estava a trabalhar na Editora Samambaia.

Na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, já perto do centro de São Paulo, ao chegar lá vejo sair uma troupe de quatro ou cinco pessoas, com o Leiria à frente a imitar um helicóptero (mão na cabeça a girar as pás, boca a fazer o barulho das hélices), seguido de uma moça vestida de revolucionária russa, um exilado argentino logo a seguir a fazer nem sei mais o quê, seguidos pelo dono da editora, o Gil Clemente (com que mais tarde vim a trabalhar intensamente durante muitos anos), que só fazia olhar tudo com um ar aparentemente sério, fumando cigarros um atrás do outro. Eles estavam indo tomar um café numa pausa do trabalho. A editora publicava uma cômica revista de terror com o Zé do Caixão, editava antologias de erotismo (que belos e onânicos orgasmos me propiciaram), que entravam em choque direto com a cada vez mais feroz censura da ditadura militar (que, comparada ao plúmbeo ambiente do salazarismo e da PIDE, para mim era uma terra ainda assim de imensa liberdade), uma enciclopédia histórica (para a qual naquele dia eles produziram umas fotos que faltavam, de revolucionários bolcheviques para um verbete relacionado, embora uns 95% da obra fossem reais, mas eles gostavam de fazer).

Uma obra em especial me encantava (eu ia lá passar algumas horas, fascinado com o que era uma editora, e realmente acho que isso foi uma escola, pois com todo o clima surreal que de vez em quando até afetava o conteúdo, era uma editora mesmo; e talvez tenha feito com que alguns anos depois eu tivesse entrado nessa área profissionalmente), era um conjunto em três volumes, se não me engano, da Helena Sangirardi, uma famosa autora de livros culinários na época. Como ela demorava pra entregar algumas receitas que faltavam pra completar o número de páginas do volume que estava a ser finalizado, o Leiria resolveu ele mesmo produzir umas duas ou três receitas! Uma delas era o “Risoto à Mao-Tsé-Tung”, inocente receita onde ele só inventou o título. Outra descrevia um prato simples que consistia em abrir uma lata de sardinhas, uma lata de ervilhas e colocar uma folha de alface e “pronto, aqui está seu delicioso prato, minha amiga!”.

Se não me engano, foi em 1970 que ele voltou para Portugal, já todo “fodido das pernas” como ele dizia. Mas antes disso fui ainda visitá-lo no Hospital Samaritano, onde ele se recuperava de ter implantado uns metais a substituir parte dos ossos e tinha terríveis dores, que o suprimento de drogas que lhe davam não conseguia aplacar. Mas talvez eu nunca tenha rido tanto na vida, eu rebolava no chão do quarto do hospital, agarrado à minha barriga, que me doía de tanto gargalhar. A cada ataque de dor mais intenso ele usava seu repertório de palavrões, sempre vindo aos conjuntos concatenados deles, como a boa tradição lusitana manda, acrescidos de retoques que eram só dele – tudo isso acompanhado por comentários de humor surrealista e caras com olhos esbugalhados que não permitiam saber se ele estava a sofrar muito ou a se divertir à balda (com certeza os dois). Ele descrevia em detalhes a “guerra dos do segundo andar contra os do primeiro”, todos com almofadas a servirem de armas, no meio da noite. Ou picantes aventuras sexuais com as enfermeiras, onde me parecia que todas tinham enormes peitos mesclados com rígida disciplina germânica.

Foi depois disso que eu vim a ler seus Contos do Gin-Tonic, que ele editou já em Portugal e alguém me mandou. Nunca mais tive contato com ele, mas minha mãe, que estava a morar em Portugal, volta e meia contava notícias dele, que morava com a mãe e a tia, duas velhotas muito velhas mesmo, e que estava a cada dia mais “revolucionário”.

Roda de memória do haicai

28/12/2005

DEZEMBRO 2005

Trechos da entrevista feita por José Santos (transcrita por Lúcia Nascimento), do Museu da Pessoa, numa “roda de memória do haicai” com depoimentos meus, de Alice Ruiz, e Rodolfo Witzig Guttilla – durante um jantar num restaurante japonês na Liberdade, São Paulo, acompanhado de muito saquê, em 28 de dezembro de 2005.

José Santos – Quando você se depara com o haicai pela primeira vez?

Carlos Seabra – Perfeito. Bom, primeira vez que eu tomei consciência que eu estava vendo haicai foi quando um amigo meu me emprestou um livro do Millôr Fernandes chamado “Hai Kai”. E eu me diverti muito com aquilo e achei uma coisa super legal. Por coincidência, alguns meses depois, vários meses depois, um outro amigo, um rapaz que eu conheci na época do vídeotexto, não existia Internet, e descobri que ele era amigo também da minha filha. E a gente se conheceu e trocava os e-mails que havia na época, começou a surgir a bitnet. Ele era um tarado por tecnologia e eu também, e aí ele me disse que participou de um curso de como fazer haicai. Houve um curso e depois um concurso e ele ganhou até o primeiro ou segundo prêmio, uma coisa assim. Eu achei aquilo interessante, ele me mandou o material didático, algumas apostilas, me mandou material que foi produzido, outros que foram premiados e ok, aquilo ficou na minha gaveta. Achei aquilo interessante e tal.

