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De olho na inclusão

08/12/2008

DEZEMBRO 2008

Entrevista dada a Igor Ribeiro, da Revista Imprensa, em 8 de dezembro de 2008.

Sobre o Projeto de Lei 84/1999

“A PL exige que os servidores guardem por três anos seu conteúdo. É como se exigisse que as operadoras de celular grampeassem por três anos as conversas de todos, como se a discussão que tem sido polêmica sobre grampear alguns, passasse para um debate sobre grampear todo mundo por default e guardasse essas conversas por três anos. Mas isso iria aumentar absurdamente os gastos – e a internet no Brasil já é uma das mais caras do mundo, então tem um fator de natureza econômica e de viabilidade. Obriga, por exemplo, a você que tem uma rede wireless aberta a mantê-la fechada, porque você passa a ser responsável pelo sujeito que esta trafegando ali através do seu sinal. Isso vai contra a filosofia das cidades digitais, por exemplo, de doar sinal aberto. O mesmo pensamento nos levaria a dizer ‘as ruas são um elemento de crime, porque os ladrões usam a rua. Então deveríamos colocar guardas em cada esquina e para pessoa que andar um quarteirão, deveria ter seu RG verificado’. Muitos assaltos usam veículos motorizados, então também, teria que fazer um imenso controle sobre os automóveis que trafegam por aí. Ou seja é uma síndrome do vigilantismo, termo usado pela Carta de Belém [documento oficial da 7ª Oficina para Inclusão Digital]. Então, porque não se faz um controle autoritariamente rigoroso sobre o uso do celular, o uso do automóvel ou o uso das ruas, como se está propondo para a navegação pelas bandas digitais? E a internet já é completamente rastreável, por meio do IP dá para saber pelas máquinas por que passou. A banda aqui já é lerda e cara, isso só iria piorar. Fora a violação de direitos. Eu, por exemplo, sou escritor, e ao comentar sobre uma obra minha, inédita, com outras pessoas pela internet, é capaz que tenha cópia dela não-autorizada em outros lugares. Não estão falando de evitar a pirataria, evitar a cópia ilegal de filmes e músicas? Então isso levaria a uma violação, ao se manter nos servidores conteúdos de natureza sigilosa, seja uma obra artística ou arquivos de empresas, etc., que não tem nada que ser monitorados. É a mesma coisa que todos os telefones serem gravados.

O PL foi aprovada no Senado e, agora, está na Câmara… Mas houve pouca mobilização, muita gente não conhece, você por exemplo não leu. Ela é muito ruim, deveria ser tirada da pauta, mas no mínimo esperamos que se adie a votação para poder discuti-la melhor.”

Altos preços da banda larga

“A queda do preço depende muito da influência do governo. O governo é um grande comprador de serviços e ele tem que usar essa força enquanto um indutor, um formulador de políticas públicas, enquanto um normatizador, estimulando a concorrência. Na maior parte dos lugares não há concorrência. A gente fez uma pesquisa com lan house no interior e a maioria não tem a menor condição. Quando teve o apagão da Speedy, quartéis, hospitais, delegacias e o próprio governo ficou na mão. Porque você não tem alternativas de conectividades, não tem disputa de mercado.

O governo tem que colocar parâmetros na suas próprias compras. O governo do Estado de São Paulo é o maior comprador da Telefônica e talvez não exija o suficiente. Temos falado, por exemplo, em convergência de mídias, e a TV digital vai ter banda sobrando, porque não vai ser usada em conectividade? Você tem empresas que são donas de determinado serviço de cabeamento e não deixam passar o cabo de outra empresa por ali [pelo mesmo condutor]. Então tem que colocar melhores parâmetros, para aumentar a concorrência.

A internet é como estradas, por exemplo. E ao fazer estradas, como o governo atua? Ele estrutura a estrada primeiro e, depois, dá concessões de pedágio e manutenção à iniciativa privada. As infovias tinham que ser a mesma coisa. O Gesac é uma espécie de gambiarra para fornecer provisoriamente sinal em lugares que tem conectividade ruim, mas o governo tem que investir nas infovias, em fibra óptica.

