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Multirrecursos na ponta dos dedos

07/02/2013

JANEIRO 2013

Artigo reescrito para publicação na edição de fevereiro de 2013 no “Aula Aberta” da Scientific American Brasil.

Com potencial para revolucionar a sala de aula, os tablets exigem preparo dos professores e da administração escolar.

Há cerca de cinco mil e quinhentos anos, os sumérios inventaram uma das primeiras formas de escrita. Usando um tipo de estilete de cana, faziam inscrições, em formato de cunha (daí a designação desse tipo de escrita: cuneiforme), nesses “tablets” primitivos de argila.

Hoje, muitos passos após (hieróglifos em pergaminhos, monges copistas, Gutenberg, lápis, caneta e papel, máquinas de datilografar, computadores), as tabuletas retornam como avanço máximo da tecnologia digital na ponta dos dedos.

As interfaces de tocar na tela, presentes tanto nos tablets quanto nos celulares, estes mais disseminados ainda (tanto que já há muito mais deles do que bolsos que os carregam), dão aos dedos funções para além de teclar em letras e números. Permitem que se desenhe diretamente na tela, que movimentos de pinça, com indicador e polegar opositor, aumentem ou diminuam imagens, que as rotacionem ou arrastem.

A leitura de livros (mas também de jornais e revistas) é uma experiência quase próxima, embora ainda não igualável, à proporcionada pelo papel, permitindo destacar trechos, redigir anotações e, principalmente, carregar sem aumento de peso centenas de obras. Só por este aspecto as costas dos alunos agradecem o alívio do peso em suas mochilas escolares.

Conectados à internet, seja por redes locais sem fio (wi-fi) ou por conexão de telefonia (3G), o tablet é um navegador que permite acessar qualquer sítio na web, fazer pesquisas em buscadores e enciclopédias, acessar blogs e publicá-los, assistir filmes e ouvir música ou programas de rádio. Permite acessar o correio eletrônico, para ler e enviar e-mails, assim como comunicação direta através de mensageiros instantâneos, para bate-papo, ou acessar redes sociais, como Twitter e Facebook.

Os tablets funcionam, ainda, como máquinas fotográficas, permitindo tirar fotos, editá-las e publicá-las, em álbuns online ou blogs. Também permitem gravar e editar arquivos em áudio, funcionando como gravador para anotações pessoais ou mesmo entrevistar pessoas para trabalhos escolares. Dotados de sensor de posicionamento e GPS, permitem interagir com mapas e georreferenciar, com poucos metros de imprecisão, a exata posição do tablet no planeta (útil para se fazer webgincanas, por exemplo, ou recuperar o tablet no caso de perda).

Todas estas características, reunidas num só aparelho, portátil e leve, com a capacidade de processamento inúmeras vezes maior que os primeiros computadores militares (que custavam milhões de dólares e pesavam muitas toneladas) certamente são um conjunto de recursos que podem viabilizar inúmeras atividades pedagógicas, facilitar a visualização de conteúdos cognitivos, estimular atividades cooperativas e o desenvolvimento de projetos.

Além do acesso à internet e a livros, o aluno pode interagir com infográficos, com simulações, com jogos educacionais, fazer simulados de provas (Enem, por exemplo) e outros exercícios, além de acessar cursos à distância.

As pessoas vão deixar de ler livros no bom e consagrado formato de edições em papel? No caso dos livros didáticos e dos dicionários, em boa parte sim; no caso de romances, de poesia, quase certamente não. Afinal, o papel é uma tecnologia comprovadamente resistente, que não necessita de fonte de energia, e assim como o cinema não acabou com o teatro, nem a televisão acabou com o cinema, o livro possui inúmeras vantagens. O maior inimigo dos livros não são os leitores de formatos digitais (que nos grandes sistemas online são também os maiores compradores de edições em papel) mas sim os não-leitores.

Os alunos desaprenderão a escrever com lápis e caneta no papel e sua caligrafia será um horror? O importante é aprender a escrever e ter prazer nisso. Se o instrumento utilizado para a escrita ou o desenho é a ponta do dedo, uma caneta ou um pincel, isso faz parte da diversidade de recursos cuja apropriação a escola deve estimular. Se a caligrafia for considerada importante, convenhamos que o tablet pode permitir estratégias mais adequadas e interativas do que canetas tinteiro.

Outro aspecto essencial para gestores e educadores é o lado prático de como usar os tablets na sala de aula, do ponto de vista técnico e administrativo. A escola deverá se preocupar com o gerenciamento de grupos de tablets, com diferentes níveis de permissões de acesso ou conteúdos instalados, consoante o perfil dos usuários, alunos e professores.

Existem vários softwares (tipo MDM – Mobile Device Management) que permitem fazer isso, carregando o mesmo aplicativo em até centenas de tablets ao mesmo tempo, ou desligando as funções de comunicação durante a aula, para os alunos não ficarem se comunicando por e-mail, chat ou SMS, em vez de usar somente o material didaticamente planejado. A navegação na web também pode ser desligada, com a liberação de alguns sites específicos. A escola pode definir que certos aplicativos, como jogos, por exemplo, só podem ser acessados fora do horário de aula, a menos que o professor deseje usar algum e solicite sua liberação.

Outras questões a serem planejadas são o carregamento da energia de dezenas de tablets ao mesmo tempo, ou o transporte para a sala de aula, armários para armazenagem etc. Isto caso os tablets sejam usados só na escola, pois se os alunos os levarem para casa – o que permite interessantes usos em “lições de casa” e interação familiar – a problemática muda de aspecto, envolvendo outros cuidados, inclusive preocupações com segurança.

A escola deve se preocupar também com o consumo de banda larga, que subirá exponencialmente com classes inteiras conectadas online, assistindo vídeos, baixando conteúdos multimídia, publicando em blogs e redes sociais. Outro aspecto estrutural é a conectividade sem-fio, que exige vários repetidores de wi-fi para assegurar a cobertura em todos os ambientes.

É importante também que o tablet do professor possa não só se comunicar com os dos alunos, para acompanhá-los e interagir de várias formas, como ter sua imagem compartilhada com a classe através de um projetor multimídia ou uma lousa eletrônica.

Esses usos do tablet na escola exigem um professor preparado, dinâmico e investigativo, pois as perguntas e novas situações que surgem fogem do controle preestabelecido do currículo. Essa é a parte mais difícil desta tecnologia. E esse é o papel insubstituível do professor: elaborar estratégias que deem signifcado a essa porta que se abre para o universo do conhecimento. Sem isso, equipamentos e software podem apenas ser modismos adestradores de um mercado consumidor, perdendo-se a oportunidade de promover uma efetiva mudança na área do ensino.

Tablets na sala de aula

22/04/2012

ABRIL 2012

Íntegra do artigo escrito para a publicação Educação em Revista, do Sindicato do Ensino Privado (SINEPE/RS), edição 91, de abril/maio de 2012.

Há cerca de cinco mil e quinhentos anos, os sumérios inventaram uma das primeiras formas de escrita. Usando um tipo de estilete de cana, faziam inscrições, em formato de cunha (daí a designação desse tipo de escrita: cuneiforme), nesses “tablets” primitivos de argila.

Hoje, muitos passos após (hieróglifos em pergaminhos, monges copistas, Gutenberg, lápis, caneta e papel, máquinas de datilografar, computadores), as tabuletas retornam como avanço máximo da tecnologia digital na ponta dos dedos.

As interfaces de tocar na tela, presentes tanto nos tablets quanto nos celulares, estes mais disseminados ainda (tanto que já há muito mais deles do que bolsos que os carregam), dão aos dedos funções para além de teclar em letras e números. Permitem que se desenhe diretamente na tela, que movimentos de pinça, com indicador e polegar opositor, aumentem ou diminuam imagens, que as rotacionem ou arrastem.

A leitura de livros (mas também de jornais e revistas) é uma experiência quase próxima, embora ainda não igualável, à proporcionada pelo papel, permitindo destacar trechos, redigir anotações e, principalmente, carregar sem aumento de peso centenas de obras. Só por este aspecto as costas dos alunos agradecem o alívio do peso em suas mochilas escolares.

Conectados à internet, seja por redes locais sem fio (wi-fi) ou por conexão de telefonia (3G), o tablet é um navegador que permite acessar qualquer sítio na web, fazer pesquisas em buscadores e enciclopédias, acessar blogs e publicá-los, assistir filmes e ouvir música ou programas de rádio. Permite acessar o correio eletrônico, para ler e enviar e-mails, assim como comunicação direta através de mensageiros instantâneos, para bate-papo, ou acessar redes sociais, como Twitter e Facebook.

Os tablets funcionam, ainda, como máquinas fotográficas, permitindo tirar fotos, editá-las e publicá-las, em álbuns online ou blogs. Também permitem gravar e editar arquivos em áudio, funcionando como gravador para anotações pessoais ou mesmo entrevistar pessoas para trabalhos escolares. Dotados de sensor de posicionamento e GPS, permitem interagir com mapas e georreferenciar, com poucos metros de imprecisão, a exata posição do tablet no planeta (útil para se fazer webgincanas, por exemplo, ou recuperar o tablet no caso de perda).

Todas estas características, reunidas num só aparelho, portátil e leve, com a capacidade de processamento inúmeras vezes maior que os primeiros computadores militares (que custavam milhões de dólares e pesavam muitas toneladas) certamente são um conjunto de recursos que podem viabilizar inúmeras atividades pedagógicas, facilitar a visualização de conteúdos cognitivos, estimular atividades cooperativas e o desenvolvimento de projetos.

Além do acesso à internet e a livros, o aluno pode interagir com infográficos, com simulações, com jogos educacionais, fazer simulados de provas (Enem, por exemplo) e outros exercícios, além de acessar cursos à distância.

As pessoas vão deixar de ler livros no bom e consagrado formato de edições em papel? No caso dos livros didáticos e dos dicionários, em boa parte sim; no caso de romances, de poesia, quase certamente não. Afinal, o papel é uma tecnologia comprovadamente resistente, que não necessita de fonte de energia, e assim como o cinema não acabou com o teatro, nem a televisão acabou com o cinema, o livro possui inúmeras vantagens. O maior inimigo dos livros não são os leitores de formatos digitais (que nos grandes sistemas online são também os maiores compradores de edições em papel) mas sim os não-leitores.

Os alunos desaprenderão a escrever com lápis e caneta no papel e sua caligrafia será um horror? O importante é aprender a escrever e ter prazer nisso. Se o instrumento utilizado para a escrita ou o desenho é a ponta do dedo, uma caneta ou um pincel, isso faz parte da diversidade de recursos cuja apropriação a escola deve estimular. Se a caligrafia for considerada importante, convenhamos que o tablet pode permitir estratégias mais adequadas e interativas do que canetas tinteiro.

Esses usos do tablet na escola exigem um professor preparado, dinâmico e investigativo, pois as perguntas e novas situações que surgem fogem do controle preestabelecido do currículo. Essa é a parte mais difícil desta tecnologia. E esse é o papel insubstituível do professor: elaborar estratégias que deem signifcado a essa porta que se abre para o universo do conhecimento. Sem isso, equipamentos e software podem apenas ser modismos adestradores de um mercado consumidor, perdendo-se a oportunidade de promover uma efetiva mudança na área do ensino.

Fronteiras Educação – Diálogos com Professores

24/04/2011

DEZEMBRO 2010

Vídeo com resumo editado da palestra feita em Porto Alegre (lançamento da publicação Tecnologias na escola) no “Fronteiras Educação – Diálogos com Professores”, do projeto Fronteiras do Pensamento, em dezembro de 2010.