José Santos – Nessa época você tinha quantos anos?

Carlos Seabra – Já tinha trinta e tal, quase…

José Santos – Maduro já.

Carlos Seabra – É. Isso foi em 96, sei lá, uma coisa assim. Eu sempre li muita poesia, mas nunca haicai. Sempre fui um cara tarado por poesia, mas nunca escrevi, né? Aí rolou de eu precisar estudar uma linguagem de programação chamada PERL, e eu estava estudando uma rotina de sorteio. Fazia parte das coisas que eu queria mexer. E eu só gosto de fazer coisas que tenham utilidade, para fazer aquilo. Eu disse: preciso sortear alguma coisa. Não vou sortear fotografias, porque é um saco. Não tenho fotografias para isso. Texto? Texto grande é um porre, né? Ainda cheguei a pensar na Bíblia, vou pegar os versículos e tal, porque é um conteúdo pequenininho. Aí me deu um estalo “haicai”. Aí fui na estante e estava lá o Millôr e eu falei: “vou sortear”. E ficou bacana. Clica, sorteia um. Mas eu pensei: “quero agora variar de autor”. Acabou dando o site Caixa de Hai-Kai. Pensei: preciso ter mais autores. Aí comecei a procurar na própria Internet. Tinha o Rodrigo, Rodrigo de Almeida Siqueira, que tinha me mandado aquele e-mail. Eu não apago nunca os e-mails. Eu tenho e-mails de 1997, acreditem vocês. (risos) Fui procurar na ocasião, não era tão longe e aí na Internet eu fui descobrindo o resto e queria ter uma diversidade de autores ali. Isso me levou a buscar, achar Basho etc., achei o fio da meada. E isso me levou a colocar o site no ar, já que eu fiz e ficou bacaninha, vou deixar no ar para as pessoas verem. E eu pensei: deixa eu apagar vários aqui do Millôr, porque de repente o Millôr vai ficar chateado comigo porque eu estou canibalizando o livro. Eu pensei: eu posso roubar um pouquinho de cada um, porque no meio do sorteio ninguém vai ser incomodado. Aí comecei em livrarias a procurar livros e etc., aí é que descobri a Alice Ruiz. E aí, “Nossa, isto aqui é fantástico!”. E fui lá no livro dela, roubei uma meia dúzia e coloquei lá na Caixa de Hai-Kai e fui fazendo isso. Fui lendo e me identificando com algumas coisas que eu gostava mais. Comecei a gostar muito de algumas pessoas que eu descobri, a Alice Ruiz, o Leminski, o Millôr. Descobri que eu achava muito divertido esse outro gênero. Quer dizer tinha um mundo mais tradicional, haicai tradicional, Bashô, lá-rá-lá-rá, coisas legais, enfim. E no meio dessas, já que eu estava com uma quantidade tão grande de haicais sorteados, pensei: posso até escrever alguns e pôr no meio. Já que tem um montão de desconhecidos, ninguém vai notar se tiver alguma coisa… E aí eu escrevi meu primeiro haicai. Depois o segundo, o terceiro, quarto e aí comecei.

José Santos – Lembra do primeiro?

