Entrevista sobre microcontos à Revista Minguante

AGOSTO 2007

Entrevista concedida à publicação bimestral online Minguante – Revista de Micronarrativas, e publicada em sua edição nº7 (agosto de 2007).

Carlos Seabra, quer pelas quantidade e qualidade dos seus pequenos textos quer pelo uso preferencial dos novos meios para a sua divulgação, pode facilmente ser considerado como um mestre de uma novíssima arte, e foi assim pensando que decidimos entrevistá-lo. As suas respostas só não excederam as nossas expectativas porque estas eram já muito elevadas.

Minguante: De onde vem o seu interesse por um formato breve, quer sejam haicais quer sejam micronarrativas, que tem desenvolvido de igual modo?

Carlos Seabra: Acho que em tempos de comunicação eletrônica, seja na internet ou cartazes na rua, mensagens de texto em celulares ou camisetas, há todo um conjunto de formas de comunicação atuais que permitem e pedem que a microliteratura as utilize.

Para mim, essa entrada na micronarrativa deu-se através da micropoesia, que é o haicai. Para mim isso traz um prazer lúdico muito grande, conseguir criar algo com limites tão minimalistas.

Minguante: Sei que em tempos tentou criar um serviço de microtextos para serviço de celular. Poderia falar sobre isso, quer no que se refere à história dessa tentativa, quer aos propósitos por detrás dela?

Carlos Seabra: Na verdade, tratou-se de uma iniciativa que não foi minha mas sim do Luiz Mendonça, que criou um serviço chamado Celuler. Tinha trovas, quadras, aforismas, haicais, de diversos autores contratados (como Alice Ruiz, Paulo Franchetti, Eliana Mora, Ricardo Silvestrin e outros). As pessoas compravam um “celulivro” – composto por 45 mensagens – e ofereciam a alguém por ocasião festiva ou não, ou mesmo para desfrute próprio, e durante quarenta e cinco dias era enviado um SMS.

Ao conversar com o Luiz Mendonça, que contratou meus haicais, disse-lhe que não teria produção tão grande nem como escrevê-los por encomenda, mas que adoraria escrever microcontos e sentia que poderia fazê-lo em larga escala. Dito e feito, passei a escrever microcontos durante os vôos para reuniões em outras cidades, nos congestionamentos na cidade e até mesmo no banheiro ou em momentos de insônia… e em dois meses tinha escrito mais de trezentos microcontos, procurando fazer uns cômicos, outros eróticos, outros meio surreais, outros maldosos ou cruéis, sempre pensando em um produto que não cansasse os leitor que os receberia diariamente no celular.

Infelizmente, a iniciativa foi inviabilizada financeiramente pela operadora de telefonia móvel que na ocasião detinha a maior parte do mercado brasileiro, o que fez o projeto ser abortado, os leitores ressarcidos do que haviam pago, e os contratos com os autores desfeitos, com enormes prejuízos empresariais para este precursor – ao qual agradeço me ter dado o empurrão em direção à criação de microcontos.

Minguante: Tem publicado em livro mas também tem usado o formato digital. Pode falar-nos de como encara um e outro meio no seu percurso?

Carlos Seabra: Publiquei o livro pelo Massao Ohno, o maior editor de haicais no Brasil e que teve uma importância fundamental na escolha de quais publicar, bem como no incentivo a que o fizesse. Mas se os livros já pouco vendem no Brasil (infelizmente, uma das maiores mazelas desta grande nação!), pelos de poesia então poucos editores se interessam, distribuidores e livreiros menos ainda. Tirando pouquíssimos lugares que têm meu livro à venda (Haicais e Que Tais), vendi a maioria no dia do lançamento e boa parte acaba indo como cortesia a amigos e conhecidos que volta e meia me pedem.

Assim, colocar o que escrevo na web é a melhor forma de ser lido. Aliás, tudo o que escrevi até hoje tem geralmente sido primeiramente publicado na web e somente depois ganha eventuais suportes de papel. No entanto, nunca escrevi um haicai ou um microconto no computador, sempre o faço em pequenos cadernos de bolso ou guardanapos de papel, com lapiseira preferencialmente, mas com caneta se estiver mais à mão. Acho que a publicação digital não canibaliza a publicação em papel, ao contrário, pode até ajudar a promover sua divulgação e venda (desde que haja distribuição, obviamente).

Minguante: Será a micronarrativa um novo género, que para além do mais ganhe ainda mais sentido com a utilização dos meios electrónicos?