Qualquer estrada deveria ser uma estrada digital também. Porque ao longo dela você poderia passar um cabeamento óptico. É uma solução muito mais barata do que usar rádio, por exemplo. Wireless é complementar, é muito legal como solução para a última milha. Mas você tem que ter auto-estradas. Grandes espinhas dorsais, depois as costelas e daí vem a ossatura menor. Fibra óptica ainda não decolou porque a priori exige um investimento maior. Mas o reflexo disso vem depois, na forma da economia de todo um país, que vai além do cidadão comum. As próprias empresas e organismos governamentais vão ter, em poucos anos, a recuperação econômica de um investimento em banda larga, larga mesmo.”

Variedade de projetos de inclusão

“Essa diversidade de projetos é uma grande riqueza. Seria não só impossível padronizar isso como também indesejável. Mas é necessário um mínimo de articulação, porque do jeito que esta agora é um caos total. Cada um está fazendo uma coisa sem integração, sem troca de informação. Agora que o governo apóia uma ação pública do governo federal interministerial para inclusão digital, com parte dessa integração com atividades estaduais, municipais e de parceria com sociedade civil, agora talvez melhore.

É fundamental uma política de bolsas para monitores. Muitos trabalham voluntariamente e outros recebem quantias muito pequenas dos projetos nos quais participam. Essa política de bolsas será implementada e deverá ter uma verba substancial do total planejado. Isso é fundamental. E é preciso ter uma rede de capacitação. Como se fosse bibliotecas, que precisam de monitores bem capacitados e que se comuniquem entre si. Muitas vezes o monitor de um projeto do Gesac não se comunica com um do Banco do Brasil, com um do governo estadual, não há uma articulação em rede. Ao se criar isso, vai se permitir uma troca espontânea de informações nessa rede, que funcione de uma maneira muito mais inclusiva e não piramidal, como vem sendo feito, que é ruim, impositivo e pouco democrático.

Pontos de cultura não dão acesso à população, mas trabalham outro aspecto importante dessa inclusão que é a digitalização da cultura. Não adianta você botar na internet um monte de gente para acessar conteúdo pela primeira vez na vida e ver um monte de página em inglês. Então os pontos de cultura são outra faceta que diz respeito à inclusão da nossa cultura no mundo digital.

Escola é outro ponto de inclusão digital e, cada vez mais, faz menos sentido pensar em escolas desconectadas. Tinha muito professor na Oficina [de Belém] e isso é ótimo. O governo prevê, aliás, oficinas menores, regionais e temáticas ao longo do ano, para quando ocorrer, no fim do ano, já tenha um acúmulo e um debate articulado antes. Então escolas também têm a ver com inclusão digital do aluno, do professor e das famílias, que também vão freqüentar as escolas.

O governo federal também teve grande participação ao diminuir os insumos de computadores para a população da classe C poder comprar, em muitas prestações, seu primeiro computador.

Celular acho que é fundamental, um computador que esta no bolso de todos brasileiros. O equipamento que mais se disseminou. Se você for ver quando o brasileiro atingiu os primeiros 50 milhões de rádios foi um tempo, os primeiros 50 milhões de TVs foi outro tempo, mas os 50 milhões de celulares foi uma fração desse tempo. Hoje são 140 milhões de celulares. Uma senhora me contou que na cidade dela não tem nenhuma operadora de celular, mas todos os jovens andam com celular no bolso. Eles usam como câmera, máquina de filmar, agenda pessoal de compromissos… Na hora que chegar a operadora lá, já vai ter milhares de pessoas com celular.

Tráfego de informação passa por diversos meios. Assim como quando a gente precisa viajar: pega um ônibus até o aeroporto, embarca num avião até o destino e, chegando lá, toma um táxi até um metrô, etc. Essa complementaridade que tem no destino do tráfego de átomos do nosso corpo, também tende a existir no deslocamento da informação. Não existe um único jeito. A informação vai passar por vários meios e a inclusão digital tem que passar por isso.

Vários telecentros proíbem, por exemplo, o uso de jogos, de MSN, o que é um absurdo. Porque um jogo te dá uma familiaridade. E se a gente está falando em democracia, porque um jovem de classe média que tem um computador excepcional e um jogão pode, e um pobre que tem que ir ao telecentro não pode jogar? Tem que ir numa lan house? Claro, o telecentro não é uma lan house, tem que ter limites, mas tem que ter abertura, porque há jogos que trazem conhecimento e a estratégia lúdica tem que ser usada. Principalmente para educação. Os telecentros tendem a focar muito em curso. Eles são espaços de aprendizagem, mas não são escolas. Não são adequados e não podem ter esse papel.