Carlos Seabra – Ah, era uma coisa horrorosa do tipo “o vento sopra no bambu e geme de prazer assim como tu”. (risos) E aí eu tinha a preocupação de: primeiro, fazer uma rima do primeiro com o terceiro verso. Eu já sabia que no haicai isso não se usa, mas eu achava divertido fazer. Respeitar a métrica ao máximo. Por quê? Porque eu sempre fui um cara muito lúdico, invento jogos e tal. E eu achei divertido essa coisa do haicai pelo lado lúdico também. É um desafio: cinco, sete, cinco. Tudo bem que eu vi um montão de gente dizendo que em português não precisa respeitar isso. Isso vale pelos caracteres do kandi, hiragana etc. e tal. Mas eu achei divertido fazer desse jeito. E quando eu percebi estava com cento e tal haicais escritos e uns que eu achava até bons. Mostrei para algumas pessoas. E uma amiga minha que editava uns livros de poesia, a Cristiane Neder, me apresentou ao Massao. “Tá. Vamos ver o que o Massao acha”. Levei e o Massao falou: “olha, você tem aqui uma mistureba de coisas. Tem haicais aqui que são de crítica política tipo: dia de eleição, primeiro o seu voto depois a traição. Você tem outros aqui que são eróticos: ao te adorar não sei mais se tens corpo ou altar. Você tem outros que falam de natureza mas não têm kigo e tal. Você tem outros aqui que você respeitou a coisa assim ao máximo, têm kigo e não sei o que, tá-rá-rá. Então que tal separar isso – ele cortou alguns – “esse aqui não vale tanto”. E separou em quatro categorias. Ele mesmo fez essa seleção. Então nisso ele deu formato a um livro. Aí eu procurei o Fábio Lucas, que era presidente da União Brasileira de Escritores na época, ele fez um prefácio para o livro e enfim, eu fiquei quatro anos aí até editar o livro que agora saiu. Então, foi a primeira coisa que eu escrevi, seja poesia, seja prosa, seja o que for. Eu sempre escrevi artigos educacionais, didáticos, de opinião, mas nunca tinha entrado na produção literária na poesia. Então, teve esse viés tecnológico. Depois eu resolvi fazer um site só de haicais de gatos. Porque aí eu contaminei várias pessoas: a minha mulher às vezes, ela também tem um site de poesias de mulheres que é “Mulheres que amam” e ela também se aventurou escrever um ou outro haicai. O que ela achou que era publicável, ela pôs no site dela. A minha mãe estava fazendo o site dela e eu tinha pedido para minha mãe que também nunca tinha escrito poesia, para escrever alguns poemas eróticos para eu colocar no meu site e ela fez uns belíssimos. Aí ela se entusiasmou por isso de escrever poesias, ela é pintora e tal, aí ela resolveu também, achou legal isso de haicais. Aliás, foi ela que fez as ilustrações do meu livro de haicais. Ela tem 72 ou 73 anos. E aí ela também começou a escrever haicais. Ela tem no site dela, que é Pedaços de Mim, vários haicais que ela escreveu. Estou até tentando convence-la a publicar, fazer um livrinho. Então foi assim que eu entrei. Ah, e ao fazer o Patas de Gatos, que é um site só de haicais de gatos, eu tinha dificuldade de encontrar o número suficiente. Fiz uma vasculhação total: deixa eu pegar o que eu tenho da Alice Ruiz aqui em casa ver se tem alguma coisa de gatos, deixa pegar aqui “Ah, o Millôr tem um que fala de gatos” e tal. Por acaso não achei nenhum do Millôr que fale de gatos, porque eu procurei. Oi? Achei e está lá no site. Aí eu comecei a procurar no Grêmio Ipê, na lista de haicais, tudo o que tinha de gatos pra pôr lá. Então tem nesse site um montão de nomes desconhecidos, outros mais conhecidos. Aí que eu entrei nessa coisa da tradução. Achei muito interessante quando a Alice falou, porque eu acabei tendo que estudar muito mais em profundidade estilos de haicais ao ver tradução. Entrei em sites como Le Maître du Haïku, todo em francês etc., e fui procurar haicais em idiomas que eu domino um mínimo: francês, espanhol, inglês etc. Eu achei um site tchecoslovaco, mas juro que não consegui fazer nada com aquilo, né? (risos) Outros assim… Aí me meti a fazer tradução e a tradução é muito legal. Tem aquilo que o Paulo Rónai falava: tradutor é traidor e tal né? Você tem que subverter um pouco a coisa, reconstruir o negócio, entender o que o outro quis dizer. Me diverti muito com isso também. Mas, enfim, grosso modo foi assim que eu fui apresentado ao haicai. Foi assim que rolou comigo.

José Santos – Está ótimo. Então passo ao Rodolfo. O clima de nossa roda está igual ao haicai do Seabra que é: haicai sem kigo / é de quem toma saquê / e pisa na “fulô”.

[…]

José Santos – Da pergunta, você se recorda?

Carlos Seabra – Sim, ainda recordo meu nome, Carlos. (risos) Então, os autores eu acabei falando assim, os que mais eu consigo citar, tem um montão de autores que são reconhecidos, são legais. E metade do que eu leio, eu acho chato, não me fala ao pau como se diz. E de repente… (risos) Agora assim o que no seu conjunto, por exemplo, o Millôr eu gosto muito, até porque ele foi que me fez despertar para o tesão do haicai. E não só aquela coisa jocosa ou surrealista que é divertido etc., mas que poderia não ser haicai, mas às vezes uma grande poesia que está ali mesmo. Então, as coisas podem ser uma pequena brincadeira, mas quanto mais você olha, você lê, sei lá, um que me lembro agora: “esnobar é exigir café fervendo e deixar esfriar”. Então isso tem todo um colorido, tem toda aquela imagem que te vem à cabeça, para você ficar pensando no significado daquilo. Tem toda uma brincadeira com os teus neurônios, gera endorfinas, gera uma coisa assim…

Alice Ruiz – Mas é sem kigo, quebra as regras do haicai.

