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Um desafio, o protagonismo cognitivo

28/11/2010

NOVEMBRO 2010

Texto escrito para a publicação Tecnologias na escola, do Fronteiras do Pensamento, em novembro de 2010.

Como nenhum outro meio de comunicação anterior, a internet nos coloca interativamente em contato, superando barreiras de idade, sexo, cultura, preconceitos e, principalmente, distância geográfica. Aqui, cada um pode não apenas ler o que quiser quando tiver vontade, mas pode escrever, participar… Junto com novas soluções e perspectivas vêm também novas exigências sobre antigas habilidades.

Com as rápidas transformações nos meios e nos modos de produção, a natureza do trabalho e a relação econômica entre as pessoas e as nações sofrerão enormes transformações e, neste quadro, a educação não apenas tem que se adaptar às novas necessidades como, principalmente, tem que assumir um papel de ponta nesse processo.

Para que estas tecnologias sejam significativas, não basta que os alunos simplesmente acessem as informações: eles precisam ter a habilidade e o desejo de utilizá-las, saber relacioná-las, sintetizá-las, analisá-las e avaliá-las – quando os alunos se esforçam para ir além de respostas simples, quando desafiam ideias e conclusões, quando procuram unir eventos não relacionados dentro de um entendimento coerente do mundo. Sua aplicação mais importante está fora da sala de aula – e é para ai que o ensino deve voltar seu esforço. A habilidade de pensar criticamente pouco valor tem se não for exercitada no dia a dia das situações da vida real.

Claro que isto não ocorre espontaneamente, e ai entra o papel do professor, encorajando os alunos a fazer conexões com eventos externos ao mundo da sala de aula, descobrindo a ligação entre situações vividas e os conteúdos curriculares. Existem muitas táticas que o professor pode utilizar e que podem ser enormemente motivadoras, estimulando processos de transferência – e essa experiência o professor já tem, basta não se considerar um “ignorante em informática” e buscar aplicar na nova midia sua base de conhecimentos, estando aberto à pesquisa e ao autoaprendizado continuos.

Esse uso do computador exige um professor preparado, dinâmico e investigativo, pois as perguntas e situações que surgem na classe fogem do controle preestabelecido do curriculo. Esta é a parte mais dificil desta tecnologia. E esse é o papel insubstituivel do professor: elaborar estratégias que deem significado a essa enorme e fantástica porta que se abre para o universo do conhecimento da humanidade. Sem isso, a internet, equipamentos e software podem apenas ser modismos adestradores de um mercado consumidor, perdendo-se a oportunidade de promover uma efetiva mudança na área do ensino.

O computador na criação de ambientes interativos de aprendizagem

01/01/1993

Artigo publicado na revista Em Aberto, edição com o tema “Tendências na Informática em Educação”, publicada pelo INEP – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais. Brasília, ano 12, nº 57, jan/mar 1993.

O uso da informática educacional no Brasil já completou sua primeira década, e muitas escolas já contam com laboratórios de computadores. Seu uso pode ser dividido em duas abordagens: a informática no ensino e o ensino da informática.

Quando se fala em computadores na escola sempre surgem as inevitáveis menções à merenda escolar, às janelas quebradas e aos baixos salários dos professores. Sem pretender entrar nessa discussão, pelo menos neste texto, não podemos deixar de levantar que é apenas com muita e da melhor tecnologia que evitaremos uma clivagem social ainda maior entre a escola pública e a privada (ou entre o Brasil e as nações desenvolvidas). Como disse Seymour Pappert a um interlocutor: “não morda meu dedo, olhe para onde estou apontando”.

A primeira, o uso da informática no ensino, padece da grave falta de softwares educacionais, mormente em língua portuguesa, falta esta agravada pela baixa qualidade e restrito efeito educacional dos disponíveis. Não é apenas por suas qualidades, e que muitas são, que a linguagem Logo acaba dominando a informática educacional – o Logo acaba sendo a única opção séria ao alcance das escolas.

A segunda abordagem do uso da informática no ambiente escolar é talvez o mais difundido hoje – principalmente nas escolas particulares. Trata-se de ensinar Basic, Pascal, planilhas eletrônicas, gerenciadores de bancos de dados e processadores de texto. Em parte porque o “mercado” o pede (e nisso as escolas não se diferenciam em qualidade dos piores cursos de informática oferecidos em qualquer esquina), mas também porque a falta de bons softwares educacionais impede pensar alternativas que realmente agreguem qualidade ao processo ensino-aprendizagem.

Neste artigo vamos nos deter exclusivamente nas possibilidades do uso da informática na criação de um ambiente não só facilitador mas principalmente instigador da reflexão crítica, do prazer pela pesquisa e da aprendizagem contínua e autônoma.

Robinson Crusoe e a Tecnologia Educacional

Quando se fala em computadores na escola sempre surgem as inevitáveis menções à merenda escolar, às janelas quebradas e aos baixos salários dos professores. Sem pretender entrar nessa discussão, pelo menos neste texto, não podemos deixar de levantar que é apenas com muita e da melhor tecnologia que evitaremos uma clivagem social ainda maior entre a escola pública e a privada (ou entre o Brasil e as nações desenvolvidas). Como disse Seymour Pappert a um interlocutor: “não morda meu dedo, olhe para onde estou apontando”.

Antes de prosseguir, gostaria de conceituar tecnologia. Isto é fundamental numa área de ponta como a informática, onde se cultuam tantos totens tecnológicos – onde se consideram obsoletos computadores que sequer tiveram suas possibilidades exploradas, e onde a “culpa” pelo não-uso é sempre da falta de equipamentos melhores.

Como contraponto ao conceito de tecnologia podemos mencionar o Kwait: um país que pode comprar os computadores mais potentes, os carros mais velozes, os videocassetes mais modernos… mas que não sabe construir ou sequer consertar qualquer um deles. O inverso disso é Robinson Crusoe, o do clássico de Daniel Defoe: de mãos nuas, escapado de um naufrágio, reproduz em sua ilha deserta toda a tecnologia da época, usando apenas seu conhecimento e a vontade de transformar a realidade. Ou seja, não podemos confundir artefatos tecnológicos com tecnologia, geradora daqueles.

Na educação essa distinção é fundamental, pois não há máquina que substitua o professor (e quando isso ocorre é porque o professor o merece). Tecnologia educacional é, por exemplo, usar uma lata de água, um pedaço de madeira e uma pedra para explicar a flutuação dos corpos; apertar a tecla de um vídeo sobre o assunto e deixar os alunos o assistirem passivamente, em contrapartida, nada tem de tecnologia.

A Caverna dos Lápis

O uso da informática nas escolas tem ocorrido através da implantação de laboratórios de computadores, variando seu número de cinco a dez, ou mesmo mais, num único ambiente. Raramente permitindo o uso individual e quase sempre trabalhando em duplas, ou mesmo trios, este formato firmou-se quase como que um padrão de informática educacional.

O laboratório de computadores é a única forma para o ensino da informática, onde tem que ocorrer o “corpo-a-corpo” do aluno com a máquina. Também se revela a melhor forma de explorar um ambiente como o Logo. Mas é totalmente ineficaz se queremos usar a informática para o ensino das tradicionais disciplinas curriculares – afinal a coisa mais importante e urgente a mudar na escola.