 

Carlos Seabra, coordenador de projetos de tecnologia educacional, foi o convidado do último encontro do módulo Diálogos com Professores 2010, no dia 9 de dezembro. No evento, foi lançada a cartilha Tecnologias na Escola com distribuição gratuita para os professores da rede pública de Porto Alegre/RS. O vídeo com os principais momentos da conferência de Carlos Seabra já está disponível em nosso canal do YouTube. Acesse clicando na imagem acima.

Além da discussão teórica, a publicação traz exemplos práticos e dicas de aplicativos para uso em sala de aula. Na conferência, Seabra discutiu a facilitação proporcionada pela tecnologia e a necessidade da apropriação das novas ferramentas pelos professores. “Hoje, as pessoas nascem com o mouse na mão”, afirmou. Para ele, o professor só conseguirá atrair seus alunos se conseguir entendê-los. Mas, para tanto, precisa compreender as novas tecnologias.

O objetivo da cartilha Tecnologias na Escola é ajudar os educadores a repensarem o formato tradicional da educação e a incluírem as ferramentas digitais no processo de ensino. “Para um professor ensinar a ler, ele precisa saber ler. Para ensinar a escrever também. Com a tecnologia não é diferente”, sustentou Seabra.

A cartilha foi dividida em dez temas: navegação, comunicação, vídeo, som, imagens, blogs, textos e planilhas, mapas, redes sociais e jogos e simulações. De forma clara e direta, o educador tem acesso aos principais programas e aplicativos disponíveis na rede que podem facilitar o uso da tecnologia no processo de educação.

A publicação também traz exemplos práticos e sugestões de atividades para complementar os estudos e incentivar os alunos a participarem ativamente da aprendizagem. A cartilha sugere, por exemplo, que os educadores aproveitem o Twitter para propor que os alunos elaborem microcontos de apenas 140 caracteres ou façam resumos com poucas palavras, treinando a capacidade de síntese dos estudantes. Esses exercícios também podem estar relacionados à produção de textos mais longos, postados em blogs, desencadeando um envolvimento maior dos alunos.

Desdobramento do Fronteiras do Pensamento, o “Fronteiras da Educação – Diálogos com os Professores” é um evento gratuito que reúne docentes de escolas municipais e estaduais de Porto Alegre e da região metropolitana para debater questões como ética, religião e conectividade, entre tantos outros temas.

 


Uma extensão da mente: debate com Carlos Seabra

Roselly Carvalho de Araújo é professora de matemática há 22 anos. Um belo dia, deixou de lado o giz e o quadro negro e levou seus alunos para o laboratório de informática. Ela listou nomes de artistas e pediu que os pequenos identificassem formas geométricas nas obras de arte, tudo via pesquisa na internet. “Fiquei impressionada quando um deles falou ter visto um quadro da Tarsila do Amaral no Faustão”, conta.

De certa forma, a pequena história de Roselly resume o tema da palestra de Carlos Seabra no Fronteiras Educação – Diálogos com Professores, realizada no dia 09 de dezembro, no Salão de Atos da UFRGS, em Porto Alegre. O debate sobre o uso de tecnologias no ensino e como explorar o potencial delas na aprendizagem foi um sucesso de público, crítica e repercussão na mídia. Também marcou o último encontro do Fronteiras do Pensamento 2010 e o encerramento do ano letivo da Secretaria Municipal de Educação de Porto Alegre (SMED).

Dois mil educadores assistiram aos dois encontros, com mais de duas horas de duração cada. Com a mediação dos professores Ítalo Dutra, do Colégio Aplicação, e Daniela Bortolon da Silva, da Smed, Seabra argumentou que o computador não pode estar restrito a laboratórios de informática. Brincou que seria o mesmo que entregar lápis para os homens da Pré-História, mas limitar o uso a apenas uma caverna. O aluno deve ser estimulado a usar as ferramentas do celular, interagir de casa via sites como o Twitter, tudo para desenvolver o empreendedorismo cognitivo. “Os alunos precisam ter prazer em buscar conhecimento. Na Grécia Antiga, quando Sócrates disseminava seus ensinamentos à sombra de uma árvore, quem o ouvia adorava estar lá, aprendendo”, filosofou.

Segundo Seabra, os professores devem apropriar-se da tecnologia disponível. Defende que a utilização de computadores, smartphones, tablets e suas ferramentas estimulam os alunos a levantar hipóteses, reconhecer padrões, desenvolver projetos, saber pesquisar, ser metódico, entre outros. “A principal tecnologia é utilizar o cérebro. E o computador é uma prótese, uma extensão da mente. Os professores que ainda não têm acesso a ele na escola, já devem imaginar o que farão quando o tiverem”, afirma.

Carime Kanbour, vice-presidente do Instituto Claro, incentivador do Fronteiras Educação, lembrou que o evento foi uma forma de se aproximar dos professores e conhecer um pouco melhor a realidade deles. Para o Instituto, a utilização das novas tecnologias no ensino é uma bandeira. “É importante para ver se estas ideias podem ser aplicadas na prática. Acreditamos que as novas tecnologias são aliadas na difusão do conteúdo e ajudam na construção de uma nova realidade de aprendizagem”, projeta.

Para a Secretária da Educação, Cleci Jurach, o professor municipal ganhou um presente de Natal. Ela espera que a palestra de Seabra abra novas possibilidades para os educadores planejarem no ano letivo de 2011 com outra perspectiva, um pouco mais tecnológica. “É o que sempre dizemos: ‘a educação não está pronta’. A fazemos o tempo todo, construindo conhecimento”, defende.

E para fazer com que esta tarefa seja facilitada, todos os presentes receberam uma publicação de 28 páginas sobre o tema, organizada por Seabra, com conteúdos sobre o uso da internet e de suas ferramentas no ensino. A cartilha será distribuída para todos os professores da Rede Municipal de Ensino. Mas seu conteúdo também está disponível para download no site do Instituto Claro. Instituições de Ensino interessadas em ter o fascículo devem contatar a Central de Relacionamento do Fronteiras pelo e-mail relacionamento@fronteirasdopensamento.com.br. A expectativa é que todos sigam o exemplo da professora Roselly, buscando alternativas para ampliar o conhecimento dos alunos e fazer da escola um prazer, não uma mera obrigação.

O Fronteiras Educação – Diálogos com Professores é uma iniciativa do Instituto Claro com o apoio cultural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e da Prefeitura Municipal de Porto Alegre. A edição 2010 do Fronteiras do Pensamento – Para compreender o século XXI é apresentada pela Braskem, tem o patrocínio de Unimed POA, Gerdau, Grupo RBS, Instituto Claro e Refap, e o apoio cultural da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Anhanguera Educacional e Prefeitura Municipal de Porto Alegre.

• Saiba como funciona a cartilha no vídeo Tecnologias na Escola: http://youtu.be/Rt8gtu5urGY

• Faça o download completo da cartilha: http://www.institutoclaro.org.br/banco_arquivos/Cartilha.pdf

 

Especialista ensina professores a usar a tecnologia como aliada na sala de aula

10/12/2010

DEZEMBRO 2010

Reportagem especial do jornal Zero Hora, feita por Juliana Bublitz, em 10 de dezembro de 2010, por ocasião da palestra de lançamento da publicação Tecnologias na Escola.

Para prender a atenção da gurizada

Para ajudar os professores a transformar as tecnologias da informação em ferramentas no processo de aprendizagem, o editor Carlos Seabra, palestrante do Fronteiras Educação – Diálogo com Professores, dá dicas práticas que podemser usadas na sala de aula. Entre elas, a “webgincana”. Confira.

Para ajudar os professores a transformar as tecnologias da informação em ferramentas no processo de aprendizagem, o editor Carlos Seabra, palestrante do Fronteiras Educação — Diálogo com Professores, dá dicas práticas que podem ser usadas na sala de aula. Entre elas, a “webgincana”. Confira.

Imagine a cena: irritada com alunos que não param de teclar ao celular, a educadora respira fundo, larga o giz, leva as mãos à cintura e ordena que os adolescentes desliguem os aparelhos. Do fundo da sala, em meio ao burburinho, ouve um protesto.

— Por que a gente não pode tuitar na aula? — questiona o guri de boné e roupas largas, cheio de razão.

Para o editor Carlos Seabra, palestrante do Fronteiras Educação — Diálogos com Professores, os estudantes não só podem, como devem. Coordenador editorial do Núcleo de Educação da TV Cultura, Seabra esteve ontem em Porto Alegre, no Salão de Atos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Para ele, não há saída: se quiserem falar a língua da gurizada, os professores precisam explorar o potencial das novas tecnologias:

— Caso não façam isso, correm o risco de ficar parados no tempo.

Português de nascença, o editor de 55 anos convidou o público formado basicamente por professores para acompanhá-lo em um passeio pelo que chamou de “jardim zoológico da tecnologia”. Para quem nunca (ou pouco) havia ouvido falar de Wikipédia e Facebook, ele fez as apresentações. E mais: deu dicas de como usar as ferramentas em aula.

Navegação

Como fazer os estudantes usarem a web sem apenas copiar dados? A dica é propor pesquisas e atividades nas quais os sites de busca não sejam o fim, mas o começo do trabalho.

Exemplo: Crie uma “webgincana”, pedindo que os alunos separem-se em grupos e pesquisem sobre um tema, com prazo determinado. A pesquisa poderá envolver textos, fotos, áudios e vídeos, que serão apresentados e debatidos com a turma. Como em uma gincana, as etapas do projeto terão pontuação para animar a garotada.

Principais sites de pesquisa:

Google (www.google.com.br): por meio dele, é possível buscar informações de quase todos os tipos e de várias épocas. Wikipédia (www.pt.wikipedia.org): é uma enciclopédia livre, feita com contribuições de internautas.

Celular

Embora algumas escolas proíbam o uso do celular, ele pode ser uma ferramenta muito útil na sala de aula. Mas como fazer os alunos usarem o equipamento de forma instrutiva?

Exemplo: Convide os estudantes a gravarem entrevistas em vídeo ou até um documentário com um telefone. O vídeo poderá ser sobre a escola ou sobre o bairro. Depois de pronto, poderá ser disponibilizado no YouTube (www.youtube.com), o maior acervo de vídeos da internet, e ser inserido em blogs e sites.

Os trabalhos podem ser individuais ou em grupo e variar de ficções a documentários.

Conversas na web

A comunicação via e-mail já está consagrada em muitas escolas, mas as conversas por mensagens instantâneas ou por chat ainda não são exploradas como poderiam.

O desafio do professor é trazer para o ambiente escolar essas novas ferramentas para que o aluno entenda a importância de escrever ao se comunicar com o mundo, mas como?

Exemplo: Peça aos alunos que, por meio de um desses programas, chat ou e-mail, conversem com estudantes de outras partes do Brasil. Que colham informações sobre a maneira como vivem e elaborem um trabalho individual ou coletivo sobre o assunto.

Ferramentas de comunicação:

MSN (www.windowslive.com.br) e Skype (www.skype.com). Os programas podem ser facilmente baixados na internet. Com eles, é possível conversar com uma ou mais pessoas ao mesmo tempo, fazer videoconferências e, em alguns casos, enviar arquivos, gravar vídeos e conversas.

Gmail (www.gmail.com), Hotmail (www.hotmail.com) e Yahoo! Mail (www.yahoo.com.br). Para criar uma conta em qualquer um deles, basta acessar as páginas e preencher os cadastros. Os e-mails são gratuitos.

Mapas digitais

Por que se restringir ao velho mapa pendurado na parede se hoje é possível usar programas como o Google Earth e mostrar regiões, países e cidades em detalhes?