Carlos Seabra – Sim, mas tanta coisa as quebra, né? Pois é. Um do Leminski assim “nuvens brancas passam em brancas nuvens”. Então isso também tem uma coisa extremamente visual, um conceito em cima do conceito, uma metáfora imóvel, elas estão passando e elas não constroem nada, nada deixam. Então, daí, isso justifica. O que poderia parecer assim é bem achado etc., quanto mais você olha, você vê como aquilo está bem elaborado, é um móbile que se move ali. Então essas coisas que eu aprecio muito e isso que me leva também a colocar aqui como mais um que eu citaria que é a Alice Ruiz. Ela está aqui, fica chato citar e tal, mas tem essa coisa assim de ser aquela coisa que você lê e você relê e faz uma nova leitura. Isso também é interessante. Isso também é fundamental. Porque tem um montão de haicais que você lê e que está tudo certinho, está dentro de todos os cânones. Você vai ver, está lá: escolhe um pássaro bonitinho, do bem; ou é a cotovia, ou o roxinol, ou é não sei o quê. Não é aquela coisa falada puras, que eu também acho isso super legal no Issa. Você colocou de um jeito que é fantástico. É legal você fazer de repente um haicai pra ameba. Por que não? Ninguém faz. Pois é, é feio, é inferior e tal. Então, vamos trabalhar só naquilo que está pré-estabelecido. Então tem um montão de haicais que são legais etc., mas que ficam meio tediosos, enchem o saco, porque é aquela fórmula que você precisaria ir até um livro universal de haicai pra ver se não é igual e só trocou uma palavrinha, tal. Então eu não conseguiria citar muitos mais nomes, porque tem vários desconhecidos, tem gente assim… Até sites na Internet, porque eu olho muito sites na Internet, né? E de repente você pega alguém assim que diz que faz haicai e é tudo horroroso, medíocre etc., mas tem uma sacada ali no meio. Eu já vi casos assim que você olha e fala: “Nossa! Que tristeza” E você continua lendo por desincumbência de cargo e de repente tem uma coisa ali que a pessoa teve uma sacação, teve um momento. Eu acho que o haicai tem isso também. Ele permite uma súbita chegada da inspiração, mas normalmente precisaria ser mais trabalhado. As pessoas não trabalham, né? Eu gosto muito do estilo, também. Porque às vezes me incomoda muito na maior parte dos haicais, dentro dos cânones, com kigo, tudo certinho e que você olha aquilo e diz: “não está fluindo o texto”. Falta um texto de boa qualidade, falta uma genialidade no escrever. E eu acho que na hora em que você está lidando com poesia precisa disso. Uma pessoa que eu acho também interessante, também conheci na Internet, é a Leila Míccolis. Tem umas coisas assim bem fortes e tal, mas que podem fugir às vezes do haicai porque muitas falam do pessoal, aludindo ao suicídio etc., enfim. Não tenho muito mais a acrescentar. Passo. Eu sou só um curioso.

Rodolfo Guttilla – Estou seguro, caro Carlos, que você irá revelar-se em nosso renga. Essa sua intervenção me fez recordar que, antes de Basho e do haiku, o tanka, era um jogo de salão praticado por cortesãos. Foi Basho que introduziu a fala da cidade, da então nascente burguesia. Antes dele, acho que Soin aproximou o haicai da vida mundana, da natureza, da bosta da vaca, da mosca no cavalo… Isso por volta de 1660, quando fundou a Escola do Templo, a Escola Danrin.

José Santos – Bom, então Seabra você já falou um pouquinho disso, que você já entra temporão na história do haicai, então você podia detalhar um pouquinho mais isso, desde a sua descoberta até o site, o livro, sua trajetória no mundo do haicai.

Carlos Seabra – Pois é, então. E eu queria pegar uma ponta ali no que a Alice falou, porque tem tudo a ver. Essa coisa da modernidade do haicai, vou começar por ali. Por que é adequado aos tempos atuais? Tem uma dimensão extra que ela colocou e que eu, aqui só uma curiosidade, mas que tem tudo a ver, eu tenho escrito agora microcontos. Que é prosa minúscula. Como é que isso surgiu? Tem um cara aí que andou fazendo um negócio que era literatura por celular, e, aliás, acho que você, Alice, era uma das contratadas: Celuler, Luís Mendonça. Eu só conheci ele naquele encontro em Campinas no ano passado, promovido pela CPFL, né? E aí, pá-pá-pá, eu falei pra ele que achei interessante a idéia e que também tinha uns haicais, não sei o quê. Só que ele falou: “não, eu quero que as pessoas assinem, me manda logo não sei quantos”. “Olha, eu não vou conseguir tantos haicais”

Alice Ruiz – É, eu também disse isso pra ele.

Carlos Seabra – “Agora, eu posso escrever uma coisa nova, que eu nunca fiz, mas que acho que dou conta. Que é escrever contos com até 150 caracteres, para que caibam numa mensagem SMS, torpedo de celular. Isso eu me comprometo a fazer. Acho que sou bastante louco para ter uma produção”. E aí fechei um contrato com o cara.

José Santos – Contrato?