Gabriel Salomon, da Faculdade de Educação da Universidade do Arizona, em seu artigo “Laboratório de computador: unia má idéia atualmente santificada” (in “Educational Technology”, outubro de 1990), faz uma interessante analogia do computador com o lápis. Imagine que estamos na época das cavernas e alguém inventa o lápis (com a devida liberdade histórica). Imediatamente se descobre sua utilidade para a educação e cria-se a caverna dos lápis, onde os alunos aprenderão “lapislogia” e até mesmo a usar o lápis em outras matérias do conhecimento. Mas o lápis não sai da caverna, o ensino das outras matérias nas outras cavernas continua sendo feito sem o lápis, e muita gente vai achar que existem outras prioridades na educação antes dessa nova tecnologia (tapar o teto das cavernas, as peles para vestir os professores etc.).

Ao invés disso, por que não levar o micro para dentro da sala de aula? Usá-lo como um instrumento do dia-a-dia do ambiente de estudo, uma ferramenta quotidiana de aprendizagem, um gerenciador de simulações e jogos na sala de aula, cruzando dados para pesquisas e fornecendo material para discussões e levantamento de hipóteses.

Se é estranho imaginar um professor de Biologia levando sua classe para um laboratório de computadores (fazer o quê lá?), imaginemo-lo em sua classe instigando uma pesquisa sobre felinos e seus hábitos. Os alunos pesquisando os animais, suas velocidades em corrida, seus hábitos alimentares, predadores etc. Ao invés das tradicionais redações de “pesquisa” as informações alimentariam um banco de dados, no computador da sala de aula. A pesquisa não terminaria aí, pelo contrário, iniciar-se-ia. A classe, estimulada pelo professor, levantaria hipóteses – por exemplo, quem corre mais: os felinos de hábitos noturnos ou diurnos? A pesquisa no computador apontaria para uma velocidade maior dos felinos de hábitos diurnos e o professor instigaria a discussão sobre o resultado. A classe discutiria a camuflagem natural da noite, a maior importância da velocidade à luz do dia etc.

Estimulando o Pensar Crítico

Num mundo em que a quantidade de informação produzida diariamente supera a que pode ser absorvida por um ser humano durante toda a sua vida, há que preparar a relação com o saber na escola em bases completamente diferentes das que, hoje, são praticadas.

Não basta, por outro lado, que os alunos simplesmente se lembrem das informações: eles precisam ter a habilidade e o desejo de utilizá-las, precisam saber relacioná-las, sintetizá-las, analisá-las e avaliá-las. Juntos, estes elementos constituem o que se pode chamar de pensamento crítico. Este aparece em cada sala de aula quando os alunos se esforçam para ir além de respostas simples, quando desafiam idéias e conclusões, quando procuram unir eventos não relacionados dentro de um entendimento coerente do mundo.

Mas sua aplicação mais importante está fora da sala de aula – e é para lá que a escola deve voltar seu esforço. A habilidade de pensar criticamente pouco valor tem se não for exercitada no dia-a-dia das situações da vida real. É aí que as simulações, feitas em computador ou não, têm seu papel, fornecendo o cenário para interessantes aventuras do intelecto.

A tomada de decisões, “motor” básico de quase toda a simulação, pode levar o aluno a se colocar uma série de perguntas, visando a algumas abordagens que a resolução de problemas implica:

  • Análise da situação: O que eu sei? O que preciso saber?
  • Definição de metas e objetivos: O que é mais importante para mim? Como eu quero que a situação se defina?
  • Procura de analogias: Quais são algumas situações semelhantes e quais são diferentes? Como elas se ajustam?
  • Consideração de opções: Quais são as conseqüências de minhas opções? O que me levará em direção às minhas metas?
  • Enfrentar as conseqüências: Estou disposto a correr o risco? Estou preparado para enfrentar as conseqüências?
  • Rever decisões: Aproximei-me mais de minhas metas? Este resultado exige uma ação posterior?
  • Avaliação: Como decidi o que fazer? O que posso aprender através destes resultados?
  • Transferência de conhecimentos: Como posso usar este processo novamente? O quanto isto é significativo para minha vida?

Claro que tudo isto não ocorre espontaneamente, e aí entra o papel do professor, encorajando os alunos a fazerem conexões com eventos externos ao mundo da simulação, descobrindo a ligação entre a situação vivida e os conteúdos curriculares. Existem muitas táticas simples que o professor pode utilizar e que podem ser enormemente motivadoras, estimulando processos de transferência:

  • Encorajar os alunos a dramatizarem papéis que tenham diferentes perspectivas, para ver a situação por outros pontos de vista.
  • Elaborar vocabulários (incluindo palavras como objetivos, analogias, prioridades, conseqüências etc.) que os alunos possam usar em outras ocasiões.
  • Solicitar historietas pessoais que possam servir como analogias úteis e ajudem os alunos a tomar decisões.

É importante não cair nas “armadilhas” que a rotina do ensinar tantas vezes impõe. Dar todo o tempo para as respostas (o silêncio é um grande aliado), pois respostas pensadas, não apressadas, são as metas do pensamento crítico. Encorajar os alunos a explicarem como chegaram a suas conclusões, pedindo que eles verbalizem como estão pensando sobre um problema enquanto raciocinam. Essas são algumas abordagens possíveis, mas a principal é usar a imaginação – sempre visando a fazer do ambiente da sala de aula um estímulo que promova uma sensação de prazer pelo uso do intelecto.

Um Computador na Sala de Aula

Geralmente as soluções mais baratas não são as melhores, aponta-nos a experiência. Mas neste caso parece sê-lo. Não só o uso de um único computador por sala de aula permite uma extensa informatização das escolas a baixo custo, como também promove uma efetiva “subversão” das tépidas rotinas da didática – qual um cavalo de Tróia que carrega em seu bojo o novo e o desconhecido.

Este modelo não é novo nem desconhecido. Tom Snyder é um professor americano que se especializou em desenvolver ambientes interativos com o uso de softwares de simulação voltados para o uso de um único computador por classe, sempre procurando trabalhar com o desen­volvimento do pensamento crítico na sala de aula. Hoje a Tom Snyder Productions possui dezenas de groupwares em seu catálogo – quase todos para as áreas de estudos sociais – agrupados nas séries “Decisons, Decisions”, “Smart Choices” e outras.

Paulo Emílio Salles Gomes costumava dizer que “às vezes um mau filme pode originar um ótimo debate”. O uso coletivo de um software educacional pode proporcionar o mesmo ambiente; um programa falho e pobre pode permitir, com um bom professor (condição sine qua non), uma interessante aula. Jamais colocaríamos nossos alunos, sozinhos, com a maioria dos péssimos softwares educacionais que por aí existem – do mesmo modo que não podemos usar dessa forma softwares em alemão, japonês ou mesmo inglês –, mas abrimos uma infinidade de novas opções ao navegar por esses mares sob a coordenação de um professor frente a uma classe.

