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Roda de memória do haicai

28/12/2005

DEZEMBRO 2005

Trechos da entrevista feita por José Santos (transcrita por Lúcia Nascimento), do Museu da Pessoa, numa “roda de memória do haicai” com depoimentos meus, de Alice Ruiz, e Rodolfo Witzig Guttilla – durante um jantar num restaurante japonês na Liberdade, São Paulo, acompanhado de muito saquê, em 28 de dezembro de 2005.

José Santos – Quando você se depara com o haicai pela primeira vez?

Carlos Seabra – Perfeito. Bom, primeira vez que eu tomei consciência que eu estava vendo haicai foi quando um amigo meu me emprestou um livro do Millôr Fernandes chamado “Hai Kai”. E eu me diverti muito com aquilo e achei uma coisa super legal. Por coincidência, alguns meses depois, vários meses depois, um outro amigo, um rapaz que eu conheci na época do vídeotexto, não existia Internet, e descobri que ele era amigo também da minha filha. E a gente se conheceu e trocava os e-mails que havia na época, começou a surgir a bitnet. Ele era um tarado por tecnologia e eu também, e aí ele me disse que participou de um curso de como fazer haicai. Houve um curso e depois um concurso e ele ganhou até o primeiro ou segundo prêmio, uma coisa assim. Eu achei aquilo interessante, ele me mandou o material didático, algumas apostilas, me mandou material que foi produzido, outros que foram premiados e ok, aquilo ficou na minha gaveta. Achei aquilo interessante e tal.

José Santos – Nessa época você tinha quantos anos?

Carlos Seabra – Já tinha trinta e tal, quase…

José Santos – Maduro já.

Carlos Seabra – É. Isso foi em 96, sei lá, uma coisa assim. Eu sempre li muita poesia, mas nunca haicai. Sempre fui um cara tarado por poesia, mas nunca escrevi, né? Aí rolou de eu precisar estudar uma linguagem de programação chamada PERL, e eu estava estudando uma rotina de sorteio. Fazia parte das coisas que eu queria mexer. E eu só gosto de fazer coisas que tenham utilidade, para fazer aquilo. Eu disse: preciso sortear alguma coisa. Não vou sortear fotografias, porque é um saco. Não tenho fotografias para isso. Texto? Texto grande é um porre, né? Ainda cheguei a pensar na Bíblia, vou pegar os versículos e tal, porque é um conteúdo pequenininho. Aí me deu um estalo “haicai”. Aí fui na estante e estava lá o Millôr e eu falei: “vou sortear”. E ficou bacana. Clica, sorteia um. Mas eu pensei: “quero agora variar de autor”. Acabou dando o site Caixa de Hai-Kai. Pensei: preciso ter mais autores. Aí comecei a procurar na própria Internet. Tinha o Rodrigo, Rodrigo de Almeida Siqueira, que tinha me mandado aquele e-mail. Eu não apago nunca os e-mails. Eu tenho e-mails de 1997, acreditem vocês. (risos) Fui procurar na ocasião, não era tão longe e aí na Internet eu fui descobrindo o resto e queria ter uma diversidade de autores ali. Isso me levou a buscar, achar Basho etc., achei o fio da meada. E isso me levou a colocar o site no ar, já que eu fiz e ficou bacaninha, vou deixar no ar para as pessoas verem. E eu pensei: deixa eu apagar vários aqui do Millôr, porque de repente o Millôr vai ficar chateado comigo porque eu estou canibalizando o livro. Eu pensei: eu posso roubar um pouquinho de cada um, porque no meio do sorteio ninguém vai ser incomodado. Aí comecei em livrarias a procurar livros e etc., aí é que descobri a Alice Ruiz. E aí, “Nossa, isto aqui é fantástico!”. E fui lá no livro dela, roubei uma meia dúzia e coloquei lá na Caixa de Hai-Kai e fui fazendo isso. Fui lendo e me identificando com algumas coisas que eu gostava mais. Comecei a gostar muito de algumas pessoas que eu descobri, a Alice Ruiz, o Leminski, o Millôr. Descobri que eu achava muito divertido esse outro gênero. Quer dizer tinha um mundo mais tradicional, haicai tradicional, Bashô, lá-rá-lá-rá, coisas legais, enfim. E no meio dessas, já que eu estava com uma quantidade tão grande de haicais sorteados, pensei: posso até escrever alguns e pôr no meio. Já que tem um montão de desconhecidos, ninguém vai notar se tiver alguma coisa… E aí eu escrevi meu primeiro haicai. Depois o segundo, o terceiro, quarto e aí comecei.

José Santos – Lembra do primeiro?

Carlos Seabra – Ah, era uma coisa horrorosa do tipo “o vento sopra no bambu e geme de prazer assim como tu”. (risos) E aí eu tinha a preocupação de: primeiro, fazer uma rima do primeiro com o terceiro verso. Eu já sabia que no haicai isso não se usa, mas eu achava divertido fazer. Respeitar a métrica ao máximo. Por quê? Porque eu sempre fui um cara muito lúdico, invento jogos e tal. E eu achei divertido essa coisa do haicai pelo lado lúdico também. É um desafio: cinco, sete, cinco. Tudo bem que eu vi um montão de gente dizendo que em português não precisa respeitar isso. Isso vale pelos caracteres do kandi, hiragana etc. e tal. Mas eu achei divertido fazer desse jeito. E quando eu percebi estava com cento e tal haicais escritos e uns que eu achava até bons. Mostrei para algumas pessoas. E uma amiga minha que editava uns livros de poesia, a Cristiane Neder, me apresentou ao Massao. “Tá. Vamos ver o que o Massao acha”. Levei e o Massao falou: “olha, você tem aqui uma mistureba de coisas. Tem haicais aqui que são de crítica política tipo: dia de eleição, primeiro o seu voto depois a traição. Você tem outros aqui que são eróticos: ao te adorar não sei mais se tens corpo ou altar. Você tem outros que falam de natureza mas não têm kigo e tal. Você tem outros aqui que você respeitou a coisa assim ao máximo, têm kigo e não sei o que, tá-rá-rá. Então que tal separar isso – ele cortou alguns – “esse aqui não vale tanto”. E separou em quatro categorias. Ele mesmo fez essa seleção. Então nisso ele deu formato a um livro. Aí eu procurei o Fábio Lucas, que era presidente da União Brasileira de Escritores na época, ele fez um prefácio para o livro e enfim, eu fiquei quatro anos aí até editar o livro que agora saiu. Então, foi a primeira coisa que eu escrevi, seja poesia, seja prosa, seja o que for. Eu sempre escrevi artigos educacionais, didáticos, de opinião, mas nunca tinha entrado na produção literária na poesia. Então, teve esse viés tecnológico. Depois eu resolvi fazer um site só de haicais de gatos. Porque aí eu contaminei várias pessoas: a minha mulher às vezes, ela também tem um site de poesias de mulheres que é “Mulheres que amam” e ela também se aventurou escrever um ou outro haicai. O que ela achou que era publicável, ela pôs no site dela. A minha mãe estava fazendo o site dela e eu tinha pedido para minha mãe que também nunca tinha escrito poesia, para escrever alguns poemas eróticos para eu colocar no meu site e ela fez uns belíssimos. Aí ela se entusiasmou por isso de escrever poesias, ela é pintora e tal, aí ela resolveu também, achou legal isso de haicais. Aliás, foi ela que fez as ilustrações do meu livro de haicais. Ela tem 72 ou 73 anos. E aí ela também começou a escrever haicais. Ela tem no site dela, que é Pedaços de Mim, vários haicais que ela escreveu. Estou até tentando convence-la a publicar, fazer um livrinho. Então foi assim que eu entrei. Ah, e ao fazer o Patas de Gatos, que é um site só de haicais de gatos, eu tinha dificuldade de encontrar o número suficiente. Fiz uma vasculhação total: deixa eu pegar o que eu tenho da Alice Ruiz aqui em casa ver se tem alguma coisa de gatos, deixa pegar aqui “Ah, o Millôr tem um que fala de gatos” e tal. Por acaso não achei nenhum do Millôr que fale de gatos, porque eu procurei. Oi? Achei e está lá no site. Aí eu comecei a procurar no Grêmio Ipê, na lista de haicais, tudo o que tinha de gatos pra pôr lá. Então tem nesse site um montão de nomes desconhecidos, outros mais conhecidos. Aí que eu entrei nessa coisa da tradução. Achei muito interessante quando a Alice falou, porque eu acabei tendo que estudar muito mais em profundidade estilos de haicais ao ver tradução. Entrei em sites como Le Maître du Haïku, todo em francês etc., e fui procurar haicais em idiomas que eu domino um mínimo: francês, espanhol, inglês etc. Eu achei um site tchecoslovaco, mas juro que não consegui fazer nada com aquilo, né? (risos) Outros assim… Aí me meti a fazer tradução e a tradução é muito legal. Tem aquilo que o Paulo Rónai falava: tradutor é traidor e tal né? Você tem que subverter um pouco a coisa, reconstruir o negócio, entender o que o outro quis dizer. Me diverti muito com isso também. Mas, enfim, grosso modo foi assim que eu fui apresentado ao haicai. Foi assim que rolou comigo.