Carlos Seabra – É, exatamente. Contrato e tal. E aí o formato era um “celulivro”. Por exemplo: você faz aniversário e eu comprava um celulivro, que eram 45 microtextos, haicais, ou micro poemas, como que é? Poemínimos, ou microcontos, que era esse formato. Ele ia procurar outras pessoas e tal. Eu me entusiasmei, foi uma época em que, foi no ano passado, essa época entre natal e ano novo, eu falei “pô, tenho que produzir pra burro!”. Só nessa época, em duas semanas eu escrevi uns 200 microcontos. (risos) E depois eu também comecei a escrever indo pra reuniões em Brasília, no avião, aquele tempo que a gente espera no aeroporto e depois no avião. Foi uma bela produção de microcontos. Eu passei a andar sempre com uma caderneta para escrever os microcontos e tal (risos). Aliás, haicais eu sempre só escrevi também em papel. Embora o meu objetivo e a coisa estivesse detonada pelo eletrônico, eu só consegui escrever em papel e caneta ou lápis. Não no computador. O computador me corta a criatividade mais poética, digamos. Mas enfim, eu comecei a escrever microcontos e terminei agora uns últimos e resolvi fazer um livro. Meu próximo livro vai ser “365 Microcontos”. Por que esse número? Porque eu já tinha 365 prontos e falei “chega de escrever microcontos, uma hora que eu tiver paciência volto a escrever mais”. E 365 é um número legal, porque é o número de dias do ano, a pessoa vai achar que… E escrevi um prefácio, uma introdução para o livro onde eu abordo essa linha assim do porquê o microconto é interessante. Essa coisa de você receber uma coisa escrita no celular. É uma microliteratura feita para os dias de hoje, uma coisa mais rápida. Você pode ter isso desde uma coisa démodé, que é uma tampa de caixa de fósforo, que hoje em dia ninguém usa – mas tanto haicais quanto microcontos cairiam muito bem caixas de fósforos – é uma coisa para celular, é uma coisa que é para painel de ônibus, é uma coisa que é para o nosso mundo. Que é moderno, rápido, esse excesso de informação. Mas ele, o haicai, aí saindo do microconto, porque eu escrevi isso a propósito do microconto… Camiseta, eu menciono isso, rodapé de e-mail, enfim é muito atual. Isso o microconto. Haicai eu acho que não combina tanto com rodapé de e-mail, merece um lugar mais nobre e tal. Microconto é mais uma diversão, haicai eu levo mais a sério.