Além de poder usar programas em outras línguas – até mesmo para ensiná-las –, esse formato também permite uma interessante utilização de programas feitos com outras finalidades que não as educacionais. Destacam-se nesse campo os jogos. Geralmente muito bem feitos e motivacionais, podem tornar-se uma interessante ferramenta didática nas mãos de um professor, criando um ambiente lúdico que pode ser a base para uma abordagem diferenciada da matéria. Dois exemplos de jogos que permitem a criação de interessantes contextos de aprendizagem são a série “Where is Carmen Sandiego” (para Geografia e História) e “SimCity” (urbanismo e meio ambiente) – ambos possuem capacidade de utilização ao longo de várias aulas, rico material de apoio, possibilidade de integração com outras mídias (vídeos, desenhos, redações) e permitem atividades multidisciplinares envolvendo professores de diversas áreas.

Esse uso do computador exige, mais que nunca, um professor preparado, dinâmico e investigativo, pois as perguntas e situações que surgem na classe fogem do controle preestabelecido do currículo. Essa é a parte mais difícil desta tecnologia. Do ponto de vista prático, dá para usar um micro com monitor normal em várias situações, mas obtém-se um resultado muitas vezes melhor com um data display. Esse equipamento consiste em uma placa de cristal líquido colocada sobre um retroprojetor normal, que amplia e projeta a imagem sobre uma tela.

No Brasil esse formato tem norteado o desenvolvimento e aplicação de software no SENAC de São Paulo, através do Programa Informática e Educação (que até recentemente coordenávamos) e, hoje, em seu Centro de Tecnologia Educacional. Pretendo relatar a seguir o processo envolvido no desenvolvimento de um software educacional nesses moldes, bem como seus objetivos educacionais, a partir da experiência bem sucedida do SENAC.

O Desenvolvimento de Software Educacional

O objetivo inicial do Programa Informática era a pesquisa de softwares já prontos e o desenvolvimento de metodologias de utilização nos cursos do SENAC. O que hoje é um grande problema, há oito anos atrás era quase uma impossibilidade. Essa constatação levou-nos a partir para o desenvolvimento de software educacional – o que acabou se revelando um grande acerto, não apenas pelos programas em si mas principalmente pelo desenvolvimento dos recursos humanos envolvidos e pela visão crítica dos objetivos e conteúdos dos cursos analisados. Nesse processo foram desenvolvidos até agora mais de 20 softwares, inicialmente para a linha Apple e hoje para IBM-PC e Macintosh.

O primeiro passo no processo de desenvolvimento desse tipo de material é a análise da área a “atacar”. No SENAC, optou-se pelos cursos da área de saúde como início do trabalho – sendo dessa área a maioria dos programas até agora desenvolvidos. Em seguida, montaram-se equipes multidisciplinares para o estudo dos objetivos, levantamento das dificuldades de ensino mais recorrentes e prototipagem do software propriamente dito.

O método de desenvolvimento de um software, educacional ou não, possui muito em comum com q processo de editoração de um livro: exige o envolvimento de profissionais de diversas áreas, dos especialistas no conteúdo específico até ilustradores e redatores, agregando-se neste caso também vários tipos de profissionais da área de informática. Da interação destes conhecimentos específicos e do embate muitas vezes caloroso de idéias nasce o protótipo que, então, deve ter muitas horas de testagem com alunos, com o devido acompanhamento especializado, para as modificações e validação definitiva (embora neste “mundo” o termo definitivo pareça muito transitório, sempre originando novas versões).

O custo envolvido nesse processo não é pequeno e o tempo investido é muito maior que o desejo de ver o software pronto. Isto se torna mais verdadeiro quando o produto em questão é uma simulação (para fazer programinhas de exercitação, tipo pergunta-e-resposta, ‘ gasta-se muitíssimo menos tempo e dinheiro em termos absolutos – mas quase nada se agrega de novo ao processo educacional). Grosso modo, podemos estimar que o custo do hardware corresponde a 10% do investimento necessário, o software (é preciso software para desenvolver software) corresponde a algo como 20% e, finalmente, mas não por último, o chamado peopleware, absorvendo cerca de 70% dos custos: professores, técnicos, analistas, consultores, programadores de telas, ilustradores, redatores, editores, programadores de rotinas especificas (sonoras, linguagem de máquina, animações etc.) e programadores de “alto nível”, revisores, equipe de testagem etc.

“Microguerra” – uma simulação na área de microbiologia

Um exemplo concreto pode ser o programa “Microguerra”, uma simulação para a área de microbiologia. O software começou a ser criado há 4 anos, com o estudo da disciplina de Microbiologia no curso de Técnico de Enfermagem do SENAC. Como resultado imediato do início desse trabalho, foram modificados vários objetivos da disciplina e aumentada sua carga horária, ou seja, antes mesmo de pronto, o software já surte seus primeiros efeitos, mostrando que a informática educacional também pode ser um ótimo pretexto para se repensar a educação. Nessa etapa inicial, foi criado um grupo de estudos envolvendo quatro professoras, destacadas por seis meses, quatro horas por dia.

Levantado o problema, com seus imensos contornos, e definidos os objetivos educacionais, partiu-se para o desenho do software. Desde o início, partiu-se para uma “guerra” de interesses conflitantes entre uma colônia de microrganismos e seu hospedeiro. Os primeiros esboços mostravam um problema: a classe tenderia a resolver os problemas surgidos com a defesa do hospedeiro usando os conhecimentos rotineiros e o chamado bom-senso, ou seja, “ficou com febre? tome tal remédio” em vez de usar as defesas naturais do corpo. Com isso não atingiríamos nosso principal objetivo, o conhecimento dos fenômenos naturais desse nível da vida, tanto nos aspectos do nosso corpo como dos microrganismos. A solução veio com uma inversão de papéis, a classe desempenhando o papel de colônia de bactérias e o computador assumindo a defesa do corpo humano. Deste modo, sem nenhuma referência passiva, a classe teria que pensar no que fazer a cada passo.

As etapas seguintes foram levantar o modelo científico, quais as variáveis envolvidas (milhares) e sua quantificação (difícil, mas essencial para o processo de programação). Depois de se chegar a um modelo de alta complexidade, partiu-se para a sua simplificação – fundamental para poder servir como modelo educacional e não como simulacro da realidade. Uma simulação deve ser tão simples que permita manipular com clareza algumas variáveis (senão temos a realidade propriamente dita), mas não a ponto que se torne inverídica. Este é o ponto mais difícil de se achar na criação de uma simulação.

O produto obtido (eliminando a descrição de algumas dezenas de etapas) foi um produto capaz de gerar ambientes de descoberta, discussão e experimentação em Microbiologia que tanto pode ser usado numa classe do 1 °- grau como num curso superior da área médica. Para isso foram criados vários níveis de jogo (onde, nos mais avançados, a classe pode “montar” as características do microrganismo e do hospedeiro, com alguns milhares de combinações possíveis). O software também permite diversas opções de estratégia educacional por parte do professor: tanto pode ser usado como “joguinho”, onde se foge de inimigos coloridamente animados na tela (mais tarde o professor pode referenciar: “lembram daquele inimigo azul? então, era uma defesa química de tal tipo”), como se pode parar a todo momento para efetuar pesquisas em material de referência e debater as atitudes a tomar (“se somos um microrganismo anaeróbio, então vamos evitar o pulmão” etc.).