Temos agora, por exemplo, o dia da consciência negra. Por que não mandar os alunos irem para suas casas ou bairro, localizar um parente distante ou alguém da vizinhança que tenha tido um avô escravo, ou que tenha sido dono de escravos, e entrevistar e gravar o áudio com seu celular, e levar para a escola e em grupos de quatro ou cinco alunos cada um fazer um blog coletivo, em vez de um trabalho [tradicional]? Os professores reclamam tanto que a internet facilita o “copiar” e “colar”. Isso porque eles dão trabalhos burros! Você pode dar um trabalho inteligente: faça um blog contando histórias da sua comunidade em vídeo, em áudio, com foto, colocando onde essas pessoas foram localizadas no Google Maps, você vai ter um aprendizado de inclusão digital muito grande. Vão aprender a publicar, a fazer links, a editar algo multimídia, a colocar uma legenda, enfim… E isso leva o grupo de alunos a discutir. Encontram, por exemplo, 40 links [relacionados ao assunto]: vai por todos? Não, vamos escolher 15 e colocar. Vão colocar duas horas de vídeo? Ninguém vai ter saco de assistir. Então eles vão precisar reduzir, vão ter que tomar decisões. Isso é válido para a escola e para um telecentro. Isso vale para oficinas sobre livros, por exemplo, fazer edições caseiras de contos ou romance, o que é uma forma muito mais produtiva de ensinar a mexer num editor de texto. Fazer um boletim de parede se for caro reproduzir [em papel]. Fazer uma agência de noticias, com as informações da sua comunidade, as pessoas não reclamam que os jornalistas só publicam o que o dono do jornal quer? Então porque não criar um jornalismo comunitário? Em vez de um curso de planilha eletrônica para uma dona de casa, aulas sobre como planejar os gastos domésticos com planilhas do computador para as compras de supermercado.”

Observatório Nacional de Inclusão Digital

“Existem cerca de 800 cadastrados no Brasil. A meta é terminar o ano com cerca de 2 mil conveniados.

A iniciativa privada tem ações muito pequenas nesse sentido. São pontuais. A maioria das empresas, quando fazem, é para ter um case de sucesso, dizer ‘olha como somos bonzinhos, olha, isso aqui a gente apóia…’ São defeitos de comportamento, usando nessa atividade uma lógica da atividade empresarial, mantendo certo sigilo, não fazem uma experiência aberta, não é open source, não compartilha os motivos que levaram ao sucesso e escamoteia o que deu errado. Por um lado não tem escala, e o pouco que poderia trazer em experiências, relatos e trocas, acaba não rolando. O pessoal tem um pensamento muito de marketing e não de investimento público.

Então, mesmo quando tem, essa articulação é pequena, não há uma rede. Os projetos de inclusão do governo estadual não se comunicam com os do federal porque são de partidos diferentes. A mesma coisa com empresas, que não se comunicam por causa da grife, da marca da concorrente.

O que essas empresas discutem ou propõem, por exemplo, para incentivar ou apoiar as lan houses, por exemplo? Não tem linhas de atuação interessantes, não tem política nesse sentido. Acho que o poder publico não tem que investir em lan houses, assim como não tem que investir em livrarias. O estado tem investir em bibliotecas e telecentros. Mas como dá isenção de impostos para livros, tem que ter algo semelhante para computadores. Sei que o Sebrae, agora, está discutindo o lançamento do Sebrae digital e uma das ações será uma política de fomento a lan houses, que é uma atividade de micro e pequenos empresários, muitos na informalidade. Então há sim setores em que o governo atua, mas o resto depende da iniciativa privada, e como as empresas podem ajudar nisso? Talvez até produzindo equipamentos diferenciados para a lanhouse.”

Inclusão digital: algumas promessas e muitos desafios

01/12/2002

DEZEMBRO 2002

Artigo publicado na revista Eixos, da Câmara Brasil Alemanha e Instituto de Fomento Sócio-Cultural Brasil-Alemanha, em dezembro de 2002, edição especial sobre Responsabilidade Social e Cidadania.