Mas eu acho que o haicai tem uma outra dimensão, além dessa de ser do nosso tempo e etc. e isso é que faz com que ele seja muito poderoso. Ele é uma ligação muito forte através de um furinho de agulha nesse universo que a gente vive de mega modernidade, de pós não sei o quê, um furinho que leva pra pulga do Issa, que leva pro sapo do Basho, que leva pra essa coisa do jardim zen, que leva pra essa coisa de você não olhar pra você e exercer mais a sua individualidade, tem todo esse lado. Como se fossem dois cones que se tocam nas pontas. Coisas opostas. O haicai tem essa coisa que é adequada à modernidade da comunicação eletrônica, eu posso mandar um haicai por uma mensagem de texto de celular, ele cabe. Graças ao seu mágico formato de cinco, sete, cinco sílabas, mesmo que estique um pouquinho vai caber. Mas ele tem uma ligação com essa coisa toda, o zen, seja lá o que for, faz com que seja uma coisa poderosa. Acho isso muito interessante. Outra coisa que tem a ver como que a Alice estava falando é oficina, quer dizer, no caso dela é oficinas, porque ela tem uma experiência larguíssima. A minha experiência é oficina, porque eu só fiz uma até hoje. O Sesc me convidou. Teve o Fórum Social Mundial e tinha as programações. Havia uma preocupação de inclusão digital, hoje em dia está na moda falar em inclusão digital, e eu mesmo já coordenei vários programas e mexo com isso etc., porque trabalho com tecnologia e popularização de tecnologia e tal. Mas é muito assim uma coisa demagógica, também. Você pega um pobre e põe na frente do computador, pronto. Você fez inclusão digital, né? (risos) Resumindo. Tem um amigo meu que diz que inclusão digital ele lembra de proctologista, né? (risos) Me convidaram para fazer lá a oficina e disseram: “pô, você mexe com tecnologia, trabalha com projetos de inclusão digital e escreve haicais, vamos fazer uma oficina de haicais e coisas eletrônicas”. Então, qual era a expectativa deles, que eu fizesse uma oficina e as pessoas ali já publicariam na Internet. O Sesc colocou um espaço e os computadores e as pessoas já iam escrever nos computadores. Eu falei “na-na-ni-na não. Assim não consigo.” Vai todo mundo trabalhar assim em roda, cadeira e com flip chart e eu vou dar papel para as pessoas e umas canetas bem grossas. Quero que as pessoas escrevam em canetas bem grossa no papel, para as pessoas mostrarem para as outras, para poder rabiscar e tal. E depois a gente vai para a outra sala onde estão os computadores e a internet e lá é o momento de publicação. Então, há o momento de criação, há o laboratório, há o pensar, o discutir. E aí foi legal. Eu usei primeiro um power point, tinha um data show e aí eu projetei uns 50 haicais, alguns teus, vários outros. Eu procurei pegar uma amostragem o mais diferente possível, para que as pessoas pegassem ali aquilo que elas mais se identificassem e servisse de exemplo. E fui comentando algumas rodadas de discussão com as pessoas e fiquei surpreso, porque todo mundo produziu. Alguns se entusiasmaram, tem um que abri uma comunidade de haicai no orkut. E saiu daquela oficina fazendo haicai. Teve uma senhora, a tal da terceira idade, que estava lá e pintou por acaso porque freqüenta o Sesc naquele horário e se fosse um curso de como fazer bolo de fubá sem usar açúcar ela talvez estivesse lá, e pegou a coisa assim de modo surpreendente. Então eu vejo esse potencial, quando você fala, eu percebi naquele momento. Foi a única experiência que eu tive, mas foi muito instigante. Porque eu fiquei em vários momentos com dúvida do que ia acontecer, procurei usar o máximo possível da minha competência para fazer a coisa rolar ali. Mas eu fiquei surpreso e todo mundo, cada uma das pessoas ficou surpresa. Nós fizemos uma rodada de comentários e todo mundo não chegou a essa felicidade de sacação, dos eventos que você (Alice) deu, mas houve isso. Mexeu com as endorfinas das pessoas, mexeu com elas próprias. Foi muito interessante. E eu me lembrei de uma experiência quando eu comecei a escrever haicai. Uma amiga da minha mulher, de Ribeirão Preto, ela é professora e falou: “ah, vou colocar os alunos escrevendo haicais”. Ela é professora de história. E o resultado foi fantástico. Ela nunca tinha mexido com isso, nunca tinha visto haicais antes e depois me mandou os haicais que os alunos escreveram. Era sobre escravidão, tinha feito um trabalho e eles tinham que escrever haicais. E tinha coisas assim comoventes, dois ou três eu até coloquei no meu site. Lá quando sorteia são alunos assim de 12, 13 anos, sei lá. Então, este parênteses enorme é para comentar aquilo que você falou. Então, voltando ao meu breguete do livro, eu fiquei quatro anos fazendo o livro. O Massao ficou meio mal, né, com os excessos de uma garrafinha de uisque por dia etc. e tal, mas isso aí todo mundo sabe. Ele estava meio mal, eu cheguei até a achar que de repente ele ia bater com as botas e tal, porque ele estava… E eu fiquei meio duro, não tinha mais grana, uma fase difícil, não procurei nenhuma editora, também não sou nem conhecido, nada. Então ia ser uma edição de autor, eu ia ter que gastar grana do meu bolso e depois para distribuir ia ser outro mico, como é. Aí eu também deixei meio de lado. De repente voltei a me interessar de novo por isso, procurei o Massao, ele já estava se recuperando, parou de beber, está engordando, fortão, voltou a trabalhar e tal. Só que ele tinha perdido os originais do livro. Então coloquei minha assistente ajudando ele. Durante três dias, ela foi todo dia pra lá, ficou lá vasculhando caixotes e caixotes, toda história editorial do Massao estava ali. Tinha coisas em fotolito, em originais e tal e acabou achando. E aí saiu o livro, eu pedi pra minha mãe fazer as ilustrações e agora estou nessa lide. Acabei, um montão de gente, enfim me procurou, quer falar que eu vá falar de haicai, etc. e etc. De repente tem um efeito que eu não tinha pensado nisso. É uma coisa assim que me puxa. Eu não pensei nunca em nenhum momento em que eu iria escrever haicai, que eu iria falar sobre haicai, qualquer coisa. Nem me considero muito assim, porque eu tenho um discurso mais à margem. Mas produziu esse efeito bastante interessante, que tem me levado por outros caminhos da literatura. Nesse momento, inclusive, tem um pessoal da UBE, União Brasileira dos Escritores, meu amigo Levi, querendo que eu colabore mais, querendo que eu entre inclusive lá para a Diretoria, não sei o quê. Enfim, então de algum modo, e o Fábio Lucas fala isso no prefácio que ele escreve aí, que na verdade é um pósfácio, que a gente conversou muito sobre como o haicai tem servido pra mim como uma porta de entrada, uma abertura de eu me soltar. Eu sempre fui um leitor compulsivo, eu fugia às aulas, repetia de ano para poder ficar lendo literatura etc., sempre fui um leitor compulsivo. Mas nunca me meti a escrever nada. E o haicai tem isso, ele é uma porta de abertura muito poderosa. Aquela coisa que eu falei do buraquinho da agulha, ele produz esse efeito nas pessoas. A senhora que a Alice falou que dá risadas, que redescobre o humor, eu acho que é o executivo estressado do dia a dia que encontra o lado zen, faz um pequeno jardinzinho zen dentro dele. É um buraquinho pequeno que acho que tem uma parábola qualquer, não sei se é Jesus, que fala que é mais fácil um camelo passar no buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino do céu. Não acredito nisso, porque acho que os ricos passam muito mais fácil. Mas tem esse aspecto muito poderoso do haicai, como esse buraquinho que mexe com uma coisa muito poderosa. E ouvindo o que vocês estão colocando, acho que isso vai ficando bastante evidente. Quer dizer, tem um carga muito grande à volta. O segredo é ele ser tão pequenininho. Porque alguém já brincou comigo: “ah, o haicai é muito legal mas é uma brincadeira. É que nem o cara ser um pintor e fazer um quadro na cabeça de uma agulha. É um desafio.” Essa é uma visão, na hora me incomodei um pouco, está bem, é divertido. Qualquer caricatura e falar mal de alguma coisa, a priori sempre acho muito divertido. Porque o bobo da corte tem que estar sempre presente, porque quando você não tem o bobo da corte, o despotismo vem aí. Certo? O Mussolini e o Hitler não permitiam o bobo da corte, a gente sabe que o Stalin também não, o Garrastazu também não, enfim, eu acho que é legal questionar isso. Em que medida o haicai não é só um brinquedinho de alguém que não tem estofo para escrever um pouco mais? Acho uma provocação legal. Me incomodou um pouco na hora e tudo mais. Mas refletindo sobre ela, dá para desconstruir e ver como não tem nada a ver. Como o haicai é essa passagem para uma outra dimensão, falando em termos de ficção científica, uma outra dimensão. E você só pode passar pra ela por um buraco bem pequenininho, porque se ele for um pouco maior, você quebra a magia e perde essa outra dimensão. Então acho que o haicai tem um pouco disso. É uma coisa de ficção científica, sai aí um pouco do lado zen. Mas também tem lado zen na ficção cientifica, né? Enfim, cessar.