Exemplo: Faça com que os alunos pesquisem sobre a vida do arquiteto Oscar Niemeyer nos sites de busca. Em seguida, peça que descubram e assinalem no mapa virtual onde estão suas obras no mundo. Ou, durante as aulas de história, mostre os contornos atuais do Império Romano.

Programas de mapas na internet:

Google Maps (http://maps.google.com) e Google Earth (www.google.com/earth), ambos com acesso gratuito.

Redes sociais

Pesquisas recentes revelam que as redes sociais vêm sendo mais usadas para comunicação entre jovens do que os e-mails.

A cada dia surgem novas opções, e o professor pode tirar proveito disso.

Exemplo: Peça para seus alunos entrarem no Twitter (www.twitter.com). Como o formato de postagem de mensagens não permite mais do que 140 caracteres, desafie a gurizada a demonstrar uma ideia, resumir uma informação, transmitir um conceito, escrever microcontos, de acordo com o objetivo da aula.

Fonte: Tecnologias na Escola, de Carlos Seabra – Fronteiras do Pensamento.

Perguntas para o especialista
A pedido de Zero Hora, cinco professores da Capital elaboraram perguntas para o palestrante Carlos Seabra. Confira as dúvidas apresentadas e as respostas do especialista:
De que forma usar as redes sociais como ferramenta para o ensino de língua inglesa?
“As redes sociais facilitam muito o ensino de qualquer idioma. São uma ferramenta fantástica, porque a pior coisa é você aprender uma língua só na base da gramática. Os professores podem usá-las estimulando os alunos a falarem com jovens de outros países a partir de tarefas específicas. Mas isso deve ser feito com um fio condutor. Os estudantes precisam ser orientados quanto ao assunto tratado.”
CALHANDRA PINTER, Inglês
Como eu poderia usar as redes sociais nas aulas de geografia?
“Você pode mesclar o uso das redes sociais com um software de mapas, como o Google Maps, e inventar uma viagem, criando um roteiro e assinalando os locais na tela. Uma ideia é refazer, por exemplo, os caminhos da Coluna Prestes ou passar pelos lugares onde grandes navegadores estiveram. Você vai conhecendo o mundo, até porque nos mapas virtuais há fotos. Você pode pedir que os alunos procurem músicas e comidas típicas dos locais visitados. O principal é soltar a imaginação.”
KENNY BASTOS, Geografia
O telefone celular poderia ser incorporado à sala de aula como mais uma ferramenta para a construção de conhecimento?
“Tem de ser. O celular é um pequeno computador, manda mensagem, é máquina fotográfica, gravador e agenda. É inconcebível que a escola não use o celular na educação, e que ele seja proibido. Por que não permitir, em uma prova, que os alunos usem o celular como quiserem, mas exigindo que respondam de modo criativo? O celular pode virar uma ferramenta interativa de pesquisa com recursos que estão fora da sala de aula.”
TANIA IWASZKO MARQUES, Psicologia
Se a maior parte das escolas não tem aparato tecnológico suficiente, quais são as alternativas para o professor?
“Os impedimentos secundários. Vamos lembrar de quando surgiu a TV. Só da classe média alta para cima havia acesso. Os educadores tiveram uma posição omissa, dizendo que poucas pessoas tinham os aparelhos. Ficaram para trás. Com os computadores, é a mesma coisa. Hoje, é difícil encontrar alguém que não tenha acesso a e-mail. É importante que se preparem para usar o computador, mesmo que não o tenham.”
WAGNER CÉSAR BERNARDES, Matemática
De que forma o uso das tecnologias pode substituir a figura do professor? Como fica o papel dele, tendo em vista esses novos recursos?
“Eu diria que o professor que pode ser substituído por um software ou por uma máquina deve ser substituído. O computador deve ser encarado como uma ferramenta. Quanto mais o educador entender o que se passa no cérebro de seus alunos e usar o computador como uma ferramenta, mais ele será insubstituível. O computador sem o professor não é nada.”
BRUNO ORTIZ, História

Abaixo, original da reportagem, em formato PDF:

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Tecnologia pode transformar a educação

27/02/2007

FEVEREIRO 2007

Entrevista dada a Julia Dietrich para o website Aprendiz, em 27 de fevereiro de 2007.

Do mundo industrial ao ambiente privado, certamente não há como negar a onipresença da tecnologia na sociedade contemporânea. Na comunicação é impossível pensar na ausência da internet, enquanto na arquitetura softwares de programação gráfica tornaram-se indispensáveis. Mas, na educação – em especial na rede pública – as novas mídias e adventos tecnológicos continuam sem espaço e metodologia capazes de ampará-los.

Para o editor multimídia e consultor de tecnologia educacional e redes sociais, Carlos Seabra, é fundamental pontuar esses novos instrumentos técnicos como possível alavanca para repensar e transformar o próprio sistema educacional que pouco mudou nos últimos séculos.

“Não adianta substituir o quadro negro pelo powerpoint e também não faz sentido um curso de excel que termine em si mesmo. A tecnologia não deve reforçar as atuais práticas de ensino e sim questionar o papel do educador, a forma de educar e até o conteúdo ensinado”, diz.

Segundo o consultor, a técnica voltada para si mesma torna-se dispensável, insistindo que o produto final transforme-se, ele sim, em algo independente. “Aulas de word só devem existir se o objeto a ser problematizado for, por exemplo, a redação. Ninguém fez curso de lápis para poder escrever”, brinca Seabra que cita o personagem Robinson Crusoé como exemplo. “Sem artefatos na ilha, ele foi capaz de pensar e criar soluções para resolver seus problemas. Tecnologia não está no instrumento e sim na cabeça da pessoa”.

Analice Moura Inácio, mãe dos estudantes do colégio particular Nossa Senhora das Graças da cidade de São Paulo, conta que se surpreendeu ao ver indicada a compra de um pen-drive na lista do material escolar de Frederico, de 11 anos, aluno da 6ª série do ensino fundamental.

“Decidimos esperar para ver qual a real necessidade do aparelho. E, se for realmente necessário, então o compraremos”, diz a mãe que vê, mesmo assim, a inserção tecnológica no ambiente escolar como ação bastante positiva. “É impensável que eles não trabalhem com algo que estará completamente inserido em suas vidas”, observa.

Seabra ressalta que os artefatos podem vir a ser poderosos instrumentos para transformar o próprio espaço físico da sala de aula. “Com uma tarefa a ser transportada num pendrive ou consultada na Intranet da instituição, os estudantes acabam envolvendo suas famílias e até, comunidades, expandindo o espaço das salas de aula e colonizando outros lugares, normalmente, considerados externos ao ambiente escolar”, observa.

“Acho engraçado muitos educadores condenarem a presença de computadores nas bibliotecas, acusando o tecnológico de substituir as outras atividades escolares. Porém, é impressionante ver que, ao esperar pela vaga para utilizar o computador, muitos jovens passaram a ler mais, pela própria convivência no espaço da biblioteca. O problema não está nos artefatos e sim no sistema”, diz ele que insiste na importância da internet como ponte de diálogo com o mundo, na busca e na problematização de informações.

Segundo o consultor, “a má capacitação dos professores, associada ao próprio desconhecimento de um plano tecnológico fazem com que programas muitas vezes desnecessários ou obsoletos substituam artefatos simples como a própria internet”, aponta.

Seabra insiste também que a capacitação dos profissionais deve estar diretamente associada ao questionamento do modelo educacional brasileiro. “O computador é brilhante pois dá um feedback imediato ao professor, que pode repensar suas aulas a partir da relação com os estudantes. Não existe capacitação prévia. Ela deve vir de acordo com as demandas do processo, ao longo da proposição e da finalidade de determinados projetos”, acredita.

Para ele, é necessário entender que a tecnologia pressupõe um tripé interligado, conectando o equipamento, o software e as pessoas que o utilizam. “Muitas vezes, em vez dos softwares de geografia – que na maioria das vezes são muito pobres -, os jogos podem ser utilizados. Eles possibilitam um novo mundo de oportunidades de ensino, promovendo o lúdico e a integração”, observa.

Seabra pontua ainda que novas mídias são instrumentos fundamentais para discutir a forma de ensinar e o trabalho do próprio conteúdo acadêmico. “Porque não, por exemplo, fazer com que os alunos criem e alimentem um blog como atividade interdisciplinar? Eles teriam que congregar suas pesquisas em diferentes assuntos, questionar o espaço coletivo e público do meio virtual e exercitar o raciocínio técnico necessário para construir os textos e confeccionar o produto final”, sugere.

Preocupada com a discussão do espaço público dos meios virtuais, Analice Inácio muitas vezes participa de atividades na internet e jogos para observar e, ao mesmo tempo, interagir com seus filhos. “Não os policio de forma rígida. Busco observar aquilo que meus filhos acessam, participando das suas atividades”, afirma.

Com objetivo similar, a empresa Microsoft desenvolveu o site Navegue Protegido que oferece, de forma sucinta, dicas para pais, professores, jovens e adultos como utilizar a internet de forma segura na escola, no trabalho e em casa. Nele são indicados ainda links de páginas com conteúdos próprios para diferentes faixas etárias e que podem promover a integração familiar no uso de ferramentas tecnológicas.

“Acredito que é preciso sim estimular as atividades tecnológicas na escola, mas busco determinar um tempo de uso diário do computador, televisão e videogame para que eles não deixem de brincar, praticar esportes, ler e realizar atividades externas ao espaço virtual”, diz a mãe de Fred que se vê bastante recompensada por ter suas regras cumpridas mesmo na sua ausência.

Entusiasta do ensino público, Seabra vê que o investimento financeiro das escolas particulares na área tecnológica, embora diretamente associados à disputa mercadológica e ao marketing, serve muitas vezes para pontuar como é grande a defasagem entre os dois sistemas. “Se bem pensada e elaborada de acordo com seus espaços e necessidades, a tecnologia pode servir muito positivamente à sociedade ou então, só veremos aumentar o estágio em que nos encontramos de apartheid tecnológico entre as classes sociais do país”.

Inclusão digital: algumas promessas e muitos desafios

01/12/2002

DEZEMBRO 2002

Artigo publicado na revista Eixos, da Câmara Brasil Alemanha e Instituto de Fomento Sócio-Cultural Brasil-Alemanha, em dezembro de 2002, edição especial sobre Responsabilidade Social e Cidadania.

A chamada sociedade da informação e do conhecimento traz consigo impactos sociais capazes de levar a uma transformação maior que a produzida pela máquina a vapor. Um mundo baseado cada vez mais na troca de valores simbólicos, do dinheiro à informação, vai mudar o eixo da economia, acabar com o conceito atual de trabalho, valorizar mais que tudo o conhecimento e a aprendizagem. Neste contexto, os excluídos sê-lo-ão ainda mais, se não houverem políticas e ações visando combater o aprofundamento da clivagem social trazida pelas novas tecnologias.

A tecnologia em si não é boa ou ruim, mas amplifica e potencializa a ação humana, tal como um megafone pode fazer o bom cantor alegrar multidões e o desafinado incomodar muito mais gente! Inclusão digital pressupõe uma série de outros objetivos conexos que não os meramente tecnológicos, podendo ser uma ação comparada ao “cavalo de Tróia”, que, após permitir a penetração das muralhas antes indevassáveis da cidade, em seu bojo carregava guerreiros sabedores de qual estratégia implementar.