José Santos – Está ótimo. Então passo ao Rodolfo. O clima de nossa roda está igual ao haicai do Seabra que é: haicai sem kigo / é de quem toma saquê / e pisa na “fulô”.

[…]

José Santos – Da pergunta, você se recorda?

Carlos Seabra – Sim, ainda recordo meu nome, Carlos. (risos) Então, os autores eu acabei falando assim, os que mais eu consigo citar, tem um montão de autores que são reconhecidos, são legais. E metade do que eu leio, eu acho chato, não me fala ao pau como se diz. E de repente… (risos) Agora assim o que no seu conjunto, por exemplo, o Millôr eu gosto muito, até porque ele foi que me fez despertar para o tesão do haicai. E não só aquela coisa jocosa ou surrealista que é divertido etc., mas que poderia não ser haicai, mas às vezes uma grande poesia que está ali mesmo. Então, as coisas podem ser uma pequena brincadeira, mas quanto mais você olha, você lê, sei lá, um que me lembro agora: “esnobar é exigir café fervendo e deixar esfriar”. Então isso tem todo um colorido, tem toda aquela imagem que te vem à cabeça, para você ficar pensando no significado daquilo. Tem toda uma brincadeira com os teus neurônios, gera endorfinas, gera uma coisa assim…

Alice Ruiz – Mas é sem kigo, quebra as regras do haicai.

Carlos Seabra – Sim, mas tanta coisa as quebra, né? Pois é. Um do Leminski assim “nuvens brancas passam em brancas nuvens”. Então isso também tem uma coisa extremamente visual, um conceito em cima do conceito, uma metáfora imóvel, elas estão passando e elas não constroem nada, nada deixam. Então, daí, isso justifica. O que poderia parecer assim é bem achado etc., quanto mais você olha, você vê como aquilo está bem elaborado, é um móbile que se move ali. Então essas coisas que eu aprecio muito e isso que me leva também a colocar aqui como mais um que eu citaria que é a Alice Ruiz. Ela está aqui, fica chato citar e tal, mas tem essa coisa assim de ser aquela coisa que você lê e você relê e faz uma nova leitura. Isso também é interessante. Isso também é fundamental. Porque tem um montão de haicais que você lê e que está tudo certinho, está dentro de todos os cânones. Você vai ver, está lá: escolhe um pássaro bonitinho, do bem; ou é a cotovia, ou o roxinol, ou é não sei o quê. Não é aquela coisa falada puras, que eu também acho isso super legal no Issa. Você colocou de um jeito que é fantástico. É legal você fazer de repente um haicai pra ameba. Por que não? Ninguém faz. Pois é, é feio, é inferior e tal. Então, vamos trabalhar só naquilo que está pré-estabelecido. Então tem um montão de haicais que são legais etc., mas que ficam meio tediosos, enchem o saco, porque é aquela fórmula que você precisaria ir até um livro universal de haicai pra ver se não é igual e só trocou uma palavrinha, tal. Então eu não conseguiria citar muitos mais nomes, porque tem vários desconhecidos, tem gente assim… Até sites na Internet, porque eu olho muito sites na Internet, né? E de repente você pega alguém assim que diz que faz haicai e é tudo horroroso, medíocre etc., mas tem uma sacada ali no meio. Eu já vi casos assim que você olha e fala: “Nossa! Que tristeza” E você continua lendo por desincumbência de cargo e de repente tem uma coisa ali que a pessoa teve uma sacação, teve um momento. Eu acho que o haicai tem isso também. Ele permite uma súbita chegada da inspiração, mas normalmente precisaria ser mais trabalhado. As pessoas não trabalham, né? Eu gosto muito do estilo, também. Porque às vezes me incomoda muito na maior parte dos haicais, dentro dos cânones, com kigo, tudo certinho e que você olha aquilo e diz: “não está fluindo o texto”. Falta um texto de boa qualidade, falta uma genialidade no escrever. E eu acho que na hora em que você está lidando com poesia precisa disso. Uma pessoa que eu acho também interessante, também conheci na Internet, é a Leila Míccolis. Tem umas coisas assim bem fortes e tal, mas que podem fugir às vezes do haicai porque muitas falam do pessoal, aludindo ao suicídio etc., enfim. Não tenho muito mais a acrescentar. Passo. Eu sou só um curioso.

Rodolfo Guttilla – Estou seguro, caro Carlos, que você irá revelar-se em nosso renga. Essa sua intervenção me fez recordar que, antes de Basho e do haiku, o tanka, era um jogo de salão praticado por cortesãos. Foi Basho que introduziu a fala da cidade, da então nascente burguesia. Antes dele, acho que Soin aproximou o haicai da vida mundana, da natureza, da bosta da vaca, da mosca no cavalo… Isso por volta de 1660, quando fundou a Escola do Templo, a Escola Danrin.

José Santos – Bom, então Seabra você já falou um pouquinho disso, que você já entra temporão na história do haicai, então você podia detalhar um pouquinho mais isso, desde a sua descoberta até o site, o livro, sua trajetória no mundo do haicai.

Carlos Seabra – Pois é, então. E eu queria pegar uma ponta ali no que a Alice falou, porque tem tudo a ver. Essa coisa da modernidade do haicai, vou começar por ali. Por que é adequado aos tempos atuais? Tem uma dimensão extra que ela colocou e que eu, aqui só uma curiosidade, mas que tem tudo a ver, eu tenho escrito agora microcontos. Que é prosa minúscula. Como é que isso surgiu? Tem um cara aí que andou fazendo um negócio que era literatura por celular, e, aliás, acho que você, Alice, era uma das contratadas: Celuler, Luís Mendonça. Eu só conheci ele naquele encontro em Campinas no ano passado, promovido pela CPFL, né? E aí, pá-pá-pá, eu falei pra ele que achei interessante a idéia e que também tinha uns haicais, não sei o quê. Só que ele falou: “não, eu quero que as pessoas assinem, me manda logo não sei quantos”. “Olha, eu não vou conseguir tantos haicais”

Alice Ruiz – É, eu também disse isso pra ele.

Carlos Seabra – “Agora, eu posso escrever uma coisa nova, que eu nunca fiz, mas que acho que dou conta. Que é escrever contos com até 150 caracteres, para que caibam numa mensagem SMS, torpedo de celular. Isso eu me comprometo a fazer. Acho que sou bastante louco para ter uma produção”. E aí fechei um contrato com o cara.

José Santos – Contrato?

Carlos Seabra – É, exatamente. Contrato e tal. E aí o formato era um “celulivro”. Por exemplo: você faz aniversário e eu comprava um celulivro, que eram 45 microtextos, haicais, ou micro poemas, como que é? Poemínimos, ou microcontos, que era esse formato. Ele ia procurar outras pessoas e tal. Eu me entusiasmei, foi uma época em que, foi no ano passado, essa época entre natal e ano novo, eu falei “pô, tenho que produzir pra burro!”. Só nessa época, em duas semanas eu escrevi uns 200 microcontos. (risos) E depois eu também comecei a escrever indo pra reuniões em Brasília, no avião, aquele tempo que a gente espera no aeroporto e depois no avião. Foi uma bela produção de microcontos. Eu passei a andar sempre com uma caderneta para escrever os microcontos e tal (risos). Aliás, haicais eu sempre só escrevi também em papel. Embora o meu objetivo e a coisa estivesse detonada pelo eletrônico, eu só consegui escrever em papel e caneta ou lápis. Não no computador. O computador me corta a criatividade mais poética, digamos. Mas enfim, eu comecei a escrever microcontos e terminei agora uns últimos e resolvi fazer um livro. Meu próximo livro vai ser “365 Microcontos”. Por que esse número? Porque eu já tinha 365 prontos e falei “chega de escrever microcontos, uma hora que eu tiver paciência volto a escrever mais”. E 365 é um número legal, porque é o número de dias do ano, a pessoa vai achar que… E escrevi um prefácio, uma introdução para o livro onde eu abordo essa linha assim do porquê o microconto é interessante. Essa coisa de você receber uma coisa escrita no celular. É uma microliteratura feita para os dias de hoje, uma coisa mais rápida. Você pode ter isso desde uma coisa démodé, que é uma tampa de caixa de fósforo, que hoje em dia ninguém usa – mas tanto haicais quanto microcontos cairiam muito bem caixas de fósforos – é uma coisa para celular, é uma coisa que é para painel de ônibus, é uma coisa que é para o nosso mundo. Que é moderno, rápido, esse excesso de informação. Mas ele, o haicai, aí saindo do microconto, porque eu escrevi isso a propósito do microconto… Camiseta, eu menciono isso, rodapé de e-mail, enfim é muito atual. Isso o microconto. Haicai eu acho que não combina tanto com rodapé de e-mail, merece um lugar mais nobre e tal. Microconto é mais uma diversão, haicai eu levo mais a sério.