Carlos Seabra: Não quero afirmar algo tão peremptoriamente, pois que para que possamos definir a micronarrativa como um gênero há que ter um pouco mais de produção, de distanciamento histórico, críticos engajados em analizar esta produção. É muito fácil escrever pequeníssimos textos e grandessíssimas porcarias. Não digo isto para depreciar a maioria da produção de microcontos (ou nanocontos, ou minicontos, ou haicais), que julgo muito sofríveis, mas também com a visão que é uma excelente porta de entrada para as pessoas se soltarem e começarem a escrever. Inclusive uma interessantíssima possibilidade de trabalhar a criação literária na escola, espaço tão tradicionalmente usado para fazer os alunos odiarem a literatura e terem medo do nosso idioma.

Como você aponta, o uso maciço dos meios eletrônicos faz com que os microtextos ganhem todo o sentido e sejam importantes conteúdos para popular áreas desertificadas de conteúdos culturais das novas tecnologias de informação e comunicação, como os celulares e tantos outros microespaços. No momento, inclusive, eu estou a preparar uma intervenção com haicais e microcontos na Internet 3D, na forma de uma galeria de microtextos dentro do Second Life – aliás, um belíssimo ambiente para este gênero.

Minguante: Diverte-se a escrever, disso ninguém duvidará, mas será para si a escrita de microtextos puro divertimento?

Carlos Seabra: Está bem próximo do puro divertimento, sim. E isso não é um conceito desqualificante, pois na sociedade pós-industrial, o ócio e o lúdico resgatam seu conceito mais profundo, existencialmente falando. Não se trata apenas de um novo epicurismo, mas cada vez mais o lazer, o ócio qualificado, o esporte, a diversão enfim, são até mesmo pujantes produtos econômicos. Finalmente, a cigarra vende seu cantar para as formigas cansadas de só trabalharem.

É nesse sentido que eu encaro o puro divertimento da escrita de microtextos, do qual faz parte um desafio interno para mim mesmo, e me solta para eventualmente vir a produzir textos literários maiores que micronarrativas. Como disse acima, a produção de microcontos começou com um viés econômico, tratava-se de um serviço, de um produto, com resultados a serem palpáveis financeiramente (o que não deixa de ser um outro tipo de divertimento).

Minguante: Depois de cortar e enxugar o texto o que fica é o essencial? Como trabalha os seus textos e o que procura alcançar?

Carlos Seabra: Confesso que não gosto muito de cortar. Quando me pedem textos com, por exemplo, quatro mil toques, acabo escrevendo seis ou sete mil e depois gasto a maior parte do tempo a tentar enxugar o texto até ficar perto da demanda. Com os haicais isso não existe, pois eles já nascem dentro de um padrão bem definido de três versos de cinco, sete e cinco sílabas. No caso dos microcontos, procuro ao máximo já os escrever no tamanho adequado e raríssimamente tive que podar alguma coisa.

Como adotei o formato de 150 caracteres, contando espaços e pontuação, acho que as idéias já nascem quase do tamanho certo. O haicai me deu a experiência de trabalhar estruturalmente com os limites. Sempre procuro ter uma frase que introduza a cena, que construa ou sugira a situação, e outra frase pra terminar, de preferência levando alguma surpresa ao leitor. Claro que nem sempre sigo essa fórmula. Algumas idéias de haicais que não deram certo viraram depois microcontos. Alguns fiz por referência pessoal (morte de um amigo, vivência de uma situação, mero devaneio interno) e podem ter outras leituras. Alguns homenageiam lembranças literárias (escrevi um pensando no Mário-Henrique Leiria, que me contava muitas histórias malucas quando eu era criança), outros são evoluções do próprio texto que nem eu quase tive intenção mas foram se formando.

Procuro alcançar a diversidade, como estrutura lúdica subjacente. Depois de escrever um ou dois mais sensuais ou eróticos, é bom escrever um bem cruel e malvado, depois uns dois meio de crônica do cotidiano, e então meter uma crítica de natureza política ou social, para então produzir alguo bem absurdo, surreal. Pensei isso para dar texturas diferentes para o leitor, mas também me impedem de cansar ou cair na mesmice.

Minguante: Sei que aprecia especialmente o sorteio para apresentação dos microcontos. Por alguma razão especial?

Carlos Seabra: Acho uma forma muito interessante de leitura. Apresentação de pequenos conteúdos de modo aleatório faz sucesso desde que existe o I-Ching e achei que seria um interessante formato. Fiz um site de sorteio de haicais (Caixa de Hai-Kai) no qual várias centenas de haicais de algumas dezenas de autores são apresentadas na tela, sorteando até mesmo a cor das letras, sempre em fundo preto. Aliás, foi a feitura desse website que me levou a escrever haicais, pois no começo eu estava era a estudar uma linguagem de programação (PERL) e precisava sortear coisas. Achei que haicais se adequariam e peguei vários em livros que tinha na minha estante, outros busquei na internet, e de repente achei que poderia até escrever um ou outro e colocar no meio.