Como todo o bom software, o material completo possui um manual de referência para o aluno (com mapas de “navegação” pelo corpo, descrição de cada característica utilizada na simulação, tanto do hospedeiro como dos microrganismos, referências bibliográficas para orientação em pesquisas etc.) e um manual para o professor (com o detalhamento do modelo científico utilizado, as diferenças entre a realidade e as simplificações adotadas na simulação, estratégias de uso em sala de aula, sugestão de atividades complementares e integração com outras mídias e materiais educacionais).

Cometendo a injustiça de não citar todas as pessoas envolvidas na criação deste software, pois muitas e todas importantes são, não posso deixar de destacar Fernando Moraes Fonseca Jr., que coordenou todas as etapas de desenvolvimento do “Microguerra”, e Jarbas Novelino Barato, que hoje gerencia o Centro de Tecnologia Educacional do SENAC.

Além dessa simulação e de outros programas, foi também desenvolvido o software “Investigações em Ótica Geométrica”, para a área de física, e estão em desenvolvimento “Peste X”, simulação sobre uma epidemia numa pequena cidade, e “Gerenciamento de Pequenos Negócios”, simulação empresarial. Embora desenvolvidos para fazer face a necessidades educacionais internas do SENAC, todos eles possuem uma amplitude didática que permite com que sejam utilizados em outras instituições – como vários já estão sendo usados em universidades, escolas particulares e públicas e também no exterior (com algumas versões em inglês e em espanhol).

Para finalizar, quero destacar a importância da informação e da troca de experiências (para não falar da efetiva parceria no desenvolvimento de tecnologias) para o avanço da informática educativa no Brasil. Não bastam alguns encontros anuais entre alguns expoentes do setor: precisamos construir canais de comunicação permanentes e efetivos entre os pesquisadores, professores e usuários de modo geral. Cada experiência deve ser relatada e analisada, ao invés da quase clandestinidade em que o conhecimento na área vive hoje. O que pode ajudar muito nessa tarefa é a telemática, que já tem diversas redes de pesquisa ao dispor da comunidade educacional, mas que pouco são utilizadas.


Revista “Em Aberto” (ISSN 0104-1037), edição com o tema “Tendências na Informática em Educação”, publicada pelo INEP – Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais. Brasília, ano 12, nº 57, jan/mar 1993.


Senac na era da informática educacional

01/06/1988

JUNHO 1988

Entrevista dada à “Acesso”, Revista de Educação e Informática da FDE – Fundação para o Desenvolvimento da Educação, organismo da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo, – Ano I – Julho/Dezembro 1988.

A entrevista foi feita por Maria José do A. Ferreira e Marta Marques Costa, com edição de Fábio Barbosa Jr. Participaram da mesma, Sonia Zaitune, Fernando Moraes Fonseca Jr. e Evanisa Arone, membros da equipe do Programa Informática e Educação do Senac SP.

Saúde, uma experiência que está dando certo

Acesso esteve no SENAC-Saúde da avenida Tiradentes, em São Paulo, para conhecer a experiência no campo da Informática Educacional que vem sendo desenvolvida nesta unidade. Trata-se de uma experiência de ensino assistido por computador iniciada em 1986 pelo Programa de Informática e Educação, vinculado à Gerência de Formação Profissional do Departamento Regional de São Paulo do SENAC. Na área de Saúde, o Programa Informática e Educação priorizou a Enfermagem, iniciando a informatização dos cursos de formação de técnico e assistente de Enfermagem.

Neste número, estamos publicando entrevista com Carlos Seabra, coordenador do Programa, onde ele relata e analisa a experiência desde a sua origem até o momento atual, falando sobre a filosofia educacional que a orienta e sobre as perspectivas de sua continuidade.

Programa Informática e Educação em 1988. Da esquerda para a direita, Carlos Seabra, Marta Marques Costa, Sonia Zaitune, Fernando Moraes Fonseca Jr., Evanisa Arone e Maria José Ferreira.

Da esquerda para a direita: Carlos Seabra, Marta Marques Costa, Sonia Zaitune, Fernando Moraes Fonseca Jr., Evanisa Arone e Maria José Ferreira.

AcessoO que é Programa Informática e Educação?
Seabra – O Programa Informática e Educação visa utilizar o computador e a Informática como recursos instrucionais e surgiu da necessidade, percebida pelo SENAC, de se utilizar esse recurso em algumas áreas onde os recursos tradicionais não são tão efetivos como o do uso do computador. O uso do computador, por obrigar a uma metodização, a uma planificação, a uma classificação de conhecimentos, produz uma série de resultados que interferem no processo ensino-aprendizagem, acessórios, periféricos ao próprio fenômeno da informatização, mas que talvez sejam, inclusive, os mais importantes. Nós tínhamos, inicialmente, um programa chamado “Educação para o Futuro”, onde trabalhávamos com alunos do 1° Grau e com professores da rede pública, mexendo com a questão da Informática. Queríamos fazer um mapeamento das potencialidades e possibilidades do uso da Informática na Educação. Depois de uns dois anos de trabalho com esse tipo de público, formou-se uma equipe dentro da instituição, criou-se um certo know-how e percebemos que era um desvio de esforços estar investindo nessa área de educação formal de 1° Grau, que não é uma área do SENAC, e, sim, da Secretaria da Educação. Nós não estávamos atendendo necessidades imediatas nossas, como a formação profissional. Foi constituído, então, esse novo Programa, chamado Informática e Educação. Basicamente, foi essa a origem do Programa, que conta, hoje, com dois anos e meio de existência.

AcessoComo foi constituído o grupo de trabalho encarregado do Programa?

Seabra – Inicialmente, a equipe era de apenas duas pessoas: eu e a Sônia. Ela é psicóloga e eu sou editor. Venho da área de Comunicação Editorial e a Sônia da área de Psicologia e Educação Infantil. Aí, nós nos encontramos na Informática. Atualmente, a equipe tem cinco pessoas fixas – a equipe central – mais um supervisor pedagógico. Essa equipe é constituída por dois psicólogos, um filósofo e matemático, um físico e eu, da área editorial: ou seja, ninguém tem uma formação específica de Informática, embora vários de nós já tivéssemos tido contato com a área. Temos também uma série de colaboradores externos, que são programadores: alguns que só mexem com linguagem de máquina, outros da área gráfica, produzindo desenhos e ilustrações para os softwares etc. Além disso, temos consultores específicos para as áreas de conteúdo e trabalhamos com equipes de docentes para informatização e estudo específico de cada disciplina. Por exemplo, colaboram conosco três enfermeiras da disciplina de Microbiologia. Basicamente, portanto, há uma equipe central e uma série de trabalhadores externos ou equipes acessórias internas, para cada trabalho.

AcessoPor que foi escolhida, para inicio dos trabalhos do Programa, a área de Saúde?