Mas eu acho que o haicai tem uma outra dimensão, além dessa de ser do nosso tempo e etc. e isso é que faz com que ele seja muito poderoso. Ele é uma ligação muito forte através de um furinho de agulha nesse universo que a gente vive de mega modernidade, de pós não sei o quê, um furinho que leva pra pulga do Issa, que leva pro sapo do Basho, que leva pra essa coisa do jardim zen, que leva pra essa coisa de você não olhar pra você e exercer mais a sua individualidade, tem todo esse lado. Como se fossem dois cones que se tocam nas pontas. Coisas opostas. O haicai tem essa coisa que é adequada à modernidade da comunicação eletrônica, eu posso mandar um haicai por uma mensagem de texto de celular, ele cabe. Graças ao seu mágico formato de cinco, sete, cinco sílabas, mesmo que estique um pouquinho vai caber. Mas ele tem uma ligação com essa coisa toda, o zen, seja lá o que for, faz com que seja uma coisa poderosa. Acho isso muito interessante. Outra coisa que tem a ver como que a Alice estava falando é oficina, quer dizer, no caso dela é oficinas, porque ela tem uma experiência larguíssima. A minha experiência é oficina, porque eu só fiz uma até hoje. O Sesc me convidou. Teve o Fórum Social Mundial e tinha as programações. Havia uma preocupação de inclusão digital, hoje em dia está na moda falar em inclusão digital, e eu mesmo já coordenei vários programas e mexo com isso etc., porque trabalho com tecnologia e popularização de tecnologia e tal. Mas é muito assim uma coisa demagógica, também. Você pega um pobre e põe na frente do computador, pronto. Você fez inclusão digital, né? (risos) Resumindo. Tem um amigo meu que diz que inclusão digital ele lembra de proctologista, né? (risos) Me convidaram para fazer lá a oficina e disseram: “pô, você mexe com tecnologia, trabalha com projetos de inclusão digital e escreve haicais, vamos fazer uma oficina de haicais e coisas eletrônicas”. Então, qual era a expectativa deles, que eu fizesse uma oficina e as pessoas ali já publicariam na Internet. O Sesc colocou um espaço e os computadores e as pessoas já iam escrever nos computadores. Eu falei “na-na-ni-na não. Assim não consigo.” Vai todo mundo trabalhar assim em roda, cadeira e com flip chart e eu vou dar papel para as pessoas e umas canetas bem grossas. Quero que as pessoas escrevam em canetas bem grossa no papel, para as pessoas mostrarem para as outras, para poder rabiscar e tal. E depois a gente vai para a outra sala onde estão os computadores e a internet e lá é o momento de publicação. Então, há o momento de criação, há o laboratório, há o pensar, o discutir. E aí foi legal. Eu usei primeiro um power point, tinha um data show e aí eu projetei uns 50 haicais, alguns teus, vários outros. Eu procurei pegar uma amostragem o mais diferente possível, para que as pessoas pegassem ali aquilo que elas mais se identificassem e servisse de exemplo. E fui comentando algumas rodadas de discussão com as pessoas e fiquei surpreso, porque todo mundo produziu. Alguns se entusiasmaram, tem um que abri uma comunidade de haicai no orkut. E saiu daquela oficina fazendo haicai. Teve uma senhora, a tal da terceira idade, que estava lá e pintou por acaso porque freqüenta o Sesc naquele horário e se fosse um curso de como fazer bolo de fubá sem usar açúcar ela talvez estivesse lá, e pegou a coisa assim de modo surpreendente. Então eu vejo esse potencial, quando você fala, eu percebi naquele momento. Foi a única experiência que eu tive, mas foi muito instigante. Porque eu fiquei em vários momentos com dúvida do que ia acontecer, procurei usar o máximo possível da minha competência para fazer a coisa rolar ali. Mas eu fiquei surpreso e todo mundo, cada uma das pessoas ficou surpresa. Nós fizemos uma rodada de comentários e todo mundo não chegou a essa felicidade de sacação, dos eventos que você (Alice) deu, mas houve isso. Mexeu com as endorfinas das pessoas, mexeu com elas próprias. Foi muito interessante. E eu me lembrei de uma experiência quando eu comecei a escrever haicai. Uma amiga da minha mulher, de Ribeirão Preto, ela é professora e falou: “ah, vou colocar os alunos escrevendo haicais”. Ela é professora de história. E o resultado foi fantástico. Ela nunca tinha mexido com isso, nunca tinha visto haicais antes e depois me mandou os haicais que os alunos escreveram. Era sobre escravidão, tinha feito um trabalho e eles tinham que escrever haicais. E tinha coisas assim comoventes, dois ou três eu até coloquei no meu site. Lá quando sorteia são alunos assim de 12, 13 anos, sei lá. Então, este parênteses enorme é para comentar aquilo que você falou. Então, voltando ao meu breguete do livro, eu fiquei quatro anos fazendo o livro. O Massao ficou meio mal, né, com os excessos de uma garrafinha de uisque por dia etc. e tal, mas isso aí todo mundo sabe. Ele estava meio mal, eu cheguei até a achar que de repente ele ia bater com as botas e tal, porque ele estava… E eu fiquei meio duro, não tinha mais grana, uma fase difícil, não procurei nenhuma editora, também não sou nem conhecido, nada. Então ia ser uma edição de autor, eu ia ter que gastar grana do meu bolso e depois para distribuir ia ser outro mico, como é. Aí eu também deixei meio de lado. De repente voltei a me interessar de novo por isso, procurei o Massao, ele já estava se recuperando, parou de beber, está engordando, fortão, voltou a trabalhar e tal. Só que ele tinha perdido os originais do livro. Então coloquei minha assistente ajudando ele. Durante três dias, ela foi todo dia pra lá, ficou lá vasculhando caixotes e caixotes, toda história editorial do Massao estava ali. Tinha coisas em fotolito, em originais e tal e acabou achando. E aí saiu o livro, eu pedi pra minha mãe fazer as ilustrações e agora estou nessa lide. Acabei, um montão de gente, enfim me procurou, quer falar que eu vá falar de haicai, etc. e etc. De repente tem um efeito que eu não tinha pensado nisso. É uma coisa assim que me puxa. Eu não pensei nunca em nenhum momento em que eu iria escrever haicai, que eu iria falar sobre haicai, qualquer coisa. Nem me considero muito assim, porque eu tenho um discurso mais à margem. Mas produziu esse efeito bastante interessante, que tem me levado por outros caminhos da literatura. Nesse momento, inclusive, tem um pessoal da UBE, União Brasileira dos Escritores, meu amigo Levi, querendo que eu colabore mais, querendo que eu entre inclusive lá para a Diretoria, não sei o quê. Enfim, então de algum modo, e o Fábio Lucas fala isso no prefácio que ele escreve aí, que na verdade é um pósfácio, que a gente conversou muito sobre como o haicai tem servido pra mim como uma porta de entrada, uma abertura de eu me soltar. Eu sempre fui um leitor compulsivo, eu fugia às aulas, repetia de ano para poder ficar lendo literatura etc., sempre fui um leitor compulsivo. Mas nunca me meti a escrever nada. E o haicai tem isso, ele é uma porta de abertura muito poderosa. Aquela coisa que eu falei do buraquinho da agulha, ele produz esse efeito nas pessoas. A senhora que a Alice falou que dá risadas, que redescobre o humor, eu acho que é o executivo estressado do dia a dia que encontra o lado zen, faz um pequeno jardinzinho zen dentro dele. É um buraquinho pequeno que acho que tem uma parábola qualquer, não sei se é Jesus, que fala que é mais fácil um camelo passar no buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino do céu. Não acredito nisso, porque acho que os ricos passam muito mais fácil. Mas tem esse aspecto muito poderoso do haicai, como esse buraquinho que mexe com uma coisa muito poderosa. E ouvindo o que vocês estão colocando, acho que isso vai ficando bastante evidente. Quer dizer, tem um carga muito grande à volta. O segredo é ele ser tão pequenininho. Porque alguém já brincou comigo: “ah, o haicai é muito legal mas é uma brincadeira. É que nem o cara ser um pintor e fazer um quadro na cabeça de uma agulha. É um desafio.” Essa é uma visão, na hora me incomodei um pouco, está bem, é divertido. Qualquer caricatura e falar mal de alguma coisa, a priori sempre acho muito divertido. Porque o bobo da corte tem que estar sempre presente, porque quando você não tem o bobo da corte, o despotismo vem aí. Certo? O Mussolini e o Hitler não permitiam o bobo da corte, a gente sabe que o Stalin também não, o Garrastazu também não, enfim, eu acho que é legal questionar isso. Em que medida o haicai não é só um brinquedinho de alguém que não tem estofo para escrever um pouco mais? Acho uma provocação legal. Me incomodou um pouco na hora e tudo mais. Mas refletindo sobre ela, dá para desconstruir e ver como não tem nada a ver. Como o haicai é essa passagem para uma outra dimensão, falando em termos de ficção científica, uma outra dimensão. E você só pode passar pra ela por um buraco bem pequenininho, porque se ele for um pouco maior, você quebra a magia e perde essa outra dimensão. Então acho que o haicai tem um pouco disso. É uma coisa de ficção científica, sai aí um pouco do lado zen. Mas também tem lado zen na ficção cientifica, né? Enfim, cessar.