Segundo Fredric Litto, coordenador científico da Escola do Futuro da USP, “organizações locais devem ser envolvidas e comprometidas com o sucesso do projeto desde o seu início, incluindo responsabilidade para o design, operação e produção de conteúdo; a estratégia apropriada para essa transferência de tecnologia tem de ser voltada para o desenvolvimento local de capacidade e autonomia”.

O Centro de Inclusão Digital e Educação Comunitária, CIDEC, da Escola do Futuro da USP tem entre seus objetivos o acompanhamento, estudo e debate de todas as experiências de inclusão digital no país e no mundo, mas também leva a cabo uma importante tarefa prática, que é a capacitação e gerenciamento de competências dos monitores de cinqüenta infocentros do Programa Acessa São Paulo. As considerações a seguir, na forma de três itens que, longe de esgotar o assunto, levantam algumas preocupações básicas, são embasadas nesta experiência prática e norteadas pelas formulações metodológicas construídas em mais de uma década de experiência da Escola do Futuro com aplicações da tecnologia em ambientes de aprendizagem.

A “maldição” dos cursos

A primeira expectativa de lideranças e usuários em relação aos projetos de inclusão digital é a da realização de cursos. Um lugar que reúne uma dezena de computadores serve para que outra coisa além de realizar cursos? Cursos de quê? Windows, Word, Excel, claro! E para que serviriam tais cursos? Para se obter um certificado, um diploma. Obviamente este destina-se a obter emprego, ou melhoria da condição profissional dentro de um já existente. Este é o grande desafio: combater a “maldição” do formato taylorista e fordista de transmissão de informações, que não assegura a construção do conhecimento e, ao contrário, promete demagogicamente uma capacitação que o formato de tempo disponível e a qualificação dos envolvidos não atende. Claro que um telecentro é um espaço de aprendizagem, mas a mesma dá-se de forma diferenciada do ambiente escolar, da sala de aula. Ocorre na resolução de problemas significativos, com apoio de monitores e com a participação dos demais usuários, numa verdadeira rede local humana de aprendizagem cooperativa, focada nos contextos significativos do uso das aplicações, sejam elas navegar na internet para fazer um boletim eletrônico ou tirar uma segunda via de conta telefônica ou usar um processador de textos para redigir o currículo e enviá-lo por e-mail. Cada uma destas tarefas exige um acompanhamento pedagógico individualizado que não pode ser feito na forma de curso, embora este último atenda as expectativas imediatas de usuários e a distribuição de certificados mostre mais rapidamente um resultado, porém muito mais próximo da demagogia do que da real apropriação do conteúdo.

O ambiente de um centro de inclusão digital

Geralmente um telecentro ou infocentro possui dez computadores e um servidor, conectados em rede e ligados em banda larga à Internet. Aliás, hoje em dia não faz o menor sentido ter computadores sem conexão na rede mundial e experiências até bem intencionadas de reaproveitamento de lixo tecnológico que não levem isso em consideração acabam não promovendo inclusão mas sim funcionando como uma esmola tecnológica, uma sopa dos pobres da era da informática. Mas não basta esse ambiente, que deve ser enriquecido com impressora, webcam, possuir acesso individual a multimídia etc. É fundamental que faça parte desse espaço uma outra sala sem computadores, com cadeiras e mesas, com estantes e publicações, com murais de cortiça, com área para os usuários esperarem e fazerem algo útil conexo às atividades ali desenvolvidas, onde ocorra troca e socialização. Como geralmente o tempo de uso do computador, dada a enorme procura, é cerca de meia-hora para cada usuário, convém que um desempregado que vá fazer seu currículo no micro antes o rascunhe em papel, e nesse espaço fora do laboratório ele pode obter auxílios de quem tem mais experiência. Ou uma senhora que ache receitas de culinária interessantes na Internet e as imprima pode depois compartilhá-las com suas amigas. Links e dicas de sites podem ser afixados nos murais e, acima de tudo, a troca de calor humano, piadas, histórias do dia-a-dia fazem com que a tecnologia seja mais uma ferramenta de troca humana e que seja apropriada como tal. Num ambiente destes ocorre a multiplicação e democratização do acesso à informação mesmo para os que ainda não mexem no computador, ampliando enormemente o alcance da inclusão digital. Se junto com isto houver uma sala de aula em anexo, então nela podem ocorrer alguns dos cursos que criticamos acima, mas que em adequado ambiente podem ser altamente desejáveis.

Inclusão também dos não-excluídos

Sempre que se fala em inclusão digital pensamos nas classes C, D e E. Obviamente este é o foco principal, mas para atingir tal objetivo é importante não esquecer que qualquer ação completa deve ser integradora e potencializar outros segmentos da sociedade, pois a cidadania é alcançada digitalmente quando a rede é tecida incluindo excluídos e não-excluídos. Assim, no centro físico de inclusão, seja um telecentro, infocentro ou outra designação, é desejável que jovens que possuem micro em casa o freqüentem, pois estes poderão ser de inestimável ajuda nas tarefas impossíveis de serem levadas somente pelos monitores, que adultos dominando diversos campos do conhecimento colaborem como voluntários, principalmente se também forem usuários, esporádicos ou não. Outro aspecto da “inclusão dos não-excluídos” é o da geração e captação de conteúdos em língua portuguesa. Segundo dados do Ministério da Ciência e Tecnologia, aproximadamente apenas 2% dos conteúdos da Internet mundial são em língua portuguesa, contra cerca de 5% em língua espanhola. Mais importante que a criação de novos conteúdos deve ser a captação dos já existentes, considerando três eixos: diversidade de conteúdos, convergência de mídias e formação de redes e comunidades. As ações de inclusão digital devem incluir empresas, entidades sociais, intelectuais, estudantes, empresários, políticos, militares, sindicalistas, jovens, pessoas da terceira idade, portadores de deficiências, homens e mulheres, tanto usuários como, principalmente, produtores de conteúdo. Afinal, não basta apenas surfar na Internet: também é preciso aprender a fazer onda!

Em recente pesquisa feita pela Escola do Futuro da USP, em parceria com o instituto de pesquisa Insight, para o programa Acessa São Paulo, sob o tema “necessidades informacionais da população de periferia de São Paulo”, identificamos que 90% (sic) da população pesquisada, das classes C, D e E, já ouviram falar e sabem o que é a Internet, ao passo que 79% nunca usaram um computador (destes, 93% declararam desejar aprender a fazê-lo). Quanto aos conteúdos e serviços considerados mais importantes para possível uso da internet, 81% afirmaram desejar marcar consultas médicas, descobrir endereços de hospitais ou postos de saúde, tirar dúvidas sobre doenças, tratamentos e outras questões de saúde; 79% para procurar emprego, saber de vagas de trabalho, preparar currículo; e 75% para reclamar ou se informar sobre serviços públicos, impostos, luz, asfalto etc.

Num mundo em transformação, onde cada vez mais o computador é o veículo de transporte da mente e um instrumento essencial de trabalho, não podemos preparar as novas gerações para um mundo de subalternidade, tanto do ponto de vista individual quanto na perspectiva da nação. Assim, é necessário frisar que inclusão digital não é apenas ensinar a utilização da tecnologia ou disponibilizar o acesso à rede: é preciso haver um trabalho de identificar as demandas informacionais, como as listadas na pesquisa acima citada. A produção de conteúdos deve ser vista como uma estratégia importante no processo de Inclusão, somando-se aos demais esforços, como formação e capacitação de multiplicadores, criação de redes locais e comunidades virtuais, bem como integração com políticas públicas e ações de responsabilidade social.

Cultura e inclusão digital

01/06/2002

JUNHO 2002

Fala proferida na mesa de abertura do I Fórum Regional de Políticas Culturais, realizado no Centro Cultural Roberto Palmari, em Rio Claro – SP, em 2002. Na mesma mesa participaram João Baptista Pimentel, Danilo dos Santos Miranda e Hamílton Faria, entre outros. Transcrição da fala de Carlos Seabra, em gravação feita pela equipe do CREC, com a copidescagem de Alda Ribeiro.

Atualmente, estou envolvido profundamente na questão educacional e da tecnologia na educação. Eu percebo que a cultura é o que mais falta hoje em dia no processo educacional. Alguém já definiu que cultura é aquilo que sobra depois que você esquece tudo o que aprendeu, o que mostra como o lastro final é realmente a coisa da cultura.

As maiores dificuldades da escola são de natureza cultural, e hoje que se inaugura o infocentro do Acessa São Paulo aqui, essas questões devem ser analisadas. Para você navegar na internet, ter e-mail, publicar e ser autor envolve muito mais habilidades e competências culturais do que propriamente uma habilidade tecnológica. Essa é uma coisa secundária que se adquire tendo a primeira.

Vou ser muito breve e terminar dizendo que nesta questão da inclusão digital, de incorporação da tecnologia, muito mais importante do que surfar na internet é aprender a fazer onda que é uma coisa eminentemente de construção cultural.

Eu vou dar uma abordagem diferente sobre a questão dos corredores. Por toda minha vida militei na área cultural com cineclubismo há uns 15 anos mais ou menos, em um projeto no qual a gente levava cinema para 80 cidades.

Atualmente estou trabalhando na área educacional e na inclusão digital e não poderia deixar de dar uma visão da minha experiência da área de cultura. Eu vejo educação e inclusão digital com enfoque cultural e agora vou procurar mesclar as duas áreas.

Nós estamos vivendo uma época na qual está se criando uma nova geografia, trata-se da geografia virtual. Todo mundo já deve ter visto filme de ficção científica em que há uma dimensão paralela e as pessoas passam de uma para outra dimensão.

Essa dimensão virtual está sobre nós e em cima de todo o planeta. Ela tem uma nova economia, baseada em bytes, não mais em átomos. Isso traz uma série de desafios para nós, em termos de organização do estado, democracia, cultura, educação, enfim, toda uma série de desafios que o mundo novo nos traz.

Da mesma forma que um novo mundo foi a “descoberta” das Américas, como um continente que estava em crise exportou toda uma série de gente, mão-de-obra para esse Novo Mundo. Hoje em dia, não há mais lugar na Terra para se expandir a não ser em direção ao virtual. Seguindo na mesma comparação, assim como antigamente as caravelas eram o instrumento de descoberta do Novo Mundo, atualmente a tecnologia cumpre um papel similar ao desses barcos. O que ocorria com a caravela? Quando ela não afundava ao ir para o novo mundo e as pessoas não morriam de escorbuto a bordo, chegavam a uma terra onde eram picadas por mosquitos, contagiados por doenças desconhecidas ou morriam atacadas por índios. Se sobreviviam a tudo isso, criavam cidades sem leis, sem esgoto, que eram uma porcaria. Porém, daí nasceu o Novo Mundo.

Hoje, tecnologia é essa coisa, o computador que quebra, dá problema. Eu até fiz um haicai em “homenagem” ao Bill Gates, falando que cada vez que dá pau no micro, ele fica mais rico. Nós estamos atualmente nessa fase em que a gente naufraga. A tecnologia é uma coisa que não é transparente, principalmente para uma população excluída.

Isso faz com que nós, que trabalhamos com cultura e produção cultural, tenhamos o dobro do desafio que é criar o contorno desse continente para que ele não seja desenhado por outros que tenham o interesse meramente comercial como os tais bill gates e outros do tipo.

Um exemplo muito claro desse desafio é o da televisão que na área educacional é um pavor, é um desastre. Na época em que surgiu a televisão, os educadores tiveram uma postura omissa quando não reacionária. Eles pensavam o que hoje muita gente acha, que computador é uma coisa de elite e, no entanto, na favela cada vez tem mais computadores.