[…]

José Santos – Carlos tem alguma consideração final?

Carlos Seabra – Sim, uma coisa que assim, as grandes perdas…Uma coisa que eu acho, só voltando àquela questão do sintético ter a ver com o mundo de hoje e etc. e aí eu falo também na perspectiva do educador, né, porque metade do meu trabalho profissional é trabalhar com formação de educadores, com pedagogia, estratégia de ensino, projetos e tal. E uma das coisas que eu mais prezo e dou valor é a questão da palavra escrita. Porque é terrível o que a gente vive, porque a escola, que em grego significa local de prazer, na verdade as crianças aprendem a ter medo e odiar o conhecimento. Então uma criancinha que pergunta: “manhê o que está escrito ali naquele cartaz?”, ela vai pra escola e sai odiando Machado de Assis. É isso que a escola faz com ela. A escrita como uma forma de expressão, ela na escola só é usada, a escrita, no momento sadomasoquista da prova. A criança só pode escrever quando ela fica com dor de barriga e vai ser avaliada por isso. E aquilo que se pede a uma criança na escola, não se pede a nenhum Machado de Assis, a nenhum Camões e etc., que é o seguinte: eles têm que escrever uma coisa sem rasuras, sem erros de português, criativo, com começo meio e fim. Quer dizer, um absurdo. O texto é feito para rabiscar, rascunhar, enfim, não vou entrar nisso aí porque… E o papel histórico da palavra escrita ele se perdeu. No tempo das caravelas, quando o sujeito estava aqui e queria falar com a mulher amada ele mandava uma missiva que ia pela caravela Del Rei. E seis meses depois, se a caravela não afundasse e se a amada ainda o amasse, ela lê-lo-ia e respondê-lo-ia com as mesmas premissas na volta, se não afundasse, se ele ainda recordasse dela…(risos) Mas isso legou à humanidade uma “puta” quantidade de material escrito, cartas de Van Gogh ao seu irmão Theo e por aí vai. Hoje em dia a gente está numa coisa muito mais rápida e a escrita com todas essas perversões, ela ficou, criou-se uma linguagem à parte dominada pelo cartorial, uma escrita dos advogados. Você escreveu, a pessoa já “opa, que você está querendo?” Então as pessoas escrevem, por exemplo, é quase poético você dizer “dá-me água, pois tenho sede”. É uma coisa curta e tem poesia nisso. Ter sede, ter uma necessidade satisfeita é bonito. Na linguagem escrita as pessoas aprendem que “venho por meio desta solicitar-lhe um receptáculo cheio de água, a fim de que satisfaça…”. Então o haicai vai na direção oposta. É o seguinte: ele ensina a falar menos e dizer mais. Essa concisão é uma coisa que é um primeiro passo na direção da tal utopia considerando como utopia a pessoa dominar a escrita como um todo. Não é só no haicai, mas acho que só o haicai já é de bom tamanho. Certo? E você acabou de relatar isso. De repente está com uma produção de haicai que acabou suplantando o verso. O verso fica lá quieto. Mas o haicai tem essa tal de abertura, aquele buraquinho que eu falava a pouco, aquela primeira pedra que você pisa nela e aprende a andar sobre as águas etc. Tem um caminho que vem aí e acho que esse caminho é aprender a escrever. Tem isso também, tem esse caráter educacional, esse caráter pedagógico. E eu acho que isso é de uma importância muito grande. A pessoa aprende a valorizar, aprende… Tem o São Gregório de Nazianzo, tem uma frase muito inteligente, ele é um monge aí de uns séculos atrás e ele diz que dizer muito não é escrever com várias palavras. A frase agora eu não me lembro. Até uso na introdução desse meu livro de microcontos, porque acho que é uma habilidade que se perdeu, né? O dizer menos ficou sinônimo, e principalmente hoje em dia quando a gente pega a educação o pessoal fala: “e aí?”, “só”, “falô”. Aí é o não dizer nada, uma coisa monossilábica. O haicai, ele consegue reduzir ao mínimo dizendo o máximo. Ele provoca imagens na cabeça das pessoas. Acho que esse caráter cinematográfico do haicai, porque ele o é, eu não conheço nenhum haicai que não desperte os teus neurônios, ele se concatenam lá como umas sinapses e é extremamente visual. Você faz um montão de constructos, você quase que ouve sons psicodélicos. Se eu fosse o Timothy Leary, eu dizia que isso aí é que nem tomar um LSD e tal. Aliás, o Timothy Leary antes de morrer ele estava trabalhando com software, e no último livro dele, ele diz uma coisa interessantíssima, vale a pena ler, ele diz algo como: “se houvesse software na época em que eu fazia experiências com LSD, eu teria preferido fazer com software porque dá muito mais barato”. E de certa forma, alarga mais as portas da percepção. Exatamente. E eu acho que o haicai tem isso. Ele alarga as portas da percepção.