A chamada sociedade da informação e do conhecimento traz consigo impactos sociais capazes de levar a uma transformação maior que a produzida pela máquina a vapor. Um mundo baseado cada vez mais na troca de valores simbólicos, do dinheiro à informação, vai mudar o eixo da economia, acabar com o conceito atual de trabalho, valorizar mais que tudo o conhecimento e a aprendizagem. Neste contexto, os excluídos sê-lo-ão ainda mais, se não houverem políticas e ações visando combater o aprofundamento da clivagem social trazida pelas novas tecnologias.

A tecnologia em si não é boa ou ruim, mas amplifica e potencializa a ação humana, tal como um megafone pode fazer o bom cantor alegrar multidões e o desafinado incomodar muito mais gente! Inclusão digital pressupõe uma série de outros objetivos conexos que não os meramente tecnológicos, podendo ser uma ação comparada ao “cavalo de Tróia”, que, após permitir a penetração das muralhas antes indevassáveis da cidade, em seu bojo carregava guerreiros sabedores de qual estratégia implementar.

Segundo Fredric Litto, coordenador científico da Escola do Futuro da USP, “organizações locais devem ser envolvidas e comprometidas com o sucesso do projeto desde o seu início, incluindo responsabilidade para o design, operação e produção de conteúdo; a estratégia apropriada para essa transferência de tecnologia tem de ser voltada para o desenvolvimento local de capacidade e autonomia”.

O Centro de Inclusão Digital e Educação Comunitária, CIDEC, da Escola do Futuro da USP tem entre seus objetivos o acompanhamento, estudo e debate de todas as experiências de inclusão digital no país e no mundo, mas também leva a cabo uma importante tarefa prática, que é a capacitação e gerenciamento de competências dos monitores de cinqüenta infocentros do Programa Acessa São Paulo. As considerações a seguir, na forma de três itens que, longe de esgotar o assunto, levantam algumas preocupações básicas, são embasadas nesta experiência prática e norteadas pelas formulações metodológicas construídas em mais de uma década de experiência da Escola do Futuro com aplicações da tecnologia em ambientes de aprendizagem.

A “maldição” dos cursos

A primeira expectativa de lideranças e usuários em relação aos projetos de inclusão digital é a da realização de cursos. Um lugar que reúne uma dezena de computadores serve para que outra coisa além de realizar cursos? Cursos de quê? Windows, Word, Excel, claro! E para que serviriam tais cursos? Para se obter um certificado, um diploma. Obviamente este destina-se a obter emprego, ou melhoria da condição profissional dentro de um já existente. Este é o grande desafio: combater a “maldição” do formato taylorista e fordista de transmissão de informações, que não assegura a construção do conhecimento e, ao contrário, promete demagogicamente uma capacitação que o formato de tempo disponível e a qualificação dos envolvidos não atende. Claro que um telecentro é um espaço de aprendizagem, mas a mesma dá-se de forma diferenciada do ambiente escolar, da sala de aula. Ocorre na resolução de problemas significativos, com apoio de monitores e com a participação dos demais usuários, numa verdadeira rede local humana de aprendizagem cooperativa, focada nos contextos significativos do uso das aplicações, sejam elas navegar na internet para fazer um boletim eletrônico ou tirar uma segunda via de conta telefônica ou usar um processador de textos para redigir o currículo e enviá-lo por e-mail. Cada uma destas tarefas exige um acompanhamento pedagógico individualizado que não pode ser feito na forma de curso, embora este último atenda as expectativas imediatas de usuários e a distribuição de certificados mostre mais rapidamente um resultado, porém muito mais próximo da demagogia do que da real apropriação do conteúdo.