Com o atual estágio de avanços e interesses do capitalismo no nosso modo de produção, daqui a pouco vai ter um microcomputador em cada casebre, seja em uma favela ou num bairro rico. Nós temos que estar preparados para criar novos tipos de corredores virtuais, além dos corredores geográficos. Temos que saber atender a essa nova geografia, que também existe, para além do município, do estado, da federação, do planeta. Hoje nós temos o ciberespaço que precisa ser ocupado porque se não fizermos isso alguém ocupará esse espaço, já que não existe vácuo na natureza.

Além disso, trazendo aqui para um terreno mais imediato, existe a conexão do virtual com o real que é básica, ou seja, quando o sujeito domina a informação, os bits e bytes desse espaço, na verdade, ele está dominando as coisas nessa terra que a gente apalpa. Quero dizer que os preços das ações, do arroz e do feijão são determinados virtualmente, mas o seu reflexo tem impacto na realidade.

Poderia dar um exemplo bastante imbecilzinho que serve para o que eu quero dizer. É o seguinte: você pega o seu Zé cavando a terra e ele é um excluído social, um analfabeto, um sujeito que tem verminose. Ele não tem muita expectativa e qualidade de vida. Seu Zé está lá, cavoucando a terra e passa o seu patrão a cavalo; ele conversa com o patrão, dá tchau e o patrão vai embora. A tecnologia se desenvolve e o patrão agora passa numa estrada em uma BMW em alta velocidade, dá uma abaixadinha no vidro fumê, que fica normalmente fechado por causa do ar condicionado, dá um tchau para o seu Zé que continua cavoucando. Esse seu Zé é o mesmo ou é o filho, o neto ou o bisneto daquele, que continua analfabeto, com verminose e excluído socialmente.

A tecnologia se desenvolve mais ainda e o patrão passa agora de jatinho e o seu Zé aqui embaixo dá tchau para o jatinho e o patrão olha, lá de cima, vê um pontinho preto e não sabe se é uma vaca, um boi ou um seu Zé qualquer, porque há vários seus Zés, assim vacas e bois. O seu Zé aqui embaixo não sabe se naquele jatinho vai o seu patrão ou não. Ainda dá um tchau na esperança de alguma comunicação remota com aquele objeto tecnológico. Só que agora a tecnologia deu mais um passo e o patrão dele passa pela internet na forma de um e-mail,na forma de uma conversa em chat e é aí que seu Zé está totalmente frito, ele é um excluído total. Ou seja, com o impacto das novas tecnologias, ou a gente trabalha em um projeto de inclusão digital, que traga junto a inclusão social ou estaremos totalmente equivocados porque só a inclusão digital sem a inclusão social significa informar os usuários de banco 24 horas como usar os serviços ou fazer compras no supermercado, não é isso o que nos interessa, a sociedade capitalista se encarrega de desenvolver isso.

Nós temos que aproveitar essa inclusão para fazer com que a tecnologia seja um cavalo de Tróia, que penetre as muralhas antes indevassadas dessa cidadela do acúmulo do poder e da riqueza que deixa um montão de gente aqui fora. Para isso não basta entrar com o cavalo de Tróia, é necessário que no seu bojo haja guerreiros que tenham um projeto e saibam o que fazer para tomar o poder dentro dessa cidadela, porque na verdade é disso que se trata.

A questão da tecnologia acaba excluindo muita gente, não só os miseráveis, mas também as classe C, D e E. Também há excluídos entre os produtores culturais que ainda, em alguns casos, não se aperceberam que têm pequenas resistências à tecnologia. Com isso, há muita produção cultural que não vai para a internet. Eu assino duas TVs a cabo em casa, antes achava que uma era ruim e agora percebi que duas é o dobro de ruim. Você fica zapeando os canais e só tem porcaria. Aí eu vou para a TV aberta e encontro mais porcaria. A conclusão é que falta conteúdo e eu acredito que também falte produção de qualidade porque houve uma posição omissa ou reacionária de achar que a televisão não era um espaço a ser ocupado e o que aconteceu é que esse espaço foi ocupado pelo Sílvio Santos, Roberto Marinho etc. Temos aí honrosas exceções de boa produção cultural, mas são exceção.

Corremos o mesmo risco disso acontecer com a internet, que é um espaço libertário. Só que a homepage feita por um desconhecido vai ser visitada por 15 pessoas e outra que tenha o patrocínio de uma grande multinacional, seja uma grande operação comercial, é visitada por todo mundo. A maior parte dos usuários, inclusive, carrega automaticamente, homepages de portais não só para os quais pagam como ainda viram propagadores a aumentar uma enorme quantidade de hits.

É necessário, então, que a gente faça a inclusão digital de produtores culturais para que a gente comece a colocar a nossa literatura, a nossa arte, o nosso cinema, a nossa poesia, o nosso folclore e a nossa produção cultural como um todo na internet também. Precisamos ter um projeto nacional e popular de ocupação da internet também enquanto nação, se a gente não ocupar um pedaço neste espaço virtual, alguém irá ocupá-lo. Assim como é importante o Brasil ter um pedacinho lá na Antártida. Nós precisamos ter um espaço no cenário mundial e na internet principalmente, para que qualquer brasileiro, esteja ele no Piauí, em Xiririca da Serra ou morando fora do país tenha um conteúdo no nosso idioma.

Tenho um grande amigo, Fábio Lucas, ex-presidente da União Brasileira dos Escritores, que até agora não conseguimos convencer a ligar um computador que alguém lhe deu de presente. Ele usa o equipamento como um porta-papéis bem sofisticado. Esse meu amigo poderia estar ajudando a diminuir os 90% de mediocridade no conteúdo da internet e colaborando para aumentar os 10% restantes de qualidade.

Nessa formação de corredores virtuais a gente está criando uma rede e como toda rede tem que servir para colher alguma coisa. A rede do pescador tem que ser suficientemente vazada para não colher água e trazer peixe graúdo que não fuja por ela. A rede virtual também tem que ser feita para nós colhermos, para nos trazer o peixe do conhecimento.

Na nova geografia temos um fenômeno novo, o deslocamento da informação e não mais do corpo. Toda vez que a gente puder substituir o deslocamento do corpo pelo da informação, teremos um ganho de qualidade.

Não estou dizendo que a gente vá passar a ficar em casa cada vez mais sedentário com as nádegas e cérebro enormes, o que seria uma visão terrível de futuro. Na realidade, a gente percebe que quando a pessoa entra nessas salas de chat, em sua imensa maioria, vai logo para o contato humano, namorar, paquerar etc. O que rola daí? Casamentos reais de carne e osso porque o ser humano está procurando contato, nunca ninguém substituiu visitar a namorada por ficar telefonando para ela. A internet não vem também substituir nada que seja melhor fazer em carne e osso e isso inclui o prazer e uma série de outras coisas.

Ninguém deixa de visitar a Bahia porque viu um folheto de uma praia de lá, pelo contrário, isso lhe dá mais vontade de ir. Quando estou falando em não deslocar mais o corpo é naquele deslocamento inútil, por exemplo, eu me deslocar até a bilheteria de um teatro para saber se tem ingresso ou não. Para assistir à peça, entretanto, eu quero ver os atores a dez metros de mim. Está na moda agora a gente estar se preparando para o governo eletrônico, a gente paga imposto de renda pela internet e fica muito feliz com isso. Já que tem que pagar mesmo, que seja um processo mais rápido e fácil.

Nós temos que começar também a colocar a produção cultural na internet, não significa transformá-la só em virtual. Vamos continuar assistindo os tocadores de música do nosso folclore no Parque da Água Branca, mas para saber o que está ocorrendo a gente tem que colocar isso na internet, porque senão a gente vai estar perdendo o espaço que vai ser usado para propaganda da TV a cabo ou do banco tal.

Eu sempre procuro colocar isso na cabeça das pessoas pouco afeitas à tecnologia, meus amigos pintores, escritores, cineastas etc. que é importante que a gente passe a ser autor e protagonista para tomar conta da internet.

Se você faz literatura e resolver aprender a fazer html, uma homepage, para aprender com seu filho, você vai estar colocando a sua cara, aprendendo a produzir algo novo, inclusive descobrindo um modo novo de linguagem, porque a imensa maioria do que a gente vê na internet é muito ruim do ponto de vista da concepção visual e estética, assim como a qualidade de texto, dado o pouco engajamento dos produtores culturais na produção dessa mídia.

Sempre levanto que a questão não é tecnológica, aprender a mexer no computador é a coisa mais fácil do mundo, aliás, eu acho que as pessoas só poderiam começar a mexer com informática se já tiverem algum conteúdo, ciência, arte, educação, biologia, qualquer coisa que seja no cérebro. Ao ter contato com a informática isso estraga os neurônios, a gente vê esses jovenzinhos que sabem mexer com hardware, software mas não pegam num livro, que na verdade não sabem produzir nada porque tecnologia não é o artefato tecnológico. Se fosse, a Arábia Saudita seria o principal país do mundo em termos de tecnologia. Quando o reizinho ou vice-rei de lá precisa comprar um forno de microondas, ele adquire o último tipo, o mais moderno dvd, mas se quebrar alguma coisa nos seus brinquedinhos, ele não tem tecnologia para consertar nada. Ao contrário disso, Robson Crusoé, do romance de Daniel Deffoe, que a maioria aqui deve ter lido, é o sujeito que naufragou numa ilha deserta e só mais tarde foi ter aquele caso suspeito com o Sexta-Feira. O cara recriou tudo o que a civilização de sua época tinha com suas mãos e o cérebro, captava o movimento do rio para fazer uma moinho e moer a farinha. Bom, é isso aí, por enquanto, muito obrigado.

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O novo mundo da realidade virtual

16/05/1994

MAIO 1994

Artigo escrito para a revista “Superinteressante” nº 80, edição de maio de 1994.

O avanço da informática criou novos universos, que permitem a qualquer pessoa a sensação de viajar ou praticar esportes dentro do computador.

Em seu livro “Terra Insólita”, Clifford Simak imaginava, há quarenta anos, comunicações por holografia interativa, computadores caseiros com interface vocal e uma série de outras idéias que, naquele tempo, pareciam mais fantasia do que previsão científica ou possibilidade tecnológica. O personagem central do livro comunica-se com sua casa solicitando ao computador que coloque na sala a paisagem que deseja ver na parede e a música que gosta de ouvir, ao mesmo tempo que a cozinha indaga suas preferências para o jantar.

Logo depois, joga xadrez com um amigo que está em outro planeta, mas os dois se vêem como se estivessem frente a frente. Ainda não dispomos de tecnologia para realizar o que a pena de Simak escreveu, mas sabemos que falta muito pouco tempo para que isso se torne verdade.

Já foi desenvolvido, nos Estados Unidos, um sistema de interação com a tela do micro que permite a rolagem das linhas do texto por meio do movimento dos olhos. Pode-se também trabalhar com programas gráficos onde o usuário controla um “lápis” na tela do micro deslocando-o com os olhos: levanta-o e o apóia no “papel” com uma piscada. Uma minúscula câmera de vídeo, embutida sob o monitor, capta os movimentos da pupila e passa a informação para o programa que gerência as coordenadas da tela.

A expressão “falar com os seus botões” pode adquirir um significado inusitado, com o aperfeiçoamento das interfaces de voz. Em um minuto, uma pessoa fala 200 palavras, mas não consegue digitar mais do que sessenta. O uso do computador na escuridão total torna-se possível. Com o comando de voz, as mãos ficam livres para outras tarefas, tornando possível, por exemplo, escrever enquanto se dirige um carro.