[…]

José Santos – Carlos tem alguma consideração final?

Carlos Seabra – Sim, uma coisa que assim, as grandes perdas…Uma coisa que eu acho, só voltando àquela questão do sintético ter a ver com o mundo de hoje e etc. e aí eu falo também na perspectiva do educador, né, porque metade do meu trabalho profissional é trabalhar com formação de educadores, com pedagogia, estratégia de ensino, projetos e tal. E uma das coisas que eu mais prezo e dou valor é a questão da palavra escrita. Porque é terrível o que a gente vive, porque a escola, que em grego significa local de prazer, na verdade as crianças aprendem a ter medo e odiar o conhecimento. Então uma criancinha que pergunta: “manhê o que está escrito ali naquele cartaz?”, ela vai pra escola e sai odiando Machado de Assis. É isso que a escola faz com ela. A escrita como uma forma de expressão, ela na escola só é usada, a escrita, no momento sadomasoquista da prova. A criança só pode escrever quando ela fica com dor de barriga e vai ser avaliada por isso. E aquilo que se pede a uma criança na escola, não se pede a nenhum Machado de Assis, a nenhum Camões e etc., que é o seguinte: eles têm que escrever uma coisa sem rasuras, sem erros de português, criativo, com começo meio e fim. Quer dizer, um absurdo. O texto é feito para rabiscar, rascunhar, enfim, não vou entrar nisso aí porque… E o papel histórico da palavra escrita ele se perdeu. No tempo das caravelas, quando o sujeito estava aqui e queria falar com a mulher amada ele mandava uma missiva que ia pela caravela Del Rei. E seis meses depois, se a caravela não afundasse e se a amada ainda o amasse, ela lê-lo-ia e respondê-lo-ia com as mesmas premissas na volta, se não afundasse, se ele ainda recordasse dela…(risos) Mas isso legou à humanidade uma “puta” quantidade de material escrito, cartas de Van Gogh ao seu irmão Theo e por aí vai. Hoje em dia a gente está numa coisa muito mais rápida e a escrita com todas essas perversões, ela ficou, criou-se uma linguagem à parte dominada pelo cartorial, uma escrita dos advogados. Você escreveu, a pessoa já “opa, que você está querendo?” Então as pessoas escrevem, por exemplo, é quase poético você dizer “dá-me água, pois tenho sede”. É uma coisa curta e tem poesia nisso. Ter sede, ter uma necessidade satisfeita é bonito. Na linguagem escrita as pessoas aprendem que “venho por meio desta solicitar-lhe um receptáculo cheio de água, a fim de que satisfaça…”. Então o haicai vai na direção oposta. É o seguinte: ele ensina a falar menos e dizer mais. Essa concisão é uma coisa que é um primeiro passo na direção da tal utopia considerando como utopia a pessoa dominar a escrita como um todo. Não é só no haicai, mas acho que só o haicai já é de bom tamanho. Certo? E você acabou de relatar isso. De repente está com uma produção de haicai que acabou suplantando o verso. O verso fica lá quieto. Mas o haicai tem essa tal de abertura, aquele buraquinho que eu falava a pouco, aquela primeira pedra que você pisa nela e aprende a andar sobre as águas etc. Tem um caminho que vem aí e acho que esse caminho é aprender a escrever. Tem isso também, tem esse caráter educacional, esse caráter pedagógico. E eu acho que isso é de uma importância muito grande. A pessoa aprende a valorizar, aprende… Tem o São Gregório de Nazianzo, tem uma frase muito inteligente, ele é um monge aí de uns séculos atrás e ele diz que dizer muito não é escrever com várias palavras. A frase agora eu não me lembro. Até uso na introdução desse meu livro de microcontos, porque acho que é uma habilidade que se perdeu, né? O dizer menos ficou sinônimo, e principalmente hoje em dia quando a gente pega a educação o pessoal fala: “e aí?”, “só”, “falô”. Aí é o não dizer nada, uma coisa monossilábica. O haicai, ele consegue reduzir ao mínimo dizendo o máximo. Ele provoca imagens na cabeça das pessoas. Acho que esse caráter cinematográfico do haicai, porque ele o é, eu não conheço nenhum haicai que não desperte os teus neurônios, ele se concatenam lá como umas sinapses e é extremamente visual. Você faz um montão de constructos, você quase que ouve sons psicodélicos. Se eu fosse o Timothy Leary, eu dizia que isso aí é que nem tomar um LSD e tal. Aliás, o Timothy Leary antes de morrer ele estava trabalhando com software, e no último livro dele, ele diz uma coisa interessantíssima, vale a pena ler, ele diz algo como: “se houvesse software na época em que eu fazia experiências com LSD, eu teria preferido fazer com software porque dá muito mais barato”. E de certa forma, alarga mais as portas da percepção. Exatamente. E eu acho que o haicai tem isso. Ele alarga as portas da percepção.

Alice Ruiz – É uma boa droga!

Carlos Seabra – Exatamente. E provoca tudo, ele é sensorial, extremamente sensorial. Você faz uma viagem. A pessoa faz uma viagem e depois desova, ela volta ao mundo real tendo produzido um haicai, aquilo tem uma história. Tem uma viagem que ela fez, viagem no sentido lisérgico. E quem ler vai fazer também aquela viagem. E a viagem é intelectual, é sensitiva, ela vai falar também com as células do teu corpo lá embaixo, vai te fazer ouvir sons, ver imagens…

Alice Ruiz – E é sem contra-indicação, né?

Carlos Seabra – Ah, eu acho que sim.

Alice Ruiz – Mas é subversivo.

Carlos Seabra – Subversivo, mas subversivo é uma coisa superindicada. É a única coisa que vale a pena, aliás.

Alice Ruiz – Eu sei que está terminando, mas só para corroborar. Teve um aluno meu, em Ouro Preto, ele é flautista da sinfônica de Belo Horizonte, que não escrevia. E ele fez na oficina 15 haicais. E os 15 haicais foram selecionados pelo grupo com aplausos. Então ele se descobriu um haicaista. E ele namora uma psicanalista que trabalha numa clínica para loucos chiques, loucos, quer dizer… Enfim, pessoas com problemas mentais, mas numa clínica paga, aquela coisa. E ela pediu ajuda a ele, ele comentou com ela o trabalho da oficina de haicais, que ficou todo feliz, porque se descobriu poeta e aí ele me mandou um e-mail perguntando se poderia usar minha apostila e dar uma oficina para os pacientes da clínica. Eu falei: “pode, mas o preço é você me mandar a produção dos pacientes”. Maravilhoso! Maravilhoso! O pessoal viu, claro alguns não conseguiam se desligar da sua neurose, mas a maioria foi surpreendente a sensibilidade deles, como funcionou. É isso que você estava falando agora desse abrir a porta da percepção. Eles tiveram absoluto sentido na haicai. Era só isso.