O sorteio desconstrói caminhos e pode levar à experimentação e fruição de conteúdos que doutra forma não seriam conhecidos (a tendência de ler-se alguns autores apreciados pode levar a não conhecer o único microconto bom de um escritor que você sempre pule). Isso vale para poesia, micronarrativas, versículos da Bíblia, frases famosas, fotografias…

Minguante: A minificcção, diz-se, desesenvolve-se no limite dos géneros. Os seus haicais não são, de alguma forma, tão minificcção quanto os seus designados microcontos?

Carlos Seabra: Encaro o haicai como algo diferente da ficção, ele tem que ser poético, tem que produzir uma imagem cinematográfica dentro de nossa cabeça, tem que ter algo que não está em nós mas sim na natureza. Claro que eu brinco além disso em meus haicais, por isso inclusive chamei de “que tais” os que não são puramente haicais, mas sim que usam seu formato e algo de seu espirito para pularem o limite do gênero.
Mas você tem razão quanto a boa parte deles (tanto haicais quanto microcontos), que não fosse o fato de estarem num formato (três versos no caso dos haicais) bem que poderiam assumir a outra forma. Meu haicai “no despenhadeiro / a sobra da pedra / cai primeiro” poderia muito bem ter virado um nanoconto… Aliás, muita gente trata indiferenciadamente como microcontos tudo o que é pequeno, mas eu gosto de conceituar como nanocontos os que trabalham com o limite de 50 letras, microcontos os que usam o limite de 150 caracteres, e minicontos os que consideram até 300 palavras ou ainda 600 caracteres.

Minguante: Você conhece bem a lingua portuguesa que se fala em Portugal e no Brasil pela sua condição, julgo que de dupla nacionalidade. Se quisesse falar um pouco sobre isso eu agradecia.

Carlos Seabra: Sim, nasci em Lisboa e moro em São Paulo. Vim para o Brasil com 6 anos e voltei para Portugal com 10. Desde os 14 moro no Brasil, mas sempre tive um pé em cada lado do oceano. Mais da metade dos livros que lia na minha adolescência eram portugueses (desde toda a Argonauta de ficção científica, os policiais da Vampiro, até nossos escritores, Eça de Queirós, Virgílio Ferreira, Manuel da Fonseca, Júlio Diniz etc.) e sempre tive muita facilidade em transitar entre ambas as formas de grafia, tendo inclusive, já adulto, trabalhado na área editorial a copidescar (rever e adaptar) edições da Editora Abril, quadrinhos e novelas, para Portugal.

Escrevo meus haicais e microcontos com a língua que cá se fala pois seria muito estranho não o fazer, e aprecio muito as diferenças do idioma tanto em Portugal e no Brasil, como os enriquecimentos africanos e todos os demais que fizeram e fazem deste nosso idioma o que permitiu Fernando Pessoa dizer que “minha pátria é minha língua”.

Minguante: Ainda que saibamos que daria “pano para mangas” não resisistimos a pedir-lhe que fale um pouco do escritor Mário-Henrique Leiria, primo do seu pai, e que você conheceu pessoalmente.

Carlos Seabra: O Mário-Henrique Leiria era primo do meu pai (também Mário, e ambos se chamavam de “primários”). Desde que eu era miúdo, o Leiria era presença habitual em casa. Formava-se uma roda de amigos que ficavam a falar de artes e a tocar música brasileira. Até hoje tenho muito vivos esses momentos, de me emocionar, ainda criança de uns 5 anos de idade, ele acabado de casar com uma alemã que não me recordo o nome, algo como Fipsy, de quem ele se separou pouco depois. Achava muito engraçado o fato de ele barbear não só a cara mas a cabeça toda também, que o deixava com um ar de tartaruga sem casca. Isto lá por 1960. Meu pai tinha sido também o padrinho de casamento dele, e o Leiria era padrinho do meu irmão Eduardo.

Quando meus pais vieram para o Brasil, um par de anos depois veio o Leiria e ficou a morar lá em casa, num quarto nas traseiras sobre a garagem. Ele já tinha graves problemas de reumatismo e subia com dificuldades as escadas, com a ajuda de uma bengala e soltando cabeludos palavrões a cada degrau. O papagaio do vizinho aprendeu todos eles e retribuía-os, fazendo o Leiria passar a xingá-lo também, e eu e meus irmãos nos avisávamos e íamos todos a correr para assistir o espetáculo. Nessa época, lá pelos anos 1963/64, ele comprou-me um avião de montar, que exigia lixar as delicadas e inúmeras peças, colá-las, pintá-las, tudo seguindo uma detalhada e complicada planta e instruções. Claro que depois de muitos meses o avião mal tinha a estrutura do corpo, pois aquilo era só um pretexto para ele me contar suas aventuras na Guerra Civil Espanhola (muitos anos depois me dei conta, ao calcular datas, que tudo não passou de divertidas histórias, bem das dele, sempre numa fímbria entre o crível e o incrível).