Mas é na simulação da vivência em ambientes tridimensionais, como se o usuário estivesse presente neles, que se concretiza o conceito de realidade virtual. Ainda no terreno de experiências, já existem e funcionam diversas interfaces em 3D na NASA, em laboratórios da Nintendo e na indústria de produtos para desenho industrial.

A Nintendo criou a sua PowerGlove, uma luva que controla os movimentos na tela, através de sensores que captam todos os gestos da mão. A SimGraphics Engineering produz o FlyingMouse, um mouse que detecta qualquer posição onde esteja, e não apenas sobre um tapetinho bidimensional. A NASA, com o projeto VIEW (Virtual Interface Environment Workstation – estação de trabalho em ambiente de interface virtual), desenvolveu um visor que, colocado sobre o rosto, permite visão estereoscópica, com suas imagens controladas pela voz do usuário e por luvas e sensores que registram os movimentos da cabeça, dos olhos, pernas e mãos.

Embora tais sistemas já existam, seu custo ainda não torna viável pensar em substituir teclado e mouse a curto prazo, mas já estão mudando significativamente a vida de pessoas tetraplégicas ou portadoras de paralisia cerebral.

Esse parece ser o grande salto de qualidade das novas tecnologias rumo à realidade virtual: enquanto para a maioria das pessoas podem não passar de maior comodidade ou diversão, para os deficientes físicos elas trarão uma nova interação com o mundo – não apenas permitindo o controle das luzes de seu próprio quarto, por exemplo, mas simulando atividades para eles impossíveis, como participar de uma corrida de velocidade, nadar ou jogar tênis. Aprender sobre o hardware de um computador vendo seus componentes e sua “vida” interna, como no filme Tron, estudar a arquitetura de um edifício passeando dentro dele, viajar a outros países ou épocas sem sair do lugar, planejar uma cirurgia antes de sua realização são algumas das possibilidades que podem ajudar a transformar a educação, a técnica e a ciência – além das atrações no campo do lazer e da diversão.

Senac na era da informática educacional

01/06/1988

JUNHO 1988

Entrevista dada à “Acesso”, Revista de Educação e Informática da FDE – Fundação para o Desenvolvimento da Educação, organismo da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo, – Ano I – Julho/Dezembro 1988.

A entrevista foi feita por Maria José do A. Ferreira e Marta Marques Costa, com edição de Fábio Barbosa Jr. Participaram da mesma, Sonia Zaitune, Fernando Moraes Fonseca Jr. e Evanisa Arone, membros da equipe do Programa Informática e Educação do Senac SP.

Saúde, uma experiência que está dando certo

Acesso esteve no SENAC-Saúde da avenida Tiradentes, em São Paulo, para conhecer a experiência no campo da Informática Educacional que vem sendo desenvolvida nesta unidade. Trata-se de uma experiência de ensino assistido por computador iniciada em 1986 pelo Programa de Informática e Educação, vinculado à Gerência de Formação Profissional do Departamento Regional de São Paulo do SENAC. Na área de Saúde, o Programa Informática e Educação priorizou a Enfermagem, iniciando a informatização dos cursos de formação de técnico e assistente de Enfermagem.

Neste número, estamos publicando entrevista com Carlos Seabra, coordenador do Programa, onde ele relata e analisa a experiência desde a sua origem até o momento atual, falando sobre a filosofia educacional que a orienta e sobre as perspectivas de sua continuidade.

Programa Informática e Educação em 1988. Da esquerda para a direita, Carlos Seabra, Marta Marques Costa, Sonia Zaitune, Fernando Moraes Fonseca Jr., Evanisa Arone e Maria José Ferreira.

Da esquerda para a direita: Carlos Seabra, Marta Marques Costa, Sonia Zaitune, Fernando Moraes Fonseca Jr., Evanisa Arone e Maria José Ferreira.

AcessoO que é Programa Informática e Educação?
Seabra – O Programa Informática e Educação visa utilizar o computador e a Informática como recursos instrucionais e surgiu da necessidade, percebida pelo SENAC, de se utilizar esse recurso em algumas áreas onde os recursos tradicionais não são tão efetivos como o do uso do computador. O uso do computador, por obrigar a uma metodização, a uma planificação, a uma classificação de conhecimentos, produz uma série de resultados que interferem no processo ensino-aprendizagem, acessórios, periféricos ao próprio fenômeno da informatização, mas que talvez sejam, inclusive, os mais importantes. Nós tínhamos, inicialmente, um programa chamado “Educação para o Futuro”, onde trabalhávamos com alunos do 1° Grau e com professores da rede pública, mexendo com a questão da Informática. Queríamos fazer um mapeamento das potencialidades e possibilidades do uso da Informática na Educação. Depois de uns dois anos de trabalho com esse tipo de público, formou-se uma equipe dentro da instituição, criou-se um certo know-how e percebemos que era um desvio de esforços estar investindo nessa área de educação formal de 1° Grau, que não é uma área do SENAC, e, sim, da Secretaria da Educação. Nós não estávamos atendendo necessidades imediatas nossas, como a formação profissional. Foi constituído, então, esse novo Programa, chamado Informática e Educação. Basicamente, foi essa a origem do Programa, que conta, hoje, com dois anos e meio de existência.

AcessoComo foi constituído o grupo de trabalho encarregado do Programa?

Seabra – Inicialmente, a equipe era de apenas duas pessoas: eu e a Sônia. Ela é psicóloga e eu sou editor. Venho da área de Comunicação Editorial e a Sônia da área de Psicologia e Educação Infantil. Aí, nós nos encontramos na Informática. Atualmente, a equipe tem cinco pessoas fixas – a equipe central – mais um supervisor pedagógico. Essa equipe é constituída por dois psicólogos, um filósofo e matemático, um físico e eu, da área editorial: ou seja, ninguém tem uma formação específica de Informática, embora vários de nós já tivéssemos tido contato com a área. Temos também uma série de colaboradores externos, que são programadores: alguns que só mexem com linguagem de máquina, outros da área gráfica, produzindo desenhos e ilustrações para os softwares etc. Além disso, temos consultores específicos para as áreas de conteúdo e trabalhamos com equipes de docentes para informatização e estudo específico de cada disciplina. Por exemplo, colaboram conosco três enfermeiras da disciplina de Microbiologia. Basicamente, portanto, há uma equipe central e uma série de trabalhadores externos ou equipes acessórias internas, para cada trabalho.

AcessoPor que foi escolhida, para inicio dos trabalhos do Programa, a área de Saúde?

Seabra – Vários motivos nos levaram a isso, desde os menos relevantes, como ter um belíssimo prédio especializado só para a área de Saúde, com disponibilidade de espaço e, portanto, possibilidade concreta de investir em laboratórios amplos, colocar equipamentos etc., até os principais, referentes a características da própria área de Saúde, em que, muitas vezes, os alunos têm uma baixa formação escolar. Aí você tem, por exemplo, pessoas na faixa de trinta anos, nossos alunos, que são assistentes de enfermagem, que já têm prática, já trabalham em hospitais, mas que fizeram o primário há vinte, quinze anos atrás. Além de terem estudado já há bastante tempo, a formação que tiveram foi bastante deficiente. E Saúde envolve uma série de conteúdos cognitivos, uma massa de informações muito grande, uma necessidade de o aluno não apenas “ser treinado”, de executar uma série de operações, mas de entender o que está fazendo. Então, por exemplo, ao assistente de enfermagem, que, teoricamente, se limitaria, na sua prática, a ver se o lençol do paciente está limpo e a observar uma série de cuidados básicos de higiene, nós ensinamos os princípios mínimos de doenças transmissíveis: a Microbiologia, como é que são os processos de imunização natural do corpo etc. Queremos que ele entenda o que está fazendo, que perceba a importância de lavar as mãos, de esterilizar um instrumento, da dosagem correta de medicamentos etc. O curso de Assistente de Enfermagem tem, praticamente, mil e quinhentas horas de carga horária, com uma série de conteúdos cognitivos extremamente díspares, multo ricos e bastante avançados. Colocava-se, então, um desafio. Uma área que não apresenta problemas tão cruciais como esses conteúdos, não seria prioritária para informatizar, Há necessidade de se investir mais, em termos de qualidade de ensino, onde se apresentam problemas maiores. Outro fator que consideramos é que os professores e o corpo técnico, na área de Saúde, têm uma formação superior à do pessoal de várias outras áreas. Todos os nossos professores são enfermeiras, com nível de formação bastante bom, o que dá uma cena homogeneidade a essa equipe, e facilita a constituição de grupos para iniciar esse trabalho de informatização. Como estamos ainda adquirindo experiência, refletindo em cima disso, tentanto ver o que é exatamente a Informática na Educação, que problemas ela traz quando se leva um trabalho à prática, então precisávamos fazer isso numa área em que os recursos humanos estivessem melhor preparados. E a Saúde é ótima também por causa disso, porque, se com os alunos você têm o problema do nível extremamente heterogéneo e da baixa formação, com os professores sucede exatamente o contrário. Tínhamos, então, o ambiente ideal e adequado para o início dessa experiência. Por outro lado, dentro da área de Saúde, onde o SENAC oferece vários cursos – ótica, pedicure, atendente de farmácia, protético e outros –, escolhemos Enfermagem, porque teríamos de iniciar por algum ponto. Enfermagem.é o curso que tem a maior carga de conteúdos cognitivos, mais do que qualquer outro, e onde os alunos interagem, no dia-a-dia, com uma série de problemas muito candentes, até mesmo tratar de um paciente terminal.

AcessoComo se iniciou o trabalho do Programa Informática e Educação?

Seabra – Quando começamos a ver o que já existia de informatização nas outras escolas, constatamos que a primeira providência que as escolas tomam é comprar o equipamento, no qual investem alguma grana, e do qual se utilizam para fazer todo um merchandising em cima, com mais ou menos seriedade, evidentemente. Depois de algum tempo percebem que não têm software, aí partem para pirataria generalizada ou então decidem comprar alguma coisa no mercado. Isto também é muito difícil, porque mesmo que a instituição tenha boa intenção de não usar programas pirateados, vai ter muita dificuldade, uma vez que praticamente não existe nada no mercado e o que existe não se adapta ao currículo, á forma de educação desejada etc. As escolas, entretanto, acabam conseguindo alguns softwares e só depois, como última etapa, sentem a necessidade de formação de recursos humanos. Esta é, normalmente, a parte mais descurada, na qual não existem investimentos. Um diretor de escola aprova a compra de um equipamento, e já torce o nariz quando se fala em comprar software; não tem nenhuma visão de que é preciso liberar professores durante murtas e muitas horas para uma discussão aprofundada dos objetivos, de como se pretende implantar a coisa etc., e de que é necessário formar os próprios recursos humanos. Nós resolvemos partir, portanto, do processo inverso, por acharmos que é o que conduziria melhor a experiência. Daí a nossa opção por iniciar o nosso trabalho com um treinamento de Recursos Humanos para formar uma espécie de massa crítica dentro da instituição, constituída por docentes, técnicos e corpo gerencial. Não queríamos que uma meia dúzia de pessoas com mentes iluminadas determinassem o rumo da informatização no SENAC, mas sim, fazer com que todo o mundo envolvido no processo educacional participasse da discussão da definição de seus objetivos e metodologia. Nossa preocupação principal é com a formação de Recursos Humanos. Eles passam por um treinamento que envolve aprender o que é Informática, analisar uma série de softwares, e desenvolver o espírito crítico em relação a esses softwares. Em relação a esta postura crítica, aliás, achamos que, muitas vezes, é mais fácil trabalhar com o professor que tem críticas do que com aquele que começa deslumbrado quanto aos novos recursos educacionais, que tende a ser menos crítico. Procuramos, entretanto, lidar com esses dois extremos, nesse trabalho de treinamento, levar todo o mundo a uma visão realista e critica da questão do uso da Informática na Educação. Nosso objetivo inicial é, portanto, ter o conjunto do corpo docente, técnico e gerencial sabendo das possibilidades da Informática, das suas falhas, do seu custo, para que possamos decidir o que vale a pena informatizar ou não. Depois, há a constituição de grupos que vão trabalhar, aí sim, na informatização de disciplinas. Não partimos tampouco do princípio de que é necessário desenvolver software. Procuramos primeiro ver o que existe, no mercado, adequado a cada disciplina. No caso de Saúde, não encontramos nada. Havia algumas coisas, mas que não se adequavam ao nosso modo de ensino, aos nossos objetivos. O que é previamente traçado por nós são os objetivos; os softwares são conseqüência desses objetivos. Isso nos levou à necessidade de desenvolver software próprio, caminho que estamos trilhando.