Seabra – Vários motivos nos levaram a isso, desde os menos relevantes, como ter um belíssimo prédio especializado só para a área de Saúde, com disponibilidade de espaço e, portanto, possibilidade concreta de investir em laboratórios amplos, colocar equipamentos etc., até os principais, referentes a características da própria área de Saúde, em que, muitas vezes, os alunos têm uma baixa formação escolar. Aí você tem, por exemplo, pessoas na faixa de trinta anos, nossos alunos, que são assistentes de enfermagem, que já têm prática, já trabalham em hospitais, mas que fizeram o primário há vinte, quinze anos atrás. Além de terem estudado já há bastante tempo, a formação que tiveram foi bastante deficiente. E Saúde envolve uma série de conteúdos cognitivos, uma massa de informações muito grande, uma necessidade de o aluno não apenas “ser treinado”, de executar uma série de operações, mas de entender o que está fazendo. Então, por exemplo, ao assistente de enfermagem, que, teoricamente, se limitaria, na sua prática, a ver se o lençol do paciente está limpo e a observar uma série de cuidados básicos de higiene, nós ensinamos os princípios mínimos de doenças transmissíveis: a Microbiologia, como é que são os processos de imunização natural do corpo etc. Queremos que ele entenda o que está fazendo, que perceba a importância de lavar as mãos, de esterilizar um instrumento, da dosagem correta de medicamentos etc. O curso de Assistente de Enfermagem tem, praticamente, mil e quinhentas horas de carga horária, com uma série de conteúdos cognitivos extremamente díspares, multo ricos e bastante avançados. Colocava-se, então, um desafio. Uma área que não apresenta problemas tão cruciais como esses conteúdos, não seria prioritária para informatizar, Há necessidade de se investir mais, em termos de qualidade de ensino, onde se apresentam problemas maiores. Outro fator que consideramos é que os professores e o corpo técnico, na área de Saúde, têm uma formação superior à do pessoal de várias outras áreas. Todos os nossos professores são enfermeiras, com nível de formação bastante bom, o que dá uma cena homogeneidade a essa equipe, e facilita a constituição de grupos para iniciar esse trabalho de informatização. Como estamos ainda adquirindo experiência, refletindo em cima disso, tentanto ver o que é exatamente a Informática na Educação, que problemas ela traz quando se leva um trabalho à prática, então precisávamos fazer isso numa área em que os recursos humanos estivessem melhor preparados. E a Saúde é ótima também por causa disso, porque, se com os alunos você têm o problema do nível extremamente heterogéneo e da baixa formação, com os professores sucede exatamente o contrário. Tínhamos, então, o ambiente ideal e adequado para o início dessa experiência. Por outro lado, dentro da área de Saúde, onde o SENAC oferece vários cursos – ótica, pedicure, atendente de farmácia, protético e outros –, escolhemos Enfermagem, porque teríamos de iniciar por algum ponto. Enfermagem.é o curso que tem a maior carga de conteúdos cognitivos, mais do que qualquer outro, e onde os alunos interagem, no dia-a-dia, com uma série de problemas muito candentes, até mesmo tratar de um paciente terminal.

AcessoComo se iniciou o trabalho do Programa Informática e Educação?

Seabra – Quando começamos a ver o que já existia de informatização nas outras escolas, constatamos que a primeira providência que as escolas tomam é comprar o equipamento, no qual investem alguma grana, e do qual se utilizam para fazer todo um merchandising em cima, com mais ou menos seriedade, evidentemente. Depois de algum tempo percebem que não têm software, aí partem para pirataria generalizada ou então decidem comprar alguma coisa no mercado. Isto também é muito difícil, porque mesmo que a instituição tenha boa intenção de não usar programas pirateados, vai ter muita dificuldade, uma vez que praticamente não existe nada no mercado e o que existe não se adapta ao currículo, á forma de educação desejada etc. As escolas, entretanto, acabam conseguindo alguns softwares e só depois, como última etapa, sentem a necessidade de formação de recursos humanos. Esta é, normalmente, a parte mais descurada, na qual não existem investimentos. Um diretor de escola aprova a compra de um equipamento, e já torce o nariz quando se fala em comprar software; não tem nenhuma visão de que é preciso liberar professores durante murtas e muitas horas para uma discussão aprofundada dos objetivos, de como se pretende implantar a coisa etc., e de que é necessário formar os próprios recursos humanos. Nós resolvemos partir, portanto, do processo inverso, por acharmos que é o que conduziria melhor a experiência. Daí a nossa opção por iniciar o nosso trabalho com um treinamento de Recursos Humanos para formar uma espécie de massa crítica dentro da instituição, constituída por docentes, técnicos e corpo gerencial. Não queríamos que uma meia dúzia de pessoas com mentes iluminadas determinassem o rumo da informatização no SENAC, mas sim, fazer com que todo o mundo envolvido no processo educacional participasse da discussão da definição de seus objetivos e metodologia. Nossa preocupação principal é com a formação de Recursos Humanos. Eles passam por um treinamento que envolve aprender o que é Informática, analisar uma série de softwares, e desenvolver o espírito crítico em relação a esses softwares. Em relação a esta postura crítica, aliás, achamos que, muitas vezes, é mais fácil trabalhar com o professor que tem críticas do que com aquele que começa deslumbrado quanto aos novos recursos educacionais, que tende a ser menos crítico. Procuramos, entretanto, lidar com esses dois extremos, nesse trabalho de treinamento, levar todo o mundo a uma visão realista e critica da questão do uso da Informática na Educação. Nosso objetivo inicial é, portanto, ter o conjunto do corpo docente, técnico e gerencial sabendo das possibilidades da Informática, das suas falhas, do seu custo, para que possamos decidir o que vale a pena informatizar ou não. Depois, há a constituição de grupos que vão trabalhar, aí sim, na informatização de disciplinas. Não partimos tampouco do princípio de que é necessário desenvolver software. Procuramos primeiro ver o que existe, no mercado, adequado a cada disciplina. No caso de Saúde, não encontramos nada. Havia algumas coisas, mas que não se adequavam ao nosso modo de ensino, aos nossos objetivos. O que é previamente traçado por nós são os objetivos; os softwares são conseqüência desses objetivos. Isso nos levou à necessidade de desenvolver software próprio, caminho que estamos trilhando.

AcessoQual é a clientela atendida pelo Programa Informática e Educação?