Carlos Seabra – Não, é exatamente isso que eu já tinha praticamente falado que é essa coisa da loucura. Aliás, eu fiquei interessadíssimo nessa experiência, porque tem uma amiga minha, a Elisa Band, que trabalha com teatro para loucos e é muito interessante. Bom, primeiro esse conceito de loucos e tal… Pois é e eu acho importante que não é só essa coisa que agora está na moda, não ficar preso em manicômio, mas há um aprendizado que se tem com os loucos e os índios têm isso. Quer dizer, o cara quando é louco, enlouquece na tribo, ele é quase colocado no mesmo papel que um sábio. Ele é ouvido, porque vê coisas que os outros não vêem. E nesse sentido a coisa mais parecida que se tem com o louco é o poeta, certo? Ele está ali no limiar. E muitos deles foram trancafiados por causa disso. Então eu acho que essa coisa da loucura é a premissa até para enxergar melhor essa coisa do dia a dia, né? Que nem essa senhora que você falou. Aliás, esses exemplos que você falou e tal, eles encerram em si, são quase que haicais em termos de exemplos. Era isso.

José Santos – Então, olha, antes da gente partir para a nossa esperada renga, eu só queria avaliar que eu acho que foi uma conversa maravilhosa, uma forma… Nós tivemos tantas entrevistas nesse ano, mas a forma de terminar o ano ouvindo essas histórias de haicai foi um fecho maravilhoso. E eu acho que a forma de uma roda de haicai, o melhor modelo são três pessoas mesmo, como os três versos do haicai. Eu acho que é uma interação perfeita. Tem rodas de oito pessoas, de sete, mas a coisa fluiu de uma maneira assim muito legal e eu acho que daqui pra frente, já temos um conselho consultivo e curador do que fazer aí dessa memória do haicai. Já mapeamos uma série de nomes e a gente tem falado sobre isso. Então já está falado. E a gente tem que mapear uma série de nomes, pra pensar de que maneira a gente pode envolver…

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Renga a 8 mãos e 3 garrafas de saquê

Por Alice Ruiz, Carlos Seabra, José Santos e Rodolfo Guttilla

Copo de saquê (Alice)
Banho de cachoeira (José)
Louça lavada (Rodolfo)

Peixes dormindo
Ensolarado domingo (Seabra)

No vau dos canais (Rodolfo)
Leques de libélulas (José)
Mil sombras sobre as pedras (Seabra)

Refletidas nas águas
Cintilam efêmeras (Alice)

Barulho de asas (Seabra)
Cascas do tronco caem (José)
Noite chegando (Alice)

Cascos de boi
Estrume fervendo (Rodolfo)

Zumbido de moscas (Seabra)
Um perfume de frutas (Alice)
Os deuses estão felizes (Rodolfo)

O sereno pousa na poça
Há quem o ouça? (José)

Coloquei nesta postagem somente os trechos relativos a minhas falas, pois o conjunto completo deverá ser publicado brevemente em livro e não desejo “canibalizar” o produto.

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O prazer do jogo

01/08/2003

AGOSTO 2003

Palestra apresentada durante o Seminário Internacional “Memória, Rede e Mudança Social“, do Museu da Pessoa em conjunto com o Sesc SP, de 12 a 14 de agosto de 2003, na mesa “Histórias Digitais”, da qual fizeram parte Thom Gillespie e Carlos Seabra.

Sou criador de vários jogos e trabalho com educação. A abordagem em que sempre penso, ao elaborar projetos educacionais, culturais e outros, e muitas vezes não digo isso para não assustar as pessoas, é a lúdica. Digo isso porque, na verdade, acho que vivemos num jogo, que é a vida; um jogo não no sentido de manipulação do outro, embora muita gente jogue assim.

Podemos pensar no planeta como um tabuleiro, ele é todo cheio de casinhas, latitudes, longitudes e nós somos peças. Em parte, herdamos da nossa cultura as regras do jogo. Em parte, as inventamos, reinventamos, tentamos descobrir que regras são essas. Nesse sentido, recomendo um livro muito interessante, o Homo Ludens, de Huizinga. Neste livro (escrito em 1938, publicado no Brasil pela Editora Perspectiva), o autor aborda o jogo na história da humanidade, nas relações entre as pessoas; ele mostra como em tudo existe algo de jogo; e não só entre os seres humanos, mas também entre os animais. Quando um cachorrinho está brigando com outro, não é de verdade. Estão brincando de brigar e se preparando para futuras disputas pela fêmea. O jogo existe em tudo, até na relação amorosa: esta é um jogo em que o tabuleiro são os corpos de um e de outro, e onde as regras também precisam ser descobertas, criadas.

Vivemos com a Internet, que é um grande jogo do encontro das pessoas. No fundo, o jogo é também um pretexto para as pessoas se encontrarem e interagirem. O pessoal que fica jogando durante horas uma partida de buraco, está também batendo papo, comendo amendoins, tomando um chope: é uma forma de sociabilidade. O jogo tem essa função também. Um grande jogo freqüentado pela maioria dos internautas, que não se apercebem que é um jogo, é o chat. A sala de bate-papo é um grande passatempo. Sobre ele ouço as mais diferentes manifestações. Há pessoas que são viciadas: ficam lá horas por dia, mas não admitem isso. Dizem que usam Internet para navegar, para pesquisar, trocar e-mails, e que chat é muito chato, que só entraram uma vez. Existe aí uma dose de mentira muito grande, isso voltando à questão da verdade e da mentira, que também é um jogo.

Escola sem prazer

São atividades que dão prazer e são mais ou menos censuradas. Tem origem na nossa educação escolar, e é isso que temos que mudar. E aqui uma curiosidade: o significado grego da palavra escola é local de prazer. Isso é que a escola deveria ser. Um local para se ter prazer intelectual. Não precisa de outros, porque o mundo está cheio deles, mas o prazer intelectual a escola não estimula. A criança que está curiosa para saber o que são essas letrinhas aqui, entra na escola e sai dela odiando Machado de Assis. É um jogo que não está dando certo, pois nasceu da construção de competências de outra sociedade, a da mão de obra fabril. Hoje, a escola ainda é taylorista, fordista, as pessoas aprendem mais a ter disciplina e a respeitar o professor do que a ter a prazer na aprendizagem. A isso se juntam alguns traços da nossa cultura judaico-cristã, que associa o erro ao pecado. Se o fulano errou, quer dizer que ele pecou. Mas nunca que ele formulou uma hipótese que não obteve sucesso. E errar é parte intrínseca do jogo.

Master Mind é um jogo internacionalmente conhecido, lançado no Brasil como Senha. Você coloca uns pininhos coloridos, e o adversário tem que adivinhar a ordem deles. Conforme ele põe pinos coloridos, você responde colocando pininhos pretos ou brancos indicando se é a cor certa no lugar certo ou no lugar errado. Nesse sentido, a melhor resposta que você pode ter, quando você formula a sua hipótese é o outro dizer que você errou tudo, pois assim você já descarta de cara aquela cor. É a melhor coisa, a melhor informação que poderia haver, porque do erro advém informação. É na escola que se forma uma série de conceitos, e acabamos carregando isso, por exemplo, do errar como sendo um sinônimo de pecar. Isso também tem a ver com a cultura industrial, porque o operário que está na linha de montagem, como Charles Chaplin em Tempos Modernos, não pode errar porque um erro vai parar a esteira de montagem. Errar é um luxo impensável na sociedade industrial. Mas, na sociedade da informação e da comunicação, o erro deve ser estimulado.

O jogo na escola deve mudar também. A prova é o único lugar onde é usada a linguagem escrita. A escola deveria ensinar a ler e a escrever, mas ensina a odiar Machado de Assis e outros autores e pune quando os alunos escrevem espontaneamente. Na escola só é permitida a escrita no ritual sado-masoquista da prova. Quando o aluno escreve para armazenar informações, visando posterior recuperação no contexto adequado de utilizá-las, isso é chamado de cola e é punido. Deveria ser estimulado. É a atividade mais útil, armazenar dados para transformar em informação e construção de conhecimento.