AcessoQual é a clientela atendida pelo Programa Informática e Educação?

Seabra – Nossa meta é trabalhar com todos os professores e todos os técnicos da área de Saúde e depois com os de outras áreas. Já participaram dos treinamentos todo o pessoal da área de Enfermagem – estão faltando apenas duas ou três enfermeiras, que por problemas particulares não participaram até o momento – e três técnicos da área de ótica. Nos próximos treinamentos, está prevista a participação de mais gente da área de ótica e de pessoal de Prótese Dentária e de Pedicuros e Calistas. Está em estudos a participação da área de Farmácia, que, até o momento, não pôde ocorrer. A meta é que todo o mundo participe. Paralelamente, também têm passado pelo treinamento os técnicos da Gerência de Formação Profissional que mexem com produção de recursos audiovisuais e produção de apostilas e outros materiais escritos, de modo que haja uma integração. A nossa idéia ao informatizar uma disciplina – e informatizar nesse sentido não é a palavra mais apropriada – é refazer todo o material, todas as apostilas, o conteúdo curricular… Desse modo, precisamos ter um material integrado, ou seja, o software não funciona sozinho, ele deve funcionar integradamente com a apostila, com o conteúdo dado em aula, com o vídeo apresentado, com o estágio pelo qual os alunos vão passar. Então, a meta de todos que trabalham no SENAC com produção de recursos instrucionais é participar do treinamento, inclusive com vistas à expansão posterior para outras áreas. Outras pessoas também têm participado do treinamento, pois sempre oferecemos uma ou duas vagas a elementos de fora: pessoal da Secretaria da Educação, do Colégio Carlos Campos, da USP, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e também do SENAC Nacional e de Unidades do SENAC de outros Estados. Esta participação visa a possibilitar futuros trabalhos conjuntos com outras instituições, desenvolvimento de software conjunto e experimentações. Vários dos softwares desenvolvidos por nós até o momento já estão sendo usados em outras instituições, e estamos analisando o retorno disso.

AcessoComo vem-se dando a informatização do ensino na área de Enfermagem?

Seabra – Não estamos informatizando o curso. Resolvemos informatizar disciplina por disciplina, inclusive porque praticamente as mesmas disciplinas ocorrem no curso de Assistente e no de Técnico, embora com profundidade diferente. A primeira que decidimos abordar foi Microbiologia, para dividir. Quando você tem um grande problema, você o divide em pequenas partes, assim como uma batata, ninguém gosta de engolir uma batata inteira; agora, se a batata é frita, cortada em pedacinhos, você come um quilo de batatas tranqüilamente. Então dividimos o problema por disciplinas, para facilitar esse processo de informatização e propiciar um aprofundamento maior no conteúdo, senão a gente se limitaria a ficar produzindo pequenos softwares aqui e ali, e não atacaria o problema definido. Selecionamos Microbiologia por ser uma das disciplinas que davam os maiores problemas aqui dentro. Os docentes, embora tenham boa formação, não são biólogos, então, fica muito difícil você ter clareza sobre quais são os conceitos que devem ser passados ao aluno, o que ele deve aprender sobre a bactéria, o que ele deve aprender sobre uma série de mecanismos de reação natural do corpo etc. Por parte dos alunos, também era a disciplina mais assustadora. Embora uma série de outras disciplinas tenham muita carga teórica, envolvem, por outro lado, uma manipulação prática do cotidiano hospitalar muito mais fácil. Microbiologia era, então, a disciplina que apresentava o maior número de problemas e resolvemos começar por ela para encarar o desafio de frente, porque, se trabalharmos logo a disciplina que apresenta o maior número de problemas, ganharemos uma cancha e uma experiência muito maiores, além de uma metodologia de trabalho para depois atacar outras disciplinas. Microbiologia tinha uma carga horária de trinta horas e também este foi um fator determinante, ser uma disciplina com uma carga horária pequena.

AcessoComo vem sendo desenvolvido o trabalho com os professores e como se dá o seu envolvimento no Programa?

Seabra – 0 trabalho com os professores vem sendo desenvolvido, basicamente, através de treinamentos. Os treinamentos são para dez pessoas de cada vez e até o momento já temos trinta treinadas. Vamos ter mais um treinamento de dez, e ficaremos com quarenta. Em relação ao envolvimento, chegamos para as pessoas e dizemos: “Olha, você teria disponibilidade de participar do treinamento? Você seria substituído em sala de aula… topas?” Quer dizer, há um mínimo de interação com o professor, e o objetivo final é que todos acabem participando. O primeiro grupo acabou também tendo uma influência sobre os demais professores e não percebemos aquele medo que o professor teria, de ser substituído pelo computador. Talvez isso seja um fenômeno existente mais ao nível de escola pública, pois aqui isso não ocorreu, ao contrário, até pintou um certo modismo, todo mundo dizia: “Ah, mas eu não participei do treinamento”, “Ah, eu não estou encaixado no segundo!”. Já estão contando com isso. O que há é uma postura crítica de reserva (principalmente levantada no início), se o computador não desumanizaria, não mecanizaria demasiadamente o processo ensino-aprendizagem, com aquela visão de que o aluno seria submetido a uma série de conteúdos que iriam passando ali na tela. Há alguns soffwares, inclusive, que fazem isso. Procuramos ter uma postura crítica em relação a este fato, porque se é para ter uma série de elementos passivamente dispostos na tela, é muito melhor utilizar o livro. Então, a visão a que se chegou é a do computador como um ambiente onde o aluno está em contato consigo próprio, onde pode testar hipóteses, interagir com esse ambiente e ver concretizadas algumas facetas do seu pensamento formal. No treinamento, os professores passam pela experiência de manusear e trabalhar com algumas dezenas de softwares educacionais. A equipe de coordenação fica levantando algumas discussões sobre a qualidade desses softwares e sobre a adequação deles ou não para determinados instantes; por exemplo, “O software tem tais características, será que é desejável que possua ou não? Vamos observar esse aspecto.” Há todo um trabalho nesse sentido, que ocupa pelo menos 1/3 da carga horária. Os treinamentos são intensivos. Os professores são liberados de todas as aulas e participam, durante um mês, única e exclusivamente do treinamento. Eles têm que apresentar um trabalho final, programado e planejado por eles, um programa rodando, e isso é uma coisa importante porque consubstancia todo o conjunto do treinamento. Uma outra coisa, que representa também quase 1/3 da carga horária, é o planejamento de ensino. Nesta fase, levantam-se questões como “Tal objetivo educacional seria classificado como? Como uma memorização de conceitos ou uma aplicação de conceitos”? Isto é importante porque muitas vezes, em sala de aula, a gente percebe que o professor faz com que os alunos apenas memorizem um determinado concerto e depois apresenta uma prova onde eles têm que aplicar esse conceito, embora, na verdade, o aluno não tenha aprendido uma aplicação. Fazemos então esse esmiuçamento, criamos uma série de exercícios, há toda essa preocupação. Vou dar ainda um exemplo: há um exercício que é feito, onde se reúnem dois ou três grupos para fazer o planejamento de um produto industrial, por exemplo, um novo helicóptero, um produto a laser, que corte não sei o quê, qualquer coisa assim. O grupo define qual é o produto e estuda as características do mercado, o que é desejável, que defeitos aquele produto pode ou não ter, o que é preciso controlar, como é que se controla a qualidade, como é que se faz a distribuição; enfim, é feito todo um planejamento. O resultado é sempre muito bom, mas quando fazemos planejamento educacional, as coisas não são tão concretizadas, tão formalizadas, tão definidas. O planejamento educacional murtas vezes limita-se a um ritual de submissão burocrática, que o professor tem que apresentar num ano e depois vira letra morta. Não é um planejamento efetivo, interligado com a realidade, com mecanismos de acompanhamento para ver se está ocorrendo ou não. A gente procura discutir isso, questionar todo o sistema de acomodamento a que leva o ensino tradicional, onde há quarenta alunos numa classe e o professor já dá aquele conteúdo há carradas de tempo, o que acaba levando a uma série de vícios. É neste sentido que eu falo da semente revolucionária do nosso trabalho. Costumamos dizer para os professores, para a Gerência, para todos, que não viemos trazer soluções, viemos criar problemas. Basicamente, é essa a nossa meta. Nosso papel aqui é o de ficar levantando problemas a toda hora, apontando incongruências, inconsistências, fazendo perguntas, questionando, enfim.

AcessoComo vem sendo feito o trabalho com os alunos?

Seabra – O trabalho com os alunos é feito pelos professores. Claro, quando se trata de experimentação em salas de aula, sempre há algum membro da equipe coordenadora presente para auxiliar o professor nas dúvidas que surgem – até de manuseio do software –, porque se exige um atendimento mais individualizado, nós só trabalhamos com um aluno por micro. Temos um laboratório com vinte computadores e, portanto, são vinte os alunos que são atendidos de cada vez. Uma turma de quarenta alunos, que é o nosso máximo, no caso de Enfermagem, é obrigada a se dividir em duas: vinte vão trabalhar com o computador e os outros vinte ficam fazendo uma atividade paralela. Isto derruba por terra aquele medo de o professor ser substituído pelo computador. Na verdade, ocorre o contrário. Fomos obrigados a arrumar um professor suplementar para ficar com o resto da turma durante esse tempo de laboratório. Depois eles se revezam. Um elemento da equipe coordenadora está sempre presente para, além de dar uma pequena assessoria ao professor no atendimento individual aos alunos, observar o comportamento destes em face do programa, e como é que o professor trata os problemas advindos daí. Obtemos, assim, subsídios para discutir qual é o papel do professor no laboratório, que tipos de conteúdos deveriam ser trabalhados antes da experiência em laboratório etc. Além dessa utilização orientada pelo professor, o laboratório fica aberto dois dias por semana, em determinados horários, perto do horário do almoço e no final da tarde, pegando o começo da noite, para poder atingir as diferentes turmas. O laboratório está aberto para uso individual do aluno e funciona como uma espécie de biblioteca de software. O aluno vai lá, solicita o software a uma pessoa responsável, isso é anotado numa ficha de inscrição para se acompanhar o uso, e ele fica utilizando o equipamento uma, duas, três horas – o tempo que ele tiver disponível – brincando, se aprofundando, fazendo as suas experiências individuais. Este é um tipo de uso que desejamos estimular, porque fomenta a pesquisa, fomenta o gosto pela aprendizagem. Mais importante do que um software transmitir determinado conteúdo específico, é ele propiciar um insight dentro da cabeça do aluno para que este descubra que é capaz de raciocinar e que tem capacidade de prospecção. Isto desperta nele o gosto pela pesquisa científica e pela aprendizagem. A partir daí, ele se vira sozinho e, se quiser saber mais conteúdos, pega o livro, pergunta etc. Consideramos que esse uso individual vai introduzir uma dinâmica muito interessante.