Alice Ruiz – É uma boa droga!

Carlos Seabra – Exatamente. E provoca tudo, ele é sensorial, extremamente sensorial. Você faz uma viagem. A pessoa faz uma viagem e depois desova, ela volta ao mundo real tendo produzido um haicai, aquilo tem uma história. Tem uma viagem que ela fez, viagem no sentido lisérgico. E quem ler vai fazer também aquela viagem. E a viagem é intelectual, é sensitiva, ela vai falar também com as células do teu corpo lá embaixo, vai te fazer ouvir sons, ver imagens…

Alice Ruiz – E é sem contra-indicação, né?

Carlos Seabra – Ah, eu acho que sim.

Alice Ruiz – Mas é subversivo.

Carlos Seabra – Subversivo, mas subversivo é uma coisa superindicada. É a única coisa que vale a pena, aliás.

Alice Ruiz – Eu sei que está terminando, mas só para corroborar. Teve um aluno meu, em Ouro Preto, ele é flautista da sinfônica de Belo Horizonte, que não escrevia. E ele fez na oficina 15 haicais. E os 15 haicais foram selecionados pelo grupo com aplausos. Então ele se descobriu um haicaista. E ele namora uma psicanalista que trabalha numa clínica para loucos chiques, loucos, quer dizer… Enfim, pessoas com problemas mentais, mas numa clínica paga, aquela coisa. E ela pediu ajuda a ele, ele comentou com ela o trabalho da oficina de haicais, que ficou todo feliz, porque se descobriu poeta e aí ele me mandou um e-mail perguntando se poderia usar minha apostila e dar uma oficina para os pacientes da clínica. Eu falei: “pode, mas o preço é você me mandar a produção dos pacientes”. Maravilhoso! Maravilhoso! O pessoal viu, claro alguns não conseguiam se desligar da sua neurose, mas a maioria foi surpreendente a sensibilidade deles, como funcionou. É isso que você estava falando agora desse abrir a porta da percepção. Eles tiveram absoluto sentido na haicai. Era só isso.

Carlos Seabra – Não, é exatamente isso que eu já tinha praticamente falado que é essa coisa da loucura. Aliás, eu fiquei interessadíssimo nessa experiência, porque tem uma amiga minha, a Elisa Band, que trabalha com teatro para loucos e é muito interessante. Bom, primeiro esse conceito de loucos e tal… Pois é e eu acho importante que não é só essa coisa que agora está na moda, não ficar preso em manicômio, mas há um aprendizado que se tem com os loucos e os índios têm isso. Quer dizer, o cara quando é louco, enlouquece na tribo, ele é quase colocado no mesmo papel que um sábio. Ele é ouvido, porque vê coisas que os outros não vêem. E nesse sentido a coisa mais parecida que se tem com o louco é o poeta, certo? Ele está ali no limiar. E muitos deles foram trancafiados por causa disso. Então eu acho que essa coisa da loucura é a premissa até para enxergar melhor essa coisa do dia a dia, né? Que nem essa senhora que você falou. Aliás, esses exemplos que você falou e tal, eles encerram em si, são quase que haicais em termos de exemplos. Era isso.

José Santos – Então, olha, antes da gente partir para a nossa esperada renga, eu só queria avaliar que eu acho que foi uma conversa maravilhosa, uma forma… Nós tivemos tantas entrevistas nesse ano, mas a forma de terminar o ano ouvindo essas histórias de haicai foi um fecho maravilhoso. E eu acho que a forma de uma roda de haicai, o melhor modelo são três pessoas mesmo, como os três versos do haicai. Eu acho que é uma interação perfeita. Tem rodas de oito pessoas, de sete, mas a coisa fluiu de uma maneira assim muito legal e eu acho que daqui pra frente, já temos um conselho consultivo e curador do que fazer aí dessa memória do haicai. Já mapeamos uma série de nomes e a gente tem falado sobre isso. Então já está falado. E a gente tem que mapear uma série de nomes, pra pensar de que maneira a gente pode envolver…

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Renga a 8 mãos e 3 garrafas de saquê

Por Alice Ruiz, Carlos Seabra, José Santos e Rodolfo Guttilla

Copo de saquê (Alice)
Banho de cachoeira (José)
Louça lavada (Rodolfo)

Peixes dormindo
Ensolarado domingo (Seabra)

No vau dos canais (Rodolfo)
Leques de libélulas (José)
Mil sombras sobre as pedras (Seabra)

Refletidas nas águas
Cintilam efêmeras (Alice)

Barulho de asas (Seabra)
Cascas do tronco caem (José)
Noite chegando (Alice)

Cascos de boi
Estrume fervendo (Rodolfo)

Zumbido de moscas (Seabra)
Um perfume de frutas (Alice)
Os deuses estão felizes (Rodolfo)

O sereno pousa na poça
Há quem o ouça? (José)

Coloquei nesta postagem somente os trechos relativos a minhas falas, pois o conjunto completo deverá ser publicado brevemente em livro e não desejo “canibalizar” o produto.

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