A verdadeira prova deveria ser assim. O Joãozinho traz a prova para a professora, que diz: “Joãozinho, a primeira questão está certa, mas você foi muito lacônico, peço que você reconsidere e aprofunde um pouco mais a resposta. A segunda está totalmente errada, você deve pesquisar melhor. A terceira está muito boa, até peço licença para usá-la em minhas aulas futuras”. Você devolve a prova ao Joãozinho e quando ele a trouxer pela segunda vez, após os comentários da professora, aí sim a prova deveria ser merecedora de nota. Isso é mudar as regras do jogo. Nesse sentido, o raciocínio lúdico é muito importante para entender o mundo. É que às vezes o jogo é usado no sentido pejorativo, como sinônimo de manipulação. No entanto, a consciência lúdica é mais uma ferramenta para entender a realidade.

O jogo do chat

Mas, voltando ao chat, ele é um grande jogo em que as pessoas são personagens. Nesse sentido tem tudo a ver com história oral, com história digital, com ficção, e tem tudo a ver com a verdade também. Mesmo quando o sujeito pretende ser o que não é, no fundo ele é. Aquilo que você quer ser é parte daquilo que você é. Então, quem afirma que quer ser médico, de alguma forma já é um pouquinho médico. Só pelo fato de querer ser, ele já passa a ser. Quando o sujeito diz que quer ser assassino, matar um montão de gente, no fundo já é um pouco assassino, se você permitir. O Fernando Pessoa já dizia isso, que “o poeta é um fingidor, finge tão completamente, que chega a sentir que é dor a dor que deveras sente”. O sujeito que entra no chat e diz sou uma loira de olhos azuis, no fundo talvez queria experimentar isso. Não quer dizer que queira ser isso de verdade. Ou seja, no chat você pode vivenciar coisas que não é.

Um jogo que o Thom Gillespie mencionou, de um sujeito que mija no elevador ou o sujeito que atropela cachorros, não acho que isso seja necessariamente negativo, porque faz parte de um experimentar. Quem, ao jogar War, já não foi um grande general que arrasou continentes? No fundo, aquele sujeito é o maior pacifista do mundo, incapaz de matar uma mosca. Faz parte do processo civilizatório viver coisas que você não é, até para saber que não quer ser. Quando você lê um romance passado na Bessarábia, pode achar que foi ótimo ler o livro, mas não pretende ir passar suas férias lá. Quando joga um joguinho em que você é um grande assassino nas catacumbas do planeta tal, você descarrega toda uma energia. Isso não é barbárie. Barbárie é um sujeito no boteco da esquina, na favela da periferia, quebrar uma garrafa e espetar a garganta do outro, assassiná-lo porque estava um pouco alto e o alvo falou que torcia para o time que ele odeia. Processo civilizatório é o sujeito dar vazão a toda essa carga primitiva e agressiva em processos criativos, seja na arte, na música. Beethoven era um dos maiores loucos do mundo. Só que usou essa loucura para produzir sinfonias fantásticas. Van Gogh era outro louco que utilizou sua insanidade na pintura.

Quando alguém está jogando xadrez, acha que isso é civilizado e não percebe que representa uma agressão recíproca porque é o simulacro de uma batalha. Mas o xadrez muda também, ao longo do tempo. Por exemplo, o xadrez que acabei de mencionar, nasceu como chaturanga na Índia; ele era um jogo para quatro pessoas, característica dos jogos indianos. Quando foi para os países árabes o xadrez virou shatranj, e, de quatro pessoas, reduziu-se o número a duas. Ao invés de ter dois reis no exército, passou-se a ter um vice-rei. Só quando o xadrez veio para o ocidente é que o vice-rei passou a ser chamado de rainha. E do mesmo jeito o elefante: quando o jogo veio para o ocidente, a estilização das duas orelhas do animal fazia lembrar a mitra do bispo. Então, ele passou a ser chamado de bispo. E, quando no xadrez ocidental o peão chegava na última fileira, ele ficava lá parado esperando ser comido. Foi preciso vir a Revolução Francesa para mudar o papel do peão no xadrez. Só depois disso é que o peão foi promovido a uma peça nobre. Há poucos anos atrás, um professor norte-americano da New Left – lá também há gente de esquerda –, inventou uma variação do xadrez chamada Luta de Classes, em que você coloca de um lado os dezesseis peões e do outro as oito peças nobres. A estratégia entre ambos é completamente diferente.

Voltando mais uma vez à questão do chat, ele possui uma outra coisa também: é um jogo em que as pessoas entram, inventam o seu personagem e como em todo jogo, é necessário um mínimo de respeito às regras. O estraga-prazeres não é aquele que rouba no jogo, é aquele que se recusa a jogar. O sujeito que procura jogar uma carta que não tem está de algum modo fazendo parte do jogo. O que pega a sua parte no baralho, põe no bolso e vai embora, esse é o verdadeiro estraga-prazeres, porque está se recusando a jogar. Uma experiência muito interessante para se para fazer numa sala de chat é sobre aquelas tradicionais perguntas. A primeira coisa que as pessoas querem saber é se você é homem ou mulher. Experimente entrar com um nick name dúbio, que não informa isso. Você vai ser bombardeado. Em seguida querem saber o local geográfico onde você está, depois a idade. Se você conseguir fazer um jogo sutil de não passar nenhuma dessas informações, as pessoas entram em paroxismo. As pessoas precisam disso até para inventar quem você é. A invenção está dos dois lados. Você diz: Eu tenho tanto de altura, peso tanto. Aí ele começa imaginar o que quiser. Ou seja, você é responsável por aquilo que você diz, mas não por aquilo que o outro imagina. Se você não der os elementos mínimos, e esse anti-jogo é muito divertido também enquanto experiência, você vai ver que a pessoa fica irritada. Elas preferem que você invente, mas que forneça a elas o mínimo para que possam inventar o resto.

Caverna de Platão

Uma coisa engraçada que eu estava aqui pensando enquanto o Thom falava é a que, não sei se alguém já leu sobre a alegoria da caverna, de Platão. Ele diz que, na verdade, o mundo existe num local virtual que é a caverna. É nesse mundo ilusório que existe a verdade. E nós, aqui, somos uma mera projeção. Então, de certa forma, entramos nesse novo mundo virtual que nos traz grandes desafios, pois parece que não existe, que é uma dimensão paralela. Só quem está no mundo virtual transita e vem ao mundo real. Cada vez mais o valor do arroz e do feijão, da saca de cimento, é ditado por esse mundo virtual. Quem joga o grande jogo da Bolsa de Valores, da manipulação desses meios virtuais, tem cada vez mais controle sobre o mundo real. E quem só está no mundo real, como o morador lá da favela, analfabeto, está cada vez mais alienado do mundo em que vive.

Sempre uso um exemplo nas minhas palestras sobre inclusão digital: lá está o seu Zé no campo cavando a terra. Aí passa o patrão dele a cavalo e fala para o seu Zé: “Oi? Tudo bem?” Ele saúda o patrão, conversam um pouquinho, um vai embora e o outro continua cavando a terra. Passam-se os anos, e está lá o seu José, ou o filho dele, ou o neto, o tataraneto, porque sempre existe um seu Zé cavando a terra. Cresceu a tecnologia. Passa o patrão, que pode ser o neto ou o bisneto do patrão do início desta história, só que agora cresceu a tecnologia e ele não passa mais a cavalo. Passa num BMW, na estrada, em alta velocidade, abaixa o vidro fumê de seu carro (que estava fechado por causa do ar condicionado), e dá um tchauzinho para o seu Zé lá embaixo do sol. Eles já não conversam mais, mas ele dá tchau para o patrão que passa nessa nova tecnologia chamada automóvel. Passam-se os anos e está lá o seu Zé, ou um descendente dele, e passa o patrão dele agora de avião, num jatinho no céu. Então, o seu Zé ainda dá um tchau para aquele jatinho sem saber se o patrão está a bordo ou não. O patrão olha para baixo e vê um pontinho preto; não sabe se é um seu Zé qualquer ou um boi lá no meio da propriedade. A tecnologia está então aumentando ainda mais à distância da possível comunicação. E hoje o patrão desse seu Zé passa pela Internet. O seu Zé nem sabe se ele está passando ou não, o patrão dele é virtual. Ele nem sabe se o patrão está aqui no Brasil ou na Bélgica. O patrão dele agora se desloca na forma de bits e não mais de átomos. Então, esse novo mundo virtual que interage com o nosso mundo real, esse novo Topus nu Ethos que temos traz novas percepções da realidade. É muito interessante o caso de Thimoty Leary, aquele louco que usava LSD para expandir as fronteiras da mente e que em seus últimos anos se dedicou à pesquisa de software. Ele dizia: se existisse software quando comecei fazer as pesquisas com LSD, eu nem teria precisado daquilo, porque o software dá muito mais barato. Mexe muito mais com a percepção.