Seabra – Nossa meta é trabalhar com todos os professores e todos os técnicos da área de Saúde e depois com os de outras áreas. Já participaram dos treinamentos todo o pessoal da área de Enfermagem – estão faltando apenas duas ou três enfermeiras, que por problemas particulares não participaram até o momento – e três técnicos da área de ótica. Nos próximos treinamentos, está prevista a participação de mais gente da área de ótica e de pessoal de Prótese Dentária e de Pedicuros e Calistas. Está em estudos a participação da área de Farmácia, que, até o momento, não pôde ocorrer. A meta é que todo o mundo participe. Paralelamente, também têm passado pelo treinamento os técnicos da Gerência de Formação Profissional que mexem com produção de recursos audiovisuais e produção de apostilas e outros materiais escritos, de modo que haja uma integração. A nossa idéia ao informatizar uma disciplina – e informatizar nesse sentido não é a palavra mais apropriada – é refazer todo o material, todas as apostilas, o conteúdo curricular… Desse modo, precisamos ter um material integrado, ou seja, o software não funciona sozinho, ele deve funcionar integradamente com a apostila, com o conteúdo dado em aula, com o vídeo apresentado, com o estágio pelo qual os alunos vão passar. Então, a meta de todos que trabalham no SENAC com produção de recursos instrucionais é participar do treinamento, inclusive com vistas à expansão posterior para outras áreas. Outras pessoas também têm participado do treinamento, pois sempre oferecemos uma ou duas vagas a elementos de fora: pessoal da Secretaria da Educação, do Colégio Carlos Campos, da USP, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e também do SENAC Nacional e de Unidades do SENAC de outros Estados. Esta participação visa a possibilitar futuros trabalhos conjuntos com outras instituições, desenvolvimento de software conjunto e experimentações. Vários dos softwares desenvolvidos por nós até o momento já estão sendo usados em outras instituições, e estamos analisando o retorno disso.

AcessoComo vem-se dando a informatização do ensino na área de Enfermagem?

Seabra – Não estamos informatizando o curso. Resolvemos informatizar disciplina por disciplina, inclusive porque praticamente as mesmas disciplinas ocorrem no curso de Assistente e no de Técnico, embora com profundidade diferente. A primeira que decidimos abordar foi Microbiologia, para dividir. Quando você tem um grande problema, você o divide em pequenas partes, assim como uma batata, ninguém gosta de engolir uma batata inteira; agora, se a batata é frita, cortada em pedacinhos, você come um quilo de batatas tranqüilamente. Então dividimos o problema por disciplinas, para facilitar esse processo de informatização e propiciar um aprofundamento maior no conteúdo, senão a gente se limitaria a ficar produzindo pequenos softwares aqui e ali, e não atacaria o problema definido. Selecionamos Microbiologia por ser uma das disciplinas que davam os maiores problemas aqui dentro. Os docentes, embora tenham boa formação, não são biólogos, então, fica muito difícil você ter clareza sobre quais são os conceitos que devem ser passados ao aluno, o que ele deve aprender sobre a bactéria, o que ele deve aprender sobre uma série de mecanismos de reação natural do corpo etc. Por parte dos alunos, também era a disciplina mais assustadora. Embora uma série de outras disciplinas tenham muita carga teórica, envolvem, por outro lado, uma manipulação prática do cotidiano hospitalar muito mais fácil. Microbiologia era, então, a disciplina que apresentava o maior número de problemas e resolvemos começar por ela para encarar o desafio de frente, porque, se trabalharmos logo a disciplina que apresenta o maior número de problemas, ganharemos uma cancha e uma experiência muito maiores, além de uma metodologia de trabalho para depois atacar outras disciplinas. Microbiologia tinha uma carga horária de trinta horas e também este foi um fator determinante, ser uma disciplina com uma carga horária pequena.

AcessoComo vem sendo desenvolvido o trabalho com os professores e como se dá o seu envolvimento no Programa?

Seabra – 0 trabalho com os professores vem sendo desenvolvido, basicamente, através de treinamentos. Os treinamentos são para dez pessoas de cada vez e até o momento já temos trinta treinadas. Vamos ter mais um treinamento de dez, e ficaremos com quarenta. Em relação ao envolvimento, chegamos para as pessoas e dizemos: “Olha, você teria disponibilidade de participar do treinamento? Você seria substituído em sala de aula… topas?” Quer dizer, há um mínimo de interação com o professor, e o objetivo final é que todos acabem participando. O primeiro grupo acabou também tendo uma influência sobre os demais professores e não percebemos aquele medo que o professor teria, de ser substituído pelo computador. Talvez isso seja um fenômeno existente mais ao nível de escola pública, pois aqui isso não ocorreu, ao contrário, até pintou um certo modismo, todo mundo dizia: “Ah, mas eu não participei do treinamento”, “Ah, eu não estou encaixado no segundo!”. Já estão contando com isso. O que há é uma postura crítica de reserva (principalmente levantada no início), se o computador não desumanizaria, não mecanizaria demasiadamente o processo ensino-aprendizagem, com aquela visão de que o aluno seria submetido a uma série de conteúdos que iriam passando ali na tela. Há alguns soffwares, inclusive, que fazem isso. Procuramos ter uma postura crítica em relação a este fato, porque se é para ter uma série de elementos passivamente dispostos na tela, é muito melhor utilizar o livro. Então, a visão a que se chegou é a do computador como um ambiente onde o aluno está em contato consigo próprio, onde pode testar hipóteses, interagir com esse ambiente e ver concretizadas algumas facetas do seu pensamento formal. No treinamento, os professores passam pela experiência de manusear e trabalhar com algumas dezenas de softwares educacionais. A equipe de coordenação fica levantando algumas discussões sobre a qualidade desses softwares e sobre a adequação deles ou não para determinados instantes; por exemplo, “O software tem tais características, será que é desejável que possua ou não? Vamos observar esse aspecto.” Há todo um trabalho nesse sentido, que ocupa pelo menos 1/3 da carga horária. Os treinamentos são intensivos. Os professores são liberados de todas as aulas e participam, durante um mês, única e exclusivamente do treinamento. Eles têm que apresentar um trabalho final, programado e planejado por eles, um programa rodando, e isso é uma coisa importante porque consubstancia todo o conjunto do treinamento. Uma outra coisa, que representa também quase 1/3 da carga horária, é o planejamento de ensino. Nesta fase, levantam-se questões como “Tal objetivo educacional seria classificado como? Como uma memorização de conceitos ou uma aplicação de conceitos”? Isto é importante porque muitas vezes, em sala de aula, a gente percebe que o professor faz com que os alunos apenas memorizem um determinado concerto e depois apresenta uma prova onde eles têm que aplicar esse conceito, embora, na verdade, o aluno não tenha aprendido uma aplicação. Fazemos então esse esmiuçamento, criamos uma série de exercícios, há toda essa preocupação. Vou dar ainda um exemplo: há um exercício que é feito, onde se reúnem dois ou três grupos para fazer o planejamento de um produto industrial, por exemplo, um novo helicóptero, um produto a laser, que corte não sei o quê, qualquer coisa assim. O grupo define qual é o produto e estuda as características do mercado, o que é desejável, que defeitos aquele produto pode ou não ter, o que é preciso controlar, como é que se controla a qualidade, como é que se faz a distribuição; enfim, é feito todo um planejamento. O resultado é sempre muito bom, mas quando fazemos planejamento educacional, as coisas não são tão concretizadas, tão formalizadas, tão definidas. O planejamento educacional murtas vezes limita-se a um ritual de submissão burocrática, que o professor tem que apresentar num ano e depois vira letra morta. Não é um planejamento efetivo, interligado com a realidade, com mecanismos de acompanhamento para ver se está ocorrendo ou não. A gente procura discutir isso, questionar todo o sistema de acomodamento a que leva o ensino tradicional, onde há quarenta alunos numa classe e o professor já dá aquele conteúdo há carradas de tempo, o que acaba levando a uma série de vícios. É neste sentido que eu falo da semente revolucionária do nosso trabalho. Costumamos dizer para os professores, para a Gerência, para todos, que não viemos trazer soluções, viemos criar problemas. Basicamente, é essa a nossa meta. Nosso papel aqui é o de ficar levantando problemas a toda hora, apontando incongruências, inconsistências, fazendo perguntas, questionando, enfim.