O ambiente de um centro de inclusão digital

Geralmente um telecentro ou infocentro possui dez computadores e um servidor, conectados em rede e ligados em banda larga à Internet. Aliás, hoje em dia não faz o menor sentido ter computadores sem conexão na rede mundial e experiências até bem intencionadas de reaproveitamento de lixo tecnológico que não levem isso em consideração acabam não promovendo inclusão mas sim funcionando como uma esmola tecnológica, uma sopa dos pobres da era da informática. Mas não basta esse ambiente, que deve ser enriquecido com impressora, webcam, possuir acesso individual a multimídia etc. É fundamental que faça parte desse espaço uma outra sala sem computadores, com cadeiras e mesas, com estantes e publicações, com murais de cortiça, com área para os usuários esperarem e fazerem algo útil conexo às atividades ali desenvolvidas, onde ocorra troca e socialização. Como geralmente o tempo de uso do computador, dada a enorme procura, é cerca de meia-hora para cada usuário, convém que um desempregado que vá fazer seu currículo no micro antes o rascunhe em papel, e nesse espaço fora do laboratório ele pode obter auxílios de quem tem mais experiência. Ou uma senhora que ache receitas de culinária interessantes na Internet e as imprima pode depois compartilhá-las com suas amigas. Links e dicas de sites podem ser afixados nos murais e, acima de tudo, a troca de calor humano, piadas, histórias do dia-a-dia fazem com que a tecnologia seja mais uma ferramenta de troca humana e que seja apropriada como tal. Num ambiente destes ocorre a multiplicação e democratização do acesso à informação mesmo para os que ainda não mexem no computador, ampliando enormemente o alcance da inclusão digital. Se junto com isto houver uma sala de aula em anexo, então nela podem ocorrer alguns dos cursos que criticamos acima, mas que em adequado ambiente podem ser altamente desejáveis.

Inclusão também dos não-excluídos

Sempre que se fala em inclusão digital pensamos nas classes C, D e E. Obviamente este é o foco principal, mas para atingir tal objetivo é importante não esquecer que qualquer ação completa deve ser integradora e potencializar outros segmentos da sociedade, pois a cidadania é alcançada digitalmente quando a rede é tecida incluindo excluídos e não-excluídos. Assim, no centro físico de inclusão, seja um telecentro, infocentro ou outra designação, é desejável que jovens que possuem micro em casa o freqüentem, pois estes poderão ser de inestimável ajuda nas tarefas impossíveis de serem levadas somente pelos monitores, que adultos dominando diversos campos do conhecimento colaborem como voluntários, principalmente se também forem usuários, esporádicos ou não. Outro aspecto da “inclusão dos não-excluídos” é o da geração e captação de conteúdos em língua portuguesa. Segundo dados do Ministério da Ciência e Tecnologia, aproximadamente apenas 2% dos conteúdos da Internet mundial são em língua portuguesa, contra cerca de 5% em língua espanhola. Mais importante que a criação de novos conteúdos deve ser a captação dos já existentes, considerando três eixos: diversidade de conteúdos, convergência de mídias e formação de redes e comunidades. As ações de inclusão digital devem incluir empresas, entidades sociais, intelectuais, estudantes, empresários, políticos, militares, sindicalistas, jovens, pessoas da terceira idade, portadores de deficiências, homens e mulheres, tanto usuários como, principalmente, produtores de conteúdo. Afinal, não basta apenas surfar na Internet: também é preciso aprender a fazer onda!

Em recente pesquisa feita pela Escola do Futuro da USP, em parceria com o instituto de pesquisa Insight, para o programa Acessa São Paulo, sob o tema “necessidades informacionais da população de periferia de São Paulo”, identificamos que 90% (sic) da população pesquisada, das classes C, D e E, já ouviram falar e sabem o que é a Internet, ao passo que 79% nunca usaram um computador (destes, 93% declararam desejar aprender a fazê-lo). Quanto aos conteúdos e serviços considerados mais importantes para possível uso da internet, 81% afirmaram desejar marcar consultas médicas, descobrir endereços de hospitais ou postos de saúde, tirar dúvidas sobre doenças, tratamentos e outras questões de saúde; 79% para procurar emprego, saber de vagas de trabalho, preparar currículo; e 75% para reclamar ou se informar sobre serviços públicos, impostos, luz, asfalto etc.

Num mundo em transformação, onde cada vez mais o computador é o veículo de transporte da mente e um instrumento essencial de trabalho, não podemos preparar as novas gerações para um mundo de subalternidade, tanto do ponto de vista individual quanto na perspectiva da nação. Assim, é necessário frisar que inclusão digital não é apenas ensinar a utilização da tecnologia ou disponibilizar o acesso à rede: é preciso haver um trabalho de identificar as demandas informacionais, como as listadas na pesquisa acima citada. A produção de conteúdos deve ser vista como uma estratégia importante no processo de Inclusão, somando-se aos demais esforços, como formação e capacitação de multiplicadores, criação de redes locais e comunidades virtuais, bem como integração com políticas públicas e ações de responsabilidade social.