A nova escrita

O que o chat nos traz de novo? Fazendo uma conexão com a questão das histórias digitais, é um jogo no qual estamos contando histórias, inventando, sendo protagonistas. Todo mundo sempre contou histórias ao longo dos tempos, só que a história oral não fica. Já diziam os romanos: verba volant scripta manent. Quer dizer: as palavras voam, a escrita fica. Temos historinhas da Mesopotâmia até hoje em tabuinhas e já não sabemos com certeza se o que diziam na época chegou até nós. Já a Internet nos traz um ambiente onde a pessoa, ao falar com o outro, nem que seja uma bobagem, está escrevendo. Isso muda também a nossa relação com a escrita, que deixou de ficar circunscrita a poucas palavras trocadas pelas pessoas. Antigamente, quando não existia telefone, televisão, não existia rádio, a pessoa vinha para o Brasil e deixava a amada em Portugal. Aí mandava uma missiva pela caravela d’El Rei, que demorava seis meses para chegar, se a caravela não afundasse. Se ao chegar, a amada dele ainda o amasse e lhe respondesse, outros seis meses decorreriam até chegar uma possível resposta. Era um processo longo, que nos deu belas histórias da humanidade, como as cartas de Van Gogh ao seu irmão. Existem hoje belíssimos acervos na forma de cartas, de correspondências entre intelectuais, material de anônimos, etc. Quando Graham Bell teve a genial idéia de inventar o segundo telefone – a grande idéia do Graham Bell não foi inventar o primeiro, que não serve para nada, mas foi inventar o segundo, que permite a comunicação com o outro (aliás, pequena curiosidade, esse segundo aparelho foi comprado por Dom Pedro II) – deixou de ser importante a comunicação por escrito. Ficou mais fácil ligar: “Oi querida! Você ainda gosta de mim? Desligue. Amanhã ligo de novo”.

A escrita perdeu o papel que tinha antes, mas a Internet veio resgatar isso. Ela faz com que todo mundo escreva e colocou na educação um potencial fantástico. Tenho desenvolvido vários projetos sobre isso em escolas, públicas principalmente. Usando a comunicação pela Internet, notamos um salto de qualidade na capacidade das pessoas colocarem suas idéias no papel, nem que seja esse papel virtual e a projeção da sua auto-imagem na escrita. Aquela menina paulista que está trocando correspondência com um rapaz de Pernambuco, por exemplo, ela diz: “estou conversando com um gatinho lá de Recife”. Como você sabe que ele é um gatinho? Ele te mandou foto? “Não, mas ele me escreve tudo bonitinho”. Porque nós somos aquilo que escrevemos. E como é essa menina? Pela Internet, ela não pode seduzir com uma roupa bonita, com a maquiagem, com corte de cabelo, aqueles truques femininos, um jogo tão delicioso de jogar. Eu particularmente adoro isso, o jogo de sedução que caracteriza a relação entre os sexos, mesmo que o objetivo não seja sexo. Só um mero flerte já é um grande jogo, que passa através daquilo que escrevemos. Então, se escrevemos com erros de português, o outro já faz uma imagem sua como um sujeito desdentado, que não tomou banho, que usa roupas feias. Isso nos traz um contexto, um tabuleiro de jogo fantástico, se pensarmos em novos tipos de relações na rede social e na possibilidade de uso disso na educação.

Outra coisa que as novas tecnologias de comunicação, principalmente a Internet, nos trazem é a possibilidade de mais facilmente sermos autores, protagonistas. Sempre digo para o pessoal nas escolas que mais importante do que surfar na Internet é aprender a fazer onda; ou seja, compor uma musiquinha, fazer um rap, fazer o seu MP3 e mandar para a rede. É usar o Napster, o Kazaa, etc. Todas essas ferramentas peer to peer, não existem somente para pegar músicas, mas para sermos autores também. Gravar a música da sua banda, codificá-la em MP3 e colocar no ar na Rede. Nos nossos trabalhos de inclusão digital na periferia de São Paulo, procuramos trazer a terceira idade, pois a juventude não precisa. Na periferia ou na escola, parece que essa juventude já nasceu com o mouse na mão. O pessoal vê o computador e já sabe o que fazer. A minha neta tem quatro anos e a primeira vez que ela se sentou na frente do computador eu não precisei ensinar nada. Ela já sabia abrir, fechar, clicar duas vezes no ícone. Já virou algo meio intuitivo para a nova geração.

Bolo de fubá

Lidar com terceira idade é um processo mais complicado. Aliás, houve um evento no Itaú Cultural sobre jogos, fui até lá dar uma palestra e depois me mostraram uma simulação que o pessoal do ItaúLab desenvolveu, uma versão nossa do MediaLab. É uma visita virtual à Avenida Paulista no começo do século passado (1920/1930), com todos aqueles casarões. Um jogo só para fazer uma simulação histórica. E levaram uma velhinha lá, de noventa e tantos anos. Quem fez isso foi um jornalista da Folha, Sérgio D’Ávila se não me engano. Ele ficava mostrando para ela, que ia comentando. Ao se deparar em um determinado casarão, o operador do computador dava um zoom, e a velhinha se entusiasmou: “aqui as pessoas usavam roupas melhores do que essas.” “Nessa casa está faltando um detalhe.” Ao fim, ela disse: “gostei muito desse filme.” Para ela aquilo não era uma realidade virtual. Disse ainda: “achei engraçado, toda a vez que eu olhava para um detalhe, o filme parava e mostrava mais, parecia que ele estava acompanhando o que eu pensava”. As pessoas até tentaram explicar, mas ela saiu convencida de que tinha assistido a um filme. De fato, a terceira idade tem uma dificuldade maior em entender o novo paradigma.

Há algumas estratégias novas quando trabalhamos com inclusão digital da terceira idade, que no fundo é também colocar as pessoas para serem autores e protagonistas. Por exemplo: uma senhora que passou toda a sua vida sendo dona de casa, não vai querer olhar o Museu do Louvre, nem jogar um joguinho interativo. Mas provavelmente irá gostar de entrar em um site de receitas culinárias. “Olha! Essa receita de bolo de fubá é parecida com a minha”. Aí a receita é impressa. Ela leva a receita em papel – melhor que seja num corpo catorze, para enxergar melhor – e mostra a suas amigas, conquistando certo upgrade social, inclusive. Pois as outras vão dizer: “mas, Clotilde, onde você pegou essa receita? Na Internet? Não acredito! Aquela coisa da novela! Aquela coisa que o meu neto usa?” A partir desse momento, ela está fazendo parte da rede também. É importante pensarmos nas novas tecnologias, usando também as velhas tecnologias, ou seja, a impressão em papel do exemplo, ou lápis e caderno, ainda hoje as melhores tecnologias que existem.

Aquela senhora vai fazer sua rede social levando a receita para as amigas. Isso vai gerar comentários, mas, normalmente, o que ocorre posteriormente? Duas ou três semanas depois ela já não quer mais ver receitas na Internet, e começa a criticar. É muito engraçado. No início: “O que é isso?” Um computador. Um mouse. Duas semanas depois, já se pode ouvir: “a conexão está lenta, não é?” É impressionante. As pessoas se habituam com muita rapidez, e começam a questionar. “Ah, mas eu tenho uma receita muito melhor do que essa, quero colocá-la na Internet”. Esse é o passo seguinte.