AcessoComo vem sendo feito o trabalho com os alunos?

Seabra – O trabalho com os alunos é feito pelos professores. Claro, quando se trata de experimentação em salas de aula, sempre há algum membro da equipe coordenadora presente para auxiliar o professor nas dúvidas que surgem – até de manuseio do software –, porque se exige um atendimento mais individualizado, nós só trabalhamos com um aluno por micro. Temos um laboratório com vinte computadores e, portanto, são vinte os alunos que são atendidos de cada vez. Uma turma de quarenta alunos, que é o nosso máximo, no caso de Enfermagem, é obrigada a se dividir em duas: vinte vão trabalhar com o computador e os outros vinte ficam fazendo uma atividade paralela. Isto derruba por terra aquele medo de o professor ser substituído pelo computador. Na verdade, ocorre o contrário. Fomos obrigados a arrumar um professor suplementar para ficar com o resto da turma durante esse tempo de laboratório. Depois eles se revezam. Um elemento da equipe coordenadora está sempre presente para, além de dar uma pequena assessoria ao professor no atendimento individual aos alunos, observar o comportamento destes em face do programa, e como é que o professor trata os problemas advindos daí. Obtemos, assim, subsídios para discutir qual é o papel do professor no laboratório, que tipos de conteúdos deveriam ser trabalhados antes da experiência em laboratório etc. Além dessa utilização orientada pelo professor, o laboratório fica aberto dois dias por semana, em determinados horários, perto do horário do almoço e no final da tarde, pegando o começo da noite, para poder atingir as diferentes turmas. O laboratório está aberto para uso individual do aluno e funciona como uma espécie de biblioteca de software. O aluno vai lá, solicita o software a uma pessoa responsável, isso é anotado numa ficha de inscrição para se acompanhar o uso, e ele fica utilizando o equipamento uma, duas, três horas – o tempo que ele tiver disponível – brincando, se aprofundando, fazendo as suas experiências individuais. Este é um tipo de uso que desejamos estimular, porque fomenta a pesquisa, fomenta o gosto pela aprendizagem. Mais importante do que um software transmitir determinado conteúdo específico, é ele propiciar um insight dentro da cabeça do aluno para que este descubra que é capaz de raciocinar e que tem capacidade de prospecção. Isto desperta nele o gosto pela pesquisa científica e pela aprendizagem. A partir daí, ele se vira sozinho e, se quiser saber mais conteúdos, pega o livro, pergunta etc. Consideramos que esse uso individual vai introduzir uma dinâmica muito interessante.

AcessoQue tipo de software vocês estão utilizando?

Seabra – Temos utilizado até o momento dois tipos de programas: o primeiro é constituído por programas experimentais, que foram produzidos independentemente de se ter uma análise profunda de uma disciplina, e que estamos experimentando com alunos, integrando-os ao currículo, embora sejam softwares isolados. Queremos ver que problemas podem ocorrer, começando pelos de ordem administrativa: deslocamento dos alunos até o andar onde está o laboratório, quantos equipamentos tendem a quebrar, qual a assistência técnica necessária para manter o parque de equipamentos em bom estado etc. Além desses, queremos identificar os problemas advindos das dúvidas de manuseio, como é que o professor se comporta etc. O outro tipo são programas integrados e desenvolvidos no conjunto da disciplina e que aí vão fazer parte de toda uma metodologia aplicada para o conjunto da mesma. São basicamente estas as duas vertentes de utilização de software com os alunos.

AcessoQue condições e vantagens são oferecidas aos professores para o envolvimento no Programa?

Seabra – A primeira condição é a informação, a formação. Todos os livros de que a equipe de professores envolvida na informatização de uma disciplina necessita são comprados, sem nenhuma restrição. Os professores vão a livrarias especializadas, escolhem o que é preciso e tudo é comprado. Se são necessários softwares para se olhar, a gente compra softwares, descobre etc. Se é necessário fazer treinamento, organizar uma palestra, contratar um consultor, faz-se isso, Outra condição é o tempo. Achamos necessário dar muito tempo a esses professores, por isso nosso esquema é “todo professor envolvido na informatização de uma disciplina é liberado meio período, durante quatro ou cinco meses, para esse trabalho”. Meio período e não período integral, porque consideramos que ficar em período integral alotado no Programa é muito cansativo e distancia o professor da sala de aula, dos problemas concretos do dia-a-dia. Queremos que, na parte da manhã, ele continue com uma turma de alunos, dando aulas, e, à tarde, entre nesse outro trabalho. Caso haja necessidade de horas extras, eles recebem como tal. Até o momento, esse grupo tem murtas horas alotadas e um trabalho planejado, não necessitando de horas extras. Depois que é encerrado o trabalho de análise da disciplina e se parte para a informatização, produção de apostilas, elaboração do programa, os professores continuam acompanhando o projeto, participando de reuniões com os programadores e com a equipe de coordenação. Nesse momento, eles já voltaram à sua atividade normal e muitas vezes, aí sim, há hora extra. O envolvimento no Programa não propicia, por outro lado, promoções. Não nos interessa fazer dos professores que mexem com Informática uma nova elite. Nosso objetivo é que todos mexam com isso, não queremos mistificar e valorizar excessivamente a Informática.

AcessoComo a experiência continuará, daqui para a frente?

Seabra – Vamos continuar no SENAC/Saúde, que é uma unidade especializada. A experiência com os alunos ainda é pequena. Nós só colocamos os alunos na jogada quando já existe algo bem-feito para apresentar a eles, segurança por parte dos professores e objetivos definidos. Não queremos complicar o andamento normal dos cursos, fazendo experiências mal-sucedidas, que, inclusive, politicamente, dentro da instituição, poderiam ter um resultado negativo para o andamento do projeto. E nós não estamos usando o computador como uma ferramenta de trabalho, ainda. Este é um outro projeto separado, que também vai ocorrer. No momento, buscamos aprofundar a qualidade de ensino daquilo com o que eles já mexem normalmente. Com relação à ampliação da experiência, nossa idéia é repassá-la paulatinamente para outras unidades do SENAC, tendo uma metodologia, produtos prontos etc. Nossa meta é, em 89, estar com esse projeto implantado em mais uma unidade da Capital e uma unidade do Interior. E, a partir dessa experiência, ver o que acontece em outras realidades, com outros problemas, em termos de alocações de professores, de alunos, de equipamento, de clientela etc. Mas este é um tipo de coisa que temos que experimentar, para, a partir de 1990, começarmos a informatizar a área de Saúde como um todo, aí todas as unidades. Com relação a outras áreas, há várias que estão interessadas. Estamos pensando, dependendo de uma definição da diretoria regional, em partir para a área de línguas, especificamente Inglês. Trata-se de uma unidade com pessoal muito bem-preparado, onde a filosofia de trabalho do SENAC está bem-elaborada, enfim, estão maduros para iniciar essa experiência, o que facilitará o trabalho da equipe coordenadora. Estamos preocupados com isso, porque o trabalho com Saúde vai continuar se desenvolvendo ainda durante muito tempo. Percebemos que são muitas disciplinas e muitas áreas. Então, paralelamente ao início de informatização de uma nova área, estaremos com um enorme acúmulo de trabalho em Saúde. Além disso, percebemos que a área de línguas é uma área relativamente fácil de se informatizar, primeiro porque só usa as letras originais do computador, não sendo necessário redefinir os caracteres acentuados. Faremos softwares de Inglês, tudo vai ser escrito em Inglês. Depois, 80% dos softwares a serem usados já existem no mercado. Há excelentes, desde jogos, até outros mais direcionados para ensino de adjetivos, verbos, conjugações etc. Nessa área, nos dedicaríamos mais à criação de uma metodologia, discussão de uma filosofia de trabalho e eventual desenvolvimento de um outro software.