AcessoQue tipo de software vocês estão utilizando?

Seabra – Temos utilizado até o momento dois tipos de programas: o primeiro é constituído por programas experimentais, que foram produzidos independentemente de se ter uma análise profunda de uma disciplina, e que estamos experimentando com alunos, integrando-os ao currículo, embora sejam softwares isolados. Queremos ver que problemas podem ocorrer, começando pelos de ordem administrativa: deslocamento dos alunos até o andar onde está o laboratório, quantos equipamentos tendem a quebrar, qual a assistência técnica necessária para manter o parque de equipamentos em bom estado etc. Além desses, queremos identificar os problemas advindos das dúvidas de manuseio, como é que o professor se comporta etc. O outro tipo são programas integrados e desenvolvidos no conjunto da disciplina e que aí vão fazer parte de toda uma metodologia aplicada para o conjunto da mesma. São basicamente estas as duas vertentes de utilização de software com os alunos.

AcessoQue condições e vantagens são oferecidas aos professores para o envolvimento no Programa?

Seabra – A primeira condição é a informação, a formação. Todos os livros de que a equipe de professores envolvida na informatização de uma disciplina necessita são comprados, sem nenhuma restrição. Os professores vão a livrarias especializadas, escolhem o que é preciso e tudo é comprado. Se são necessários softwares para se olhar, a gente compra softwares, descobre etc. Se é necessário fazer treinamento, organizar uma palestra, contratar um consultor, faz-se isso, Outra condição é o tempo. Achamos necessário dar muito tempo a esses professores, por isso nosso esquema é “todo professor envolvido na informatização de uma disciplina é liberado meio período, durante quatro ou cinco meses, para esse trabalho”. Meio período e não período integral, porque consideramos que ficar em período integral alotado no Programa é muito cansativo e distancia o professor da sala de aula, dos problemas concretos do dia-a-dia. Queremos que, na parte da manhã, ele continue com uma turma de alunos, dando aulas, e, à tarde, entre nesse outro trabalho. Caso haja necessidade de horas extras, eles recebem como tal. Até o momento, esse grupo tem murtas horas alotadas e um trabalho planejado, não necessitando de horas extras. Depois que é encerrado o trabalho de análise da disciplina e se parte para a informatização, produção de apostilas, elaboração do programa, os professores continuam acompanhando o projeto, participando de reuniões com os programadores e com a equipe de coordenação. Nesse momento, eles já voltaram à sua atividade normal e muitas vezes, aí sim, há hora extra. O envolvimento no Programa não propicia, por outro lado, promoções. Não nos interessa fazer dos professores que mexem com Informática uma nova elite. Nosso objetivo é que todos mexam com isso, não queremos mistificar e valorizar excessivamente a Informática.

AcessoComo a experiência continuará, daqui para a frente?

Seabra – Vamos continuar no SENAC/Saúde, que é uma unidade especializada. A experiência com os alunos ainda é pequena. Nós só colocamos os alunos na jogada quando já existe algo bem-feito para apresentar a eles, segurança por parte dos professores e objetivos definidos. Não queremos complicar o andamento normal dos cursos, fazendo experiências mal-sucedidas, que, inclusive, politicamente, dentro da instituição, poderiam ter um resultado negativo para o andamento do projeto. E nós não estamos usando o computador como uma ferramenta de trabalho, ainda. Este é um outro projeto separado, que também vai ocorrer. No momento, buscamos aprofundar a qualidade de ensino daquilo com o que eles já mexem normalmente. Com relação à ampliação da experiência, nossa idéia é repassá-la paulatinamente para outras unidades do SENAC, tendo uma metodologia, produtos prontos etc. Nossa meta é, em 89, estar com esse projeto implantado em mais uma unidade da Capital e uma unidade do Interior. E, a partir dessa experiência, ver o que acontece em outras realidades, com outros problemas, em termos de alocações de professores, de alunos, de equipamento, de clientela etc. Mas este é um tipo de coisa que temos que experimentar, para, a partir de 1990, começarmos a informatizar a área de Saúde como um todo, aí todas as unidades. Com relação a outras áreas, há várias que estão interessadas. Estamos pensando, dependendo de uma definição da diretoria regional, em partir para a área de línguas, especificamente Inglês. Trata-se de uma unidade com pessoal muito bem-preparado, onde a filosofia de trabalho do SENAC está bem-elaborada, enfim, estão maduros para iniciar essa experiência, o que facilitará o trabalho da equipe coordenadora. Estamos preocupados com isso, porque o trabalho com Saúde vai continuar se desenvolvendo ainda durante muito tempo. Percebemos que são muitas disciplinas e muitas áreas. Então, paralelamente ao início de informatização de uma nova área, estaremos com um enorme acúmulo de trabalho em Saúde. Além disso, percebemos que a área de línguas é uma área relativamente fácil de se informatizar, primeiro porque só usa as letras originais do computador, não sendo necessário redefinir os caracteres acentuados. Faremos softwares de Inglês, tudo vai ser escrito em Inglês. Depois, 80% dos softwares a serem usados já existem no mercado. Há excelentes, desde jogos, até outros mais direcionados para ensino de adjetivos, verbos, conjugações etc. Nessa área, nos dedicaríamos mais à criação de uma metodologia, discussão de uma filosofia de trabalho e eventual desenvolvimento de um outro software.

Acesso Como as atividades do Programa têm sido vistas no SENACISP pela direção e demais setores da instituição?

Seabra – Com relação a este lado institucional, quero dizer o seguinte: a maior dificuldade que temos observado nas demais instituições de Educação, que estão mexendo com Informática é um divórcio entre todas as partes envolvidas. A administração se coloca separada do processo educacional, e ela é colocada de fora pelo processo educacional. Ocorre, então, um processo mútuo de exclusão. Isto não se verifica no SENAC. A própria Diretoria Regional tem demonstrado preocupação em conhecer detalhes do projeto, do ponto de vista educacional. A questão mais burocrática, administrativa, entra como uma preocupação que tem que ser equacionada, mas que não é determinante. O avanço que o projeto tem tido é um reflexo, então, do conjunto da entidade, e da filosofia de trabalho da instituição como um todo. Temos tido surpresas gratas. Quando, por exemplo, apresentamos, logo no início do projeto, para constituição do primeiro laboratório, a hipótese de se fazer um laboratório com apenas cinco equipamentos, mencionamos que talvez fosse ideal começarmos com dez. A Diretoria Regional logo disse: “Então vamos começar já com dez”. E, alguns meses depois, quando se falou que com dez equipamentos (amos ter que dividir a turma em três ou quatro grupos, logo veio a aprovação: “Então vamos ter um laboratório de vinte”. E se for preciso mais e se mais for julgado necessário, mais equipamentos teremos. Pudemos adquirir todo o equipamento necessário para a montagem dos laboratórios, e temos a possibilidade de participar de todos os congressos, encontros, seminários e palestras que julgarmos importantes e de comprar material, livros, revistas, softwares etc.

Acesso Que dificuldades vocês têm encontrado?

Seabra – A maior dificuldade que temos é com a nossa própria ignorância em relação a uma série de fatores. Estamos toda hora procurando colocar em relevo todas as nossas ignorâncias, todas as nossas dúvidas. Realmente, nessa experiência revolucionária, ainda faltam definições e clarezas sobre uma série de mecanismos. Ainda não equacionamos multo a coisa: tem ocorrido um fenômeno de multiplicação de questionamentos que está gerando um processo muito rico de formação para todo o mundo. Temos desde os professores de Saúde aprendendo Informática, até os programadores lendo sobre Saúde. A nossa maior dificuldade é equacionar isso tudo, mas esta é uma dificuldade inerente ao trabalho. Com relação às coisas mais comezinhas, quebra um equipamento ou outro mas temos um contrato com um técnico, que faz a manutenção, quer dizer, se dá algum problema, nós resolvemos. Probleminhas desse tipo ocorrem a toda hora, mas são facilmente sanáveis.

Acesso Como a equipe do Programa avalia a experiência?

Seabra – Esta é a parte mais verde. E ela é de ordem terciária. Não pela importância, claro, mas pela sucessão de fatos na construção desse Programa. Estamos ainda numa fase de experimentação, com poucas turmas; até o momento trabalhamos aproximadamente com 600 alunos e 100 professores, incluindo professores de outras instituições. Estamos agora tentando ter uma avaliação mais imediata dos problemas de relacionamento do aluno com a máquina, com o software, sobre o tipo de conhecimento que deve ser transmitido antes pelos professores, sobre qual o papel do professor em sala de aula, de forma a facilitar uma implantação mais efetiva do Programa, num segundo momento. Gostaria de dizer, também, que temos percebido que a questão da Informática funciona como um cavalo de Tróia, dentro do qual vai uma série de sementes revolucionárias. Nosso objetivo é revolucionar todo o esquema atual de ensino, muito formal, muito consolidado ao longo do tempo, em cima de anos e anos de experiência, cheio de qualidades, mas que acaba levando a uma acomodação, a uma não-discussão, a um não-aprofundamento. Por exemplo, numa apostila, quando você tem um parágrafo falando sobre um micróbio, as pessoas dizem isso está certo, ou está errado, ou está mais ou menos bom” e pronto, fica por aí. A Informática obriga-nos a fazer um trabalho, digamos assim, de engenharia do conhecimento, onde, quando reunimos os professores e os programadores para discutir o que é que eles querem que o programa aborde, chegamos a um alto nível de esmiuçamento do conhecimento e discutimos como é que este conhecimento se interfacia com os outros conhecimentos, como é que está montado numa estrutura etc. Podemos comparar esse processo, digamos, àquela história da sopa de pedra, do mendigo que chega na casa tal e fala: “mas eu queria só fazer uma sopinha de pedra, você me arruma uma agüinha quente?” E a mulher fica curiosa e diz: “Então tudo bem, o senhor entra e faz aqui na cozinha”. “Será que a senhora tem uma pitadinha de sal? Fica muito melhor a comida”. “E agora, que tal uma cenourinha cortada?”. “Agora, se tivesse uma fatiazinha de bacon ia ficar ótimo”. . . No fim, o mendigo tira a pedra, enxuga e guarda no bolso e tomar uma excelente sopa. O processo que nós vivemos é a mesma coisa: se tirarmos o computador, no final desse processo, o salto de qualidade da questão educacional terá sido enorme, certo? Claro que o computador não é a pedra, o exemplo cessa aí, o computador é muito mais do que a pedra, ele dá todo um sabor principal a essa sopa. Ele é uma pièce de résistance dessa sopa, mas, vamos dizer num raciocínio de redução ao absurdo, que se no final desse processo decidíssemos não mais usar o computador, ainda assim o processo teria sido enormemente válido, porque com a desculpa do computador, usando-o como esse cavalo de Tróia, teremos uma ótima sopa: “Olha, nós precisamos de vários professores alocados meio período por dia, durante vários meses”. Aí a dona de casa, digamos, nos dá esses vários professores. “Agora precisamos ter liberdade de redíscutir todo o material instrucional, agora precisamos participar de tais e tais treinamentos, agora precisamos trazer um consultor para uma discussão, agora precisamos de…” No fim, todos esses ingredientes é que fazem a riqueza dessa sopa.

(Acesso – Revista de Educação e Informática – FDE – ISSN 0103.0736 – Ano I – Jul/Dez 1988)

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