A Internet é por excelência o espaço para sermos autores, protagonistas. Claro que não é o caso da senhora dona-de-casa aprender a programar HTML para fazer uma página. Aí começamos também a quebrar um conflito de gerações. Chamamos um rapaz que está lá, louco para aprender HTML, para fazer sites que não tenham tanto conteúdo. Ele pode ajudar a velhinha a colocar sua receita na Internet ou, o que está cada vez mais freqüente, usar ferramentas disponíveis para editoração automática. Não é preciso entender de HTML, de flash, etc. É só entrar na Rede, os blogs estão explodindo, porque é um instrumento fácil e existem diversos outros softwares para construir histórias coletivas, uma ficção coletiva. Aquilo que o Ramalho Ortigão e o Eça de Queirós fizeram com o romance O mistério da estrada de Sintra, em que cada um escrevia uma parte. Passava para o outro o pepino, uma parte mais difícil, o outro continuava a história e isso resultou em um excelente romance. Você pode fazer isso hoje na Internet, um trabalho de ficção coletiva em que cada um vai escrevendo um parágrafo, que vai sendo agregado. Isso é um jogo e ao mesmo tempo as pessoas colocam, às vezes, uma história de vida. Esses ambientes estão cada vez mais ricos.

Outra coisa fantástica é o Wiki, desenvolvido por um norte-americano, Ward Cunningham. O wiki, segundo o autor, vem do idioma que se fala no Havaí. Wiki wiki significa rápido, e é uma série de telas, ligadas umas às outras, onde se pode escrever o que quiser e uma palavra pode ser um link para outra tela que outro escreveu, mesmo se a pessoa não entender nada de produção de páginas. Tem até uma experiência internacional chamada Wikiedia (wikipedia.org em inglês e pt.wikipedia.org em português), uma enciclopédia em Wiki em que cada um vai colocando seus verbetes. Claro, há muita porcaria misturada a coisas geniais. Como o Thom disse, a diferença entre nós, pessoas comuns, e um Leonardo da Vinci, um Einstein, é que eles fizeram muito mais lixo do que nós. Não tiveram medo de errar, de ousar. E todo mundo sabe que um processo de brain storming, um “toró de palpites”, em português, é falar muita besteira. No meio disso, surge uma idéia muito legal. Assim, esses ambientes de criação coletiva são novos desafios para nossa criatividade, e um grande instrumento em que aparece de tudo.

O saci pererê

Acho importante também, nessas novas ferramentas, ter mais conteúdos de língua portuguesa, que representam hoje apenas 2% dos conteúdos da Internet mundial, segundo cálculos do Comitê Gestor da Internet no Brasil. Quando fazemos um trabalho de inclusão digital, o grande objetivo é fazer inclusão social, e não viabilizar acesso às contas no banco ou fazer compras no supermercado. Até porque essa população excluída nem tem cartão de crédito. Nada contra, até porque é uma forma de democratização. Mas isso é tarefa para as empresas que irão lucrar com isso. Projeto de inclusão digital com dinheiro do Estado e o envolvimento de empresa de responsabilidade social devem visar um conteúdo de inclusão da pessoa, de forma que ela seja autora e protagonista. Porém, quando esse pessoal entra na Internet, a imensa maioria dos conteúdos é em outros idiomas. É um belíssimo desafio aprender a se comunicar em outros idiomas, através da tentativa e erro – e há casos fantásticos de pessoas que começaram a dominar inglês sem nunca ter feito um curso porque, com o já disse a Rita Lee, o inglês é o esperanto que deu certo. As pessoas aprendem essa língua de um jeito ou de outro e o idioma acaba sendo uma linha de comunicação. Mas também é preciso falar e encontrar conteúdos em seu próprio idioma.

Aí reside nosso desafio, o nosso Saci Pererê. Colocar as histórias que o nosso povo conta, as tradições e as histórias pessoais de cada um. Esse belíssimo trabalho que o Museu da Pessoa faz é uma das formas de ocuparmos a Internet com o conteúdo de quem nós somos. Se não está no virtual, você não existe, a sociedade virtual se caracteriza por isso. Então nós, de língua portuguesa, deveríamos ter como meta dobrar nossa participação. Em espanhol, os conteúdos somam cerca de 5%. Essa é outra dimensão interessante de considerar quando estamos inserindo novos conteúdos, não só populares, mas dos nossos intelectuais, que também são excluídos digitais. Por exemplo, meu amigo Fábio Lucas, que foi cinco vezes presidente da União Brasileira de Escritores, não usa e-mail. Ele ainda escreve usando máquina datilográfica. Como ele, há uma quantidade enorme de pintores, de escritores, que ainda não estão incluídos digitalmente. Com isso passamos a ter menos conteúdos na Internet.

Para concluir volto à questão da verdade que o Thom mencionou anteriormente. Creio que a verdade é uma procura e há uma espécie de jogo nisso. Quando é divulgada uma notícia, não sabemos mais em quem acreditar. Thom mencionou a CNN, nós temos aqui a Globo, o SBT, uma profusão de canais, e quanto mais a história é igual, mais desconfiamos que não estamos tendo acesso total a ela. Thom mencionou a CNN, Al Jazeera, e talvez sejam dois lados de uma mesma moeda, que ajudam a enxergar o mundo um pouco mais tridimensionalmente. Possivelmente tanto a Al Jazeera quanto a CNN não estão contando a história como talvez a víssemos olhando por um outro lado, pois dois envolvidos num mesmo conflito têm sempre uma visão unilateral. É por isso mesmo que há o conflito. Quem está fora vê tudo de outra forma, o que é um jogo também; talvez o principal, que vivemos no dia a dia.

De vez em quando somos convocados a jogar nesse grande tabuleiro em que brincamos com urnas eletrônicas – nisso o Brasil tem uma experiência ímpar, mas que também deixa dúvidas. Será que existe algum algorítimo por trás disso que pode fazer com que o voto que depositamos vá para outro? Essas dúvidas serão esclarecidas apenas quando tentarmos entender qual é a regra que está por trás disso. Qual é o funcionamento desse tabuleiro, desse mecanismo.

Conexões inéditas

Para finalizar, quero falar de uma experiência muito interessante, que mostra como a rede é próxima… Todos nós estamos muito perto. As pessoas sempre dizem: “como o mundo é pequeno”. E a Universidade Columbia fez um experimento para provar isso. Parece que estamos separados de outra pessoa em qualquer parte do planeta por cinco, seis ou sete pessoas. Qualquer um pode participar desse experimento através da URL www.smallworld.columbia.edu. Ao se cadastrar, recebe-se um target, que é uma pessoa. Eu me cadastrei e recebi uma moça, com nome que não vou citar. Ela é judia, mora em Nova Iorque e tem vinte e nove anos de idade. Meu objetivo é mandar um e-mail para outra pessoa que imagino possa chegar nela. Essa outra pessoa vai mandar para outra. Essa experiência é monitorada, eles vão tabulando e tecendo as redes. É muito interessante porque às vezes encontramos outra pessoa depois de duas ou três etapas, assim como pode também demorar quinze, mas a média no planeta é de cinco a sete pessoas. É a distância que cada um de nós está separado de qualquer outro, através de uma rede de desconhecidos. Essa rede é interessantíssima de ser utilizada para um grande jogo, em que é possível fazer uma rede de histórias pessoais, que talvez seja o que nos dá a visão mais multilateral da história do mundo. É como cada um de nós enxerga o negócio.

Nesse sentido é bom lembrar do livro 1984, em que o Big Brother observava a todos, tudo o que todo mundo fazia. Usando as tecnologias através da rede de histórias pessoais, cada um de nós sendo autor, protagonista, todos seremos os olhos que vigiam o Big Brother. Quando pudermos entrar no sistema do Senado, da Receita Federal e cruzar aquela verba que foi liberada para um determinado prefeito com o CIC, o RG dos proprietários daquela empreiteira que ganhou a concorrência, começaremos a perceber como os recursos são aplicados e onde e que interesses estão por trás disso. A partir desse momento nós estaríamos construindo o tabuleiro dessa democracia eletrônica que é a expressão, a caverna de Platão da democracia real do dia-a-dia, do nosso arroz, do nosso feijão, dessa vida de átomos. Só essa é a diferença do conceito entre bits e átomos, e aí eu concluo por agora, lembrando o professor Negroponte do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachussets), quando veio ao Brasil. Na alfândega, ele trazia um notebook e o fiscal perguntou: “você tem alguma coisa a declarar?” Ele disse: “não, só este notebook”. O fiscal quis saber quanto ele valia, e então Nicholas Negroponte retrucou: “você quer saber o valor em bits ou em átomos? Porque em átomos vale quatro mil dólares, mas em bits tem aqui uns quarenta mil dólares”. Cada vez mais estamos nesse mundo virtual, lidando com novos valores e agregando uma série de possibilidades para novos e interessantes jogos, conexão de rede e histórias digitais que é o que todos nós fazemos no dia-a-dia.

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