Acesso Como as atividades do Programa têm sido vistas no SENACISP pela direção e demais setores da instituição?

Seabra – Com relação a este lado institucional, quero dizer o seguinte: a maior dificuldade que temos observado nas demais instituições de Educação, que estão mexendo com Informática é um divórcio entre todas as partes envolvidas. A administração se coloca separada do processo educacional, e ela é colocada de fora pelo processo educacional. Ocorre, então, um processo mútuo de exclusão. Isto não se verifica no SENAC. A própria Diretoria Regional tem demonstrado preocupação em conhecer detalhes do projeto, do ponto de vista educacional. A questão mais burocrática, administrativa, entra como uma preocupação que tem que ser equacionada, mas que não é determinante. O avanço que o projeto tem tido é um reflexo, então, do conjunto da entidade, e da filosofia de trabalho da instituição como um todo. Temos tido surpresas gratas. Quando, por exemplo, apresentamos, logo no início do projeto, para constituição do primeiro laboratório, a hipótese de se fazer um laboratório com apenas cinco equipamentos, mencionamos que talvez fosse ideal começarmos com dez. A Diretoria Regional logo disse: “Então vamos começar já com dez”. E, alguns meses depois, quando se falou que com dez equipamentos (amos ter que dividir a turma em três ou quatro grupos, logo veio a aprovação: “Então vamos ter um laboratório de vinte”. E se for preciso mais e se mais for julgado necessário, mais equipamentos teremos. Pudemos adquirir todo o equipamento necessário para a montagem dos laboratórios, e temos a possibilidade de participar de todos os congressos, encontros, seminários e palestras que julgarmos importantes e de comprar material, livros, revistas, softwares etc.

Acesso Que dificuldades vocês têm encontrado?

Seabra – A maior dificuldade que temos é com a nossa própria ignorância em relação a uma série de fatores. Estamos toda hora procurando colocar em relevo todas as nossas ignorâncias, todas as nossas dúvidas. Realmente, nessa experiência revolucionária, ainda faltam definições e clarezas sobre uma série de mecanismos. Ainda não equacionamos multo a coisa: tem ocorrido um fenômeno de multiplicação de questionamentos que está gerando um processo muito rico de formação para todo o mundo. Temos desde os professores de Saúde aprendendo Informática, até os programadores lendo sobre Saúde. A nossa maior dificuldade é equacionar isso tudo, mas esta é uma dificuldade inerente ao trabalho. Com relação às coisas mais comezinhas, quebra um equipamento ou outro mas temos um contrato com um técnico, que faz a manutenção, quer dizer, se dá algum problema, nós resolvemos. Probleminhas desse tipo ocorrem a toda hora, mas são facilmente sanáveis.

Acesso Como a equipe do Programa avalia a experiência?

Seabra – Esta é a parte mais verde. E ela é de ordem terciária. Não pela importância, claro, mas pela sucessão de fatos na construção desse Programa. Estamos ainda numa fase de experimentação, com poucas turmas; até o momento trabalhamos aproximadamente com 600 alunos e 100 professores, incluindo professores de outras instituições. Estamos agora tentando ter uma avaliação mais imediata dos problemas de relacionamento do aluno com a máquina, com o software, sobre o tipo de conhecimento que deve ser transmitido antes pelos professores, sobre qual o papel do professor em sala de aula, de forma a facilitar uma implantação mais efetiva do Programa, num segundo momento. Gostaria de dizer, também, que temos percebido que a questão da Informática funciona como um cavalo de Tróia, dentro do qual vai uma série de sementes revolucionárias. Nosso objetivo é revolucionar todo o esquema atual de ensino, muito formal, muito consolidado ao longo do tempo, em cima de anos e anos de experiência, cheio de qualidades, mas que acaba levando a uma acomodação, a uma não-discussão, a um não-aprofundamento. Por exemplo, numa apostila, quando você tem um parágrafo falando sobre um micróbio, as pessoas dizem isso está certo, ou está errado, ou está mais ou menos bom” e pronto, fica por aí. A Informática obriga-nos a fazer um trabalho, digamos assim, de engenharia do conhecimento, onde, quando reunimos os professores e os programadores para discutir o que é que eles querem que o programa aborde, chegamos a um alto nível de esmiuçamento do conhecimento e discutimos como é que este conhecimento se interfacia com os outros conhecimentos, como é que está montado numa estrutura etc. Podemos comparar esse processo, digamos, àquela história da sopa de pedra, do mendigo que chega na casa tal e fala: “mas eu queria só fazer uma sopinha de pedra, você me arruma uma agüinha quente?” E a mulher fica curiosa e diz: “Então tudo bem, o senhor entra e faz aqui na cozinha”. “Será que a senhora tem uma pitadinha de sal? Fica muito melhor a comida”. “E agora, que tal uma cenourinha cortada?”. “Agora, se tivesse uma fatiazinha de bacon ia ficar ótimo”. . . No fim, o mendigo tira a pedra, enxuga e guarda no bolso e tomar uma excelente sopa. O processo que nós vivemos é a mesma coisa: se tirarmos o computador, no final desse processo, o salto de qualidade da questão educacional terá sido enorme, certo? Claro que o computador não é a pedra, o exemplo cessa aí, o computador é muito mais do que a pedra, ele dá todo um sabor principal a essa sopa. Ele é uma pièce de résistance dessa sopa, mas, vamos dizer num raciocínio de redução ao absurdo, que se no final desse processo decidíssemos não mais usar o computador, ainda assim o processo teria sido enormemente válido, porque com a desculpa do computador, usando-o como esse cavalo de Tróia, teremos uma ótima sopa: “Olha, nós precisamos de vários professores alocados meio período por dia, durante vários meses”. Aí a dona de casa, digamos, nos dá esses vários professores. “Agora precisamos ter liberdade de redíscutir todo o material instrucional, agora precisamos participar de tais e tais treinamentos, agora precisamos trazer um consultor para uma discussão, agora precisamos de…” No fim, todos esses ingredientes é que fazem a riqueza dessa sopa.

(Acesso – Revista de Educação e Informática – FDE – ISSN 0103.0736 – Ano I – Jul/Dez 1988)

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