Voltei para Portugal, onde residi e estudei uns 5 anos, participei de aventuras e descobertas arqueológicas com o Gustavo Marques, e das expedições etnológicas do Michel Giacometti, além de inúmeros outros intelectuais e gente engajada, escritores, músicos, pintores. Em 1969 cá estava eu de volta ao Brasil. Logo na primeira semana fui visitar o Leiria, que estava a trabalhar na Editora Samambaia.

Na Avenida Brigadeiro Luís Antônio, já perto do centro de São Paulo, ao chegar lá vejo sair uma troupe de quatro ou cinco pessoas, com o Leiria à frente a imitar um helicóptero (mão na cabeça a girar as pás, boca a fazer o barulho das hélices), seguido de uma moça vestida de revolucionária russa, um exilado argentino logo a seguir a fazer nem sei mais o quê, seguidos pelo dono da editora, o Gil Clemente (com que mais tarde vim a trabalhar intensamente durante muitos anos), que só fazia olhar tudo com um ar aparentemente sério, fumando cigarros um atrás do outro. Eles estavam indo tomar um café numa pausa do trabalho. A editora publicava uma cômica revista de terror com o Zé do Caixão, editava antologias de erotismo (que belos e onânicos orgasmos me propiciaram), que entravam em choque direto com a cada vez mais feroz censura da ditadura militar (que, comparada ao plúmbeo ambiente do salazarismo e da PIDE, para mim era uma terra ainda assim de imensa liberdade), uma enciclopédia histórica (para a qual naquele dia eles produziram umas fotos que faltavam, de revolucionários bolcheviques para um verbete relacionado, embora uns 95% da obra fossem reais, mas eles gostavam de fazer).

Uma obra em especial me encantava (eu ia lá passar algumas horas, fascinado com o que era uma editora, e realmente acho que isso foi uma escola, pois com todo o clima surreal que de vez em quando até afetava o conteúdo, era uma editora mesmo; e talvez tenha feito com que alguns anos depois eu tivesse entrado nessa área profissionalmente), era um conjunto em três volumes, se não me engano, da Helena Sangirardi, uma famosa autora de livros culinários na época. Como ela demorava pra entregar algumas receitas que faltavam pra completar o número de páginas do volume que estava a ser finalizado, o Leiria resolveu ele mesmo produzir umas duas ou três receitas! Uma delas era o “Risoto à Mao-Tsé-Tung”, inocente receita onde ele só inventou o título. Outra descrevia um prato simples que consistia em abrir uma lata de sardinhas, uma lata de ervilhas e colocar uma folha de alface e “pronto, aqui está seu delicioso prato, minha amiga!”.

Se não me engano, foi em 1970 que ele voltou para Portugal, já todo “fodido das pernas” como ele dizia. Mas antes disso fui ainda visitá-lo no Hospital Samaritano, onde ele se recuperava de ter implantado uns metais a substituir parte dos ossos e tinha terríveis dores, que o suprimento de drogas que lhe davam não conseguia aplacar. Mas talvez eu nunca tenha rido tanto na vida, eu rebolava no chão do quarto do hospital, agarrado à minha barriga, que me doía de tanto gargalhar. A cada ataque de dor mais intenso ele usava seu repertório de palavrões, sempre vindo aos conjuntos concatenados deles, como a boa tradição lusitana manda, acrescidos de retoques que eram só dele – tudo isso acompanhado por comentários de humor surrealista e caras com olhos esbugalhados que não permitiam saber se ele estava a sofrar muito ou a se divertir à balda (com certeza os dois). Ele descrevia em detalhes a “guerra dos do segundo andar contra os do primeiro”, todos com almofadas a servirem de armas, no meio da noite. Ou picantes aventuras sexuais com as enfermeiras, onde me parecia que todas tinham enormes peitos mesclados com rígida disciplina germânica.

Foi depois disso que eu vim a ler seus Contos do Gin-Tonic, que ele editou já em Portugal e alguém me mandou. Nunca mais tive contato com ele, mas minha mãe, que estava a morar em Portugal, volta e meia contava notícias dele, que morava com a mãe e a tia, duas velhotas muito velhas mesmo, e que estava a cada dia mais “revolucionário”.

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